quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Como vai você?


Não queria falar sobre fugas. Não hoje, no seu aniversário. Aliás, você mandou o convite? Pois é, ele não chegou. Essa carta também não. Deve ter se extraviado no medo, se perdido nas bifurcações que insistem em aparecer no nosso caminho. Mas fica tranquila, eu não ia mesmo poder ir. Reunião de família, sabe? Inadiável. Piadas de tios, vovó apertando minha bochecha e ainda perguntando por você, primos me chamando pra jogar vídeo game e ir "te-esquecer-um-pouco". Como se a gente pudesse escolher. Ou, sei lá, programar a mente, mudar de canal, sintonizar alguma coisa mais animada do que esse nosso passado revisitado que fica rondando minha mente. Não vou jogar vídeo game e te esquecer um pouco. Se eu for jogar vídeo game, vou lembrar das vezes em que você ganhou de mim e das outras vezes em que eu te deixei ganhar. É esse o problema, vou lembrar de você mesmo quando for pra te esquecer um pouco. Não vou. Vou continuar aqui, na mesinha da varanda, escrevendo seu cartão de aniversário imaginário, que não vai chegar aí do outro lado do mundo porque eu não sei onde fica. 
Sua rua tem nome? Seu nome consta na nova lista telefônica? Lembra de mim? Aquela promessa de nunca-mais-se-perder-de-mim ainda faz algum sentido nessa sua cabeça bagunçada? Não precisa manter contato nem me desejar coisas bonitas em datas especiais. É só, sei lá, avisar que tá viva. Só me diz: como-vai-você? O que você tem feito? Arranjou um emprego melhor? Tirou o aparelho dos dentes? Terminou a faculdade? Perdoou aquela sua amiga que pisou no seu pé? Mande notícias quando puder. Saudades não deve ser a palavra certa, mas deixa ser. Pede pra alguém me avisar, se ainda doer demais olhar no meu olho. Manda notícias. Tô aqui: na varandinha da vó. A casa tá cheia e tem seu bolo favorito, que a vó fez pensando que você viria. 
Tadinha da vó, sente sua falta. Você esqueceu de avisá-la que iria embora. Sobrou pra mim. Sobrou esse sorriso murcho que dou toda vez que ela pergunta quando é que você vai aparecer aqui de novo. Não digo que nunca mais, afinal, quem é que pode garantir? Pode ser que sua cabeça dê outro giro, desses que te levaram pra onde você está, e você passe aqui. Ou então, no meio da correria que é sua vida, pode ser que você precise de um guarda-chuva emprestado ou usar o telefone. Digo pra vó que um dia você vem. Que eu vou te convidar. E ela diz pra eu te pegar em casa e trazer pra cá. Logo eu, que nem sei que cara tem o outro lado do mundo. Mas imagino que esteja bem mais bonito contigo por aí. É que você tem dessas coisas: tornar bonito por onde passa. Além desse lugar bonito que certamente é, como são as coisas aí onde você está? Tem um mercadinho com seu chocolate preferido e uma barraquinha qualquer onde você possa improvisar um jantar? Os ônibus passam aí perto? Me diz, só pra eu ficar tranquilo, sabendo que você está bem, num lugar que você possa chamar de lar. Me conta dos teus novos amigos, do que você tem feito nos finais de semana, dos filmes que chegam primeiro nos cinemas daí. Me diz, pra eu não mentir pra vó quando ela pergunta como vai você e eu digo um "bem" mal ensaiado. 
Você não achou que seria fácil, achou? Que simplesmente ia sair da minha vida, fugir pra longe, e ficar em paz? Não é assim que funciona. Não se muda uma vida e depois despede-se como se nada tivesse acontecido. Não se escreve uma história e depois rasga-se os papéis e faz-se de conta que história nenhuma foi contada, escrita, vivida. Não se deixa de ser importante assim, de uma hora pra outra, só porque se foi para o outro lado do mundo. Você ainda é parte da minha vida, e não importa onde você tenha me colocado nessa sua nova vida, daqui de dentro você nunca saiu. Tá aqui, feito tatuagem. Você e seu espírito aventureiro e inquieto. Você e seu coração que um dia bateu mais rápido ao me ver. Você e essa sua mania de ser a melhor pessoa do mundo de um milhão de maneiras erradas. 
Feliz vinte e poucos anos, meu bem. A vó mandou um beijo. Mande notícias. Tô aqui: na varandinha da vó. Não vou jogar vídeo game e te-esquecer-um-pouco. Vou ficar aqui. Esperando notícias. Te desejando coisas boas. Pensando sozinho em como vai você e o que você desejou quando soprou as velas. Se fosse a minha vez de soprá-las, desejaria você aqui. Ou que o outro lado do mundo fosse aqui na esquina. Ou que lar fosse alguma coisa parecida com o meu abraço, pra você nunca mais precisar sair para procurá-lo pelo mundo. Feliz aniversário, meu amor, e cuidado com o que você deseja.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sempre tem gente pra chamar de nós.


Ainda hoje, enquanto ando pela casa, descubro partes de você que ainda não mandei embora. Ainda tem nós na lixeira do computador - e naquela pasta escondida. Nós, no restinho do teu suco na geladeira. Nós, na cortina azul que você escolheu. Jogos de amor são mesmo para se jogar, e é isso o que importa. O troféu é sempre um só: um tipo novo - e único - de "nós" circulando por aí. Não é sobre ganhar ou perder o jogo, ganhar ou perder você, é sobre jogar e viver você. É sobre termos sido nós, assim, do nosso jeito desajeitado. Cheios de dúvidas, sonhos, planos que nunca saíram do papel, interrogações respondidas na mesa do café. Nós, com nossa TV sem som, pra termos tempo de sobra pra conversar; com nossa mesa de jantar que sempre cabia mais um; nossa rede particular estendida em nossos sorrisos. Éramos nós. Lunáticos, irônicos, inéditos, incompreendidos. É isso que vale. É isso que sobra: o que fomos nós. Seja lá como for, seremos esse nós. Pode ser que alguém supere, mas nunca vai ser igual.
Nem que seja em tempos verbais passados ou fotos rasgadas na lixeira do teu quarto: em algum lugar existe "nós", assinado com a tua letrinha perfeita e a minha desengonçada, circulando pelos ares em direção ao lugar para onde vão os balões sem dono de todos os nós desfeitos pelo mundo. Éramos nós dois e agora somos nós: eu, você e todo o resto do mundo que vaga pela casa num sábado a noite sem ter um número para discar. Eu, você e todos aqueles que se arriscaram nesse jogo e saíram de lá com essa ligeira sensação de falta, um aperto no peito e uma caixinha de poá recheada de lembranças. Em algum lugar, nem que seja na cabeça daquela sua amiga desmiolada, ainda somos nós. Porque cada história de amor é única e a nossa é só nossa, ponto final. 
Fim de papo, fim de jogo, cada um pro seu lado do campo - da vida. Daqui a pouco começa de novo, essas coisas vivem acontecendo. Agora mesmo tem alguém se apaixonando e alguém tirando seu time de campo. Acontece o tempo todo. Ainda sinto aquele vácuo no peito, latejando com o som do teu sorriso,  que me faz doer quando penso em encontrar alguém, mas vai acabar acontecendo. Dói porque não vai ser você. E ainda não consigo pensar em alguém melhor que. Mas há. Há o mar, não há? Vou mergulhar. Junto com os peixes que você jura que tem. Não pense que te amo, mas também não que te odeio: apenas pense em mim. Sozinho, ainda meio amassado depois de tantos nós desfeitos, do tanto de nós desfeito. Sozinho, enumerando faltas e contabilizando seus últimos sorrisos, perdidos em motivos pra ficar ou ir de uma vez. Sozinho, porque você foi. 
Ainda faz falta o teu sorriso, mas esse é só um clichê que eu esqueci de te dizer. Bonito mesmo, e original como nós dois, seria dizer que ainda faz falta a unha engraçada do teu mindinho esquerdo; abrir minha geladeira e encontrar o suco que odeio, mas que você adora; te ligar todo dia 17 às 21:04 pra comemorar com exatidão o momento em que nos encontramos naquele beijo que vai durar pra sempre só enquanto lembrarmos daquele dia. Você vai fazer falta, morena, pequena, minha amada, ou seja lá como é que chamam os amores nas novas canções que você tem escutado e não me apresenta mais. 
Seja feliz, por nós dois, enquanto não posso ser sem você. Não se culpe, é só a vida: essas fatalidades vêm junto no pacote do plano de viagem por ela. Não sou o primeiro nem o último a ir. Tem um nós pra mim, e pra você. Não estamos sozinhos e nunca estaremos: sempre tem gente pra chamar de nós. Mas, por hoje, chega de nós pela casa. Nós? Câmbio, desligo.

"Tínhamos dúvidas clássicas
Muita aflição
Críticas lógicas
Ácidas não
Pérolas ótimas
Cartas na mão
Eram recados
Pra toda a nação
Éramos súditos
Da rebelião
Símbolos plácidos
Cândidos não
Ídolos mínimos
Múltipla ação 
 Sempre tem gente pra chamar de nós
Sejam milhares, centenas ou dois"
(Marcelo Jeneci - Por que nós?)

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