quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sobre canções, caminhos e sentido ou um texto confuso.

Ou, o que foi escrito através da janela do ônibus.


O aleatório toca a canção que eu esqueci de lembrar para te esquecer e de repente tudo volta, menos você. E eu só questiono aonde é que a gente esteve até aqui; o que, afinal, estávamos fazendo com aquilo que até o final da canção anterior carregava consigo o nosso mundo inteiro. Amor, eu te disse naquela manhã nublada, era isso. Mas agora não sei mais o que fazer com termos que já foram usados, amor, saudade, e todo vocabulário que usei quando fazia sentido ou quando eu não tinha receio em não fazer sentido e ser tachada de louca. 
É o mesmo não saber que me paralisa em relação à canção que toca, não sei se interrompo a canção e o pensamento, ou se deixo continuar, só para ter certeza de que, pelo menos ali, você ainda é meu, eterno prisioneiro da canção que parecem ter criado pensando em nós. Em algum lugar a gente ainda existe, em algum lugar a gente sempre vai existir. É um pensamento bonito, saber que mesmo o fugaz pode se estender ao sem fim. É uma espécie de segurança saber que tenho para onde correr quando quiser morrer de saudade ou arrependimento ou vontade de estar perto, estar junto, estar com. Você. O moço desses versos da canção, das rimas pobres que arrisquei, das entrelinhas que fiz questão de escrever.
Pena que a gente tenha que se perder no meio do caminho para descobrir o que precisa mudar, pena que para se encontrar a gente tenha que se perder, pena que se perder no meio do caminho signifique estar alheio à vida do outro, se submeter ao risco de ser reduzido a nada e nunca mais recuperar a totalidade de um coração. Pena que todo o processo inclua o não saber e o não saber inclua suposições que ferem, julgam e afastam.
Tenho andado lúcida o bastante para perceber tais coisas, para não me deixar cair na besteira de acreditar que o querer seja poder e que telefones tocarão na manhã seguinte, mudando minha agenda e para sempre minha vida. Mais do que somente lúcida, acho que sou uma nova versão de mim mesma, porque depois de certas coisas e pessoas, a gente sabe que não pode continuar o que era antes. Existem novos erros, acertos, anseios que precisam ser considerados. Existem novos rostos que precisam ser estudados e alguns antigos que precisam ser riscados de vez.
Faz parte do processo, disseram, abrir espaço para novas pessoas, mas não acredito nessa sobreposição fácil de rostos que acontece por aí, até conseguirem ocupar o lugar que foi (e ainda é?) seu, existe uma estrada enorme a ser percorrida por pernas que não sei se quero que cheguem até mim. Para você o caminho é o mesmo, sem atalhos, porque atalhos enganam, mas com um diferencial: eu quero que você me alcance. Só não sei em qual caminho você está nem em qual direção; parados, nenhum de nós dois ficou, estou certa. Mas talvez seja só uma questão de ajustar os passos, trazer do passado apenas o que foi bom o suficiente para ficar gravado na canção que toca, e fazer do amor que está ali, mas esquecemos de lembrar, uma bússola. Havemos de ser o norte um do outro, e se não formos, espero por uma reviravolta na história que me aponte o norte diferente de você, que hoje, olhando dessa janela, não consigo enxergar. Se eu pudesse escolher, pediria que esse ônibus fosse parar de uma vez por todas na sua vida. Será que faz sentido? Quem sabe o sentido que há naquilo que eu não sei? Quem sabe aonde eu realmente quero estar? Quem sabe o que eu deveria sentir?  Quem sabe o que eu não sei mais? Ah, meu bem, interrogações demais para quem só queria você como ponto final e cardeal. Você como o meu norte, ainda que o meu norte se revele, cada vez mais, o seu sul.
Mas agora deixe-me ir, deixemos as interrogações para mais tarde, a canção terminou e é preciso seguir em frente, porque outra canção começou a tocar e nela você não apareceu.
(Mas quem sabe na próxima canção, na próxima esquina ou na próxima estação?)


Escrito no ônibus, dia 19/10, numa nota no celular. 
Não é bom, mas é meu, que se há de fazer? rs

8 comentários:

Anônimo disse...

Menina, você escreve de forma inexplicável, amei demais esse texto, descreve exatamente o que estou passando! Parabéns por saber expressar tão bem o que se passa na vida.

Maggie May disse...

escrevi tantas despedidas que não foram ditas...

Jaci Macedo disse...

Esse sentimento de despedida sempre acompanha todo mundo em algum momento da vida. Comigo, em vários momentos. O que vale mesmo é nunca perder a vontade de querer sempre novas coisas, novos lugares, novas pessoas. E quem tiver de se encontrar, vai se encontrar. Não importa como, quando e onde.

beijos, coração.

Gislãne Gonçalves disse...

Ou quem sabe na próxima parada de ônibus!

Beijos
:)

Isadora disse...

Só o fato de você ter conseguido escrever na nota do celular faz esse texto fantástico! Rs :)
Lindo como sempre...

Nathalia disse...

Texto incrível! Merece ser relido um milhão de vezes...

Ana Lu disse...

Lindo demais o texto, Nicole. Sempre que venho ao seu blog saio encantada com o que li.. =]

Ariana disse...

Tão lindo esse texto flor, lindo como todos os outros.
Nem sei o que comentar!

Beijos

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