segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta ao desconhecido.


Eu estava aqui quando você apareceu: nesse campo imenso onde nada acontecia. Onde eu brincava com o vento em minha própria solidão, escrevia palavras soltas sob sol, chuva e céus estrelados, sobre as histórias que nunca vivi. No início estar aqui era uma obrigação, como se a vida quisesse tratar comigo, me ensinar na marra, pingar todos os meus is e, quem sabe, me tornar mais forte em tudo o que eu era. Mas agora, nessa exata hora em que você surgiu, estar aqui é um prazer. Uma espécie de refúgio, onde me sei forte, mais segura de mim mesma e, enfim, livre. Então, pássaros anunciaram sua chegada, ouvi seus passos a caminho, vi sua sombra se esconder atrás daquela árvore. Te observo daqui, me perdendo em hipóteses, razões pra ir ou ficar, assistindo seus esforços, ouvindo o vento trazer palavras que você disse sobre em mim enquanto o máximo que eu fazia era ficar aqui e sorrir: nunca antes tão eu mesma. 
Você me viu pelo que eu era, sem que eu tivesse tempo de prever sua chegada e acertar os passos dessa minha dança com o vento. Você me viu em minha solidão, sem maquiagem ou disfarce, em meus passos espontâneos e falas de última hora. Você me enxergou. Se nada der certo e eu acabar machucando teu coração, ao menos fique feliz: você é especial demais por ser assim e merece, merece mesmo, alguém que pode não ser eu, mas que te faça absurdamente feliz.
Sabe, você chegou quando eu menos esperei e não sei ao certo se quero sair daqui, se quero me expor novamente pra todos aqueles riscos que um dia castigaram tanto esse coração que ainda tenta bater num ritmo diferente. Por mais que eu tente fugir do clichê das cicatrizes, não há como não cair nessa tecla: elas estão aqui e me lembram que podem voltar a abrir a qualquer momento. Eu sei que uma hora iria acontecer e alguém viria me chamar de volta, mas já? será que estou preparada? Ah, moço, é que você não sabe. Você não sabe meus medos, meus sonhos, meus erros. Você desconhece minhas manias, meus trejeitos, meus conceitos. Desconhecidos, é o que somos. E o desconhecido me assusta. Só mergulho quando tenho certeza de que é o que quero e só salto quando sei quem vai estar lá embaixo pra me segurar.
Olha, não quero te repelir nem te assustar. Não quero fechar a porta pra você sem nem ao mesmo ter ouvido sua voz me chamar. Então, venha. Pode vir, saia de trás dessa árvore, se aproxime aos poucos do meu campo, cante sua canção preferida, deite aqui do meu lado ao anoitecer e conte sua história sob um céu estrelado. Me convença a te pedir pra ficar, a te dar permissão pra me decifrar, a tirar o prefixo do desconhecido e segurar minha mão para irmos. Hoje é impossível, mas amanhã quem sabe? Venha, tente, se aproxime. Você não estava nos meus planos, mas já que está aqui, puxe uma cadeira e fique mais um pouco. Não deixe essa casca dura que carrego por fora te assustar, por dentro sou assim: só coração. Não deixe que eu te use apenas como uma desculpa pra não pensar no que passou, faça com que não me reste outra alternativa se não pensar em você. Não se atrapalhe nas dificuldades que vou enxergar, amplie minha visão. Não pare na primeira barreira que vou impor, seja criativo e persistente, diga que não importa onde iremos parar, o caminho certamente valerá a pena. 
Confesso que não gosto de riscos, mas tenho aversão à ideia de desistir sem tentar, de manter portas fechadas com medo da bagunça que poderá restar depois, pra eu limpar sozinha. Se aproxime, mas não tenha pressa. Aqui nesse campo o tempo anda a nosso favor. Querido, tenho medo, porque você tenta me levar a um lugar que nunca conheci, mas revele-se e me convença a ir. Alimente minha paixão e meus sonhos, que eu encontro a coragem para escrever um sim. Me convença, mostre que meus pré-conceitos estavam errados e me surpreenda com suas qualidades. Estou disposta, moço, me encante e vamos: rumo ao desconhecido, como dois desconhecidos cujos olhares decidiram se conhecer.

6 comentários:

Ana Flávia Sousa disse...

Nossa! Parece que esta moça sou eu, há meses atrás. Mesma história! Fiz como você, arrisquei e confesso, não me arrependo!
Deixei de pensar nas feridas passadas e foquei no presente recebido!
Sorte neste teu campo. Deixe que o moço plante uma semente diferente, ainda inexistente e te faça esquecer este medo de saltar.

Beijinhos.

Deyse Batista disse...

Achei a carta super sentimental, acho que qualquer uma de nós se identificaria com ela e algum momento da vida. Fora que eu adoro o estilo de cartas, e como a sua ficou super bem escrita, a leitura fluiu como se fosse um pensamento meu :)

Beijos.

Ariana disse...

Que carta linda, sincera.
Bom, espero que esse moço consiga quebrar o gelo do seu coração.
E que você perca o medo e se jogue, as vezes vale a pena!
Boa sorte flor!

Beijos

Angélica Lins disse...

Basta-me dizer uma palavra para teu texto: INEFÁVEL

Um capricho esse teu bog.
Beijo

Luiza disse...

Que lindo, adorei. Ele ficou muito bem escrito. Fiquei pensando: nossa, quanto talento essa moça tem, será que ela sabe?
Nós duas temos um lado muito parecido, e eu confesso que tenho medo de deixar alguém entrar porque já cansei de limpar a bagunça sozinha, de recolher todos os cacos do que ficou. Aos poucos, esse é o meu conselho, aos poucos de entregue-se, permita-se desvendar e também conheça o outro. Que te faça bem e que seja doce.
Beijões moça, o layout ficou lindo!

Juliana Alves disse...

Texto pra mim! Minha história de vida, neste momento. Postei váaaarios trechos no face (:
Amo Amo o que você escreve, Nicolee
Obrigada por me ajudar a dizer o que fica mudo nas cordas vocais.
Beeijos ;*

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