quinta-feira, 5 de julho de 2012

Segunda-feira.


Uma formiguinha perdida no meio do formigueiro que é a cidade grande, ainda lembro de você me dizendo isso enquanto eu te salvava e te mostrava o lugar do endereço rabiscado naquele papel. Era tudo tão estranho pra você que eu fiquei feliz por ter te encontrado, porque alguma coisa me disse que a gente nunca esquece aquilo que nos salva numa segunda-feira chuvosa. Te deixei naquele café, aonde você tinha uma reunião, onde a gente se encontrou tantas vezes depois: você naquela mesma mesa, olhando a janela, acenando ao me ver passar. 
A gente se encontrou e era segunda-feira. Então quer dizer que coisas boas também acontecem nesses dias, de onde saiu essa implicância com a segunda-feira?, eu queria perguntar pros rostos emburrados no ponto de ônibus. Por que tanto ódio, tanta preguiça de levantar e encarar as ruas? Será que eles nunca encontraram uma nota generosa na calçada, um olhar promissor na janela do prédio da esquina, ou um estrangeiro em terras estranhas precisando de salvação? Me dá vontade de implorar para que  parem de odiar as segundas-feiras, porque foi numa dessas chuvosas e preguiçosas que a gente se esbarrou. Cedo demais pra estar acordado, cedo demais pra tentar me apaixonar de novo, ainda em tempo de perceber que coisas boas também acontecem no primeiro dia útil da semana.
Só agora eu percebo que nós fomos uma segunda-feira em movimento. Aquele dia em que ninguém acredita, mas que vezenquando resolvem dar uma chance, trocar o pé ao acordar e sorrir pro despertador. Então a gente resolveu acreditar na loucura que éramos nós, era o nosso trato. Só que nunca foi tão fácil assim. Nunca foi fácil entender você e a bagagem que você trouxe pra essa cidade. Eu queria que você fosse um daqueles filmes que ficam semanas em cartaz, então eu poderia ir repetida vezes àquela sala de cinema e rever todas as cenas da história que seria sobre você, sobre a cidadezinha pequena onde você nasceu, o colégio moderno em que estudou, a faculdade que você largou pela metade e depois continuou. E sobre aquilo tudo que se conta nos filmes, sobre seu primeiro amor, o amor que você largou quando precisou vir pra cá, o sonho que você trocou por um maior. Já vejo a sinopse, moço do interior chega na cidade grande e abala uma vida que achava que estava dando certo. Engraçado dizer abalar e imaginar você e seu jeito calmo, abalando alguma coisa. Como é que pode um paradoxo tão grande? Só você consegue. 
Se eu pudesse te descobrir como se descobre os segredos de um filme, assistindo-o, eu já o saberia de cor. Mas não é assim que se conhece uma vida. Uma vida é mais do que o cabe em poucas horas e muitas cenas. Uma vida é mais. Você é mais. Muito mais do que só aquilo que eu descobri e achava que sabia. Eu nunca soube que toda sua calmaria talvez não fosse calmaria, mas fosse tudo parte do seu voo, do seu plano que incluía você e o céu enorme dessa cidade que você ainda aprende a conhecer. Eu te encontrei naquela segunda-feira mal planejada e você mudou minha vida. Eu te encontrei naquela segunda-feira mal planejada, você mudou minha vida, mas eu não movi nem uma palha na sua, porque o céu era maior, a cidade era maior, a possibilidade de tudo era tão maior do que eu. Você foi um furacão, eu fui a garoa no início de uma manhã, tão fina que não faz necessário um guarda-chuva, só incomoda um pouco, refresca o ar, e logo passa, quase sem deixar o chão molhado, como prova de que aconteceu.
Você mudou meia dúzia de segundas-feiras e agora quando passo por aquele café a gente nem se olha mais. Precisei te deixar ir, eu não estava nos seus planos e você não soube redesenhá-los. Abro mão de você como uma criança abre mão de um balão para vê-lo no céu, fascinada pela beleza do que foi feito pra voar. Pode voar, eu posso, daqui, ao menos olhar pro céu e sorrir. Eu sei, ao menos, aonde te encontrar. É só olhar pro céu, pra mesa do café, pro meu co-ra-ção. É só olhar pra cima. Pra dentro. E te ver. E sorrir. E então já é segunda-feira novamente. E as coisas podem acontecer, por que não?

7 comentários:

Bárbara Amaral disse...

Que texto maravilhoso! Meus olhos se encheram de lágrimas.

Larie disse...

Ai, doeu o coração, mas seu texto tá muito lindo mesmo. Pelo menos você tem uma lembrança boa de uma segunda-feira.

Beijo :)

Filipe Garcia disse...

Oi, Nicole.

Primeiramente quero agradecer sua visita ao meu blog. E pedir desculpas pela demora em retribuir a visita ao seu. Fiquei lisonjeado e incentivado com suas palavras.

Sobre o seu texto, eu posso dizer que, olha, uma simples garoa pode trazer mais efeitos que um furacão. O furacão é um evento isolado, raro, fortuito. A garoa não. Toda vez que garoar, virá a lembrança, a marca, virá o cheiro daquele café tomado no dia do encontro. As pequenas coisas enobrecem a mente.

Aquela segunda-feira, penso, talvez tenha sido dos dois. Mais dele, pela leveza que deu à situação. Menos dela, por ter sido coração demais.

Gostei do seu canto. Voltarei mais vezes (posso?).

Beijo grande.

Emi disse...

Eu já disse que adoro esse toque de nostalgia nos seus textos? Me identifico tanto! Acho linda também sua capacidade de transformar coisas corriqueiras em textos maravilhosos, de questionar as coisas do mundo ou simplesmente comentá-las de uma forma tão sensível.
Adorei, Nicole. E vou ver se a partir de agora tento enxergar as segundas de uma forma mais carinhosa, rs. *-*
Beijos!

Ariana disse...

Eu não tenho nada contar as segundas -feiras, tenho contra os domingos.
Seu texto ficou encantador, super bem escrito como todos os outros.
Criatividade a mil hem moça!
Parabéns!

Beijos

Ana Flávia Sousa disse...

O talento transborda por aqui né Nicole! Impossível vir aqui e não sair emocionada, tocada de alguma maneira.

' Se eu pudesse te descobrir como se descobre os segredos de um filme, assistindo-o, eu já o saberia de cor.' Achei isso tão lindo, tão terno. *.*

Adorei, adorei.
Um beijo grande.

C.A. disse...

A gente gosta das coisas em que nos reconhecemos. E eu amei esse seu texto! Se parece muito com meu jeito de escrever, como era em 2009. Parecia que eu estava lendo minha história aí, principalmente a parte do moço do interior na cidade grande - nessa época eu morava em São Paulo.
Parabéns, ganhou um leitor com um texto só :)

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