sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Branca.


- Ô Branca, acordei você? Desculpa, vai. Vira pro lado e dorme mais. Me deixa aqui, te olhando. Tô aqui pensando: já escreveram tanto por aí, já tantas morenas inspiraram canções, e você, minha Branca? Não, não é que te esqueceram, é que você tava guardadinha pra mim. É como se todo mundo fosse uma música em potencial, esperando só alguém pra compor, reparar nos traços, na cor, no jeito bonito de dormir, e transformar enfim em canção. Eu te achei, Branca. E te compus. E te contei pro mundo. Sorri pra mim, Branca. Não, não sorri, vai dormir mais um pouco, vai, desculpa se te acordei. Mas é que você é tão bonita assim, Branca, sabia? Enrolada nesses lençóis que tentam roubar tua cor, com esses olhões que não sabem a cor que têm e seus cabelos pretos esparramados pelo travesseiro. Não, não prende o cabelo, Branca. Ou prende, vai. Deixa aquele caidinho do lado, isso. E aquele outro lá atrás, perto da nuca, assim. Tá linda, Branca. Minha Branca. Ah, Branca, se você soubesse como é bom te ver assim, como é bom te ter por perto, como é bom acordar com você. É tudo céu limpo com você. Branco no branco. Assim. Não tem sujeira, não tem mau humor, não tem nuvem negra, não tem espaço pra mancha de café. Não dá pra explicar, Branca. Só dá vontade de repetir teu nome o tempo todo, e gravar na mente e me convencer de que você está mesmo aqui: amanhecendo comigo. Ah, Branca, quero todo dia um amanhecer com a cor desse teu olhar. Quero acordar com você. Quero me ancorar em você, meu amor. Deixa eu ficar? Não te acordo mais assim, prometo. Eu só quis aproveitar você e te fazer uma cantiga. Não quero dormir, não, Branca, só quero te olhar. Meu sonho tá aqui, não preciso dormir. Não quero te perder de vista nunca mais, esses meus olhos gostaram de você. Ô Branca, desculpa se te acordei, é que acordei com você e nunca mais dormi. Tenho medo, Branca, de perder algum momento teu. Desculpa, amor, mas se te acordo é porque quero sonhar junto contigo. Dorme, Branca, que no silêncio te canto uma canção. Você virou poesia, amor, sorria.

"Branca,
Acordei você, nunca mais dormi
Nem tô querendo mais
Eu tô querendo te olhar."
(Branca - Palavrantiga)

Vale a pena o clique.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Ensaio sobre ele.


Aqui, tão longe, todos esses carros e suas luzes me levam pra você. Todos os caminhos, todas as esquinas, todas as ruas e bifurcações também. Cada pedaço do meu dia, cada piada ruim, cada acontecimento importante ou não, puxam meus pensamentos pela mão e os levam até você. Não tem jeito: só sei pensar em você. Em te encontrar, te contar, te reconquistar. E não importa o que vão pensar, se vai chover ou não amanhã de manhã, se esqueci o guarda-chuva, se vou chegar atrasada, se não vai dar tempo de fazer tudo o que planejei: ter você me acalma, me ensina a ser leve e rir dos imprevistos. Eu te tenho e você me tem, o resto do mundo sai de cena pra nos ver passar. Tem tudo pra ser clichê, mas não é. É real. Tão real como tudo o que você diz, faz, move, pra me ver sorrir. Parece uma história que inventei, mas não é, é a história que a gente escreve, de mãos dadas. E é poesia. Você me poesia, me inspira, me rodopia no ar e o que sobra é só essa menina que resolve acreditar em nós dois mais uma vez e sempre. Que se rende aos seus elogios, à sua entrega, ao seu amor. E acredita que é possível amar assim, que é possível tocar alguém assim: lá no fundo. Você conseguiu, amor, você chegou lá. Ou aqui em mim. Lá no fundo. Onde eu não achei que você conseguiria. Feito flor, você me tira as pétalas, uma a uma, me descobre, dia a dia, e encontra o bem-me-quer. É bom te ter aqui. É mais fácil se você está por perto. Mais bonito também. É bom, amor, é bom te ter tão perto, por perto, tão certo. Você é, de um milhão de jeitos, maneiras e sorrisos diferentes, a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Você me aconteceu e acontece em mim todos os dias quando mostra o quanto se importa e quão diferente é dos outros caras lá fora. Você acontece na minha vida todos os dias e eu não quero que isso tenha um fim. Seja lá o que for, fique. Traga de uma vez o que ainda falta, coloca de uma vez por todas o seu perfume pela casa, se acomoda nesse coração que é mais feliz porque te encontrou. Fica aqui comigo, com essa moça que é meio mau-humorada e sentimental, adepta do imprevisível, mas apaixonada por você. Vale a pena cada segundo contigo, cada briga por nada, cada brincadeira que te deixa enciumado, cada brincadeira que me deixa irritada, cada risada e suspiro e beijo e sorriso e olhar e lágrima que sempre é de felicidade. Não é fácil, ainda tenho que vencer tanta coisa pra sentir tudo isso que eu sinto por você, mas não importa. Você me dá forças, me ensina, me dá a mão e me leva pelo caminho que a vida tem pra nós dois. Você me poesia, amor. Me enche de versos, de canções já esquecidas, de sonhos novos e bonitos pra sonhar. Somos poesia. Versos escritos por alguém que sabe o que faz; rimas que combinam o meu jeito torto de amar e me doar com esse seu que é perfeito pra mim. Feito um verso, quero rimar com você. Feito sua eterna bailarina que não sabe dançar: por onde for quero ser seu par.  

"Nem vi você chegar
Foi como ser feliz
Ainda faz um tempo bom
Pra desperdiçar comigo
Podemos enfeitar domingos."
(Cícero - Ensaio sobre ela)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Como vai você?


Não queria falar sobre fugas. Não hoje, no seu aniversário. Aliás, você mandou o convite? Pois é, ele não chegou. Essa carta também não. Deve ter se extraviado no medo, se perdido nas bifurcações que insistem em aparecer no nosso caminho. Mas fica tranquila, eu não ia mesmo poder ir. Reunião de família, sabe? Inadiável. Piadas de tios, vovó apertando minha bochecha e ainda perguntando por você, primos me chamando pra jogar vídeo game e ir "te-esquecer-um-pouco". Como se a gente pudesse escolher. Ou, sei lá, programar a mente, mudar de canal, sintonizar alguma coisa mais animada do que esse nosso passado revisitado que fica rondando minha mente. Não vou jogar vídeo game e te esquecer um pouco. Se eu for jogar vídeo game, vou lembrar das vezes em que você ganhou de mim e das outras vezes em que eu te deixei ganhar. É esse o problema, vou lembrar de você mesmo quando for pra te esquecer um pouco. Não vou. Vou continuar aqui, na mesinha da varanda, escrevendo seu cartão de aniversário imaginário, que não vai chegar aí do outro lado do mundo porque eu não sei onde fica. 
Sua rua tem nome? Seu nome consta na nova lista telefônica? Lembra de mim? Aquela promessa de nunca-mais-se-perder-de-mim ainda faz algum sentido nessa sua cabeça bagunçada? Não precisa manter contato nem me desejar coisas bonitas em datas especiais. É só, sei lá, avisar que tá viva. Só me diz: como-vai-você? O que você tem feito? Arranjou um emprego melhor? Tirou o aparelho dos dentes? Terminou a faculdade? Perdoou aquela sua amiga que pisou no seu pé? Mande notícias quando puder. Saudades não deve ser a palavra certa, mas deixa ser. Pede pra alguém me avisar, se ainda doer demais olhar no meu olho. Manda notícias. Tô aqui: na varandinha da vó. A casa tá cheia e tem seu bolo favorito, que a vó fez pensando que você viria. 
Tadinha da vó, sente sua falta. Você esqueceu de avisá-la que iria embora. Sobrou pra mim. Sobrou esse sorriso murcho que dou toda vez que ela pergunta quando é que você vai aparecer aqui de novo. Não digo que nunca mais, afinal, quem é que pode garantir? Pode ser que sua cabeça dê outro giro, desses que te levaram pra onde você está, e você passe aqui. Ou então, no meio da correria que é sua vida, pode ser que você precise de um guarda-chuva emprestado ou usar o telefone. Digo pra vó que um dia você vem. Que eu vou te convidar. E ela diz pra eu te pegar em casa e trazer pra cá. Logo eu, que nem sei que cara tem o outro lado do mundo. Mas imagino que esteja bem mais bonito contigo por aí. É que você tem dessas coisas: tornar bonito por onde passa. Além desse lugar bonito que certamente é, como são as coisas aí onde você está? Tem um mercadinho com seu chocolate preferido e uma barraquinha qualquer onde você possa improvisar um jantar? Os ônibus passam aí perto? Me diz, só pra eu ficar tranquilo, sabendo que você está bem, num lugar que você possa chamar de lar. Me conta dos teus novos amigos, do que você tem feito nos finais de semana, dos filmes que chegam primeiro nos cinemas daí. Me diz, pra eu não mentir pra vó quando ela pergunta como vai você e eu digo um "bem" mal ensaiado. 
Você não achou que seria fácil, achou? Que simplesmente ia sair da minha vida, fugir pra longe, e ficar em paz? Não é assim que funciona. Não se muda uma vida e depois despede-se como se nada tivesse acontecido. Não se escreve uma história e depois rasga-se os papéis e faz-se de conta que história nenhuma foi contada, escrita, vivida. Não se deixa de ser importante assim, de uma hora pra outra, só porque se foi para o outro lado do mundo. Você ainda é parte da minha vida, e não importa onde você tenha me colocado nessa sua nova vida, daqui de dentro você nunca saiu. Tá aqui, feito tatuagem. Você e seu espírito aventureiro e inquieto. Você e seu coração que um dia bateu mais rápido ao me ver. Você e essa sua mania de ser a melhor pessoa do mundo de um milhão de maneiras erradas. 
Feliz vinte e poucos anos, meu bem. A vó mandou um beijo. Mande notícias. Tô aqui: na varandinha da vó. Não vou jogar vídeo game e te-esquecer-um-pouco. Vou ficar aqui. Esperando notícias. Te desejando coisas boas. Pensando sozinho em como vai você e o que você desejou quando soprou as velas. Se fosse a minha vez de soprá-las, desejaria você aqui. Ou que o outro lado do mundo fosse aqui na esquina. Ou que lar fosse alguma coisa parecida com o meu abraço, pra você nunca mais precisar sair para procurá-lo pelo mundo. Feliz aniversário, meu amor, e cuidado com o que você deseja.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sempre tem gente pra chamar de nós.


Ainda hoje, enquanto ando pela casa, descubro partes de você que ainda não mandei embora. Ainda tem nós na lixeira do computador - e naquela pasta escondida. Nós, no restinho do teu suco na geladeira. Nós, na cortina azul que você escolheu. Jogos de amor são mesmo para se jogar, e é isso o que importa. O troféu é sempre um só: um tipo novo - e único - de "nós" circulando por aí. Não é sobre ganhar ou perder o jogo, ganhar ou perder você, é sobre jogar e viver você. É sobre termos sido nós, assim, do nosso jeito desajeitado. Cheios de dúvidas, sonhos, planos que nunca saíram do papel, interrogações respondidas na mesa do café. Nós, com nossa TV sem som, pra termos tempo de sobra pra conversar; com nossa mesa de jantar que sempre cabia mais um; nossa rede particular estendida em nossos sorrisos. Éramos nós. Lunáticos, irônicos, inéditos, incompreendidos. É isso que vale. É isso que sobra: o que fomos nós. Seja lá como for, seremos esse nós. Pode ser que alguém supere, mas nunca vai ser igual.
Nem que seja em tempos verbais passados ou fotos rasgadas na lixeira do teu quarto: em algum lugar existe "nós", assinado com a tua letrinha perfeita e a minha desengonçada, circulando pelos ares em direção ao lugar para onde vão os balões sem dono de todos os nós desfeitos pelo mundo. Éramos nós dois e agora somos nós: eu, você e todo o resto do mundo que vaga pela casa num sábado a noite sem ter um número para discar. Eu, você e todos aqueles que se arriscaram nesse jogo e saíram de lá com essa ligeira sensação de falta, um aperto no peito e uma caixinha de poá recheada de lembranças. Em algum lugar, nem que seja na cabeça daquela sua amiga desmiolada, ainda somos nós. Porque cada história de amor é única e a nossa é só nossa, ponto final. 
Fim de papo, fim de jogo, cada um pro seu lado do campo - da vida. Daqui a pouco começa de novo, essas coisas vivem acontecendo. Agora mesmo tem alguém se apaixonando e alguém tirando seu time de campo. Acontece o tempo todo. Ainda sinto aquele vácuo no peito, latejando com o som do teu sorriso,  que me faz doer quando penso em encontrar alguém, mas vai acabar acontecendo. Dói porque não vai ser você. E ainda não consigo pensar em alguém melhor que. Mas há. Há o mar, não há? Vou mergulhar. Junto com os peixes que você jura que tem. Não pense que te amo, mas também não que te odeio: apenas pense em mim. Sozinho, ainda meio amassado depois de tantos nós desfeitos, do tanto de nós desfeito. Sozinho, enumerando faltas e contabilizando seus últimos sorrisos, perdidos em motivos pra ficar ou ir de uma vez. Sozinho, porque você foi. 
Ainda faz falta o teu sorriso, mas esse é só um clichê que eu esqueci de te dizer. Bonito mesmo, e original como nós dois, seria dizer que ainda faz falta a unha engraçada do teu mindinho esquerdo; abrir minha geladeira e encontrar o suco que odeio, mas que você adora; te ligar todo dia 17 às 21:04 pra comemorar com exatidão o momento em que nos encontramos naquele beijo que vai durar pra sempre só enquanto lembrarmos daquele dia. Você vai fazer falta, morena, pequena, minha amada, ou seja lá como é que chamam os amores nas novas canções que você tem escutado e não me apresenta mais. 
Seja feliz, por nós dois, enquanto não posso ser sem você. Não se culpe, é só a vida: essas fatalidades vêm junto no pacote do plano de viagem por ela. Não sou o primeiro nem o último a ir. Tem um nós pra mim, e pra você. Não estamos sozinhos e nunca estaremos: sempre tem gente pra chamar de nós. Mas, por hoje, chega de nós pela casa. Nós? Câmbio, desligo.

"Tínhamos dúvidas clássicas
Muita aflição
Críticas lógicas
Ácidas não
Pérolas ótimas
Cartas na mão
Eram recados
Pra toda a nação
Éramos súditos
Da rebelião
Símbolos plácidos
Cândidos não
Ídolos mínimos
Múltipla ação 
 Sempre tem gente pra chamar de nós
Sejam milhares, centenas ou dois"
(Marcelo Jeneci - Por que nós?)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Só sei dançar com você.


Você apareceu do nada. Vou começar falando assim, e só não completo com "você mexeu demais comigo" porque ai vira uma música que fala sobre adeus, e não é essa que você me faz dançar. Mas você apareceu do nada. E me escolheu pra ser seu par. Você me tirou pra dançar e eu tirei toda minha armadura de medos pré-fabricados pra dançar com você. É que pra dançar e pra voar, a gente tem que ser leve. A gente tem que se desprender. Como eu me desprendi do que eu pensava pra olhar o mundo pelo teu ponto de vista. Você me tirou pra dançar e eu resolvi seguir seus passos, entrar no teu ritmo, ver no que aquilo tudo ia dar.
Um passo de cada vez. Um pra frente e dois pra trás. Um conforme o ensaiado, outro meio improvisado e desajeitado. Um pra perto, outro pra longe. Escorrego por um lado e me aproximo por outro. Passos de quem nunca dançou e de repente se vê bailarina. Eu, feito bailarina que nunca soube dançar, escolho as palavras mais bonitas e danço a dança de quem nunca arriscou um passo tão grande antes: ser teu par. Na chuva, no sol, quando o filme acabar, por onde quer que a gente vá: só sei dançar com você. Meio bailarina que eu nunca fui, meio bailarina que você me faz ser pra me encaixar na fôrma certa dos teus sonhos. 
Você me faz bailarina e eu aceito minha condição. Bailarina que dança com verbos. Bailarina daquelas caixinhas de música: você dá corda e eu danço. Você me chama e eu vou. E fico bem ao alcance das suas mãos, não fujo: prisioneira da caixa que me abriga e toca nossa canção. Bailarina de uma música só: a nossa. Prisioneira dessa dança que não precisa acabar e que eu só danço com você. Feito bailarina, feito moça apaixonada, feito aquela menina boba que encosta o rosto no teu e sorri feliz sentindo sua respiração e seu coração que não disfarça e dispara pra gritar que é meu. Eu aceito a responsabilidade, os riscos, a fe-li-ci-da-de. Eu aceito você. Você vestido do que você é. E me visto do melhor de mim pra te receber. E me faço bailarina, me refaço em você. Me apresento bailarina que só sabe dançar pisando em nãos e você segura minha mão e me ensina a dançar e dizer sim. Me mostra os passos e eu digo sim. Largo o mundo, os medos, as interrogações e seguro sua mão de volta. E fico aqui, não fujo. Não mais. E te digo que sim, moço. 
Sim, eu não sei o caminho, mas vamos juntos. Sim, eu não sei dançar, mas me ensina. Sim, eu não sei dizer, mas tudo o que eu quero é ser teu par. Sim. E não importa o que vem depois. Importa esse agora com você. Importa a gente ter disposição pra nunca mais parar de dançar. Sim. E não importa o que tem lá fora, a gente pode se esconder nesse mundo que a gente criou. E não importam as horas, a previsão do tempo, a programação da tv: importa só estar com você. Danço com você, louca por você: você-meu-par, você-sem parar. Só quero se for assim. Só sei dançar com você.

"Toda vez que eu errava cê dizia 
Pra eu me soltar porque você me conduzia
Mesmo sem jeito eu fui topando essa parada 
E no final achei tranquilo 
Só sei dançar com você 
Isso é o que o amor faz"

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A calma - e de onde ela vem.


Escolho uma música bonita, aciono o aleatório, deixo tocar e fico em silêncio, calo até os pensamentos, para ouvir o que a vida tem a dizer. Tem vezes que a gente fala com a vida, tem horas que é ela quem diz. Aposento a caneta e as folhas em branco que me convidam a escrever e fico quieta, parada no meu lugar te observando chegar. Não falo nada para não atrapalhar, não invento rimas para não te obrigar a rimar comigo, não uso verbos para não forçar uma ação. Somos só eu e você e nosso silêncio e todas essas coisas acontecendo ao nosso redor, através e apesar de nós. Somos só eu, você, e essa calma. A calma de ter um monte de coisas a dizer, mas não ter pressa nenhuma para contar. A calma que vem desse teu sorriso, que não me apressa, só me abriga e me diz que tudo bem, tudo bem não saber o que dizer, tudo bem não conseguir traduzir, definir, enquadrar o que se sente em algum padrão qualquer. Sem nomear emoções, sem estipular prazos, sem prever. Só o ir-em-frente da vida, só ela se revelando aos poucos, só a gente de olhar curioso descobrindo o que é que ela tem a dizer. 
E então ela diz, enquanto você brinca com minha mão e meus medos dançam balé dentro de mim, e eu estendo uma rede no seu sorriso e descanso ali. E a vida canta para mim, mostra de onde vem essa calma, e assina com o teu jeito bobo de olhar que me faz sorrir e dizer que vai-dar-tudo-certo-eu-posso-descansar-aqui. Faz de conta que o tempo não existe, que não existe a pressa, que lá fora não tem ninguém. Deixa essa calma permanecer, deixa eu descansar em você e não ter pressa para sair do teu ombro. Deixa o depois para mais tarde, deixa o inverno, deixa tudo-o-que-pode-dar-errado para depois do café. Se o depois não chegar é culpa nossa, se ele chegar também é. Culpados por culpados, vamos ao menos aproveitar. Aproveitar que a gente se esbarrou pela vida, aproveitar o esbarrão. A gente começa assim: com um esbarrão. Não como se fôssemos duas pessoas atrasadas indo em direção contrária por um corredor lotado, mas como dois caminhos que de repente se esbarram numa esquina ou dois estranhos que se esbarram nessa mesma esquina onde os caminhos se cruzam e um pergunta como quem não quer nada "para onde é que você vai?" e o outro diz "para o mesmo lugar que você". E eles vão sem pressa, em direção à calma que só o outro traz. A verdadeira calma vem daí: de saber que há alguém do seu lado e que ele não se importa com os vendavais. De saber que se houver vendaval, tem um sorriso que acalma. Se houver medo, tem um abraço que cala. Se houver solidão, tem um olhar que acolhe. 
Não dá para explicar e tira as palavras, mas não é guerra, é paz. É calma. É sorrir concordando quando  o aleatório toca e diz para a morena que tá tudo bem. Está. O coração acalmou, você chegou, a vida sorriu. Deixa assim como está, sereno.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Tira o medo para dançar.


Eu tenho medo de altura, de morrer de solidão, de gente que anda pelas ruas de cara emburrada. Eu tenho medo da televisão, medo das notícias dos jornais, medo de quem não ri. Eu tenho das ruas vazias sem você, dos dias nublados sem o teu sorriso que tem jeito de sol, dos outros abraços que não têm o encaixe do teu. Eu também tenho medo de cair, medo de errar o passo e acabar torcendo o pé, medo de construir um castelo e acabar descobrindo que ele era de areia. Mas me diz, como não ter? Você não é a única.
A moça descendo a ladeira com seu vestido vermelho, comprado justamente para esse dia, tem, e talvez o dela seja chegar lá embaixo e não encontrar ninguém, e ter que subir tudo de novo, sozinha, com os sapatos nas mãos, pés nos chãos, e maquiagem borrada pelas lágrimas. Mas olha ela, mesmo sabendo do risco, ela desce. Ela vai. Ela dá a cara a tapa pro que a vida preparou. Lá embaixo alguém a espera, mas ela ainda não sabe. E o homem no carro também tem medo. Ele foi, mesmo sem saber se ela chegaria lá embaixo, mesmo sem saber se valeria a pena ter se deslocado até lá. Ela desceria, mas ele ainda não sabia. E foi. E se encontraram. E decidiram se encontrar de novo. Porque deixaram o medo de lado. Porque deixaram o amor falar mais alto. Porque tiraram o medo pra dançar.
Tira o medo pra dançar você também, mostra pra ele a dança da vida, mostra pra ele que quem conduz essa dança é você. Me dá a mão, desce essa ladeira que eu te espero aqui embaixo. Não é como você sonhou, mas pode ser melhor, por que não? Pode ser uma nova cicatriz se a gente acabar tropeçando no caminho, mas pode ser o fim de todas elas se a gente acertar o passo. São chances iguais, mas vamos ver o copo meio cheio? Vamos cantar o amor ao invés do medo. O amor é uma caminhada de mãos dadas em direção à um precipício: você sabe que em algum momento vai ter que dar um salto, mas não sabe se voará ou cairá de cara nas pedras. É uma questão de decisão, e toda decisão requer coragem. A gente precisa dar o salto, já estamos na beirada e não tem outra saída. Você pode sair correndo todo o caminho de volta, mas vai viver sempre com um "e se?" martelando na sua cabeça de menina indecisa. 
Então vem, vamos pular. Deixa o medo pra lá, não deixa ele esterilizar nosso abraço, como disse seu poeta favorito, mostra pra ele que não importa se é o congresso internacional do medo, você nasceu para cantar o amor e vai escolher cantá-lo mesmo quando for difícil demais. Canta o amor que os pássaros ouvem teu canto e emprestam suas asas pro nosso voo. Canta o amor que o mundo atende teu grito e presta mais atenção no que vale a pena. Canta o amor que esse canto até o medo para pra dançar.
Tira o medo pra dançar. Deixa o amor repetir uma canção todos os dias. "Medo... e daí?" Você tem medo, mas e daí? Quem é que não tem? Você tem medo, mas e daí? Você é maior do que isso. Tira o medo pra dançar. Tira o medo pra dançar, comigo.

Congresso Internacional do Medo
"Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos deseros,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas."
(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A culpa é das estrelas.


Importante: esse não é um blog literário, eu não sou uma escritora de blogs literários e essa não é uma resenha. É só que... eu preciso falar. Eu, que tenho trauma de livros sobre doenças por culpa de um senhor chamado Nicholas Sparks e eu, que tenho certo pé atrás com livros muito comentados, fui elegantemente surpreendida por um moço chamado John Green. Não vou falar sobre o que é o livro, isso você pode ler aqui ou aqui, quero mesmo é falar sobre como nós somos mesmo granadas e sobre como a gente não pode controlar essas coisas, por causa das estrelas. Sim, a culpa é delas, culpem-nas!
Existe um momento no livro em que a personagem conclui ser uma granada, prestes a explodir e ferir todos os envolvidos com os estilhaços. É, seus pulmões não funcionam muito bem e podem parar de uma hora pra outra. Mas eu queria dizer pra Hazel que não é só ela que tem o privilégio de se sentir uma granada, todos nós somos. A gente vive se relacionando com todo mundo, fazendo promessas, gritando ao vento palavras como "sempre", "sem saber que o fim já vai chegar". O fim é um vilão sempre à espreita, a gente vai na esquina, toma um sorvete, dá uns abraços, faz de conta que é eterno e finge não ver, mas ele está lá. Doenças chegam, carros batem, aviões caem, tragédias acontecem, sim! lá vai granada explodir e deixar marcas, gente sofrendo, livros pela metade, ingressos nunca usados na gaveta. Mas existem tantos jeitos mais simples de explodir, de dizer chega e deixar tudo pra lá. Às vezes a gente muda de opinião, decide que não quer mais, simples assim e, bomba! Às vezes a gente precisa ir pra longe, outras vezes não tem mais combustível pra continuar com certos relacionamentos e, bomba! Somos granadas. Não tem como fugir de ser, não tem como fugir de conviver. 
E aí entra o Gus, ou o Augustus, pra fazer mais honra ao seu jeito de ser, e diz que não, a gente não pode mesmo escolher não se ferir nessa vida, mas a gente pode escolher quem vai nos ferir. É isso! Todo mundo algum dia vai explodir e nos machucar um pouco, explosões em diversas proporções vindas de todos os lados, não seriam nossos relacionamentos nada mais do que isso? É inevitável a decepção, mas a vida é um convite ao risco. A gente tem que se comprometer, a gente tem que ir. E aí a gente escolhe, alguém que tem um sorriso bonito, outro que sabe bem o que dizer pra te fazer sorrir, aquele que tem o mesmo gosto musical que o seu. A gente escolhe quem vai ser amigo da gente. Nesse caso, o máximo que as estrelas fazem é colocar as pessoas no nosso caminho, mas é a gente que escolhe quem vai ficar. A gente escolhe quem vai ficar e é um jeito mudo de dizer: eu aceito o risco de ser machucado por você, eu aceito sua explosão iminente, eu aceito caminhar por esse não saber que é a vida ao teu lado.
Hoje eu olhei pra trás e vi algumas pessoas que explodiram, mudaram demais pra que eu acompanhasse, e fiquei triste. Mas depois pensei que valeu a pena o que a gente viveu. Valeu a pena ter me machucado um pouco no fim, mas ter aproveitado muito mais o início e o meio. 
A vida, Gus, é sim uma montanha-russa que só sobe, mas quando fica alto demais a gente precisa ter alguém ao lado, pra segurar a mão e ajudar no grito da queda. O fim ninguém sabe, mas o durante é agora. Deixa que quando vier a explosão a gente sente a dor, porque ela precisa ser sentida, e depois a gente arruma um jeito de consertar o que sobrou. Não dá é pra se privar do início com medo do fim. O fim chega, mas a gente sobrevive, as estrelas dão as mãos, entram num copo e a gente bebe num lugar bonito com alguém que nos faz sorrir. Como vocês. Isso tudo é só pra dizer que foi uma honra ter meu coração partido por vocês, Hazel, Gus, Amigos e Amores de ontem.


E, sr. Augustus, se eu não consigo ler esse trecho sem chorar, a culpa é sua.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Segunda-feira.


Uma formiguinha perdida no meio do formigueiro que é a cidade grande, ainda lembro de você me dizendo isso enquanto eu te salvava e te mostrava o lugar do endereço rabiscado naquele papel. Era tudo tão estranho pra você que eu fiquei feliz por ter te encontrado, porque alguma coisa me disse que a gente nunca esquece aquilo que nos salva numa segunda-feira chuvosa. Te deixei naquele café, aonde você tinha uma reunião, onde a gente se encontrou tantas vezes depois: você naquela mesma mesa, olhando a janela, acenando ao me ver passar. 
A gente se encontrou e era segunda-feira. Então quer dizer que coisas boas também acontecem nesses dias, de onde saiu essa implicância com a segunda-feira?, eu queria perguntar pros rostos emburrados no ponto de ônibus. Por que tanto ódio, tanta preguiça de levantar e encarar as ruas? Será que eles nunca encontraram uma nota generosa na calçada, um olhar promissor na janela do prédio da esquina, ou um estrangeiro em terras estranhas precisando de salvação? Me dá vontade de implorar para que  parem de odiar as segundas-feiras, porque foi numa dessas chuvosas e preguiçosas que a gente se esbarrou. Cedo demais pra estar acordado, cedo demais pra tentar me apaixonar de novo, ainda em tempo de perceber que coisas boas também acontecem no primeiro dia útil da semana.
Só agora eu percebo que nós fomos uma segunda-feira em movimento. Aquele dia em que ninguém acredita, mas que vezenquando resolvem dar uma chance, trocar o pé ao acordar e sorrir pro despertador. Então a gente resolveu acreditar na loucura que éramos nós, era o nosso trato. Só que nunca foi tão fácil assim. Nunca foi fácil entender você e a bagagem que você trouxe pra essa cidade. Eu queria que você fosse um daqueles filmes que ficam semanas em cartaz, então eu poderia ir repetida vezes àquela sala de cinema e rever todas as cenas da história que seria sobre você, sobre a cidadezinha pequena onde você nasceu, o colégio moderno em que estudou, a faculdade que você largou pela metade e depois continuou. E sobre aquilo tudo que se conta nos filmes, sobre seu primeiro amor, o amor que você largou quando precisou vir pra cá, o sonho que você trocou por um maior. Já vejo a sinopse, moço do interior chega na cidade grande e abala uma vida que achava que estava dando certo. Engraçado dizer abalar e imaginar você e seu jeito calmo, abalando alguma coisa. Como é que pode um paradoxo tão grande? Só você consegue. 
Se eu pudesse te descobrir como se descobre os segredos de um filme, assistindo-o, eu já o saberia de cor. Mas não é assim que se conhece uma vida. Uma vida é mais do que o cabe em poucas horas e muitas cenas. Uma vida é mais. Você é mais. Muito mais do que só aquilo que eu descobri e achava que sabia. Eu nunca soube que toda sua calmaria talvez não fosse calmaria, mas fosse tudo parte do seu voo, do seu plano que incluía você e o céu enorme dessa cidade que você ainda aprende a conhecer. Eu te encontrei naquela segunda-feira mal planejada e você mudou minha vida. Eu te encontrei naquela segunda-feira mal planejada, você mudou minha vida, mas eu não movi nem uma palha na sua, porque o céu era maior, a cidade era maior, a possibilidade de tudo era tão maior do que eu. Você foi um furacão, eu fui a garoa no início de uma manhã, tão fina que não faz necessário um guarda-chuva, só incomoda um pouco, refresca o ar, e logo passa, quase sem deixar o chão molhado, como prova de que aconteceu.
Você mudou meia dúzia de segundas-feiras e agora quando passo por aquele café a gente nem se olha mais. Precisei te deixar ir, eu não estava nos seus planos e você não soube redesenhá-los. Abro mão de você como uma criança abre mão de um balão para vê-lo no céu, fascinada pela beleza do que foi feito pra voar. Pode voar, eu posso, daqui, ao menos olhar pro céu e sorrir. Eu sei, ao menos, aonde te encontrar. É só olhar pro céu, pra mesa do café, pro meu co-ra-ção. É só olhar pra cima. Pra dentro. E te ver. E sorrir. E então já é segunda-feira novamente. E as coisas podem acontecer, por que não?

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Eu vou.

Vou escrever uma coisa bonita e não vai ser sobre você. Vou desenhar seu rosto e não vai ter aquele traço pelo qual me apaixonei. Vou te encontrar na rua e não te reconhecer; vou te encontrar na rua e não vai ser você. Vou te desconfigurar, traço por traço, letra por letra, lembrança por lembrança. Vou te decompor e te colocar em caixinhas, junto com tudo aquilo que você nunca me deu. Vou te esconder no sótão, e me livrar de você numa daquelas manhãs de faxina. Aí vou sorrir. Vou sorrir livre de você, leve sem você.
Vão tentar entender esse meu sorriso, vão procurar motivos escondidos nos meus olhos que se encolhem quando sorrio, pode ser que me chamem de louca, mas vou estar ocupada demais sorrindo por aí e nem vou perceber. Eu vou sorrir sem você, por você, pelo que a gente foi e poderia ter sido. Seja aquele sorriso fácil que vem junto com o vento que balança os cabelos ou aquele sorriso arrancado a fórceps, que nasce rasgando as cicatrizes que a dor deixou. Sorriso verdadeiro ou pintado com canetinha vermelha, vou sorrir.
Vou sorrir porque a gente acaba aprendendo no pôr do sol de um dia bom que serve de metáfora pra vida, que mesmo o que foi bom precisa acabar para que um novo dia nasça e tenha a chance de ser melhor. Talvez eu chore um dia de saudade, ou de medo, ou só de vontade chorar, mas depois vou sorrir mais bonito, e aí vou chorar de rir. Talvez eu caia no chão e algumas notícias inesperadas me golpeiem numa tarde nublada, mas depois vou levantar sorrindo, porque a gente sempre arruma um jeito de ser mais forte do que era.  Talvez eu te escreva uma carta, ou mande lembranças, ou nem lembre mais seu nome completo. Eu vou dançar quando chover demais, cantar quando doer demais, sorrir quando viver for demais pra mim. 
Vou sorrir porque a gente se encontrou, e se perdeu porque assim tinha que ser. Vou sorrir de esperança e vou correr em frente, porque a vida há de ser bonita.Vou sorrir porque vou ter certeza de que certas pessoas se encontram só pra ser promessa. Vou sorrir quando uma dessas promessas esbarrar o olhar com o meu e me distrair de você. Vou estar distraída de você pra que outro me atraia. Quero dançar com outro par, quero me vestir com um abraço que não esteja tão fora de moda quanto o teu. Quero inaugurar meu novo amor, meu novo eu, a nova roupagem que meus sentimentos ganharam no último verão. 
Vou ser feliz, você vai ver. Tão certo quanto um mais um são dois, eu vou. Eu voo.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Pelo interfone.

Acho que você podia ir lá. Aproveitar que é parte do teu caminho, que inevitavelmente essas ruas e esquinas e sinais te levariam até aquele endereço, e tocar a campainha, por que não? Você pode levar algumas conversas no bolso, alguns sorrisos que ele ainda não viu, ou só a saudade, que é mesmo tudo o que vale a pena. Você pode dizer sobre como foi bom encontrar com ele quando você menos esperou, sobre como pareceu sem fim aquele dia em que vocês dançaram um ritmo improvisado, sobre como foi bom poder ser você mesma e dançar errado sem que ele se importasse, mas sorrisse e te procurasse e te levasse com asas prum mundo distante daquele barulho. Não faz muito sentido ensaiar verdades, na hora elas vão sair de outro jeito, vai dar um nó na garganta e você vai esquecer o que ia dizer, mas diz mesmo assim. Conta pra ele aquele teu segredo bonito, dos teus medos bobos, da canção mais bonita que você nunca ouviu e está pensando em escrever com ele. Diz pra ele não se assustar, porque o que é bom invade nossa vida assim, toca a campainha num dia inesperado e pede pra entrar. Não precisa falar sobre o tempo, sobre o que passou na tv, sobre o que é ruim. Deixa pra depois, se o depois não chegar não vai fazer falta, você já vai ter dito o que interessa. É, pode ser que o depois não chegue, porque a vida as vezes dói. Pode ser que ele não saiba escutar, que não esteja em casa ou que se finja de surdo. E aí vai, vai machucar. Vão te dizer clichês sobre o quão importante é você ter dito tudo, ter tentado, ter dado a cara a tapa, mas não vai adiantar. Vão te dizer que viu? nem doeu, mas lá no fundo você sabe que doeu sim. Sempre dói um pouco quando a gente se rasga por dentro pra dizer pro outro o que ele mudou. Mas não deixa as possibilidades cruéis te assustarem, a esperança tem que ser maior do que o medo, viu? A esperança de que ele abra o portão e te mande subir, tem que ser maior do que o medo de que ele não esteja em casa pra você. Vai lá e diz logo, sobre o tom que mudou quando ele apareceu, sobre a primavera que muda o ar sempre que ele chega, sobre o que vocês poderiam ser se. Fala pra ele que o amor é bom e que seria bom estar com ele nessa estação que vem aí, vocês podiam se inaugurar juntos, em homenagem às flores que desabrocham. Toca o interfone e pede permissão pra entrar na vida dele. Talvez ele abra a porta e te deixe entrar, subir, ficar. Se você soubesse, falaria mais.

"Fala pra ele
Que ele é um sonho bom
Que mudou o tom
Da tua vida
Comprida
Fala pra ele
Do disco do tom jobim
Do seu apelido e de mim
(...)
Fala pra ele o que nunca falou pra ninguém
Pra ele também."
(Cícero - Pelo Interfone)

terça-feira, 12 de junho de 2012

Você me bagunça.


 Cadê aqueles sonhos que até ontem estavam aqui? Não sei. Cadê aquele vinil com as músicas que eu tanto adorava porque traziam a tona aquela antiga lembrança? Não sei. Cadê meus versos rimados, a ampulheta que ficava na mesinha da sala, as minhas certezas que estavam emolduradas naquele quadro no corredor? Não sei, não sei, não sei. O que aconteceu comigo? Você.
Você é a causa da minha bagunça. Desde que você apareceu eu não sei onde foi parar quem eu costumava ser nem aquela caixinha onde eu conservava passados. Os sonhos estão espalhados pela cama, a areia da ampulheta que cronometrava o tempo errado está espalhada pelo chão e minhas certezas se jogam pela janela enquanto outras entram e se acomodam no sofá da sala. Tá tudo de pernas pro ar e de olhar virado na tua direção. Você me bagunça e eu não sei se quero arrumação. Você me bagunça feito música que arrepia, feito vento que despenteia, feito amor que arromba a porta e muda tudo de lugar.
Seu sorriso me assalta, sua falta me assola, seu olhar assina o atestado da minha loucura. Eu sei que quando você me olha assim você não entende de onde eu venho nem pra onde eu vou. Mas isso não importa porque eu também não sei, você tumultuou tudo em mim. Vou escrever e deixar na porta da geladeira: "você me bagunça, mas de um jeito bom". Não precisa fazer esforço pra me colocar em ordem novamente, é nessa bagunça que eu me encontro. Não importa o que eu era, importa o que a gente pode ser. É aqui nessa bagunça que eu sei onde está o giz de cera que vamos usar pra desenharmos nosso caminho naquela parede em branco, onde estão seus beijos, onde estão nossos amuletos. Sei que parece loucura, mas é só amor. Sei que parece bagunça, mas é só você redecorando o que eu sou. Tá tudo bem, tô reconsiderando o mundo daqui de dentro do teu abraço. É que ele fica bem melhor assim. A vida fica bem melhor assim.


"Você me bagunça e tumultua tudo em mim
Essa moça ousa, musa, abusa de todo meu sim
(...)
Assimila, dissimula, afronta, apronta, diz: "carrega-me nos abraços"
Lapida-me a pedra bruta, insulta, assalta-me os textos, os traços
Me desapropria o rumo, o prumo, juro me padeço com você
Me desassossega, rega a alma, roga a calma em minha travessia"
(O teatro mágico - você me bagunça)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Adeus você.


Essa não é uma carta de amor. Sei lá, é que andaram dizendo por aí que uma carta de amor não pede nada, e essa aqui vai ser cheia de pedidos, então quem sou eu pra chamá-la assim e contrariar os românticos? Não, meu bem, não é uma carta de amor, é uma carta de bem-me-quer, tudo bem? Bem-te-quero. É isso.
Sabe o que é? Eu tava ouvindo sua banda favorita hoje. Justamente aquela canção que a gente discutiu sentados naquela rede enquanto o céu desabava em chuva e você desabava em meus ouvidos sobre o quão sentimental eu não era. Não, não é essa música que você tá pensando, é aquela do adeus, lembra? Lembra quando você, com os olhos marejados, disse que não tinha que ser assim? Que ir não é amar? Que se o cara amasse mesmo, ele ficava? Então... você me odeia agora? Porque foi o que eu fiz, fui te amando. Por isso eu defendia o cara da canção, você entende? Porque às vezes a gente tem mesmo que se perder e se encontrar num lugar novo, que pode ou não ter o endereço desse teu abraço. Esse cara que você odeia está a milhas de distância pensando em você, te querendo bem, te querendo sã. 
É aí que entra essa carta. E essa música. E minha preocupação com essa chuva, com esse céu que sempre que desaba faz o tempo esfriar e o seu nariz ficar vermelho-strawberry, lembra? Tô escrevendo pra cuidar de você, pra te lembrar de não andar descalça, não pegar sereno, não esquecer o guarda-chuva; não quero você embaixo das cobertas, não quero você refém daqueles remedinhos cor-de-rosa que a gente encontrou depois de muito correr por farmácias fechadas naquela madrugada fria. Não quero que suas madrugadas sejam frias. Te quero feliz, viu? Quero ouvir notícias suas e saber que você está muito bem, melhor sem mim, levando sua vida em frente. Quero que você pinte as paredes do seu quarto da cor que você quiser. Vai, arrisca, se não der certo compra outra lata de tinta e vai tentando até seu olhar sorrir satisfeito. Pinta logo um sol nesse céu, não deixa as nuvens vencerem; você não precisa chorar e borrar sua maquiagem, você não precisa sofrer, vamos combinar uma coisa? Olha pra trás e sorri pelo que a gente viveu. Aproveita que semana que vem vai ter um show daquela banda que você adora e compra o ingresso, inaugura aquele vestido azul, não deixa a minha ausência te privar de sair por aí. Vai com você mesma, você é uma pessoa incrível, aposto que vai gostar da companhia. De repente você encontra alguém, por que não? Mas não se contenta com qualquer um, por favor. Ele tem que saber como pegar sua mão, te fazer sentir guiada e aceitar a viagem, e saber te abraçar em silêncio e te contar segredos mesmo assim. Não se menospreze, você vale muito, sou aquele cara sortudo do restaurante chinês que foi o único a tirar uma sorte realmente boa daqueles biscoitos engraçados. Você foi a melhor sorte que já tirei, sabia? 
É sério, pode acreditar. Vão dizer que não, que eu não te amava, mas eu fico com o cara da canção: não pensa que eu fui por não te amar. Eu tive que ir, talvez um dia você entenda. Mas saiba que essas coisas vivem acontecendo, a gente tem que arriscar. Eu arrisquei te perder pra ir me encontrar, me encontrar pra te encontrar de novo um dia. Vou pensar em você em todas as manhãs enquanto tomo meu café sem açúcar, lamentando por você não estar comigo insistindo em colocar algumas colheres. Vou contar cada dia longe como um dia a menos. Um dia eu vou voltar. E pode ser que você ainda esteja aí. Se cuida, cuida de você e desse coração de menina bonita, enquanto eu não posso estar aí. Porque eu vou voltar. E quando voltar, quero que você esteja bem, tão bem, que eu não vou ter escolha a não ser me apaixonar novamente. Adeus você, meu bem, hoje e sempre: bem-te-quero.

"Cuida do teu
Pra que ninguém te jogue no chão
Procure dividir-se em alguém
Procure-me em qualquer confusão
Levanta e te sustenta
E não pensa que eu fui por não te amar
Quero ver você maior, meu bem
Pra que minha vida siga adiante"
(Adeus Você - Los Hermanos)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O não texto, a vontade de abraço.


Tem sorriso de ponta a ponta, sorriso de lado, sorriso pintado, que tem vontade de abraço. Tem olhar que envia um sinal do outro lado da rua, olhar que vê quieto o outro passar, olhar que atropela, que quase implora de tanta vontade, vontade de abraço. Tem gente que tem e grita, tem gente que tem e esconde, mas no fundo todo mundo tem: vontade de abraço. É por isso que tô escrevendo agora: vontade de abraço. Porque também tem coisa que a gente lê que tem vontade de abraço. 
Li algo agora há pouco, não foi poesia nem prosa, foi desabafo mesmo, e tive esse pensamento de gente grande, como diria o Caio - que é grande e também me dá vontade de abraço. Senti vontade de abraçar um estranho porque vi sinceridade no que ele disse, e é sempre muito bonito vasculhar o mundo e encontrar gente sincera com suas dores, amores, temores. Agora eu tô aqui: com vontade de abraço, de colo quente, de esquecer as dores do mundo enquanto abraço todas elas. Nessa exata hora, queria enfileirar todas as pessoas queridas, de ontem e de hoje, e ir distribuindo abraços enquanto gravaria a sensação pra nunca esquecer. Nesse momento, queria ver um amigo distante e sair correndo de tanta vontade e pular em braços que me abraçariam forte e tirariam meus pés do chão. Só que não dá. É tarde da noite, tô de pijama, não faço ideia de onde encontrar alguma dúzia de pessoas e certas coisas a gente não diz. Então vim escrever, e inaugurar a última matéria do meu caderno que conseguiu chegar ilesa até aqui. Quis abraçar e vim escrever, vim escrever porque quero abraçar o mundo.
Quero abraçar os incompreendidos e dizer que o que vale é ter a voz e fazer uso do tal direito ao grito. Quero abraçar os poetas e suplicar para que não parem de tirar flor do cotidiano que às vezes é só pedra. Quero abraçar os corações partidos e cantar para eles dormirem sossegados, fazer cafuné enquanto digo clichês. Quero abraçar os que choram e dizer que a alegria vem! E vem mesmo, na manhã seguinte ou na próxima, mas sempre vem. Quero abraçar os cansados, os desiludidos, os que desistiram, e não dizer nada, porque só abraçar já deve ser suficiente. Quero abraçar os solitários e entregar com o abraço um espelho. Quero abraçar os que sorriem, os que dançam, os que desfilam pela chuva sem se molhar e os que molham até a alma. Quero abraçar os que sentem saudade e não podem matá-la, os que podem mas não o fazem, os que simplesmente fazem de conta que ela não existe; quero abraçar saudades enquanto abraçam a minha. Quero abraçar a moça que entrou chorando no ônibus e o moço do sorriso indeciso que abaixou a cabeça e suspirou profundo. Quero abraçar o mundo e ver beleza na bagunça que a gente é. Sei lá, acho que eu quero ser um abraço. 
A verdade é que com tudo isso eu fiquei com vontade de ser capaz de escrever algo que seja como um abraço, ou que desperte a vontade dele; que cada letra, de mão dada com a outra, forme um abraço, de consolo, identificação ou só de saudação mesmo, que seja abraço. Tomara que vocês consigam se sentir abraçados e sempre sair daqui com vontade de pendurar uma plaquinha de "free hugs" no pescoço e nunca mais tirar. Afinal, um abraço pode não ser nada, mas pode ser o início de tudo; pode ser a borboleta que ao bater as asas consegue remover uma montanha. Ei, gente, vamos abraçar mais?

Na foto: abraço feito laço que não pode ser desfeito.

(27/05/12)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Louca,


Você acha certo sumir assim? Me deixar plantado naquela mesa, não responder minhas mensagens, sair do jogo sem aviso prévio? Não vou aceitar suas desculpas dessa vez, não vou te abraçar como sempre fiz e passar a mão na sua cabeça louca e dizer que tudo bem, espero você estar pronta, sempre vou estar aqui e todo aquele repertório de bobo que sempre gastei com você. Gastei muito com você, feito um cachorrinho morto de fome, perseguindo os passantes na rua na esperança de uma migalha que fosse, eu andei atrás de você. Eu tinha fome de ti e me escondia e me mostrava de acordo com a sua vontade, com o seu humor, disposto a receber como prêmio qualquer migalha do teu amor. Era pena o que você tinha, não é? É isso, nunca foi amor. Você apenas via aquele cachorrinho faminto, sentia compaixão e o dava uma dose de carinho, uma pontada de esperança que o faria te esperar no dia seguinte na mesma esquina, até o dia em que você o tomaria de vez para si. Tolo. Fui tolo em acreditar em você, no seu discurso sobre seus medos, sua tentativa de proteção, seu receio em se entregar de novo. Quer saber? medo todo mundo tem, o amor é sempre esse campo imprevisível, onde as pessoas se lançam simplesmente porque não há outra forma de viver se for sem amor. Não há, tá ouvindo?
Você ama alguém? Algum dia já amou? Não precisa dizer que é a mim, vou ficar feliz se você disser que sim, pelo menos por saber que você não é esse robô que imagino que seja. Desconfio que haja um coração perdido em meio à sua loucura e imprevisibilidade. Tem que ter, não? Debaixo desse gelo tem que ter um coração. Tem que ter, pra validar ao menos aquela vez em que você disse baixinho que gostava de estar comigo. É o coração que diz essas coisas, certo? Vejo potencial em você. Um dia um cara diretamente do planeta dos loucos vai conseguir te tocar lá no fundo e seu gelo vai derreter, você vai virar uma dessas lunáticas apaixonadas e começar a achar sentido nas canções de amor, anota aí. Não, não é praga, é só a lógica da vida. Você não pode viver pra sempre assim, um dia você vai ver que a entrega é a melhor sensação que alguém pode ter. Aí talvez você lembre de mim, mas eu não vou estar aqui.
Um dia, você vai ver, eu vou estar longe, longe demais pra você me alcançar. Um dia a campainha da minha casa não funcionará pra você, eu vou deixar de ser esse cachorrinho que está sempre na esquina à sua espera, mas que só te tem quando você acha que convém. Meus sentimentos nunca te importaram, por isso, um dia o seu sentimento não vai tocar nem o mindinho do meu pé. Vou colocar esse coração mole que carrego no congelador e vou deixar meu celular por lá também, pra não ter o azar de ouví-lo tocar e ser o seu nome aparecendo na tela. Você vai sentir minha falta e entender tudo o que eu tentava te dizer quando te abraçava no escuro das suas lágrimas e dizia que tudo bem, tudo bem, eu fico, eu cuido, eu quero. Eu tentei, mas não quero ser mais uma marionete no seu show particular. Vou reencontrar o amor próprio que perdi quando te encontrei, você vai ver. Você vai achar que é indiferença, joguinho bobo de apaixonado pirracento, mas não vai ser. Será desprezo. Pode anotar no seu bloquinho lilás ou na sua agenda que sempre deixa em último lugar. Vou desprezar a pessoa que mais amei porque ela não soube me amar em troca. Não, vou desprezar a pessoa que mais amei porque ela não teve coragem de aceitar que me amava de volta. Porque ela mostrava ser corajosa, mas no fim deixou o medo destruir seu coraçãozinho de princesa e transformá-la numa dessas megeras que pisam no coração do outro. Vou te desprezar porque você é louca. Louca varrida, doida de pedra, coração de gelo, meu amor.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Réu confesso.


 O café que tira meu sono talvez tenha aquela última gota de amor sobrevivente, umas colheres de vontade de saber da sua vida e o açúcar da saudade, que me obriga a misturar tudo e transforma em doce até mesmo as lembranças mais amargas, me fazendo pensar que poderia ser diferente se fosse agora, nessa exata hora em que escrevo essas palavras e penso em onde você estará. Tudo poderia ser diferente se algumas coisas mudassem, mas tantas coisas precisariam mudar que seu orgulho não ia deixar; tanta coisa teria que mudar que você levantaria a bandeira do não-mudo-por-ninguém, me-aceite-assim-se-quiser. Acabaríamos discutindo o de sempre: tanta coisa teria que mudar que eu deixaria de ser eu e você deixaria de ser você, não era essa a sua fala programada? Nossas percepções de amor eram diferentes, sempre achei que o amor nada mais é do que uma eterna acomodação de duas vidas, enquanto você sempre achou que o amor é aceitar o outro como ele é, abaixar a cabeça pro que incomoda e trancar no armário o que não convêm dizer. Talvez você esteja certo e alguém aí fora concorde contigo, eu não consigo. Costumo pensar que de tanto abaixar a cabeça a gente acaba tropeçando e desistindo de olhar pra frente, prum caminho que pode ser que exista; acho também que de tanto trancar as coisas no armário, um dia a porta vem abaixo, como nos desenhos animados, quando escondem a bagunça lá dentro e a porta arromba, causando uma bagunça ainda maior.  Mesmo assim, acho que não daríamos certo, de qualquer jeito; um dia minha personalidade, meus sonhos, meus princípios, meus gostos iam acabar dando um esbarrão violento com os teus e o estrago ia ser pior.
Foi bom enquanto fomos poesia, foi doloroso quando viramos blues, e agora é doce, enquanto somos uma balada nostálgica fora de moda que não deveria mais tocar na rádio. Vou colocar nos seus termos: vai ver é assim que tinha que ser e nada do que fizéssemos seria capaz de mudar o nosso des-ti-no, aquela palavra tenebrosa que detesto. Não concordo, mas vamos deixar assim. Vai ver não funcionamos mesmo como conta de mais. Somos confusão. Somos dois lunáticos que numa manhã de sol acharam que poderia ter dado certo. No meu ponto de vista, deu certo, em algumas manhãs, tardes ou noites de sintonia perfeita, deu certo. Quando nossos olhos se encontravam através do vidro da janela, quando seu sorriso fazia meu sangue correr mais rápido e aquecer cada canto esquecido do meu corpo, quando você dizia palavras tolas pra me conquistar: deu certo. Em um segundo ou três de amor eterno: deu certo. Não vamos complicar mais ou transformar em filme de terror barato, em algum momento foi bonito. Será que a gente pode ao menos concordar com isso?
Eu, por exemplo, estou agora sentada na mesa daquele café que frequentávamos dia sim, dia não, pensando em como queria estar bem contigo; não ter tantos fantasmas nos rodeando nem aquela máscara de menina má que sempre evitei. Queria que você concordasse comigo, a gente concordaria em discordar de termos complicados do nosso ex-amor e em concordar que merecemos estar bem um com outro, deixar de lado o terror e virar uma comédia-romântica daquelas em que o final feliz é feliz de outro jeito e o casal termina sentado na escada de uma casa qualquer, ou num banco com vista para a cidade, rindo do que aconteceu, aceitando os erros, decidindo esquecer tudo e preservar o que foi bom, a cordialidade, a certeza bonita de que as coisas se explicam.
Eu sei que a vida não é filme, mas a saudade me deixa com vontade de sonhar. Sonhar diferente, mas contigo: um cara incrível que tive a sorte de encontrar e não queria perder por nada. Se eu pudesse escolher, sabendo do que aconteceria agora, escolheria apagar o que passou, só pra ter em troca a tua presença nessa vida que é meio em tons de cinza sem você. Trocaria o que a gente viveu para ter você sem ressentimentos, colorindo meus dias, contando com você pras grandes e pequenas coisas que acontecem enquanto nossa vida muda e toma rumos diferentes. Sinto sua falta, mas não conta pra ninguém. É mais que saudade, é falta mesmo. Saudade é brisa, falta é tormenta. Também não precisa concordar com nada disso, deixa pra lá. É tudo o que viemos fazendo mesmo. Tá tudo bem, é só saudade. E saudade não é doença, muito menos crime. E se for, assumo, sempre fui réu confesso.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sentimental


 É meia noite de um dia sem você e eu tô chorando feito criança mimada que não ganhou o que queria. Veja bem, eu não te amo e nem ao mesmo estou apaixonada por você, mas eu contava com a sua presença. Eu contava com você e você não veio, virou um cometa. Você é feito um daqueles cometas que a gente fica esperando pra ver passar e ele não vem, mas aí descuidamos, abandonamos por um momento a posição e ele passa. Passa e ninguém vê. Passa e deixa de alegrar uma noite - ou um dia inteiro. Passa e esquece de deixar um rastro que seja.
Eu precisei de você. Tava chovendo lá fora e chovendo em mim, precisei que você aparecesse e rasgasse as nuvens com o som do teu riso. Eu não tinha um guarda-chuva nem o teu abrigo invisível. Me encharquei de nostalgia e você não estava lá pra me secar com o teu vento de ares futuros. Hoje precisei de você pra alegrar um dia chuvoso. Precisei que você me sorrisse e enchesse meu coração de esperanças bonitas que pintariam um sol mesmo num céu tão escuro. Precisei de você pra curar uma vontade que só faz crescer: a de você. Ainda bem que você não viu quando, feito boba, deixei uma lágrima escapar de tanta vontade sua. Eu precisei que você aparecesse e me olhasse, me questionasse, segurasse a minha mão na hora do refrão. Andei sentimental demais, culpe o temporal. Andei querendo te trazer pra vida. Eu quero te trazer pra vida porque o sonho lotou. Não tem mais jeito: ou transborda pra vida ou eu dou um jeito de deletar um por um, feito a máquina que eu nunca soube ser. Não me ache louca por sentir tanto assim, porque parcela da culpa é tua, quem mandou você aparecer naquele dia vinte e tanto daquele mês que eu não sei mais e estar olhando pra mim justamente na hora em que virei pra trás? Eu te escolhi pelo teu mistério e queria te ganhar por alguma coisa que eu devo ter. Mas não me chame de louca, já me apelidaram de sentimental. 
Eu não sei o que você fez, eu não sei o que você tem, mas eu me quero de volta. Me devolve, vai. Devolve aquele coração leve que eu carregava, devolve minhas horas que não conometravam tempo nenhum e hoje fazem tic-tac querendo sua aparição. Quero de volta minhas canções favoritas, minhas linhas que se bastavam e não precisavam desse seu sorriso impreciso pra fazer de inspiração. Manda de volta minhas noites de sono, meu pensamento que flutuava pelo ar sem ter para onde ir. Bota no correio todo o sentimento que sem perceber investi em você e hoje faz falta quando alguém tenta conquistar alguma fagulha que seja. Você tem um daqueles controles que podem rebobinar o tempo e fazer de conta que eu nunca encontrei teu olhar naquele dia fatídico? Do mesmo jeito que você fez pra me conquistar, faz pra me devolver. Me devolve pra mim ou esquece tudo isso e só traz você. Traz você e não me devolve, me leva.

sábado, 21 de abril de 2012

Fica aí.


"Desistir de esquecer", li isso em algum lugar hoje. Forte, não? Duas palavras tão poderosas juntas deve exigir uma certa força. Mas acho que é isso o que me falta. Não a força, ou talvez também ela, mas desistir de esquecer. Acho que é o que falta, taí. Esquecer de te esquecer, deixar pra lá e seguir em frente, procurar alguma coisa melhor pra fazer do que brincar de queda de braço com alguém que só vence. Um dia a gente cansa, não? Cansei. Você quer ficar nos meus pensamentos? Seja bem-vindo. Quer me tirar o sono nas noites em que a saudade me acordar? Fique à vontade. Quer ser inspiração nos dias em que nada me inspira? Ok, você já sabe como fazê-lo. Pode ficar aqui, feito um fantasma a me rondar. Preciso aceitar que você talvez seja para sempre essa presença que me inquieta e tira o sono, mas inspira poesia. Tô aceitando, viu? Pode ficar por aqui, querido fantasma nem tão camarada assim, fica aí. Fica, que um dia eu acostumo e nem te ouço mais. Lutando contra você, sou obrigada a lembrar que você ainda está aqui, feito tatuagem. Fica aí, canta a nossa canção no meu ouvido, mas canta tanto até que eu enjoe e ela perca o sentido. Fica, feito flor que não é regada e murcha. Fica aí, com seu casaco de capuz preto, com seus livros que nunca li, com sua mania de ser o melhor cara do mundo ainda que existam tantos outros melhores de um jeito que você nunca soube ser. Fica aí enquanto não chega ninguém para tapar o buraco vazio do meu coração que insiste em chamar teu nome. Fica aí, tá sobrando espaço mesmo. 
Fica aí, mas me faz um favor? Não vem me olhar com essa sua cara de "melhor do que eu vai ser difícil de encontrar". Tô dispensado esse seu olhar. Melhor do que você tem um monte por aí, meu bem. Melhor do que você vai ser qualquer um mais baixo, mais gordo, mais feio, que faça meu sorriso durar dias inteiros sem vir seguido por crises de choro. Melhor do que você vai ser qualquer um que estiver disposto a se expor, me conhecer e ser conhecido. Seu erro foi prometer demais e não cumprir. Melhor do que você vai ser qualquer um que chegue como quem não quer nada e surpreenda, qualquer um que esqueça as promessas e seja, qualquer um que não tenha nada do que sonhei, mas saiba se tornar meu novo sonho ao longo do caminho.
Só não te tiro daqui de uma vez porque não tenho força, porque não tem jeito de obrigar meu coração à não voar até você nas noites frias ou quando certas canções tocam na rádio. Ainda não tem como não comparar aquele olhar que vezenquando se aproxima com teus olhões de jabuticaba. Hoje é impossível, mas amanhã quem sabe? Fica aí, vou me acostumando e daqui a pouco você vai. Daqui a pouco alguém te tira. Fica aí, não vou lutar, nem fazer alvoroço. Quer me atormentar? Fica aí. Um dia a tormenta vira calmaria. Fica, daqui a pouco você vira objeto de decoração de lojinha de 1,99, daqueles que a gente vê todo dia na estante e nem repara mais. É melhor te aceitar aqui dentro do que ficar te expulsando todas as vezes só pra você voltar mais forte. Fica na estante, feito bibelô. Desisti de esquecer. É isso, a vida me chama, deixa a poeira do tempo cair sobre você.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O pouco que sobrou.


O dia já amanheceu, significa que eu tenho que levantar? E, vamos supor que eu levante, o que eu faço? Vou levantar, mas antes vou passar a mão pelo teu lado da cama e os lençóis estarão arrumados, gritando pra mim que ali você não dormiu. Vou levantar e escovar os dentes, e dessa vez não vou confundir minha escova com a sua; vou colocar a mesa só pra um no café da manhã; vou ligar a televisão e o único som nessa casa vazia vai ser o da moça do telejornal avisando que o tempo hoje estará firme, me lembrando de que não posso mais te ligar pra chamar para um passeio desses que os casais fazem nos domingos ensolarados. É um domingo ensolarado e eu não sei o que fazer. É o primeiro dia da minha vida sem você e eu não sei por onde começar. 
O pior do fim é o começo que é forçado a vir imediatamente após. O pior do fim é quando o amor vai, mas deixa toda nossa história parcelada pelos cantos da casa. E aí, o que eu faço? O que eu faço com as fotos, com suas roupas esquecidas aqui, com os livros que compramos pra nós dois e você ainda não leu? O que eu faço com os domingos que ficaram mais longos, com as noites frias, com o ingresso daquele show? E com os sonhos, me diz: o que eu faço com eles? Você passa aqui e leva tudo? Você manda alguém? Deixo com o porteiro e aviso que você não pode mais entrar aqui? Sou a sobrevivente da queda de um avião e estou perdida em meio aos escombros, sem saber se agradeço por ter sobrevivido ou entrego os pontos e deito em posição fetal até passar o choque, a dor, o cheiro de fumaça. Tenho que continuar, gritam todas as cartilhas, tenho que levantar dessa cama e reinventar minha vida. Mas como, me diz? Você consegue?
Sinceramente? Tudo o que eu quero é deitar aqui, aproveitar o silêncio desse quarto que não me obriga a nada, fechar o olho e só abrir quando tudo passar. Quero uma daquelas fadas madrinhas que passem aqui em casa e arrumem a bagunça que você deixou, tirem os porta-retratos da minha vista e recolham as migalhas de amor que sobraram pelos cantos. Mas não dá.  O pior de tudo não é você ter ido, nem o amor ter acabado. O pior de tudo é o que sobrou. O pior do amor é a bagunça que ele deixa pra gente limpar quando ninguém aguenta mais. O pior de tudo são essas mudanças, o começar-de-novo que não me diz por onde começar. Aquilo tudo de ter que me acostumar a não falar com você quando te vir numa festa; a não discar seu número quando eu precisar desabafar o peso do mundo nas minhas costas; a não confessar saudade. O pior de tudo é a vida que insiste em continuar a mesma quando está indiscutivelmente diferente. O pior do amor é o que vem depois; o espaço vazio entre o depois da chuva e o antes do arco-íris. É o vácuo que sobra para flutuarmos sem saber pra onde ir. 
Fomos o arco-íris de chuvas passadas e agora somos a chuva de um arco-íris futuro. Daqui a pouco surgem novas cores no céu, mas até lá, o que fazer com o que sobra? Depois do amor vem o quê? Quem é que vem pra limpar a bagunça? Quem vai me abraçar quando a luz acabar? Quem vai me socorrer quando meus medos se esconderem embaixo da cama me tirando o sono? Quem vai levar de uma vez pra longe daqui o pouco que sobrou?
O pouco que sobrou são interrogações; uma vontade de dar cem passos pra frente e tantos quanto forem necessários pra trás até cair de novo nos teus braços. O que sobrou foi essa obrigação de seguir em frente quando eu não faço ideia de que direção seguir. O pouco que sobrou é muito e não me deixa te esquecer; não é amor, mas é algo perto disso.

"Se tudo é tão ruim
Por onde eu devo ir?
A vida vai seguir
Ninguém vai reparar
Aqui neste lugar
Eu acho que acabou
Mas vou cantar
Pra não cair
Fingindo ser alguém
Que vive assim de bem 
Eu não sei por onde foi
Só resta eu me entregar
Cansei de procurar
O pouco que sobrou
Eu tinha algum amor
Eu era bem melhor
Mas tudo deu um nó
E a vida se perdeu"
(Los Hermanos)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Deu na previsão que vai chover.


Acredita que andei sonhando com você? Assim do nada mesmo. Juro que não pensei em você nas horas anteriores, nem vasculhei fotos e muito menos desejei te ter por perto. Juro. Só sonhei. Quem vai ser o louco de tentar explicar essas coisas? Só sonhei com você e foi inevitável não acordar pensando em nós dois. Pensando se, sei lá, em alguma dessas noites inexplicáveis você já sonhou comigo também; se, por um descuido, seu pensamento voou até mim, antes que você se desse conta da chuva que estava se armando no céu e abrisse de uma vez o guarda-chuva que nos separa. Ia chover saudade. Ia chover vontade. No fundo é tudo a mesma coisa. 
Por aqui choveu ontem, e a TV esqueceu de anunciar pra que eu me preparasse. Andei perguntando às janelas do ônibus onde você estaria. Não tive resposta. Sei lá, se perdeu, armou um guarda-chuva e um colete à prova de paixões? Por onde é que você andou enquanto eu sonhava com você? Em que ruas você se escondia enquanto aqui só chovia saudade? Você tem medo de algo que eu nem sei o que é. Você tem medo do que eu posso vir a querer, e tudo o que eu quero é te fazer feliz. Tá difícil perceber? 
Um dia desses quis parar um táxi e pedir pro taxista me levar pra sua vida. Falar assim mesmo, feito louca, "ei, moço, me leva pra vida dele". Mas aí ele ia fazer a pergunta difícil: onde? Algum endereço, mapa ou ponto de referência? Não, nenhum, moço, deixa pra lá. Soa triste, não acha? Mas até mesmo a tristeza tem seu lado bonito e rende poesia que só, só que nunca, anota aí: nunca tanto quanto o seu abraço. Aliás, me diz: pra inspirar poesia como você, a gente tem que respirar o quê? Eu queria saber do que te move e do que te comove. Do que te provoca o riso, o choro, o olhar; do que você fazia antes de aparecer por aqui e mudar o rumo desse meu olhar mal acostumado. 
Desculpa, desvirtuei do assunto, não era isso o que eu queria dizer. Desculpa, não sei o que acontece comigo, mas às vezes me dá essa urgência de você. Às vezes me vem essa urgência hollywoodiana de aproveitar a chuva e correr praí. Ou te chamar pra cá. Tanto faz. Tipo coisa de filme, sabe? Deixar tudo pra lá e te procurar, como se não houvesse tanta coisa além do querer-estar-junto. Às vezes me vem essa urgência de você. Coisa que dá e passa. Coisa que dá enquanto você não passa por aqui e me arranca de uma vez desse apartamento inundado de saudade. Tá chovendo demais e o coração não aguenta esse aguaceiro, cadê você? Me diz como te alcançar que eu encaro a chuva, corro o mundo e vou te ver. Porque, sei lá, se ainda não desisti e ainda estou aqui, embora tantas vezes já tenha desistido e ido embora pra nunca mais voltar, deve ser porque alguma coisa é verdadeira nisso tudo. Talvez o meu encanto? Ou, quem sabe, aquele sorriso que você disfarça quando me vê? 
Olha, isso tudo é pra te dizer: Se cuida, viu? Deu na previsão que vai chover, não esquece teu guarda-chuva. Se esquecer, passa aqui na rua e aproveita essa desculpa pra me ver.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Do encontro, da sorte e do desencontro.



- Que a sorte a nossa estarmos aqui: depois de tudo o que passou, nos esbarrarmos em mais essa esquina da vida, como uma segunda, terceira, eterna chance.
- Não gosto de sorte, soa como se não tivéssemos feito nada, como se não tivéssemos cansado nossas pernas e peitos nessa corrida, inconscientemente na nossa mesma direção. Agora não somos sorte, agora somos encontro.
- E o que é o encontro, se não sorte?
- Pode haver sorte, mas há mais comprometimento, há mais vontade, há mais doação. Encontro é quando todos os desencontros não conseguem acontecer e acabam nos levando sempre praquela mesma esquina; quando nossa vontade de estar junto supera todas as sementes do desencontro. 
- E o que é desencontro? Azar?
- Nem sempre azar, às vezes há até sorte no desencontro, quem é que pode saber o que a vida tem preparado? Desencontro é só aquela sensação de estar longe demais da nossa esquina, quando parece que nossos relógios seguem ritmos diferentes e, embora em muitas vezes haja o amor, falta a disposição e o fôlego. E, mesmo assim, às vezes há amor, há vontade, há corrida, mas o desencontro continua ali, latejando feito badaladas de um relógio que marca a hora de um (re)encontro que nunca acontecerá.
- Sendo assim, parece que os desencontros são mais comuns, não acha?
- É que o encontro verdadeiro precisa que alguns encontros tenham acontecido.
- Não é um pouco cruel?
- Sei lá, é só o jeito que as coisas são. Se eu não tivesse me desencontrado de tanta gente, talvez não estivesse aqui agora. Se mesmo nós não tivéssemos nos desencontrado naquele fatídico dia, talvez hoje não estivéssemos tão dispostos a um encontro verdadeiro.
- Então, o caminho para o encontro é cheio de desencontros. Por que será?
- Não sei, não fui eu que decidi que seria assim, sabe? Se dependesse de mim, só haveria encontro e nunca as incertezas e dores do desencontro. Mas a vida insiste em querer aplicar lições e ensinar por métodos não convencionais. Parece que a cada desencontro a gente vai se tornando mais forte, decidindo o que quer a cada passo, esvaziando a bagagem que pesa demais quando é sobrecarregada. 
- Entendo. Cada desencontro nos ensina mais do que aprenderíamos numa corrida por uma estrada tranquila, sem essas pausas e bifurcações, os desencontros do caminho. A gente segue por esses caminhos, costurando o que rompeu, até que estejamos prontos pra algo sem fim, até termos a sorte de um encontro sem fim.
- Acho que prontos não é a palavra, nem sorte. Dispostos talvez seja melhor. Tivemos a sorte de nos encontrarmos no meio de tanta gente, mas será que temos disposição para continuarmos juntos? Será que estamos dispostos a estender nosso encontro?
- O encontro do meu olhar cansado com o seu que duvida?
- O encontro dos meus planos lunáticos com os seus revolucionários.
- É, talvez um encontro seja bem mais do que mãos e olhares e corpos que se unem;  mais do que sorte, e por isso seja preciso a disposição. Não é fácil e dá trabalho, e se não tomarmos conta, se não investirmos, vira desencontro num piscar de olhos.
- Pois é, é como se o desencontro estivesse sempre ali à espreita; como se as três letras que viram a palavra de ponta cabeça, estivessem sempre dispostas a aparecer. Desencontro é uma questão de prefixo, assim como descuido.
- Vou cuidar de você.
- Vai cuidar de nós dois?
- Com sorte e disposição.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Samba de ir embora só.


Você acredita se eu disser que vou sentir falta? É, sei lá, vai fazer falta como faz tudo aquilo que mexe com a gente por dentro - por um dia ou um ano, tanto faz. Vai fazer falta como faz qualquer pessoa que saiba se tornar importante, vai fazer falta como você sabe fazer falta, do jeito como ainda vou descobrir. Acho que cada um faz falta de um jeito, entende? Ainda vou descobrir como é sentir falta de você, se é excruciante como faltar um dente ou suave como uma brisa soprando no lugar vazio ao meu lado. Algumas coisas posso prever, quer exemplos? Sei que vai fazer falta o seu olhar que procura e foge, o seu sorriso que me sequestra e o teu sotaque que me ganha fácil; vai fazer falta a tua busca e o meu sorriso que sorri quando te encontra; vai fazer falta o sentimento bom e meio bobo que é acreditar em nós dois. Vai fazer falta aquilo tudo que eu sentia e fazia de conta que não, aquilo que eu não sentia e inventei pra ter inspiração, aquilo tudo que de qualquer jeito foi sentimento.
Mas não é a primeira vez, a gente se acostuma. Não é a primeira vez que o balão cor de rosa de um sonho bonito estoura antes de alcançar as nuvens (ou as estrelas do teu olhar). Posso lidar bem com isso, não se preocupe, fui eu mesma que decidi atirar a flecha que estourou o balão quando percebi que não fazia sentido deixá-lo ir em direção a algo que ficava cada vez mais longe. Não é covardia, só quis salvar meu coração. Não é isso o que você fazia enquanto fugia? Desisti, obriguei meu olhar a fixar no lado oposto enquanto você passava e a fixar a parede ou o teto, qualquer coisa mais estável que você, quando você me olhou de canto. Tô treinando não pensar em você e não ganhar o dia quando você chega. De tanto treinar, um dia a gente acostuma. Eu vou me acostumar, e essa é a parte ruim de tudo isso.
Você foi algo tão diferente. Foi um marco, sabe? Um momento em que decidi o que realmente buscava e queria do meu lado. Você mostrou que eu estava navegando na direção errada, meu norte eram suas características. Eu quis te conhecer e quanto mais te conhecia, mais queria ter a sorte de te ter. Não deu. Não deu ou eu desisti cedo demais? Espero que um dia você reconheça meus esforços e tentativas. Espero que um dia, sei lá, a gente se encontre pra falar do que poderíamos ter sido. 
O que vou levar de tudo isso é a certeza de que estou pronta pra me entregar de novo. Eu posso sentir novamente, e a culpa é sua. Talvez eu não saiba mais o que é paixão e me perca nas definições que as pessoas vivem tentando dar praquela sensação de borboleta no estômago e coração batendo mais rápido, mas vamos fazer de conta que me apaixonei. Paixão, pelo menos, rende poesia. O oposto do amor é a indiferença, o oposto da paixão é o quê? Se souber, me diz, preciso saber o que sentir por você, ainda é muito novo pra mim não me apaixonar um pouco mais a cada dia. Eu estava procurando um amor e só encontrei seu olhar e essa paixão que me arrebatou por um tempo, inflou meu balão de esperança e agora é só - ou tenta ser só - uma lembrança bonita de um jogo que não era jogo, mas desejo disfarçado em medo. Quis dançar um samba só com você, e dancei só. O meu samba agora é outro, tô indo embora do dramalhão que eu mesma criei. Mas posso ficar mais um pouco, é só seu olhar dançar comigo o samba que foi feito pra dançarmos a dois. Vem dizer que ainda é cedo, que eu estendo o ponto final e transformo em reticências, feito uma rede pra descansar no seu olhar só mais uma vez.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Conexão lado de cá - lado de lá.

- Oi, tô ligando só pra dizer que tô de volta ao lado de cá do oceano. E já que corremos o risco de um esbarrão numa dessas esquinas que a vida arranja pra gente se encontrar, preferi te avisar. Sabe, pra não ser como um fantasma que ressurge pra te assustar, mas talvez como um amigo que vale a pena reencontrar e recuperar, quem sabe. Do lado de cá tenho o mesmo endereço e número de telefone e isso é tudo. Ninguém suspeita da faxina geral que fiz por dentro e do tanto que mudei. Você saberia só de me olhar. Você sempre soube. Eu fugi, admito. Mas voltei porque fugir não adianta nada. O céu pode ser outro, mas a dor continua ali, esperando feito chuva a hora de bater na janela e te prender dentro de si mesmo. Fugi de algo que eu não sei o que é e voltei para encontrá-lo, pra lutar com ele, retirar de uma vez essa máscara de covarde. Voltei pra encontrar o motivo da minha fuga e excluí-lo de uma vez da minha vida ou abraçá-lo, caso ele tenha seu endereço. Tô com sede de você. Só queria dizer que te quero por perto. De qualquer forma. Podendo beijar teu pescoço e segurar tua mão a qualquer momento ou mantendo o limite da amizade. Contanto que seja você, aceito as condições e implicações. Senti saudade. E essa foi a palavra do nosso idioma que mais ensinei do lado de lá. Talvez seja a mais bonita, você não acha? Me perdi com tudo o que aconteceu e fugi, agora só queria me redimir. Te dizer que se ainda fizer falta minhas piadas, minha companhia ou o meu jeito desengonçado de te abraçar gigante, eu tô aqui. Enfim do lado de cá. Se você ainda quiser me resgatar, como disse naquelas cartas que nunca respondi, tô aqui. Culpado, atrasado e arrependido. Saudade, pequena, dói. Fugir, morena, não adianta. Me liga um dia desses, te trouxe presentes e me dou de bandeja, se você ainda quiser tratar minha inconstância. Perdão por ser assim tão inconstante, perdão pelas cicatrizes, perdão porque sei que manchei a imagem bonita e meio boba que você tinha de mim. Perdão, mas preciso de você. E te amo. Mesmo que você ache que eu desconheço o significado de tudo isso. O significado é você, descobri.

- Engraçado, você diz que saudade talvez seja a palavra mais bonita e, pela primeira vez, me surpreendo discordando. Não é mais, descobri outras. É, mudei demais e não te contei. Minha palavra favorita pode ser liberdade, agora que eu descobri o que significa. Sabe, você fugiu e eu, sem saber para onde ir, resolvi ficar. Me coloquei na frente de batalha e deixei todo o amor que não pôde acontecer e toda a saudade e toda a dor e todos os planos que ruíram, me acertarem com força total. Preferi ficar e receber todos os golpes de uma vez e assumir que apanhava, do que fugir e receber socos e pontapés em doses homeopáticas. Sofre mais quem apanha de uma vez só ou quem parcela a dor em prestações? Se você ligasse há, sei lá, uns meses, eu correria pra te cuidar e nos sarar. Sem pensar duas vezes. Mas agora, ó, pulsos livres, tornozelos livres: nenhuma algema ou bola de ferro daquele sentimento me prendendo. Descobri que liberdade existe no dicionário e tô bem feliz, obrigada, descobrindo seu significado a cada dia. Tô levantando do chão e sacudindo a poeira do meu coração, tô indo muito bem nisso tudo pra te aceitar de novo, pra correr o risco de uma rasteira. Não quero o que quero, quero o que preciso e, meu bem, não preciso de você. Não mais. Eu nunca arredei meu pé daqui, você sabe, poderia até citar aquela canção que diz que eu estava aqui o tempo todo e só você não viu, mas não vou citar. Eu estava aqui e você viu. Ponto final. Te enviei sinais de fumaça, me preocupei, te envolvi de bons pensamentos e preces a seu favor. Em silêncio, te dei oportunidades e vi até onde você ia. Até onde você foi? Até seu próprio umbigo. A liberdade me ensinou que não é correto mover céus e terras por alguém que não move nenhuma agulha por você, triste, né? Então é isso. Por hoje, não quero mais nenhuma parte de você, quero o que preciso e você nunca soube ser. Quem sabe um dia a gente ria de tudo isso e estejamos do mesmo lado? Não hoje. Hoje, você está do lado de cá, mas eu não. Tô do lado de lá. Em sentindo oposto e direção contrária à sua. E ainda tem um oceano nos separando. Quem sabe um dia a gente consiga superá-lo. E se a gente se afogar de vez, ao menos saiba que um dia seu amor teria sido uma espécie de salva vidas. Tenho saudade também, claro, mas é só um adereço. O carro chefe é o amor próprio. Não quero nenhuma parte de você, porque me custou muito caro conseguir me livrar de todas elas. Não troco minha liberdade pela sua prisão. Quero o amor que liberta. Mais do que manchar, você jogou fora a imagem que eu tinha de você e reconstruí-la é impossível. Queria continuar te admirando, mas nem isso consigo mais sentir. Tô livre, eu disse. Enfim livre de você e de qualquer sentimento que inclua nós dois. Indiferença, talvez essa seja a palavra. Um beijo e boa sorte. Quem é mesmo você?

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Vamos ser sinceros.


"Se você adora uma certeza, fique longe desse tipo movediço de campo de sedução atulhado de descargas elétricas de ilusão e difusão semântica; onde um olhar, um sorriso, um gesto, uma palavra podem representar mil coisas além de apenas um olhar, um sorriso, um gesto, uma palavra. Você pode também acabar confundindo-se, escancarando intenções estúpidas e incomodando vizinhanças."
(Gabito Nunes)

   Vamos ser sinceros? Não estava nos meus planos me apaixonar. Ou estava. Mas eu não lembrava que era assim. Estava nos meus planos encontrar alguém pra desejar ter por perto, ter um rosto pra procurar em meio à multidão, um sorriso pra me inspirar quando faltassem palavras bonitas ou pintadas de esperança. Até aí, parabéns, moço, você conseguiu. Mas eu não lembrava as regras do jogo, as cláusulas do contrato que a gente finge não ler. Aquilo tudo sobre enxergar o que não existe e nunca existiu, ouvir além do que foi dito, achar ter mais do que tem. Eu tinha esquecido das borboletas, da ciranda que provocam no meu estômago quando você se aproxima ou quando alguém se aproxima de você. Acho que eu tinha esquecido de tudo o que significa estar apaixonada, estar andando nessa corda bamba de possibilidades ou na montanha russa que é te decifrar.
   Não estava nos meus planos um olhar que confundisse tanto, que me procurasse enquanto o corpo fugisse; estava nos meus planos a objetividade, fora desses jogos que já me cansaram tanto. Não estava nos meus planos tudo o que você nunca me disse e talvez nunca diga, nem tudo o que te falta pra ser o que eu procurava. Não estava nos meus planos esbarrar com você naquele dia comum e nunca mais conseguir desviar o olhar.
   Você não estava nos meus planos, mas chegou, de uma forma ou outra; seja verdade ou invenção: chegou. E é fato. Mas agora temos algumas coisas para acertar. É bom te ter, ou ter a sua invenção, ou ilusão, tanto faz, é bom. É bom ter alguém pra procurar e ter como promessa ainda que nunca se cumpra, mas precisamos deixar tudo bem claro. Se você não vai ocupar a cadeira vazia do meu lado, por favor, desocupe também os meus sonhos. A gente pode ser como aquelas pessoas que só se olham, que são promessas e nunca se cumprem, se você desocupar o cantinho quente que não acreditava mais do meu coração, justamente a parte que já sinto se mobilizar para a sua chegada. A gente pode concordar em nunca acontecer e ser apenas essa espécie de fuga nesse tempo em que  nada encanta nem comove, se você concordar em sair da minha mente nas noites frias e deixar de ser uma espécie de desejo - ou sonho? Se você for apenas uma promessa nunca cumprida, por favor, faça as malas enquanto o estrago não é maior. Saia enquanto posso não fazer alvoroço, enquanto a dor vai passar junto com a risada que vou dar dessa história toda, por todas as minhas doces ilusões. Saia enquanto a dor não será dor, mas apenas um suspiro arrependido do que poderia ter sido se.
   Você sabe que poderíamos ganhar o mundo? Sei lá, mas algo tão improvável como nós dois poderia ser um sucesso de bilheteria. De repente você seria tudo o que eu não sabia que precisava, e eu seria tudo o que você nunca procurou, e nós dois riríamos da obviedade do nosso encontro imprevisível naquela noite do mês que não sei mais. Eu gosto do improvável, e gosto de você. Mas é difícil me perder tentando te decifrar, transformar certezas em incertezas num piscar de olhos, andar de montanha-russa ainda que essa sempre tenha sido a parte do parque que me causou mais medo. Por isso precisamos ser sinceros. Agora. Antes que seja tarde demais e a bagunça incorrigível. 
   Vamos ser sinceros: tô cansada de ser promessa, vamos acontecer num dia desses? Se não, tudo bem, abro uma exceção e a gente combina de ser apenas promessa ao menos pra sair do tédio. Mas avisa logo, enquanto posso conter a chuva de você. Avisa logo, sai do meu coração e leva contigo as partes de você que comecei a colecionar. Agora. Um minuto a mais pode ser muito tarde.
   Vamos ser sinceros? Te quero como promessa cumprida. Sem pressa. A gente pode combinar assim?

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