quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A gente.


- Que dia é hoje?
- Quinze meses e vinte dias depois.
- Sério que você conta?
- Dia sim dia não, para ter algo pelo qual declarar saudade e pensar nostalgicamente enquanto deito a cabeça na janela do ônibus e deixo o pensamento te encontrar.
- Uma espécie de masoquismo?
- Não, você é a saudade que eu gosto de ter.
- E você a que eu gostaria de nunca mais sentir.
- Nunca mais sentir devido à minha presença constante ou à sua total indiferença à minha ausência?
- Sinceramente? De qualquer forma que aliviasse meu peito de sentimentos que só prometem e nunca são e me tornasse capaz de, mais uma vez, experimentar o prazer do voo em vez dessa imobilidade angustiante.
- E se você pudesse escolher uma dessas formas?
- No amor a gente nunca escolhe.
- Mas e se pudéssemos?
- Jamais escolheria a sua presença.
- Por quê?
- Porque nesse mundo em que amor não se escolhe e o que a gente escolhe nunca é, não quero correr o risco de te escolher e não ter. Quero sempre o risco de poder cruzar com você, mais uma vez e sempre, numa dessas esquinas.
- Já que a gente não escolhe, essa história de amor poderia ser ao menos simples. A gente se cruza numa esquina e nunca mais desfaz o abraço, nunca mais conhece motivos pra se afastar, nunca mais deixa qualquer um outro entrar nesse jogo, além de nós dois.
- Mas o amor é simples, a gente é que complica.
- A gente: eu e você ou a gente: o mundo inteiro.
- A gente.
- Como assim?
- Quando eu te perguntei o dia, bastava que você dissesse a data de hoje. Simples. Não precisava que você revirasse o passado nem entrasse em explicações que acabaram por remexer em cicatrizes. Bastava que fosse a data de hoje e eu diria que era um ótimo dia pra desenharmos mais uma esquina e nos cruzarmos por lá. Mas no passado não há como interferir. Só no agora. Poderia ser simples como 1 + 1, mas a gente faz do amor uma equação com incógnitas demais para qualquer coração. Felizes são aqueles que não se preocupam em entender o que aconteceu, só continuam. Aprendem, não reviram mágoas. Se dão mais chances, acreditando no que foi bom. Seguem em frente, não supervalorizam dores.
- E quem são essas pessoas?
- Por que não a gente? Ainda dá tempo, antes do precipício tem espaço para improvisarmos uma esquina e um encontro que não precisa acabar.
- Esquece o que eu disse, hoje é dia de começar de novo. Eu e você. A gente. E só. Sem passado ou nenhuma outra pessoa. A gente. E nos bastamos.

Texto da Madrugada: 15/08/11

10 comentários:

Ana Lu disse...

"Felizes são aqueles que não se preocupam em entender o que aconteceu, só continuam."
Adorei! Principalmente essa frase! Realmente falta as pessoas pararem de complicar o que poderia ser naturalmente simples.

Ana Flávia Sousa disse...

É bem sério isso tudo que você conseguir nos passar viu. Imagina mesmo, conseguimos transformar uma simples adição numa equação de terceiro grau complicadíssima.
Regra de três seria melhor: Eu estou pra você, assim como você está pra mim. E juntos faremos com que o passado não nos machuque mais e que o futuro seja o mais maravilhoso, independente do dia, da esquina, só ' a gente'.
Amei demais! *--*

Mayra disse...

O amor é simples, mas o ser humano não gosta de simplicidade, então acaba complicando tudo. Meio masoquista e bobo, eu diria.
Dá uma raiva tremenda dessa coisa de quando você esquece o passado e tenta pensar no presente, no que se pode fazer hoje para consertar erros cometidos há tempos e vem algum tolo e te faz relembrar de tudo, fazendo com que o sofrimento volte e tudo desande...
Você escreve muito bem. Realmente amo ler o seu blog, seus textos me dizem muito, é sempre uma nova descoberta, uma nova aventura... Obrigada!

Marcelo" disse...

"Se você sabe explicar o que sente, não ama, pois o amor foge de todas as explicações possíveis"

- Realmente gostei muito de ler o seu texto, as pessoas precisam entender que o passado já aconteceu e o futuro ainda não existe, e a unica coisa que podemos mudar é o presente... Tudo o que precisamos fazer é desenhar mais uma esquina e criar um encontro infinito.
- Seu texto está - na falta de uma palavra melhor - sucesso!

seeYA!

Amanda disse...

"De qualquer forma que aliviasse meu peito de sentimentos que só prometem e nunca são e me tornasse capaz de, mais uma vez, experimentar o prazer do voo em vez dessa imobilidade angustiante."

Tenho pensado isso há tempo tempo que acho que meu destino é ser estátua. E concordo plenamente quando tu dizes que felizes são aqueles que não se preocupam em entender que aconteceu. Mas alguém é realmente capaz disso?
Em julho eu sempre vinha aqui e não achava textos novos, fiquei com saudade. Agora percebi que tô atrasada e vou ler tudo de uma vez, sempre um prazer enorme.

=*

Amanda Arrais disse...

Mas o que é isso, menina? Me apaixonei demais pelo texto "Carta ao desconhecido." É tudo que eu sei que ainda vou dizer um dia pra alguém que ainda não vi chegar. Lindo como você descreve o que eu sinto mesmo sendo "desconhecidas", haha.
Parabéns!

=*

Gabriela Freitas disse...

que assim seja, um novo dia e um novo começo.
"Mas no passado não há como interferir. Só no agora. Poderia ser simples como 1 + 1, mas a gente faz do amor uma equação com incógnitas demais para qualquer coração."
adorei.

Isadora disse...

ficaria tão feliz se pudesse ser assim...

Yohana SanFer disse...

Ahh Nicole, lá vem vc me encantar denovo com esses textos intimistas que eu adoro...coisa linda tudo isso! E essa "A gente se cruza numa esquina e nunca mais desfaz o abraço"...perfeitoo! Parabéns moça!

Ariana disse...

Felizes são aqueles que não se preocupam em entender o que aconteceu, só continuam. "

Eu últimamente estou tentando só continuar, não entender nada e confesso que o resultado esta sendo bom.
O amor é muito simples, nós que somos complicadas.

Amei o texto flor!


Beijos

poderá gostar de:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...