quinta-feira, 19 de abril de 2012

O pouco que sobrou.


O dia já amanheceu, significa que eu tenho que levantar? E, vamos supor que eu levante, o que eu faço? Vou levantar, mas antes vou passar a mão pelo teu lado da cama e os lençóis estarão arrumados, gritando pra mim que ali você não dormiu. Vou levantar e escovar os dentes, e dessa vez não vou confundir minha escova com a sua; vou colocar a mesa só pra um no café da manhã; vou ligar a televisão e o único som nessa casa vazia vai ser o da moça do telejornal avisando que o tempo hoje estará firme, me lembrando de que não posso mais te ligar pra chamar para um passeio desses que os casais fazem nos domingos ensolarados. É um domingo ensolarado e eu não sei o que fazer. É o primeiro dia da minha vida sem você e eu não sei por onde começar. 
O pior do fim é o começo que é forçado a vir imediatamente após. O pior do fim é quando o amor vai, mas deixa toda nossa história parcelada pelos cantos da casa. E aí, o que eu faço? O que eu faço com as fotos, com suas roupas esquecidas aqui, com os livros que compramos pra nós dois e você ainda não leu? O que eu faço com os domingos que ficaram mais longos, com as noites frias, com o ingresso daquele show? E com os sonhos, me diz: o que eu faço com eles? Você passa aqui e leva tudo? Você manda alguém? Deixo com o porteiro e aviso que você não pode mais entrar aqui? Sou a sobrevivente da queda de um avião e estou perdida em meio aos escombros, sem saber se agradeço por ter sobrevivido ou entrego os pontos e deito em posição fetal até passar o choque, a dor, o cheiro de fumaça. Tenho que continuar, gritam todas as cartilhas, tenho que levantar dessa cama e reinventar minha vida. Mas como, me diz? Você consegue?
Sinceramente? Tudo o que eu quero é deitar aqui, aproveitar o silêncio desse quarto que não me obriga a nada, fechar o olho e só abrir quando tudo passar. Quero uma daquelas fadas madrinhas que passem aqui em casa e arrumem a bagunça que você deixou, tirem os porta-retratos da minha vista e recolham as migalhas de amor que sobraram pelos cantos. Mas não dá.  O pior de tudo não é você ter ido, nem o amor ter acabado. O pior de tudo é o que sobrou. O pior do amor é a bagunça que ele deixa pra gente limpar quando ninguém aguenta mais. O pior de tudo são essas mudanças, o começar-de-novo que não me diz por onde começar. Aquilo tudo de ter que me acostumar a não falar com você quando te vir numa festa; a não discar seu número quando eu precisar desabafar o peso do mundo nas minhas costas; a não confessar saudade. O pior de tudo é a vida que insiste em continuar a mesma quando está indiscutivelmente diferente. O pior do amor é o que vem depois; o espaço vazio entre o depois da chuva e o antes do arco-íris. É o vácuo que sobra para flutuarmos sem saber pra onde ir. 
Fomos o arco-íris de chuvas passadas e agora somos a chuva de um arco-íris futuro. Daqui a pouco surgem novas cores no céu, mas até lá, o que fazer com o que sobra? Depois do amor vem o quê? Quem é que vem pra limpar a bagunça? Quem vai me abraçar quando a luz acabar? Quem vai me socorrer quando meus medos se esconderem embaixo da cama me tirando o sono? Quem vai levar de uma vez pra longe daqui o pouco que sobrou?
O pouco que sobrou são interrogações; uma vontade de dar cem passos pra frente e tantos quanto forem necessários pra trás até cair de novo nos teus braços. O que sobrou foi essa obrigação de seguir em frente quando eu não faço ideia de que direção seguir. O pouco que sobrou é muito e não me deixa te esquecer; não é amor, mas é algo perto disso.

"Se tudo é tão ruim
Por onde eu devo ir?
A vida vai seguir
Ninguém vai reparar
Aqui neste lugar
Eu acho que acabou
Mas vou cantar
Pra não cair
Fingindo ser alguém
Que vive assim de bem 
Eu não sei por onde foi
Só resta eu me entregar
Cansei de procurar
O pouco que sobrou
Eu tinha algum amor
Eu era bem melhor
Mas tudo deu um nó
E a vida se perdeu"
(Los Hermanos)

6 comentários:

Ana Luísa disse...

Fantástico, Nicole. Tão bonito e tão verdadeiro, que chega a apreender o peito!

deia.s disse...

”O pior do amor é o que vem depois; o espaço vazio entre o depois da chuva e o antes do arco-íris.”
Mas o importante é que o arco-íris acaba sempre surgindo. Digo. Sempre!

(F)

Hug bear, flower.

http://amar-go.blogspot.com.br/

Emi disse...

''O pior de tudo é a vida que insiste em continuar a mesma quando está indiscutivelmente diferente. ''
Você sempre sabe o que e como falar de tudo, inclusive dessas idas e vindas do amor. Lindo o texto, emocionante e cheio de verdade da primeira a última letra. É triste e doloroso quando tudo, absolutamente tudo 'precisa' continuar igual quando dentro da gente algo desmoronou, foi embora e parece custar a voltar, tornando o nosso interior completamente diferente.
Perfeito, Nicole.
Beijos!

Ariana disse...

"O pior do amor é a bagunça que ele deixa pra gente limpar quando ninguém aguenta mais."

E quanta bagunça o amor deixa né flor, quanta emoção guardada, quanto sentimento sufocado. Por um bom tempo é assim, ficamos sem saber o que fazer, só "curtindo" esse vazio que ele deixa, mas com o tempo vamos aprendendo a limpar a bagunça deixada, aos pouquinhos, bem devagar e vamos nos reerguendo aos poucos. Tu vai ver.

Beijos

Ana Flávia Sousa disse...

Fico como uma boba aqui nesse seu blog, com tanto talento que irradia de você.
Tantos assuntos e você tem o dom de descrever todos eles, de maneira absurdamente perfeita.
Eu nunca sei o que fazer com o que sobra, com o que sobra de tudo na vida. Realmente, o pior do fim,é o começo que vem imediatamente depois.

Demais esse texto Nicole!
beijos e obrigada pelo carinho lá no Pratododia! (:

Marie Raya disse...

Nossa, fazia um bom tempo que eu não passava aqui. Lembro-me de quando li um texto seu pela primeira vez, quando vi um trechinho no twitter e corri pra conhecer "A moça do sonho". E que bom que eu vim. Sempre me identifico muito com seus textos. E esse, não tenho nem palavras. Senti cada fagulha dele percorrer meu corpo. Conheço bem a sensação dessas sobras que o amor deixa e que a gente nunca sabe o que fazer com elas.

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