sexta-feira, 15 de março de 2013

Açúcar ou adoçante?

A casa tá aqui, no mesmo lugar, você sabe. Ainda sabe o caminho? Sabe, não sabe? A sua vaga na garagem continua reservada, e eu nem sei mais porque, deve ser só a força do hábito, ou o hábito da força, como você costumava dizer. Uma hora ou outra eu sabia que você ia voltar, não pra ficar pra sempre, nada disso, mas só pra ver o estrago, que não é mais estrago faz um tempo, é bom que você saiba. Eu limpei tudo, fica tranquilo. Não tem mais nenhum resquício da bagunça que você fez quando saiu. Catei, um por um, os cacos das fotos que você rasgou, dos porta-retratos jogados ao chão e do meu coração também. Tudo bem, me desculpa, prometi que não iria usar palavras como coração. Então, tá tudo bem arrumadinho, acho que você vai gostar de ver. Talvez você se orgulhe de mim. Pode entrar sem medo, você não vai reconhecer o lugar, mas é o mesmo. O mesmo de um jeito diferente. Igual a mim. Tá me entendendo? Eu sei, eu e aquela minha mania chata de dizer mais do que eu estou realmente dizendo. Mas é assim mesmo: a casa e eu - os mesmos, de maneira incrivelmente diferentes. Eu sei que você entende, também deve ser assim com você, você só ainda não se deu conta. Quando der, me liga, vai ser bom saber que eu despertei em você esse lado meio maluco de entender as coisas que se passam por dentro da gente. Quando chegar na portaria, interfona pra mim, porque o porteiro é outro e esse não sabe nem seu nome nem que era você que eu esperava todos os dias quando descia até aqui, como quem não quer nada, só pra ver se, por um acaso, descuido ou saudade, você apareceria de surpresa pra retomar o seu lugar na garagem. E na minha vida também. É sério, eu fiz papel de uma dessas malucas. Mas não me envergonho, porque fazia parte do que eu acreditava. Eu acreditava que você fosse voltar e era isso o que importava. Por isso a vaga reservada. Por isso a casa reformada. Por isso a porta aberta. Eu acreditei e você veio, não veio? Fui louca, mas e daí? Você está aqui. Não é como eu esperava, mas é como eu, o eu que eu me tornei enquanto arrumava a bagunça que você deixou, agora quero. Entra pra ver, mas não fica. Não mais. Depois que você sair, a sua vaga na garagem não será mais sua. Hoje a gente assina o fim, que ficou engasgado desde aquela noite. Entra pra ver, mas se quiser alguém pra amar, aqui nesse casa não tem mais. Quem sabe na próxima esquina? Tem sempre alguém, não é assim que você dizia? Vem, pode entrar, fica a vontade. Quer café, como nos velhos tempos? Um minuto, vou trazer. Mas vem cá, me diz, você quer açúcar ou adoçante? Já faz tempo e eu não lembro. E eu mudei. E eu nem sei, só sei quem sou.

"Entra pra ver
como você deixou o lugar
E o tempo que levou pra arrumar
aquela gaveta
Entra pra ver
Mas tira o sapato pra entrar
cuidado que eu mudei de lugar
algumas certezas"
(Cícero - Açúcar ou Adoçante)

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