segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sempre tem gente pra chamar de nós.


Ainda hoje, enquanto ando pela casa, descubro partes de você que ainda não mandei embora. Ainda tem nós na lixeira do computador - e naquela pasta escondida. Nós, no restinho do teu suco na geladeira. Nós, na cortina azul que você escolheu. Jogos de amor são mesmo para se jogar, e é isso o que importa. O troféu é sempre um só: um tipo novo - e único - de "nós" circulando por aí. Não é sobre ganhar ou perder o jogo, ganhar ou perder você, é sobre jogar e viver você. É sobre termos sido nós, assim, do nosso jeito desajeitado. Cheios de dúvidas, sonhos, planos que nunca saíram do papel, interrogações respondidas na mesa do café. Nós, com nossa TV sem som, pra termos tempo de sobra pra conversar; com nossa mesa de jantar que sempre cabia mais um; nossa rede particular estendida em nossos sorrisos. Éramos nós. Lunáticos, irônicos, inéditos, incompreendidos. É isso que vale. É isso que sobra: o que fomos nós. Seja lá como for, seremos esse nós. Pode ser que alguém supere, mas nunca vai ser igual.
Nem que seja em tempos verbais passados ou fotos rasgadas na lixeira do teu quarto: em algum lugar existe "nós", assinado com a tua letrinha perfeita e a minha desengonçada, circulando pelos ares em direção ao lugar para onde vão os balões sem dono de todos os nós desfeitos pelo mundo. Éramos nós dois e agora somos nós: eu, você e todo o resto do mundo que vaga pela casa num sábado a noite sem ter um número para discar. Eu, você e todos aqueles que se arriscaram nesse jogo e saíram de lá com essa ligeira sensação de falta, um aperto no peito e uma caixinha de poá recheada de lembranças. Em algum lugar, nem que seja na cabeça daquela sua amiga desmiolada, ainda somos nós. Porque cada história de amor é única e a nossa é só nossa, ponto final. 
Fim de papo, fim de jogo, cada um pro seu lado do campo - da vida. Daqui a pouco começa de novo, essas coisas vivem acontecendo. Agora mesmo tem alguém se apaixonando e alguém tirando seu time de campo. Acontece o tempo todo. Ainda sinto aquele vácuo no peito, latejando com o som do teu sorriso,  que me faz doer quando penso em encontrar alguém, mas vai acabar acontecendo. Dói porque não vai ser você. E ainda não consigo pensar em alguém melhor que. Mas há. Há o mar, não há? Vou mergulhar. Junto com os peixes que você jura que tem. Não pense que te amo, mas também não que te odeio: apenas pense em mim. Sozinho, ainda meio amassado depois de tantos nós desfeitos, do tanto de nós desfeito. Sozinho, enumerando faltas e contabilizando seus últimos sorrisos, perdidos em motivos pra ficar ou ir de uma vez. Sozinho, porque você foi. 
Ainda faz falta o teu sorriso, mas esse é só um clichê que eu esqueci de te dizer. Bonito mesmo, e original como nós dois, seria dizer que ainda faz falta a unha engraçada do teu mindinho esquerdo; abrir minha geladeira e encontrar o suco que odeio, mas que você adora; te ligar todo dia 17 às 21:04 pra comemorar com exatidão o momento em que nos encontramos naquele beijo que vai durar pra sempre só enquanto lembrarmos daquele dia. Você vai fazer falta, morena, pequena, minha amada, ou seja lá como é que chamam os amores nas novas canções que você tem escutado e não me apresenta mais. 
Seja feliz, por nós dois, enquanto não posso ser sem você. Não se culpe, é só a vida: essas fatalidades vêm junto no pacote do plano de viagem por ela. Não sou o primeiro nem o último a ir. Tem um nós pra mim, e pra você. Não estamos sozinhos e nunca estaremos: sempre tem gente pra chamar de nós. Mas, por hoje, chega de nós pela casa. Nós? Câmbio, desligo.

"Tínhamos dúvidas clássicas
Muita aflição
Críticas lógicas
Ácidas não
Pérolas ótimas
Cartas na mão
Eram recados
Pra toda a nação
Éramos súditos
Da rebelião
Símbolos plácidos
Cândidos não
Ídolos mínimos
Múltipla ação 
 Sempre tem gente pra chamar de nós
Sejam milhares, centenas ou dois"
(Marcelo Jeneci - Por que nós?)

2 comentários:

Sta. Vihh disse...

Lendo seu texto, gostaria que fossemos mais insubstituíveis, para que houvesse menos trocas, menos separações...

Camila Gomes disse...

Nicole,

Você escreve tão bem!
Cada palavra que eu lia ia apertando mais e mais os “nós” que em minha garganta ainda não se desfizeram. É uma saudade que não passa, e acrescentam dias, meses, anos a uma historia que continua mesmo depois do fim. É... “Pode ser que alguém supere, mas nunca vai ser igual”.

Beijos!

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