segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Sobre barquinhos de papel, a enxurrada e eu.


"Meio tolo, você se pergunta assim:
“Para onde vão os barquinhos de papel soltos na enxurrada?” 
Com sorte, você deseja, o barquinho chegará à outra esquina. 
Com mais sorte ainda, cairá em algum ralo, depois num esgoto, depois ainda, sempre inteiro, será levado até algum rio. Até o mar, quem sabe? 
Você imagina um barquinho de papel capaz de atravessar incólume
 todas as torrentes e perigos para chegar ao mar."  

Barquinho de papel, eu. Eu, barquinho de papel. Barquinho de papel solto na enxurrada. Para onde vou com toda a minha fragilidade e inabilidade? Em direção ao mar, certamente.
Hoje quero falar de mim, como para o diário que nunca tive e que esse blog nunca planejou ser. Por isso venho aqui, sem precisar me camuflar em história alguma, me reconhecendo como um barquinho de papel que viaja por aí numa enxurrada - chamada vida - muito mais forte do que eu, só para dizer que eu me descobri, me reinventei e agora me sei sendo.
Acho que acontece com todo mundo, em algum momento a vida esbarra na gente, nos chama para luta, nos coloca frente a frente com o passado e a gente se vê perguntando o que é que aconteceu. Aconteceu comigo. Caí no chão, a vida bateu forte demais, os ventos foram frios e violentos demais para um simples barquinho que só havia navegado por águas rasas. Então, quando dei por mim, enquanto tentava me levantar e colocar esse barco numa direção certa, me olhei no espelho e questionei: "O que é que aconteceu até aqui?", "Onde é que eu estava enquanto minha vida corria para longe de mim?", "Quando é que eu ia acordar e me enxergar?" Só pude concluir que essa era a hora, em meio à toda a fraqueza, eu decidi que seria forte; em meio à uma noite de  choro, eu decidi que pela manhã eu sorriria; em meio à escuridão daquele céu, eu decidi que era um ótimo momento para aprender a ser feliz mesmo em dias nublados.
Não tenho a vida perfeita (e cá pra nós, tenho dúvidas se ela existe), tenho amigos que dão trabalho, tenho saudades de quem não deveria, tenho uma lista de coisas que quero dessa vida pregada na minha parede pessoal. Mas eu me sinto, enfim, bem. Houve um tempo em que estar assim seria algo perto do fim do mundo, mas agora é só a vida. É só a enxurrada que leva o barquinho para o mar, sem ela o barquinho não chega nunca, sem esses ventos fortes, o barquinho demoraria demais para alcançar as águas mais calmas.
É isso: encontrei beleza na enxurrada. Arranjei um tempo para ser feliz e troquei preocupações pela certeza de que o vento bagunça tudo hoje para arrumar amanhã. Limpei meu coração das mágoas e reconheci que tinha gente especial demais ao meu lado. Quando eu quis sumir, encontrei gente que quis me ver, que me disse palavras sinceras, sem precisar de ensaio ou cálculo, com a espontaneidade que só a sinceridade sabe ter. Me peguei sorrindo sozinha ao perceber o valor que algumas pessoas tinham para mim, foram segundos de eternidade, quando a gente esquece que a vida pode ser barra pesada e decide que certas coisas nasceram para nunca acabar. Descobri novas manias, novas paixões, modos diferentes de ver a vida. Mudo de opinião sem medo, sinto saudade sem culpa, assumo meus desejos sem vergonha. Me assumi para o mundo, coração: gelatinoso, sorriso: frouxo, convicções: fortes. Tem espaço para mim aí?
No meio de tanta escuridão fui obrigada a olhar para dentro e agora, talvez pela primeira vez, começo a gostar do que vejo. Não sou tudo o que queria ser, mas sou alguém que eu gostaria de ter por perto. Sou um barquinho na enxurrada e isso me alegra. Sou um barquinho de papel que, depois te ter sido amassado, rasgado e de ter afundado - porque assim tinha que ser - teve que ser refeito. Um barquinho novo em folha, porque arrumar às vezes não basta, é preciso descontruir para construir de novo.   
Sou só um barquinho na enxurrada. Alguém que abre a janela e vê esse céu, que já foi negro de dor e vermelho de paixões que fizeram mal e hoje é só azul. Azul de vida, azul de vontade de viver, azul de possibilidades. Sou só alguém que se descobriu e se sabe imperfeita e cheia de erros, mas certamente especial. Um barquinho solto na enxurrada que segue sem preocupações, segue sabendo que o mar há de chegar, com águas calmas e um barco que reme numa mesma direção e num só sentido. 
Eu, barquinho solto na enxurrada. Barquinho solto na enxurrada, eu. Uma canção de amor para mim mesma.

"Então você abre a janela para o ar muito limpo, depois da chuva. 
Você respira fundo. Quase sorri, o ar tão leve: blue."

(Aspas no início e no final: Caio Fernando Abreu)

17 comentários:

Amanda Arrais disse...

Mas, Nicole, que texto foi esse, menina?! Só as aspas do começo já me fizeram pensar em um milhão de coisas. E aí depois tu chegas, estilhaçando cada pedaço de pensamento e eu me senti escrita e descrita em cada parágrafo. Todos nos achamos titanics, até que naufragamos pela primeira vez e nos descobrimos tão frágeis como barquinhos de papel.
Você escreveu TUDO que eu precisava ler, só posso agradecer.
Parabéns mais uma vez e como sempre.
Sou tua fã.

=*

Roberta Galdino disse...

ual
belo texto
isso é realmente bom
bj

Gislãne Gonçalves disse...

E a gente segue imaginando tantas coisas e entre elas os barquinhos de papel

:)

Ju Fuzetto disse...

Daqui Nick, eu "barquinho de papel" me desfaço.

Sem palavras. Lindo


Um beijo

Srtª Vihh disse...

Um suspiro é este seu texto, perfeito assim, me fez pensar, lindo demais.
bjOus

Ana Lu disse...

Que texto lindo, Nicole. Impossível ler sem se identificar com algumas partes e terminar tendo a certeza de que aprendeu uma lição.. Realmente o barquinho precisa dessas enxurradas. Incrível.
Beijos!

Ariana disse...

Que texto maravilhoso, é tão bom quando nos redescobrimos, quando seguimos em frente apesar de tudo.
Quando encontramos pessoas que valem a pena.
Fico feliz por você!
Adorei o texto!

Beijos

Emi disse...

Nic, aqui venho eu para te dizer de novo... Mais um. Mais um que toca daquele jeito no coração que quem lê, de quem sente cada palavra e se identifica com essa sua forma tão única de descrever sentimentos, experiências, sensações. Eu sou uma das tocadas, e sinceramente? Você me descreveu, sim, parece que viu de perto uma parte marcante da minha história, do meu cair e levantar.
''Sou um barquinho de papel que, depois te ter sido amassado, rasgado e de ter afundado - porque assim tinha que ser - teve que ser refeito. Um barquinho novo em folha, porque arrumar às vezes não basta, é preciso descontruir para construir de novo. ''
Construir de novo é mais do que necessário quando já não suportamos afundar. Tenhamos então orgulho de nós mesmas, que conseguimos renascer das cinzas e enxergar os primeiros sinais de felicidade novamente.
Beijos, minha flor!

Ana Flávia Sousa disse...

Melhor que se descobrir, é redescobrir hein?! Texto tão gostoso Nicole.
Apesar de todas correntes, de todo vento. Você, barquinho de papel, continuando forte, feliz, blue.
Estou encantada. *-*
beijos

Gabriela Freitas disse...

Precisamos de um pouco de azul.
me emocionei com o texto.

GiovannaMoser disse...

Um barquinho que perto do mundo é minusculo, mas perto de alguém é gigante. O ponto de vista de cada um faz, refaz e transforma qualquer ideia.

http://attraversiamodiciotto.blogspot.com/

Suzi disse...

e a gente encontra apoio até nos desconhecidos,pelo visto. mas, isso é bom,né? acabamos sendo todos iguais. meio espalhafatosas, chorões, fingindo estar bem através de um conto.

mas, continuamos crescendo, junto com a nossa escrita[enfim, é como eu penso]

Isadora disse...

A gente tem que passar por muita coisa pra aprender, valorizar e dar espaço para a felicidade. Infelizmente. Mas, no final, dá certo. Lindo texto!

Anônimo disse...

Este foi um bom artigo para ler, obrigado por compartilhar isso.

Marcy! disse...

Magnífico. Simples assim.

Dhaniii disse...

Kra!!! Cada vez q leio um texto seu me emociono mtu!!!!!
Simplismente lindo!!!!!
Obrigada por compartilhar seus sentimentos e emoçoes!!!!!!! Abraços

Jaqueline Zanella disse...

Caramba!!! Onde é que ainda tem gente escrevendo assim? Não te conheço, mas certamente esse texto deveria ser lido por muitos jovens. Dá um estudo e tanto, qualquer um, de qualquer idade, se identifica com esse texto. Espero que você ainda continue escrevendo coisas maravilhosas como esta. Paz!

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