sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Tira o medo para dançar.


Eu tenho medo de altura, de morrer de solidão, de gente que anda pelas ruas de cara emburrada. Eu tenho medo da televisão, medo das notícias dos jornais, medo de quem não ri. Eu tenho das ruas vazias sem você, dos dias nublados sem o teu sorriso que tem jeito de sol, dos outros abraços que não têm o encaixe do teu. Eu também tenho medo de cair, medo de errar o passo e acabar torcendo o pé, medo de construir um castelo e acabar descobrindo que ele era de areia. Mas me diz, como não ter? Você não é a única.
A moça descendo a ladeira com seu vestido vermelho, comprado justamente para esse dia, tem, e talvez o dela seja chegar lá embaixo e não encontrar ninguém, e ter que subir tudo de novo, sozinha, com os sapatos nas mãos, pés nos chãos, e maquiagem borrada pelas lágrimas. Mas olha ela, mesmo sabendo do risco, ela desce. Ela vai. Ela dá a cara a tapa pro que a vida preparou. Lá embaixo alguém a espera, mas ela ainda não sabe. E o homem no carro também tem medo. Ele foi, mesmo sem saber se ela chegaria lá embaixo, mesmo sem saber se valeria a pena ter se deslocado até lá. Ela desceria, mas ele ainda não sabia. E foi. E se encontraram. E decidiram se encontrar de novo. Porque deixaram o medo de lado. Porque deixaram o amor falar mais alto. Porque tiraram o medo pra dançar.
Tira o medo pra dançar você também, mostra pra ele a dança da vida, mostra pra ele que quem conduz essa dança é você. Me dá a mão, desce essa ladeira que eu te espero aqui embaixo. Não é como você sonhou, mas pode ser melhor, por que não? Pode ser uma nova cicatriz se a gente acabar tropeçando no caminho, mas pode ser o fim de todas elas se a gente acertar o passo. São chances iguais, mas vamos ver o copo meio cheio? Vamos cantar o amor ao invés do medo. O amor é uma caminhada de mãos dadas em direção à um precipício: você sabe que em algum momento vai ter que dar um salto, mas não sabe se voará ou cairá de cara nas pedras. É uma questão de decisão, e toda decisão requer coragem. A gente precisa dar o salto, já estamos na beirada e não tem outra saída. Você pode sair correndo todo o caminho de volta, mas vai viver sempre com um "e se?" martelando na sua cabeça de menina indecisa. 
Então vem, vamos pular. Deixa o medo pra lá, não deixa ele esterilizar nosso abraço, como disse seu poeta favorito, mostra pra ele que não importa se é o congresso internacional do medo, você nasceu para cantar o amor e vai escolher cantá-lo mesmo quando for difícil demais. Canta o amor que os pássaros ouvem teu canto e emprestam suas asas pro nosso voo. Canta o amor que o mundo atende teu grito e presta mais atenção no que vale a pena. Canta o amor que esse canto até o medo para pra dançar.
Tira o medo pra dançar. Deixa o amor repetir uma canção todos os dias. "Medo... e daí?" Você tem medo, mas e daí? Quem é que não tem? Você tem medo, mas e daí? Você é maior do que isso. Tira o medo pra dançar. Tira o medo pra dançar, comigo.

Congresso Internacional do Medo
"Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos deseros,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas."
(Carlos Drummond de Andrade)

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