sexta-feira, 29 de junho de 2012

Eu vou.

Vou escrever uma coisa bonita e não vai ser sobre você. Vou desenhar seu rosto e não vai ter aquele traço pelo qual me apaixonei. Vou te encontrar na rua e não te reconhecer; vou te encontrar na rua e não vai ser você. Vou te desconfigurar, traço por traço, letra por letra, lembrança por lembrança. Vou te decompor e te colocar em caixinhas, junto com tudo aquilo que você nunca me deu. Vou te esconder no sótão, e me livrar de você numa daquelas manhãs de faxina. Aí vou sorrir. Vou sorrir livre de você, leve sem você.
Vão tentar entender esse meu sorriso, vão procurar motivos escondidos nos meus olhos que se encolhem quando sorrio, pode ser que me chamem de louca, mas vou estar ocupada demais sorrindo por aí e nem vou perceber. Eu vou sorrir sem você, por você, pelo que a gente foi e poderia ter sido. Seja aquele sorriso fácil que vem junto com o vento que balança os cabelos ou aquele sorriso arrancado a fórceps, que nasce rasgando as cicatrizes que a dor deixou. Sorriso verdadeiro ou pintado com canetinha vermelha, vou sorrir.
Vou sorrir porque a gente acaba aprendendo no pôr do sol de um dia bom que serve de metáfora pra vida, que mesmo o que foi bom precisa acabar para que um novo dia nasça e tenha a chance de ser melhor. Talvez eu chore um dia de saudade, ou de medo, ou só de vontade chorar, mas depois vou sorrir mais bonito, e aí vou chorar de rir. Talvez eu caia no chão e algumas notícias inesperadas me golpeiem numa tarde nublada, mas depois vou levantar sorrindo, porque a gente sempre arruma um jeito de ser mais forte do que era.  Talvez eu te escreva uma carta, ou mande lembranças, ou nem lembre mais seu nome completo. Eu vou dançar quando chover demais, cantar quando doer demais, sorrir quando viver for demais pra mim. 
Vou sorrir porque a gente se encontrou, e se perdeu porque assim tinha que ser. Vou sorrir de esperança e vou correr em frente, porque a vida há de ser bonita.Vou sorrir porque vou ter certeza de que certas pessoas se encontram só pra ser promessa. Vou sorrir quando uma dessas promessas esbarrar o olhar com o meu e me distrair de você. Vou estar distraída de você pra que outro me atraia. Quero dançar com outro par, quero me vestir com um abraço que não esteja tão fora de moda quanto o teu. Quero inaugurar meu novo amor, meu novo eu, a nova roupagem que meus sentimentos ganharam no último verão. 
Vou ser feliz, você vai ver. Tão certo quanto um mais um são dois, eu vou. Eu voo.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Pelo interfone.

Acho que você podia ir lá. Aproveitar que é parte do teu caminho, que inevitavelmente essas ruas e esquinas e sinais te levariam até aquele endereço, e tocar a campainha, por que não? Você pode levar algumas conversas no bolso, alguns sorrisos que ele ainda não viu, ou só a saudade, que é mesmo tudo o que vale a pena. Você pode dizer sobre como foi bom encontrar com ele quando você menos esperou, sobre como pareceu sem fim aquele dia em que vocês dançaram um ritmo improvisado, sobre como foi bom poder ser você mesma e dançar errado sem que ele se importasse, mas sorrisse e te procurasse e te levasse com asas prum mundo distante daquele barulho. Não faz muito sentido ensaiar verdades, na hora elas vão sair de outro jeito, vai dar um nó na garganta e você vai esquecer o que ia dizer, mas diz mesmo assim. Conta pra ele aquele teu segredo bonito, dos teus medos bobos, da canção mais bonita que você nunca ouviu e está pensando em escrever com ele. Diz pra ele não se assustar, porque o que é bom invade nossa vida assim, toca a campainha num dia inesperado e pede pra entrar. Não precisa falar sobre o tempo, sobre o que passou na tv, sobre o que é ruim. Deixa pra depois, se o depois não chegar não vai fazer falta, você já vai ter dito o que interessa. É, pode ser que o depois não chegue, porque a vida as vezes dói. Pode ser que ele não saiba escutar, que não esteja em casa ou que se finja de surdo. E aí vai, vai machucar. Vão te dizer clichês sobre o quão importante é você ter dito tudo, ter tentado, ter dado a cara a tapa, mas não vai adiantar. Vão te dizer que viu? nem doeu, mas lá no fundo você sabe que doeu sim. Sempre dói um pouco quando a gente se rasga por dentro pra dizer pro outro o que ele mudou. Mas não deixa as possibilidades cruéis te assustarem, a esperança tem que ser maior do que o medo, viu? A esperança de que ele abra o portão e te mande subir, tem que ser maior do que o medo de que ele não esteja em casa pra você. Vai lá e diz logo, sobre o tom que mudou quando ele apareceu, sobre a primavera que muda o ar sempre que ele chega, sobre o que vocês poderiam ser se. Fala pra ele que o amor é bom e que seria bom estar com ele nessa estação que vem aí, vocês podiam se inaugurar juntos, em homenagem às flores que desabrocham. Toca o interfone e pede permissão pra entrar na vida dele. Talvez ele abra a porta e te deixe entrar, subir, ficar. Se você soubesse, falaria mais.

"Fala pra ele
Que ele é um sonho bom
Que mudou o tom
Da tua vida
Comprida
Fala pra ele
Do disco do tom jobim
Do seu apelido e de mim
(...)
Fala pra ele o que nunca falou pra ninguém
Pra ele também."
(Cícero - Pelo Interfone)

terça-feira, 12 de junho de 2012

Você me bagunça.


 Cadê aqueles sonhos que até ontem estavam aqui? Não sei. Cadê aquele vinil com as músicas que eu tanto adorava porque traziam a tona aquela antiga lembrança? Não sei. Cadê meus versos rimados, a ampulheta que ficava na mesinha da sala, as minhas certezas que estavam emolduradas naquele quadro no corredor? Não sei, não sei, não sei. O que aconteceu comigo? Você.
Você é a causa da minha bagunça. Desde que você apareceu eu não sei onde foi parar quem eu costumava ser nem aquela caixinha onde eu conservava passados. Os sonhos estão espalhados pela cama, a areia da ampulheta que cronometrava o tempo errado está espalhada pelo chão e minhas certezas se jogam pela janela enquanto outras entram e se acomodam no sofá da sala. Tá tudo de pernas pro ar e de olhar virado na tua direção. Você me bagunça e eu não sei se quero arrumação. Você me bagunça feito música que arrepia, feito vento que despenteia, feito amor que arromba a porta e muda tudo de lugar.
Seu sorriso me assalta, sua falta me assola, seu olhar assina o atestado da minha loucura. Eu sei que quando você me olha assim você não entende de onde eu venho nem pra onde eu vou. Mas isso não importa porque eu também não sei, você tumultuou tudo em mim. Vou escrever e deixar na porta da geladeira: "você me bagunça, mas de um jeito bom". Não precisa fazer esforço pra me colocar em ordem novamente, é nessa bagunça que eu me encontro. Não importa o que eu era, importa o que a gente pode ser. É aqui nessa bagunça que eu sei onde está o giz de cera que vamos usar pra desenharmos nosso caminho naquela parede em branco, onde estão seus beijos, onde estão nossos amuletos. Sei que parece loucura, mas é só amor. Sei que parece bagunça, mas é só você redecorando o que eu sou. Tá tudo bem, tô reconsiderando o mundo daqui de dentro do teu abraço. É que ele fica bem melhor assim. A vida fica bem melhor assim.


"Você me bagunça e tumultua tudo em mim
Essa moça ousa, musa, abusa de todo meu sim
(...)
Assimila, dissimula, afronta, apronta, diz: "carrega-me nos abraços"
Lapida-me a pedra bruta, insulta, assalta-me os textos, os traços
Me desapropria o rumo, o prumo, juro me padeço com você
Me desassossega, rega a alma, roga a calma em minha travessia"
(O teatro mágico - você me bagunça)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Adeus você.


Essa não é uma carta de amor. Sei lá, é que andaram dizendo por aí que uma carta de amor não pede nada, e essa aqui vai ser cheia de pedidos, então quem sou eu pra chamá-la assim e contrariar os românticos? Não, meu bem, não é uma carta de amor, é uma carta de bem-me-quer, tudo bem? Bem-te-quero. É isso.
Sabe o que é? Eu tava ouvindo sua banda favorita hoje. Justamente aquela canção que a gente discutiu sentados naquela rede enquanto o céu desabava em chuva e você desabava em meus ouvidos sobre o quão sentimental eu não era. Não, não é essa música que você tá pensando, é aquela do adeus, lembra? Lembra quando você, com os olhos marejados, disse que não tinha que ser assim? Que ir não é amar? Que se o cara amasse mesmo, ele ficava? Então... você me odeia agora? Porque foi o que eu fiz, fui te amando. Por isso eu defendia o cara da canção, você entende? Porque às vezes a gente tem mesmo que se perder e se encontrar num lugar novo, que pode ou não ter o endereço desse teu abraço. Esse cara que você odeia está a milhas de distância pensando em você, te querendo bem, te querendo sã. 
É aí que entra essa carta. E essa música. E minha preocupação com essa chuva, com esse céu que sempre que desaba faz o tempo esfriar e o seu nariz ficar vermelho-strawberry, lembra? Tô escrevendo pra cuidar de você, pra te lembrar de não andar descalça, não pegar sereno, não esquecer o guarda-chuva; não quero você embaixo das cobertas, não quero você refém daqueles remedinhos cor-de-rosa que a gente encontrou depois de muito correr por farmácias fechadas naquela madrugada fria. Não quero que suas madrugadas sejam frias. Te quero feliz, viu? Quero ouvir notícias suas e saber que você está muito bem, melhor sem mim, levando sua vida em frente. Quero que você pinte as paredes do seu quarto da cor que você quiser. Vai, arrisca, se não der certo compra outra lata de tinta e vai tentando até seu olhar sorrir satisfeito. Pinta logo um sol nesse céu, não deixa as nuvens vencerem; você não precisa chorar e borrar sua maquiagem, você não precisa sofrer, vamos combinar uma coisa? Olha pra trás e sorri pelo que a gente viveu. Aproveita que semana que vem vai ter um show daquela banda que você adora e compra o ingresso, inaugura aquele vestido azul, não deixa a minha ausência te privar de sair por aí. Vai com você mesma, você é uma pessoa incrível, aposto que vai gostar da companhia. De repente você encontra alguém, por que não? Mas não se contenta com qualquer um, por favor. Ele tem que saber como pegar sua mão, te fazer sentir guiada e aceitar a viagem, e saber te abraçar em silêncio e te contar segredos mesmo assim. Não se menospreze, você vale muito, sou aquele cara sortudo do restaurante chinês que foi o único a tirar uma sorte realmente boa daqueles biscoitos engraçados. Você foi a melhor sorte que já tirei, sabia? 
É sério, pode acreditar. Vão dizer que não, que eu não te amava, mas eu fico com o cara da canção: não pensa que eu fui por não te amar. Eu tive que ir, talvez um dia você entenda. Mas saiba que essas coisas vivem acontecendo, a gente tem que arriscar. Eu arrisquei te perder pra ir me encontrar, me encontrar pra te encontrar de novo um dia. Vou pensar em você em todas as manhãs enquanto tomo meu café sem açúcar, lamentando por você não estar comigo insistindo em colocar algumas colheres. Vou contar cada dia longe como um dia a menos. Um dia eu vou voltar. E pode ser que você ainda esteja aí. Se cuida, cuida de você e desse coração de menina bonita, enquanto eu não posso estar aí. Porque eu vou voltar. E quando voltar, quero que você esteja bem, tão bem, que eu não vou ter escolha a não ser me apaixonar novamente. Adeus você, meu bem, hoje e sempre: bem-te-quero.

"Cuida do teu
Pra que ninguém te jogue no chão
Procure dividir-se em alguém
Procure-me em qualquer confusão
Levanta e te sustenta
E não pensa que eu fui por não te amar
Quero ver você maior, meu bem
Pra que minha vida siga adiante"
(Adeus Você - Los Hermanos)

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