quarta-feira, 13 de julho de 2011

Para o moço que me vê da sacada.


Eu não deveria estar aqui, mas agora que estou, deixe-me sentar no meio-fio e te escrever uma carta extraviada de tudo o que eu deveria sentir. Num ato louco e impensado, me vi virando a sua esquina, entrando naquela rua que já percorremos inúmeras vezes, de mãos dadas, apostando corrida, carregando sacolas com nossos jantares. É a primeira vez que passo por aqui em anos. Não sei porque estou aqui, o que foi que me deu depois de todo esse tempo pra estar aqui fazendo papel de boba, mas estou. Em carne, osso e coração, parada em frente à sua casa, ouvindo suas canções favoritas saírem da janela do seu quarto. Pode chamar de maluquice, masoquismo ou só saudade. Não vou te chamar, fazer escândalo, muito menos serenata; não vou bater na porta e sair correndo, tocar o interfone só pra ouvir tua voz ou tacar uma pedra na tua janela. Só vou sentar aqui e escrever uma carta pra não te mandar, sobre todos os dias que passaram e o que nunca mais foi o mesmo sem você.
Sabe que hoje no mercado tocou aquela nossa música e eu fiquei cantando feito louca desejando que você estivesse lá? Como naquele dia em que sem querer fizemos um dueto ao reconhecermos aqueles acordes tão nossos soando numa caixa de som qualquer. Sua música favorita nunca mais será a mesma, e isso me soa como uma espécie de vingança por tudo o que nunca mais será o mesmo nessa vida que, depois te abraçar, foi forçada a abrir os braços e te deixar ir. Disseram que amor só passa a ser amor quando você a encontra nos versos de uma canção que não é uma qualquer. Então foi amor, eu descubro sempre que tiro o pó das lembranças. Mas a canção não parou, as notas continuam a sair da sua janela, e o amor?
Ah, moço, depois de você, seu estilo literário nunca mais foi apenas mais uma estante da livraria; as músicas que um dia ouvimos nunca mais tocaram sem nossa história nas entrelinhas; as coisas sobre as quais falamos nunca mais foram apenas coisas, são pequenas partes suas que não me deixarão jamais. Inevitável pensar se na sua vida também existe uma espécie de exposição "depois de você", baseada em mim, cujos corredores estejam abarrotados de pequenas coisas que só nós conhecemos e por eles sopre aquele vento de saudade.
Será que alguma vez você me escreveu uma carta que nunca li? Será que um dia, passando pela minha rua, você ameaçou parar em frente à minha sacada? Será que seus dedos já digitaram meu número e desistiram de ligar? São tantas perguntas. É difícil aceitar que pra você não tenha sido como foi pra mim, que tenha sido fácil se recompor, colocar as lembranças num baú e esquecê-las por lá, encontrar outra inspiração, alguém que soubesse melhor do que eu a receita pra sua felicidade. Sempre penso em você assim, como alguém que já me esqueceu há anos, que não se intimida com minha presença e não sente nenhuma vontade de um daqueles controles que voltam no tempo. Me ocorre agora que não sei quem é você, não sei pra quem escrevo, mas diz: depois de todos esses anos de silêncio, o que restou? Amor, saudade, torpor? 
Sabe, não te esqueci. Nem por um dia ou noite fria. Nem por um segundo eterno de solidão. Nem por uma ou outra intenção que tiveram em me fazer feliz. A minha vida continuou, foi preciso. Até inventei umas paixões instantâneas, uns suspiros quando outro passou, uma esperança num relacionamento que nunca aconteceria. Tentei, tenho tentado até hoje me livrar do passado, por causa daquele blábláblá todo de que o futuro só vem quando a gente abre mão do que passou. Ah, se o futuro soubesse das vezes que abri mão de você, correria até mim sem perda de tempo e arrombaria minha porta. Só eu sei o quanto desejei o novo, o não você, o que me levaria embora desse lugar. Foram muitas as noites em que estive disposta a te deixar de lado, em que não enxerguei em você nenhum prazer, nenhum sentimento que valesse a pena ser reconstruído. Mas, DROGA!, ainda é você o que mais vale a pena. Com todos os seus erros, defeitos e incompreensões. Com tudo o que me faz te odiar uma noite inteira e derramar lágrimas por tanto te amar. Dias sim dias não acredito na gente, num futuro brilhante. Dias sim dias não, ondas de desesperança fazem o travesseiro onde minha cabeça tenta descansar. Mas dias sim e dias também te amo.
Você, moço, que me vê da sacada, sentada nesse meio-fio, ainda é o primeiro nome que vem à cabeça quando pronunciam amor, ainda é o que há de mais novo pra me fazer suspirar, ainda é um motivo valido pra acreditar naquelas filosofias baratas sobre todos os obstáculos até o verdadeiro amor. Peço pra que um dia me liberte ou então desça até aqui de uma vez e me roube de mim mesma, desse caminho que eu seguia e tentava me levar pra longe de você. Vem cá, moço, que nossa canção não terminou. Ah, moço que amo, você é a saudade mais bonita daquela vida que ainda não vivi. E caminho melhor até lá, não há.

5 comentários:

Ulli Uldiery disse...

Cartas, como são verdadeiras. Um delícia esse seu texto. Lendo-o me peguei pensando em quanto a nossa vida é marca pela presença e ausência de pessoas, tudo, exatamente tudo lembra alguém, ou algum momento (com alguém), desde músicas, a lugares e cheiros.
Que o moça que a vê da sacada, a pegue no colo e termine essa canção.
Lindo suas palavras. Amei esse cantinho. Beijos!

Marie Raya disse...

Eu adoro esse tipo de texto, onde mais parecem cartas direcionadas exatamente pra determinadas pessoas. Acho que você descreveu meus sentimentos em cada palavra, em cada linha. Lindo, simplesmente, lindo. Um beijo :*

Ariana disse...

"Ah, se o futuro soubesse das vezes que abri mão de você, correria até mim sem perda de tempo e arrombaria minha porta."

Ah esse futuro que nunca vem quando a gente precisa, que nunca acontece quando achamos que tem que ser, que é a hora certa. Ele maltrata demais nosso coração. Mas desde que aprendi a usar mais a cabeça venho entendendo de que nada acontece por acaso, que o que é pra ser sera, tanto pra coisas boas como pras ruins.
O segredo é tentar não se prender ao passado e viver o presente sem pensar muito no futuro.

Nem preciso dizer que essa carta ficou maravilhosa né?
Chorei um oceano lendo ela!

Beijos

Luiza disse...

Fiquei com raiva desse moço estúpido e de todos os moços estúpidos e de todas as pessoas estúpidas que deixam amores assim se esvaírem. Que não tentam, que não dão chance e que se quer pensam na sequência dessas histórias. E fiquei com raiva da vida por fazer isso com a gente.
Mas sabe, é em todo o amor e não-mais-amor que você ainda guarda, que eu lembro do amor que eu ainda guardo. Sentimentos imensos deixam rastros, não tem jeito.
Eu adorei, como sempre. Acho a sua escrita fantástica e não me canso de dizer. Beijões ♥

Thayrine disse...

"Ah, moço, depois de você, seu estilo literário nunca mais foi apenas mais uma estante da livraria; as músicas que um dia ouvimos nunca mais tocaram sem nossa história nas entrelinhas; as coisas sobre as quais falamos nunca mais foram apenas coisas, são pequenas partes suas que não me deixarão jamais"...

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