domingo, 20 de novembro de 2011

Ô seu moço.


Ô seu moço, ainda dá tempo de parar esse trem e jogar fora esse bilhete que tenta te afastar dessas terras? Pra quê ir agora? O céu tá tão bonito, as flores começaram a brotar, os campos estão prontos pra nossa corrida. As coisas não precisam acabar agora, só porque o tempo parece ordenar que seja assim. O que é o tempo? Isso deve ser invenção da sua cabeça, moço, coisa de gente da cidade grande. Por aqui, por essas terras do sertão, a gente mede o tempo pelo cheiro do ar, pela sombra da árvore, pela vontade que a gente tem de viver o dia. Você não precisa acreditar nesse papel com dias marcados, nesse negócio no teu braço que parece uma bomba prestes a explodir, que conta as horas pra sei lá o quê. Aqui não precisa de nada disso, moço, pode esquecer, se quiser. Esquece e fica por aqui. Essas terras gostaram da sua presença. Se você quiser ficar, moço, mas quiser mesmo, você pode. O tempo aqui anda a nosso favor, a favor da nossa vontade de viver. E se você tiver vontade de viver esse momento, de viver mais nessa terra, o tempo te ajuda e faz de conta que não existe. Fica, moço?
A gente por aqui é tudo meio bobo, com uma fé meio bonita na vida, com um sorriso que às vezes é torto no rosto, mas a gente é feliz, moço, a gente é feliz do jeito que só sabe ser quem é simples. Você é assim também, eu sei. Percebi quando você chegou e no mesmo instante fez todo mundo sorrir, se aconchegou no sofá da sala e de repente foi como se você sempre estivesse ali. Você tem alguma coisa, moço, um quê dessa simplicidade que a gente carrega em nossos bolsos furados, eu sei, moço, eu vi no seu sorriso. A gente que é dessa terra, tem o costume de conhecer as pessoas, deve ser porque a gente não tem muitas dessas coisas que vocês do lado de lá tem, a gente não tem essas máquinas todas, esses objetos engraçados pra observar. Por aqui a gente se observa. E, olha, moço, tá pra existir coisa mais bonita do que a gente mesmo. E ainda disseram que somos complicados, vê se pode, vocês, do lado de lá, é que complicam tudo. Mas você é diferente, eu já disse. Pode apostar que é. Por isso não vá embora, moço. Fica aqui pra gente descobrir. Quero te conhecer mais, observar seus pés correndo pela terra, ouvir das tuas histórias sempre tão engraçadas, ver seu sorriso de canto de boca quando olha, sozinho, o horizonte. 
O que é que você tem, moço, que quando passa tudo para, que quando fala tudo ri, que quando some tudo chora? O que é que você tem que me faz largar tudo pra vir te ver e tentar parar esse trem com flores? O que é moço, você sabe dizer? Esse sertão vira mar sem o senhor, um mar de saudades suas, um mar de lágrimas de todos nós.
Você, moço, faz um bem danado a todos que por aqui passam. À minha parte que desconfia e à outra que crê. À minha parte que foge e à outra que abraça. À minha parte que te pede pra ficar e à que te deixa ir. E fazer bem, moço, por essas terras não é pouca coisa. Fazer bem é aquilo que a gente sente quando quer estender o momento, quando quer abrir uma rede num sorriso pra descansar ali, quando quer absorver uma presença e nunca se esvaziar. É você quem faz isso por aqui, moço. Essas ruas são minhas, é o caminho por onde levo minha vida, e mando, sim, ladrilhar com as pedras mais bonitas que existirem: pra você passar e ficar, ficar e morar. Essa rua ladrilhada é minha, tem pedrinhas de brilhante, tem vestígios de sonhos, tem sorrisos de sinalização, e é tua, se você quiser.
Ô seu moço, escrevo pra pedir que você não vá. Pra pedir que você continue sentado naquela mesinha contando histórias e fazendo rir quem já tinha perdido o jeito da coisa. Que você continue por essas terras, pra gente continuar o que não precisa acabar. Escrevo como quem te pede pra ficar. Escrevo como quem diz que se não puder ficar, ao menos me leve, ou deixe um sonho bom e um vento que exale o som da sua risada quando passe. Escrevo só pra dizer que se você for eu vou morrer de saudade, como naquelas canções que você me ensinou a cantar sorrindo num final de tarde, e vou olhar o horizonte pensando em você, vou ver o seu sorriso na forma do sol quando se põe; me questionando, pela milésima vez, o que é que você tem que me deixa assim. Se você for, só vai restar saudade, e eu vou ficar vasculhando pelos cantos, esperando na estação, por alguém que faça tão bem a essa terra quanto o senhor, seu moço. Será que existe?
Ô seu moço, eu escrevo como quem pede: fica mais um pouco, tem uma rua inteira pra gente percorrer de mãos dadas. O tempo? o tempo não existe.

9 comentários:

Gislãne Gonçalves disse...

O tempo é ilusão!

Ótima semana
Beijos

Nathalia disse...

Depois de um texto lindo desses, tenho certeza que o moço fica... É impossível alguém não querer ficar perto de alguém que olha tudo assim, tão simplesmente, alguém assim que inspira...

meu mundo real disse...

como eu queria ter essa vocação que vc tem moça... queria mesmo... essa poesia... as minhas parecem que nunca saem... mais as suas... são perfeitas e parece naturais...

Amanda Arrais disse...

Tentei comentar no 00:00 quando li, achei genial, mas não enviou o comentário, então tenho que fazer essa observação. Isso bem aqui:
"Se fosse amor eu não cogitaria outra alternativa senão quebrar o relógio às 23:59.
- Mas talvez mesmo seguindo em frente seja amor. Talvez seja amor mesmo quando a gente precisa avançar pra 00:01." FOI LINDO demais.

Mas retomando o texto de agora: lindo também, óbvio.
"E, olha, moço, tá pra existir coisa mais bonita do que a gente mesmo."
Concordo. Senti uma calma ao ler esse texto, uma paz. Gosto disso.
Parabéns.

=*

Yohana Sanfer disse...

OoOo lindeza...acho que assim o moço fica, pra sempre!rs...parabéns denovo, não há como vir aqui e não me encantar, e não te parabenizar...sempre e sempre Nicole!

E aproveita: tem promoção no meu blog pra todos que seguem e me dedicam carinho neste 1 ano! =)

Suzi disse...

Que singelo!

Luiza disse...

QUE LINDO! Agora que já comentei isso, posso dizer que o texto saiu com um sotaque, uma coisa mansa, que mostra um amor tão lindo que a gente quer ficar lendo, e lendo mais. Ninguém devora tuas palavras, somos devorados por elas.
"Você, moço, faz um bem danado a todos que por aqui passam. À minha parte que desconfia e à outra que crê. À minha parte que foge e à outra que abraça. À minha parte que te pede pra ficar e à que te deixa ir."
Moça, para de nos apaixonar com palavras tão belas...
beijões

Amanda Menezes disse...

Nicole linda, que saudades daqui :) Como sempre eu não me decepciono lendo seus textos, né. Mais um pedido pra o seu moço ficar, e mais um pedido lindo que se ele visse provavelmente se convenceria. :)
Sei que vou dizer isso pela milessima vez, mas eu vou tentar voltar pra esse mundinho que tanto me faz e fez bem.
Beijão
Amanda Menezes

Gessy Danforth disse...

Uma infindável sutileza com as palavras!
Belo texto.

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