sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

De volta pra casa.


Oi, amor, são três horas da manhã no fuso horário dessa cidade, a terceira por onde passo em pouco menos de um mês. Tô olhando pela janela desse quarto improvisado de casa e pensando no que estou fazendo aqui. Talvez eu tenha errado ao abandonar tudo pra viajar o mundo, mas quem é que pode me culpar? Quem nunca parou pra pensar nos sonhos que ficaram pra trás e de repente tentou recuperá-los? Você já parou pra pensar no que realmente queria da vida? Se alguém te dissesse pra fazer um pedido, você desejaria aquilo que estava vivendo no exato momento da pergunta? Eu me perguntei isso naquela noite chuvosa, enquanto você dormia e eu arrumava as malas pra partir. Você não pode me culpar. Em algum momento da vida, todo mundo para pra rever suas escolhas, pra pensar no que queria ser e no que se tornou, pra retomar a coragem e realizar aqueles sonhos que a gente vai deixando pelo caminho por falta de tempo ou disposição, tanto faz. Alguns escrevem livros, outros largam um grande cargo em troca do emprego dos seus sonhos, outros viajam o mundo.
Eu sempre achei que viajar o mundo seria a forma de me encontrar. Desde garoto, venerava aqueles caras que viviam com seus mochilões nas costas e esbanjavam independência. Queria ser assim quando crescesse, eu dizia todas as noites antes de dormir e em todos os meus aniversários antes de assoprar as velas. Então eu cresci, e me formei na faculdade, arrumei um emprego estável, e te encontrei naquela tarde de verão. Não era esse o meu sonho, entende? Essa era a vida de outra pessoa, não a minha. Eu não planejei que acontecesse assim. A vida me surpreendeu, e só hoje eu vejo que eu não sabia o que, de fato, precisava.
O garotinho que sonhava em rodar o mundo, sem mapa, sem telefone e sem saudade, cresceu. E acabou descobrindo na marra, que mesmo que a gente tenha o mundo inteiro a disposição, tem sempre uma noite fria em que a gente fica sem ter pra onde ir se não tiver um lugar, uma pessoa ou meia dúzia de sorrisos pra chamar de lar. De nada me adianta viajar o mundo e ter uma bagagem cheia de lembranças, se eu não tiver alguém pra dividir, pra rir comigo das cenas inusitadas e admirar todos os cartões postais das cidades em que estive. Abandonei o que tinha apenas pra descobrir que tinha tudo o que precisava: você. Alguém que se importa comigo, que deita ao meu lado e estende a mão, que fica em silêncio quando preciso de solidão. Eu não preciso do mundo enquanto eu tiver você. Tudo o que eu preciso está aí: o nosso apartamento decorado com nossas cores e do nosso jeito; a mulher que não estava nos meus planos, mas soube chegar e fazer de conta que sempre esteve aqui; as ruas que a gente já conhece tão bem. Essa cidade é linda, mas é vazia sem você, sem a nossa vida, sem os sonhos e as histórias que a gente inventa por onde passa. Eu posso ser feliz aí, com os pés no chão e fixos num lugar, se esse lugar for com você. Eu posso viver nossa vida com um sorriso no rosto e responder a todos os que me concederem um pedido, que o meu único desejo é que a gente se eternize. Eu posso, sim, sobreviver a tudo o que me assusta, se no final do dia você estiver lá pra me ouvir, pra inventar apelidos pra essa gente chata que aparece no caminho ou desenhar com canetinha um sorriso na minha mão. 
É, morena, ainda não tá tudo bem, mas vai ficar, eu prometo, confia em mim mais uma vez? Tô voltando pra casa, tô voltando pra nós dois, tô voltando pro meu mundo e pra viagem mais alucinante que posso fazer: ficar com você até o fim. Meu lar é aí, meu norte é você. O seu farol já aponta na beira da praia e indica pra onde eu devo voltar. A saudade é grande demais, amor, tô voltando pra casa. 

Um beijo, do teu viajante, do navegador dos teus mares, do cara que embarca no primeiro voo em direção à vida que é melhor do que qualquer sonho. 
Até amanhã, meu amor.

"E hoje eu sei
Sem você sou pá furada.
Ai! não me deixe aqui
O sereno dói
Eu sei, me perdi
Mas ei, só me acho em ti.
(...)
E desse engodo eu vi luzir
De longe o teu farol
Minha ilha perdida é aí
O meu pôr do sol."
(Los Hermanos)

2 comentários:

Luiza disse...

Que bonito moça. Não é mesmo o nosso sonho? Ter alguém que se viajar, acabe descobrindo que o mundo, na verdade era onde a gente estava? Que cidade bonita é aquela por onde andamos juntos, felizes.
Nem todos voltam por causa da saudade e nem todas esperam. Beijões.

Lariissa disse...

É, de que adianta você viajar o mundo, viver momentos alegres ou até mesmo triste se não tiver alguém que você ame ao seu lado pra compartilhar cada momento?
lindo texto! gostei mesmo :)

beijos
Leitora nova.

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