sábado, 5 de novembro de 2011

00:00


- Seria mentira se eu dissesse que ainda te amo.
- Seria mentira se você dissesse que não me ama mais.
- E então?
- Então estamos perdidos.
- Sempre estivemos. E ninguém nunca nos deu um mapa.
- Talvez não exista um.
- Eu só quero fugir.
- Fugir não vai fazer você se encontrar.
- Eu me encontrei no momento em que nos perdemos.
- Parece contraditório, não?
- Foi o que me restou: me agarrar a mim ou enlouquecer.
- Então pra que fugir?
- Pra desatar o nó de nós, pra nascer de novo, pra sair desses zeros da meia noite e começar um novo dia. Estar suspensa nesse vácuo em que te amar não é mentira nem verdade, me faz mal. Corrói meu coração, ocupa um espaço que eu poderia oferecer pra outro alguém. Essa meia noite em que estou me dá vontade de amanhecer, de girar os ponteiros do relógio por minhas próprias mãos, de assumir o controle desse trem. Meia noite, parada no vácuo, não é ontem, não te amo, mas não é amanhã, não posso dizer que não te amo mais. É o quê então? Alguém tem a resposta? Alguém tem um mapa, uma bússola, um relógio que não esteja parado no tempo?
- Você não mudou. Quer dizer, sim, mudou eu sei, seu cabelo está mais curto, sua franja mudou de lado, você emagreceu. Mas não falo disso, falo dessa sua mania de controle. Você sempre precisou ter algum controle, alguma defesa pronta, alguma ação pré-determinada. Nunca conseguiu ver um papel no chão e não pegar, uma amiga chorando e não socorrer, uma pergunta no ar e não responder. Você sempre resolveu as coisas, ou pelo menos tentou. Te admiro por isso. Mas talvez agora você deva parar. Apenas se deixar levar. Talvez tudo ainda doa demais porque além de te ferir por ser um amor não resolvido, fere suas defesas, fere o que você costumava ser e agora não consegue.
- Eu sei, mas... mas não saber o que fazer me paralisa. Não ando pra trás porque não sei se te amo o suficiente pra arriscar tudo de novo, e não ando pra frente porque não consigo enxergar além desse amor. Amor que eu sinto. Mas que não sinto. E só sei que existe.
- Amor. Como você sabe que é ou não é?
- Se fosse amor eu não cogitaria outra alternativa senão quebrar o relógio às 23:59.
- Mas talvez mesmo seguindo em frente seja amor. Talvez seja amor mesmo quando a gente precisa avançar pra 00:01. Quando o amor precisa continuar sendo, ele é. E isso você precisa aceitar: você não pode controlar.
- E então?
- Então estamos perdidos.
- E isso, pelo que parece, eu também não posso controlar.
- Será que alguém pode?
- Alguém chamado nós, talvez.
- (...)
- Seu silêncio é como a meia noite pra mim. E é disso que eu preciso fugir. Adeus, você.
- Adeus. Até o ponto, até a virada de ponteiro que une novamente nossas rotas perdidas.


(Meu professor de filosofia tem uma filosofia bonita sobre a meia noite: é o infinito do tempo. Ao mesmo tempo que é a última hora de um dia, é a primeira hora do outro; um minuto a mais é um dia, um minuto a menos é outro. Tomei a liberdade de me apropriar dela e fico por aqui, elaborando milhões de possibilidades pra essa peculiaridade tão bonita, pensando que às vezes a nossa vida é bem assim: meia noite. Nem ontem nem amanhã, ontem e amanhã, uma suspensão mínima do tempo. Quando nossas escolhas não estão bem certas, nossos caminhos estão parados, e a gente respira na hora zero da vida pra pensar que rumo tomar. Talvez eu esteja só filosofando bolinhas aleatórias, mas a questão é que eu achei incrível tudo isso e sou apaixonada por metáforas.)

13 comentários:

Daniel Oliveira disse...

Poucas vezes eu li algo com tamanha delicadeza tratando de relacionamentos e com um embasamento poético e filosófico, se formos considerar a teoria da meia noite. Bonito, leve, simplório. Algo bom de se ler ontem ou hoje. Algo bom de se ler à meia noite.

deia.s disse...

Ficou muito bom! Como sou apaixonada por diálogos não tive problema em ler este. :)
Gostei muito da imagem lá em cima, no título do blog, lindo.

Bom dia flor, kiss sweet.

http://amar-go.blogspot.com/

Cândida Schaedler disse...

Achei lindo, guria. Gostei muito da metáfora que tu usaste, e o diálogo é muito bom. Gostei do texto como um todo, resumindo. E como é difícil quando nossa vida parece ser meia-noite exata que insiste em não passar.

Beijos, flor. Bom final de semana!

Gabriela Freitas disse...

Seus textos são feitos com a alma e isso e bonito demais! Gostei dessa "filosofia" sobre a meia noite.

A autora. disse...

Nossa...quanta delicadeza, quanto sentimento entrelaçados formando nós...lindo demais esse texto! Quero ler todos com calma. Textos como esse alimentam o espírito e fortalecem a alma!
Quero vir sempre aqui. Posso?

;)

Srtª Vihh disse...

E eu adorei suas metáforas, o texto é simplesmente incrível, viu?
me apaixonei por este escrito.
bjOus

Mah disse...

Adorei a metáfora!

Baaah disse...

Perfeito.Tudo que eu precisava ler, nem ontem nem amanhã, ontem e amanhã.Sem mapa, com rotas trocadas mas, no meu caso, juntas por um propósito e uma razão: ser feliz e o amor.E como, também, sou amante incurável das metáforas achei realmente perfeito.De uma beleza leve na sua forma e densa em seu sentido, assim bem a sua cara bem do seu jeito: simples, inteligente e belo.
Preciso repetir que é sempre ótimo vir aqui?rs
Parabéns mesmo por esse talento incrível que transborda.
Beijão!!

Luiza disse...

Você apaixonada por metáforas e eu apaixonada pelos teus textos. Tem dias que eu só preciso te ler. Você é sim uma das minhas favoritas e te desejo todo o sucesso.
Que bonita a sua reflexão, teoria, filosofia. E eu não posso esquecer de escrever que eu também sinto um amor que não é amor, e mesmo assim, não deixa de ser amor. É um amor cortado ao meio, que não cresce e nem morre, não vinga e nem desfalece. Nunca sei se quero voltar um minuto ou avançar, quem sabe parar no tempo mesmo e só ficar junto...
Beijão

Flor de Lis... disse...

Oi Nicole, que textos mais lindos!! Fiquei encantada viu.... Parabéns!!

Não resistir, tomei a ousadia de postá-lo no meu blog (com tds os créditos, é claro!)

Beijoss ;)


http://fllordeliss2010.blogspot.com/

Yohana Sanfer disse...

E você sabe lidar muito bem com elas, as metáforas. Transforma metáfora, sentimento, interrogações e quereres em poesia, brilhantemente, como neste texto.
Denovo digo: admiro mto tua escrita Nicole! Um bjo moça!

Mayra disse...

Linda filosofia... quase chorei ao ler esse texto. Nunca havia pensado na infinitude de uma hora tão significativa... Belo texto!
(Ainda ecoa pela minha cabeça a palavra "reage" a cada vez que estou morrendo por algo e agora digo isso para todos!)

Luara Q. disse...

Você escreve lindamente ein, adorei.

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