segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Quadrilha.


   João amava Teresa, era dela seus sonhos mais bonitos e ilusões mais doces. Era ela o destino de suas preces, o encontro de seus desejos, a personificação daquele tipo de amor que ele só havia ouvido falar. Mas Teresa, bem, Teresa achava estar em Raimundo, que nunca a olhou com devoção, a paz que tanto precisava. Queria que Raimundo e sua inconstância fossem a razão das suas noites de sono desperdiçadas, que fosse dele a voz do "bom dia" de todas as manhãs chuvosas e que seu peito batesse mais rápido no canto do pescoço dele. Mas Raimundo queria o colo quente de Maria, queria que sua inconstância sossegasse ali, e não causasse insônia em ninguém; queria esquecer sua vida de inconstância e aventura, a vida que fizera Teresa se apaixonar, e encontrar a calmaria de navegar ao lado de uma pessoa só por todos os mares e abraços. Teresa amava a parte de Raimundo que ele não suportava mais, Maria não amava Raimundo, nem sua inconstância nem sua vida em montanha-russa; Maria sonhava em ser a inspiração das rimas pobres de Joaquim, queria a simplicidade de seus acordes e o silêncio daqueles olhares que diziam tanto. Maria queria ser a musa de todas aquelas canções, ser a moça que fizera aquele coração cantar, ser do tamanho exato do sonho daquele rapaz de coração simples, voz bonita e rimas pobres. Mas aquele rapaz, tão simples, só e dependente, queria a independência de Lili. Joaquim amava o vento de liberdade que passava por ele sempre que Lili se aproximava; amava seus cabelos curtos mal penteados; sua bagunça interna revelada também no seu jeito externo, naquelas unhas roídas, no jeans desbotado, no seu tênis rabiscado. Joaquim queria a descrença de Lili no amor, sua independência, sua felicidade em estar só  - e sã. Mas, só e sã, Lili não amava ninguém.
   E porque o amor tem dessas coisas, porque talvez o que a gente procure não seja bem o que a gente precisa e porque a gente nem sempre sabe do que realmente precisa, essa quadrilha não se resolveu. Porque quando amamos alguém transformamos todo o resto do mundo em preto e branco e porque nenhum deles foi capaz de olhar para o outro lado da rua e de colorir e descobrir o olhar que era dedicado em segredo, a quadrilha terminou em solidão. Porque chances não foram dadas, porque oportunidades foram desperdiçadas e porque atitudes não foram tomadas, ninguém sabe o que poderia ter acontecido. Por que o amor tem dessas coisas? Vezenquando, o amor vira quadrilha. E quando o amor vira quadrilha, a solidão vira o compasso da dança.

"João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história"
(Carlos Drummond)

7 comentários:

Gabriela Freitas disse...

Que texto lindo, Nicole, adorei o jogo que você fez com o poema do Carlos Drummond, parabéns eu adorei.
Não podemos eixar o amor virar quadrilha, ficou incrível mesmo.

Fer Castro disse...

O Drummond que me desculpe, mas a moça conseguiu coreografar a Quadrilha bem melhor. Linda sua percepção!!

Amanda Arrais disse...

"Joaquim queria a descrença de Lili no amor, sua independência, sua felicidade em estar só - e sã. Mas, só e sã, Lili não amava ninguém."

Daqui a pouco Lili entra nessa quadrilha também, todo mundo entra. E essa abordagem das palavras de Drummond foi fantástica. É a metáfora mais correta, o amor parece uma série de desencontros..

"Vezenquando, o amor vira quadrilha. E quando o amor vira quadrilha, a solidão vira o compasso da dança."

Tu sempre dizes tudo, Nicole. Lindo lindo!

=*

Emilie S. disse...

Drummmond. Gosto tanto dele.

sabe que essa quadrilha seria tão somente resolvida se as pessoas passassem a notar o que está bem do seu lado,debaixo do nariz.

Danielle Eloi disse...

Lindo, uma graça esse texto.
Assim é o amor, nos deixa cegos para todo o resto...
Por isso nos faz sofrer.

Ana Flávia Sousa disse...

"Vezenquando, o amor vira quadrilha. E quando o amor vira quadrilha, a solidão vira o compasso da dança."

Depois dessa adaptação do poema do poderoso Drummond, essa chave de outro pra fechar!

Apaixonei!

Luiza disse...

Que bonito. Acho bacana esse poema do Drummond, onde feliz fica quem nem estava na história, já que os outros não souberam dar uma chance a história alguma. Dorei moça, o ultimo parágrafo ficou ótimo,beijo.

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