segunda-feira, 19 de março de 2012

Do encontro, da sorte e do desencontro.



- Que a sorte a nossa estarmos aqui: depois de tudo o que passou, nos esbarrarmos em mais essa esquina da vida, como uma segunda, terceira, eterna chance.
- Não gosto de sorte, soa como se não tivéssemos feito nada, como se não tivéssemos cansado nossas pernas e peitos nessa corrida, inconscientemente na nossa mesma direção. Agora não somos sorte, agora somos encontro.
- E o que é o encontro, se não sorte?
- Pode haver sorte, mas há mais comprometimento, há mais vontade, há mais doação. Encontro é quando todos os desencontros não conseguem acontecer e acabam nos levando sempre praquela mesma esquina; quando nossa vontade de estar junto supera todas as sementes do desencontro. 
- E o que é desencontro? Azar?
- Nem sempre azar, às vezes há até sorte no desencontro, quem é que pode saber o que a vida tem preparado? Desencontro é só aquela sensação de estar longe demais da nossa esquina, quando parece que nossos relógios seguem ritmos diferentes e, embora em muitas vezes haja o amor, falta a disposição e o fôlego. E, mesmo assim, às vezes há amor, há vontade, há corrida, mas o desencontro continua ali, latejando feito badaladas de um relógio que marca a hora de um (re)encontro que nunca acontecerá.
- Sendo assim, parece que os desencontros são mais comuns, não acha?
- É que o encontro verdadeiro precisa que alguns encontros tenham acontecido.
- Não é um pouco cruel?
- Sei lá, é só o jeito que as coisas são. Se eu não tivesse me desencontrado de tanta gente, talvez não estivesse aqui agora. Se mesmo nós não tivéssemos nos desencontrado naquele fatídico dia, talvez hoje não estivéssemos tão dispostos a um encontro verdadeiro.
- Então, o caminho para o encontro é cheio de desencontros. Por que será?
- Não sei, não fui eu que decidi que seria assim, sabe? Se dependesse de mim, só haveria encontro e nunca as incertezas e dores do desencontro. Mas a vida insiste em querer aplicar lições e ensinar por métodos não convencionais. Parece que a cada desencontro a gente vai se tornando mais forte, decidindo o que quer a cada passo, esvaziando a bagagem que pesa demais quando é sobrecarregada. 
- Entendo. Cada desencontro nos ensina mais do que aprenderíamos numa corrida por uma estrada tranquila, sem essas pausas e bifurcações, os desencontros do caminho. A gente segue por esses caminhos, costurando o que rompeu, até que estejamos prontos pra algo sem fim, até termos a sorte de um encontro sem fim.
- Acho que prontos não é a palavra, nem sorte. Dispostos talvez seja melhor. Tivemos a sorte de nos encontrarmos no meio de tanta gente, mas será que temos disposição para continuarmos juntos? Será que estamos dispostos a estender nosso encontro?
- O encontro do meu olhar cansado com o seu que duvida?
- O encontro dos meus planos lunáticos com os seus revolucionários.
- É, talvez um encontro seja bem mais do que mãos e olhares e corpos que se unem;  mais do que sorte, e por isso seja preciso a disposição. Não é fácil e dá trabalho, e se não tomarmos conta, se não investirmos, vira desencontro num piscar de olhos.
- Pois é, é como se o desencontro estivesse sempre ali à espreita; como se as três letras que viram a palavra de ponta cabeça, estivessem sempre dispostas a aparecer. Desencontro é uma questão de prefixo, assim como descuido.
- Vou cuidar de você.
- Vai cuidar de nós dois?
- Com sorte e disposição.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Samba de ir embora só.


Você acredita se eu disser que vou sentir falta? É, sei lá, vai fazer falta como faz tudo aquilo que mexe com a gente por dentro - por um dia ou um ano, tanto faz. Vai fazer falta como faz qualquer pessoa que saiba se tornar importante, vai fazer falta como você sabe fazer falta, do jeito como ainda vou descobrir. Acho que cada um faz falta de um jeito, entende? Ainda vou descobrir como é sentir falta de você, se é excruciante como faltar um dente ou suave como uma brisa soprando no lugar vazio ao meu lado. Algumas coisas posso prever, quer exemplos? Sei que vai fazer falta o seu olhar que procura e foge, o seu sorriso que me sequestra e o teu sotaque que me ganha fácil; vai fazer falta a tua busca e o meu sorriso que sorri quando te encontra; vai fazer falta o sentimento bom e meio bobo que é acreditar em nós dois. Vai fazer falta aquilo tudo que eu sentia e fazia de conta que não, aquilo que eu não sentia e inventei pra ter inspiração, aquilo tudo que de qualquer jeito foi sentimento.
Mas não é a primeira vez, a gente se acostuma. Não é a primeira vez que o balão cor de rosa de um sonho bonito estoura antes de alcançar as nuvens (ou as estrelas do teu olhar). Posso lidar bem com isso, não se preocupe, fui eu mesma que decidi atirar a flecha que estourou o balão quando percebi que não fazia sentido deixá-lo ir em direção a algo que ficava cada vez mais longe. Não é covardia, só quis salvar meu coração. Não é isso o que você fazia enquanto fugia? Desisti, obriguei meu olhar a fixar no lado oposto enquanto você passava e a fixar a parede ou o teto, qualquer coisa mais estável que você, quando você me olhou de canto. Tô treinando não pensar em você e não ganhar o dia quando você chega. De tanto treinar, um dia a gente acostuma. Eu vou me acostumar, e essa é a parte ruim de tudo isso.
Você foi algo tão diferente. Foi um marco, sabe? Um momento em que decidi o que realmente buscava e queria do meu lado. Você mostrou que eu estava navegando na direção errada, meu norte eram suas características. Eu quis te conhecer e quanto mais te conhecia, mais queria ter a sorte de te ter. Não deu. Não deu ou eu desisti cedo demais? Espero que um dia você reconheça meus esforços e tentativas. Espero que um dia, sei lá, a gente se encontre pra falar do que poderíamos ter sido. 
O que vou levar de tudo isso é a certeza de que estou pronta pra me entregar de novo. Eu posso sentir novamente, e a culpa é sua. Talvez eu não saiba mais o que é paixão e me perca nas definições que as pessoas vivem tentando dar praquela sensação de borboleta no estômago e coração batendo mais rápido, mas vamos fazer de conta que me apaixonei. Paixão, pelo menos, rende poesia. O oposto do amor é a indiferença, o oposto da paixão é o quê? Se souber, me diz, preciso saber o que sentir por você, ainda é muito novo pra mim não me apaixonar um pouco mais a cada dia. Eu estava procurando um amor e só encontrei seu olhar e essa paixão que me arrebatou por um tempo, inflou meu balão de esperança e agora é só - ou tenta ser só - uma lembrança bonita de um jogo que não era jogo, mas desejo disfarçado em medo. Quis dançar um samba só com você, e dancei só. O meu samba agora é outro, tô indo embora do dramalhão que eu mesma criei. Mas posso ficar mais um pouco, é só seu olhar dançar comigo o samba que foi feito pra dançarmos a dois. Vem dizer que ainda é cedo, que eu estendo o ponto final e transformo em reticências, feito uma rede pra descansar no seu olhar só mais uma vez.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Conexão lado de cá - lado de lá.

- Oi, tô ligando só pra dizer que tô de volta ao lado de cá do oceano. E já que corremos o risco de um esbarrão numa dessas esquinas que a vida arranja pra gente se encontrar, preferi te avisar. Sabe, pra não ser como um fantasma que ressurge pra te assustar, mas talvez como um amigo que vale a pena reencontrar e recuperar, quem sabe. Do lado de cá tenho o mesmo endereço e número de telefone e isso é tudo. Ninguém suspeita da faxina geral que fiz por dentro e do tanto que mudei. Você saberia só de me olhar. Você sempre soube. Eu fugi, admito. Mas voltei porque fugir não adianta nada. O céu pode ser outro, mas a dor continua ali, esperando feito chuva a hora de bater na janela e te prender dentro de si mesmo. Fugi de algo que eu não sei o que é e voltei para encontrá-lo, pra lutar com ele, retirar de uma vez essa máscara de covarde. Voltei pra encontrar o motivo da minha fuga e excluí-lo de uma vez da minha vida ou abraçá-lo, caso ele tenha seu endereço. Tô com sede de você. Só queria dizer que te quero por perto. De qualquer forma. Podendo beijar teu pescoço e segurar tua mão a qualquer momento ou mantendo o limite da amizade. Contanto que seja você, aceito as condições e implicações. Senti saudade. E essa foi a palavra do nosso idioma que mais ensinei do lado de lá. Talvez seja a mais bonita, você não acha? Me perdi com tudo o que aconteceu e fugi, agora só queria me redimir. Te dizer que se ainda fizer falta minhas piadas, minha companhia ou o meu jeito desengonçado de te abraçar gigante, eu tô aqui. Enfim do lado de cá. Se você ainda quiser me resgatar, como disse naquelas cartas que nunca respondi, tô aqui. Culpado, atrasado e arrependido. Saudade, pequena, dói. Fugir, morena, não adianta. Me liga um dia desses, te trouxe presentes e me dou de bandeja, se você ainda quiser tratar minha inconstância. Perdão por ser assim tão inconstante, perdão pelas cicatrizes, perdão porque sei que manchei a imagem bonita e meio boba que você tinha de mim. Perdão, mas preciso de você. E te amo. Mesmo que você ache que eu desconheço o significado de tudo isso. O significado é você, descobri.

- Engraçado, você diz que saudade talvez seja a palavra mais bonita e, pela primeira vez, me surpreendo discordando. Não é mais, descobri outras. É, mudei demais e não te contei. Minha palavra favorita pode ser liberdade, agora que eu descobri o que significa. Sabe, você fugiu e eu, sem saber para onde ir, resolvi ficar. Me coloquei na frente de batalha e deixei todo o amor que não pôde acontecer e toda a saudade e toda a dor e todos os planos que ruíram, me acertarem com força total. Preferi ficar e receber todos os golpes de uma vez e assumir que apanhava, do que fugir e receber socos e pontapés em doses homeopáticas. Sofre mais quem apanha de uma vez só ou quem parcela a dor em prestações? Se você ligasse há, sei lá, uns meses, eu correria pra te cuidar e nos sarar. Sem pensar duas vezes. Mas agora, ó, pulsos livres, tornozelos livres: nenhuma algema ou bola de ferro daquele sentimento me prendendo. Descobri que liberdade existe no dicionário e tô bem feliz, obrigada, descobrindo seu significado a cada dia. Tô levantando do chão e sacudindo a poeira do meu coração, tô indo muito bem nisso tudo pra te aceitar de novo, pra correr o risco de uma rasteira. Não quero o que quero, quero o que preciso e, meu bem, não preciso de você. Não mais. Eu nunca arredei meu pé daqui, você sabe, poderia até citar aquela canção que diz que eu estava aqui o tempo todo e só você não viu, mas não vou citar. Eu estava aqui e você viu. Ponto final. Te enviei sinais de fumaça, me preocupei, te envolvi de bons pensamentos e preces a seu favor. Em silêncio, te dei oportunidades e vi até onde você ia. Até onde você foi? Até seu próprio umbigo. A liberdade me ensinou que não é correto mover céus e terras por alguém que não move nenhuma agulha por você, triste, né? Então é isso. Por hoje, não quero mais nenhuma parte de você, quero o que preciso e você nunca soube ser. Quem sabe um dia a gente ria de tudo isso e estejamos do mesmo lado? Não hoje. Hoje, você está do lado de cá, mas eu não. Tô do lado de lá. Em sentindo oposto e direção contrária à sua. E ainda tem um oceano nos separando. Quem sabe um dia a gente consiga superá-lo. E se a gente se afogar de vez, ao menos saiba que um dia seu amor teria sido uma espécie de salva vidas. Tenho saudade também, claro, mas é só um adereço. O carro chefe é o amor próprio. Não quero nenhuma parte de você, porque me custou muito caro conseguir me livrar de todas elas. Não troco minha liberdade pela sua prisão. Quero o amor que liberta. Mais do que manchar, você jogou fora a imagem que eu tinha de você e reconstruí-la é impossível. Queria continuar te admirando, mas nem isso consigo mais sentir. Tô livre, eu disse. Enfim livre de você e de qualquer sentimento que inclua nós dois. Indiferença, talvez essa seja a palavra. Um beijo e boa sorte. Quem é mesmo você?

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