domingo, 4 de dezembro de 2011

Carta à Delilah.

Ou carta praqueles que foram enquanto precisávamos ficar, ou pros que ficaram enquanto precisávamos ir.


Olho pela janela as nuvens se formando, vem chuva por aí. Os ventos já sopram há algum tempo, a temperatura caiu e esse clima que se monta me dá vontade de escrever algo bonito. De tocar alguém, aquecer um coração, transformar saudade em poesia ou canção. No inverno passado te encaixei numa canção, falava sobre sua cidade e as coisas que nunca mais seriam as mesmas sem você. Eu não queria nada disso, você sabe, se eu pudesse te colocar no meu bolso e te carregar por onde fosse, eu faria; eu não queria um dia sem você, nem um ano ou uma vida, mas agora olha pra mim: quantos dias, quantos anos, vivendo aquela vida que eu temia só de imaginar? De alguma maneira, aqui estou eu: vivendo.
A distância pode ser cruel, o tempo pode ser mesmo um divisor de águas e o que sobra de tudo isso é o que a gente se permite carregar. Carrego comigo uma lembrança bonita de você, sua imagem na varanda do meu apartamento, a gente se escondendo da chuva debaixo daquela escada escura, você sorrindo da minha bobeira e eu me perdendo em pensamentos sobre como o seu sorriso era tudo o que importava pra mim. Carrego você comigo, pequena. Faço da saudade uma ponte pra não te esquecer e transformo tudo em esperança, porque ninguém sabe qual o próximo coelho que a vida vai tirar da cartola mágica. Torço pra que seja você, atravessando a rua cuidadosa e levando um susto ao olhar pra frente e me ver te dizendo que já podia atravessar, como nos velhos tempos.
Ninguém sabe o que a vida vai trazer, e isso me assombra, mas me alegra também. Tenho vivido tempos de absolutas surpresas, tenho revisto pessoas que há muito não via, tenho recebido abraços de quem há muito eu pensava ter me esquecido. Esse deve ser o papel da vida, separar e juntar de acordo com a necessidade, com a prontidão, com o tempo. Quem sabe a próxima a aparecer por aqui seja você? Só me resta ter esperança, torcer pra que em você ainda haja pelo menos saudade e que você tenha permitido me carregar por aí. Amanhã ou daqui a anos, a gente se reencontra. E se reinventa. E se redescobre. Acaba acontecendo.
Um dia a gente toma as rédeas do destino, que a essa altura me parece mais uma desculpa mal inventada pra gente não se mover, e faz um telefone tocar, uma mensagem surgir, um avião decolar. Por que a gente se deixa afastar assim, me diz? Onde é que a gente deixa a nossa coragem e a nossa vontade de estar perto? Por que é que a gente se contenta com a saudade? Sabe por que estamos aqui, nesse abismo, nessa distância, nesse silêncio? Porque somos o resultado da mão que vacilou ao digitar um número e ao escrever uma carta e enviar. Somos a consequência da nossa covardia, da nossa saudade não anunciada, do nosso medo de parecer bobos. Somos a soma daqueles acasos que afastam.
Às vezes penso em quantos acasos nos separaram. Em quantas vezes assistimos a um filme tendo o outro na sala ao lado, em quantas vezes andamos ao mesmo tempo por lados opostos do mesmo lugar, em quantos segundos me impediram de te ver passar. Depois penso em quantos telefonemas fariam tudo mudar. É tudo nossa culpa, Delilah. E te peço perdão, não sei onde foi parar a minha coragem, a determinação em andar todas as milhas necessárias pra te encontrar. Se transformou em um medo na metade do caminho: eu andaria, mas você me receberia? 
Como você está, pequena? Como andam as luzes dessa cidade? Como vai essa sua vida tão desorganizada em sua falsa organização? Sinto falta de você. Sinto falta de nós dois. Sinto falta do que eu fui com você. Sinto falta de te ter. De poder te ligar só pra te contar algo corriqueiro, de poder de te ver a qualquer momento, de dividir meu guarda-chuva quebrado. Se eu pudesse escolher, te escolheria aqui. Sinto sua falta, Delilah, e quase não consigo parar de escrever isso: sinto sua falta. E quanto mais escrevo mais sinto. E quanto mais sinto mais te quero aqui. E de tanto te querer mais te amo. Gosto de pensar que você nunca vai me abandonar, que em algum lugar do mundo eu sempre vou ter um abrigo, um porto, um lugar para onde correr. Talvez esse seja o sentido de tanta gente passar por nossa vida e depois ir para longe: para que tenhamos sempre para onde correr, onde encontrar um socorro em qualquer canto do mundo. Mas eu só queria que o seu lugar fosse aqui. Que fosse eu. Que fosse nós.
Onde você está, Delilah? O número que disquei não existe mais, as cartas que mandei não tiveram respostas, e a última voltou. Me dá uma pista ou encontra essa carta nessa garrafa atirada ao mar, e vem. Vem, Delilah, você tem para onde correr. Lembra da minha frase clichê favorita: "eu sempre vou estar aqui"? Então, "aqui" não é um lugar físico, "aqui" significa com você, significa com telefones e caixas de mensagens abertas, significa disponível, pronto pra lutar por sua causa, pronto pra te abraçar e nunca mais te soltar. Eu sempre vou estar aqui, Delilah. Quer eu queira ou não, quer você queria ou não: porque certas coisas a gente não escolhe. Certas coisas a gente só sente, abre os braços pro vento bater e se curva: que assim seja. Que assim seja o nosso amor, seja ele qual for.


10 comentários:

Jany Pequetita ♥ disse...

AMEIII SEU ESPAÇO FLOR

LINDO
SEGUINDO
BJOOS

Isabella Veloso disse...

Você sempre fala tudo o que eu queria dizer. Obrigada por transformar em palavras, o que meu peito grita. Parabéns !

Ana Lu disse...

Lindo, lindo! Aqui realmente não é um lugar, é um.. estado!

Gabriela Freitas disse...

Que texto foi esse? Ual, e essa musica que eu sou apaixonada, nossa, parabéns. Sério, aorei

rejane disse...

adorei seu blog e o post visite o meu se puder é:voando-em-sonhos.blogspot.com

Luana Natália disse...

Oh, meu Deus! Que texto maravilhoso é esse? Eu a-d-o-r-e-i! Muito fofo, do jeito que eu gosto.
E que assim seja, claro.

Beijos e, sinceramente, parabéns pelo blog!

Amanda Arrais disse...

Primeiro me ganhou com a música, depois, com as tuas palavras.
Gosto dessas coisas simples assim que fazem a gente sentir um monte de coisas de uma vez. E tu sabes fazer isso.

=*

Bruno Gaspari disse...

"...if every simple song i wrote to you would take your breath away, i'd write it all..." rs;)

Gessy Danforth disse...

Que texto lindo! Nossa!
Essa música não sai da minha cabeça, esse foi um dos motivos para iniciar a leitura do texto. Mal sabia eu que iria ler algo tão belo.
"Que assim seja o nosso amor, seja ele qual for."

Amém! (:

Luiza disse...

Tu é foda. Que lindo lindo, que amor, que tudo esse teu texto. Li 3 textos incríveis por aqui e por favor NÃO PARE. Eu me alimento de cada palavra, já te disse, tu é uma das minhas escritoras favoritas. Beijão

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