segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Do modo imperativo do verbo reagir.

"Você precisa reagir
Não se entregar assim
Como quem nada quer."

- Reage. Tira a bolsa da mesa, levanta o celular, afasta a cadeira, não deixa o que foi derramado escorrer e piorar tudo, estende o pano pra secar.
Vai, reage. Não deixa as lágrimas borrarem teu rosto a ponto de o desconfigurarem. Já foi, todo mundo tem um limite, o seu já se esgotou; agora é a hora da reação. Reage de uma vez, levanta desse chão e vai à luta. Reescreve a história, coloca seus pés pra correr, faz o que você nunca fez. Reage. Pula desse trem que te leva aonde você sabe que não quer ir, não se acomode, não ache que melhor do que está é impossível, reage ao comodismo e pula desse marasmo, dessa vida parada mesmo em movimento.
Vai, pula, corre, escreve, levanta, reage. Sai dessa dor, abre essa janela, o sol quer entrar. Eu sei que quando o céu fica escuro o melhor a ser feito parece ser fechar a janela e ficar ali até o tempo passar. Mas quando o tempo passa, a vida vai junto. Você quer que ela passe enquanto você se esconde do mundo? O que é, afinal, que você vai contar pros seus netos? O que é que você vai ensinar, pros seus netos, pros seus filhos, pro seu vizinho? Vai, reage, deixa que essa seja a lição mais bonita que você já deu, que se lembrem de você como aquela que reagiu. Abre logo essa janela, não deixa essa dor vencer. Se a vida oferece chuva, vai, se molha. Depois o sol volta e conserta tudo. Mas não fica parada esperando. Reage. Há tanta coisa a ser vista, tanta coisa esperando sua decisão e reação pra acontecer. Às vezes o que falta na nossa vida é tão unicamente a nossa ação. Age. Re-age. Responde à essas ações que sua vida parece te impor. Muda o cenário, muda os personagens, muda o que não te agrada. Você tem a liberdade, de deixar como estar ou se envolver no que já chamaram por aí de mudança radical. De que lado você está? Na sua vida você é protagonista ou coadjuvante? Se às vezes os dias passam por você como estranhos, não há problema, é assim pra metade - se não todos  - do mundo lá fora, mas é você que não pode passar como uma estranha por dias que são seus, e de mais ninguém.
Reage ao que foi imposto, à janela que foi fechada, ao sol que esqueceu de sair. Ao que foi derramado e agora escorre, ao que foi perdido e agora sangra, ao que foi quebrado e agora pulsa descontrolado: reage. Reaja a seus medos: ao medo do escuro, acenda a luz; ao medo da solidão, coloque uma música pra tocar e dance sozinha; ao medo da saudade, faça telefones tocarem. Sua vida espera sua coragem. Reagir é não se entregar, resistir, lutar, tentar. Reagir é ir contra nosso comodismo, é ter iniciativa. Reagir é, mais do que tudo, se saber forte, se saber capaz, se saber apto para lidar as surpresas que a vida traz; é se vestir de coragem em meio ao medo. Reage que no meio do caminho a força vem, reage e não fica de mãos atadas e queixo caído enquanto o líquido derrama: reage. Todos nós somos lutadores em potencial, a gente só precisa descobrir aquela parte de nós que não se conforma, que não se deixa levar pela correnteza, que se agarra no primeiro galho que aparece e alcança novamente a margem do rio.
Se toda ação tem uma reação, o que te falta pra dar o pulo, o tiro certo, a cartada que mostra que você continua viva, continua no jogo e não foi o fim? Àquela porta que foi fechada, a solução não é sentar e chorar, pelo menos não por tanto tempo assim, levanta e vai pelo outro lado da rua, aquele por onde você nunca passou, ouvi dizer que por lá as casas são melhores e as portas levam à lugares incríveis. Reage, tenta de novo, e de novo, e de novo, e deixa o disco repetir, feito vitrola velha, essa mesma ladainha: tenta de novo, e de novo, e de novo... Àquela rasteira que a vida te deu, não aproveita pra ficar no chão, não, sacode a poeira, passa um algodão no que foi ferido, e levanta. Reage se mostrando mais forte, reage se mostrando determinada, reage se mostrando, dando a cara à tapa pra vida, se mostrando pronta para o que virá. Àquele não que a vida lhe impôs, enquanto você chora e não sabe o que fazer, repensa suas escolhas, repensa as consequências que um sim te traria, se descobrir que um sim seria melhor do que qualquer outra coisa, reage!, apaga o não que foi escrito e rabisca devagar aquele sim que você deseja; se descobrir que o não, ainda que doloroso, é melhor do que um sim que seria incerto, reage!, cuida de você, do seu coração, do que você esqueceu quando achou que o mundo tinha acabado. Olha ao redor e vê que ele continua girando e que o amanhã é a maior incógnita que já tivemos que enfrentar; suas ações o determinarão, suas reações o transformarão.
Reagir é um verbo bonito demais pra que seja esquecido naquele dicionário empoeirado na estante, é hora de trazê-lo pra vida. Eu reajo, tu reages, ele reage. Nós reagimos, vós reagis, eles reagem. E nossas vidas se transformam e o mundo gira a nosso favor. Vai, reage, tá esperando o quê? Sua vida espera a sua coragem.

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Um dia um refrigerante se esparramou pela mesa, celulares e bolsas eram vítimas em potencial e ninguém se movia. Todos olhavam assustados pro tal desastre, até que alguém - eu - gritou : REAGE!. E daí surgiu esse texto, enquanto eu tirava da mesa tudo o que eu podia, eu pensei no poder e necessidade de uma reação. Deve ter sido o conselho mais bonito, embora num momento tão banal, que dei pra alguém: reage.
Desde então fico pensando e quase chego a dizer, quando é a hora de desejar coisas boas pra alguém, "eu desejo que você reaja". Desejem isso pra mim, que eu desejo pra todos vocês! Reajam, reajam, reajam. A vida tem coisa demais pra oferecer pra gente ficar de mãos atadas e queixos caídos diante das surpresas que nem sempre são boas.
Vamos reagir, a força vai vindo com o tempo e no meio do caminho a gente se surpreende sendo forte. E se eu estiver em condições de aconselhar alguém nesses tempos em que não sei nem o que fazer de mim, o conselho é tão somente esse: reajam.
Boa reação para todos vocês. A gente se vê por aí, reagindo e, sobretudo, seguindo em frente, porque o que virá, aquilo que construiremos, há de ser incrível.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sobre canções, caminhos e sentido ou um texto confuso.

Ou, o que foi escrito através da janela do ônibus.


O aleatório toca a canção que eu esqueci de lembrar para te esquecer e de repente tudo volta, menos você. E eu só questiono aonde é que a gente esteve até aqui; o que, afinal, estávamos fazendo com aquilo que até o final da canção anterior carregava consigo o nosso mundo inteiro. Amor, eu te disse naquela manhã nublada, era isso. Mas agora não sei mais o que fazer com termos que já foram usados, amor, saudade, e todo vocabulário que usei quando fazia sentido ou quando eu não tinha receio em não fazer sentido e ser tachada de louca. 
É o mesmo não saber que me paralisa em relação à canção que toca, não sei se interrompo a canção e o pensamento, ou se deixo continuar, só para ter certeza de que, pelo menos ali, você ainda é meu, eterno prisioneiro da canção que parecem ter criado pensando em nós. Em algum lugar a gente ainda existe, em algum lugar a gente sempre vai existir. É um pensamento bonito, saber que mesmo o fugaz pode se estender ao sem fim. É uma espécie de segurança saber que tenho para onde correr quando quiser morrer de saudade ou arrependimento ou vontade de estar perto, estar junto, estar com. Você. O moço desses versos da canção, das rimas pobres que arrisquei, das entrelinhas que fiz questão de escrever.
Pena que a gente tenha que se perder no meio do caminho para descobrir o que precisa mudar, pena que para se encontrar a gente tenha que se perder, pena que se perder no meio do caminho signifique estar alheio à vida do outro, se submeter ao risco de ser reduzido a nada e nunca mais recuperar a totalidade de um coração. Pena que todo o processo inclua o não saber e o não saber inclua suposições que ferem, julgam e afastam.
Tenho andado lúcida o bastante para perceber tais coisas, para não me deixar cair na besteira de acreditar que o querer seja poder e que telefones tocarão na manhã seguinte, mudando minha agenda e para sempre minha vida. Mais do que somente lúcida, acho que sou uma nova versão de mim mesma, porque depois de certas coisas e pessoas, a gente sabe que não pode continuar o que era antes. Existem novos erros, acertos, anseios que precisam ser considerados. Existem novos rostos que precisam ser estudados e alguns antigos que precisam ser riscados de vez.
Faz parte do processo, disseram, abrir espaço para novas pessoas, mas não acredito nessa sobreposição fácil de rostos que acontece por aí, até conseguirem ocupar o lugar que foi (e ainda é?) seu, existe uma estrada enorme a ser percorrida por pernas que não sei se quero que cheguem até mim. Para você o caminho é o mesmo, sem atalhos, porque atalhos enganam, mas com um diferencial: eu quero que você me alcance. Só não sei em qual caminho você está nem em qual direção; parados, nenhum de nós dois ficou, estou certa. Mas talvez seja só uma questão de ajustar os passos, trazer do passado apenas o que foi bom o suficiente para ficar gravado na canção que toca, e fazer do amor que está ali, mas esquecemos de lembrar, uma bússola. Havemos de ser o norte um do outro, e se não formos, espero por uma reviravolta na história que me aponte o norte diferente de você, que hoje, olhando dessa janela, não consigo enxergar. Se eu pudesse escolher, pediria que esse ônibus fosse parar de uma vez por todas na sua vida. Será que faz sentido? Quem sabe o sentido que há naquilo que eu não sei? Quem sabe aonde eu realmente quero estar? Quem sabe o que eu deveria sentir?  Quem sabe o que eu não sei mais? Ah, meu bem, interrogações demais para quem só queria você como ponto final e cardeal. Você como o meu norte, ainda que o meu norte se revele, cada vez mais, o seu sul.
Mas agora deixe-me ir, deixemos as interrogações para mais tarde, a canção terminou e é preciso seguir em frente, porque outra canção começou a tocar e nela você não apareceu.
(Mas quem sabe na próxima canção, na próxima esquina ou na próxima estação?)


Escrito no ônibus, dia 19/10, numa nota no celular. 
Não é bom, mas é meu, que se há de fazer? rs

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tardes nubladas, chá e poeira.


Acredito em tardes nubladas em que nada pode dar certo, acredito em tardes ensolaradas em que tudo pode dar errado, só não acreditava em tardes nubladas em que as coisas simplesmente acontecessem. Até você. Ainda não sei porque resolvi aparecer naquela festa e só me falta me tornar uma daquelas pessoas que acreditam que tudo está ligado e blábláblá. Eu apenas estava lá, podemos deixar assim? Só resolvi entrar, decidi sentar naquele sofá em frente ao lugar onde você sentaria em breve e esbarrei em você, derrubando chá por todo o tapete e metade da sua blusa, por simples acaso. Não vamos procurar razões onde não existem, deixa que a questão principal seja: eu te encontrei, e nada mais. 
Eu te encontrei naquela tarde nublada, onde nada de bom aconteceria se dependesse da minha fé. Era fim de tarde, havia gente por todo o lado, chá e poeira pelo tapete, levantei meus olhos da besteira que tinha feito e te encontrei: seus olhos fechados, sua blusa agora manchada, suas mãos tampando a boca, prendendo o palavrão que ameaçava sair. Estraguei sua blusa, mas alegrei sua tarde, você admitiria depois, naquela noite chuvosa, quando eu disse pela primeira vez que te amava.
Mas naquela tarde, quando tudo o que ia acontecer ainda era longe demais para nossas visões, você apenas saiu, disse "tudo bem" para meus pedidos de desculpa e sentou do outro lado da sala, me deixando com a visão perfeita daqueles olhos que até hoje navego, cada vez mais preso no oceano que há ali. Ainda lembro quando um amigo se aproximou, percebeu que eu te olhava e me aconselhou a não cair na sua armadilha, a correr antes que fosse tarde. Mas já era tarde, eu quis gritar. Eu já estava preso. Eu já estava dentro daquilo. Eu já estava refém de seus gestos, passos e olhares. Então arrisquei. Me aproximei. Te chamei para perto e você fugiu, te busquei com o olhar e você se escondeu, me escondi e você me procurou e a gente enfim se encontrou. Você me disse sobre sua música favorita, seu livro de cabeceira, seu medo de estimação. Eu te disse sobre o meu time de futebol, meu projeto da faculdade, minha versão melhorada de mim mesmo. Você falou sobre suas contradições, opções e ideologias, e eu te disse sobre meu ceticismo disfarçado de indiferença. Decorei suas palavras favoritas e entendi que cada uma delas representava uma coisa para você, e que ceticismo era a palavra certa para definir sua relação com coisas que aconteciam de repente, que eram fugazes e superficiais. Então você não acreditava naquilo que acontecia entre nós, pensei, pelo menos não ainda, era preciso te convencer. Te convencer, mesmo depois de tanto tempo, ainda é minha missão diária, todos os dias acordo e penso no que posso fazer para te convencer de que te amo, de que vale a pena estarmos juntos, de que algo que começou "do nada" tem potencial para crescer se estivermos dispostos à trabalhar. Mas naquela tarde fui eu que me convenci de onde eu queria estar: onde você estivesse. Não nego, tentei fugir, mas bastou que eu desviasse o olhar por um momento para entender que quando o mundo te chamava você se dobrava em três, de medo ou vergonha, mas quando o mundo te esquecia você dobrava o seu tamanho em três, ressurgia maior e se fazia notar. Meu olhar voltou e nunca mais encontrou espaço por onde fugir, nunca mais desviou de você, nunca mais precisou se esconder.
Hoje, tanto tempo depois, enquanto te vejo dormir com os pés descobertos, relembro como foi bom que a gente tivesse se encontrado assim, sem planejar, sem marcar na agenda, sem sair de casa com o pensamento de encontrar alguém especial. A gente se encontrou, penso com um sorriso no olhar, não nos procuramos, não corremos um atrás do outro, apenas nos encontramos naquela tarde nublada onde nada foi previsto. Era fim de tarde, você era o chá e eu a poeira, o tapete era aquele sofá. Você, feito seu chá, se lançou sobre mim, adormecido feito poeira, esquecido naquele sofá. E a gente se misturou, chá e poeira, e nunca mais se separou.

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