quinta-feira, 7 de julho de 2011

Enxurradas.


São oito da noite de uma sexta-feira sem maiores promessas. O tempo continua firme, a canção que eu ouvia há pouco gritava que eram chegadas as tardes de sol à pino. E, de fato, chegaram. O sol lá fora encontrou o jeito certo de imperar com toda a sua maestria, as nuvens passaram a ser coadjuvantes e a chuva nem se atreve a dar as caras, com medo de não ser bem-vinda. Na verdade, certamente não seria. 
Há algum tempo atrás, a chuva mostrou-se capaz de destruir construções - as sólidas e as invisíveis. Famílias perderam tudo: casas, entes queridos, pertences - sonhos. Gente que lutou pra ter um lar, que trabalhou a vida inteira pra isso, que suou, lutou, se virou nos 30 e nos 5 pra enfim deitar a cabeça no travesseiro com a certeza de que ali dentro daquelas quatro paredes haveria vida, de repente viu todas as paredes ruirem e onde há pouco houvera vida, só havia morte e desolação. Trágico, eu sei. Se fosse comigo, confesso que não sei se conseguiria me refazer. Mas a parte mais importante, aquela que acontece quando as câmeras da tv se afastam e a tragédia cai no esquecimento: o que é que as pessoas fazem depois? Certamente recomeçam.
Difícil imaginar uma família - ou o que restou dela - dar as mãos e seguir em direção ao nada. Sem saberem ao certo o que vestir, o que comer ou  no que acreditar. Mas as doações chegaram de todos os cantos do país e a crença, pra ter motivos pra seguir em frente, deve ter sido um amanhã melhor do que o hoje. O fato é que só restam duas opções: parar a vida e se lamentar por ter perdido o pouco que havia ou ir adiante e rumar pro futuro, pro depois de amanhã, pro dia onde tudo se justifica e a recompensa chega. Se é fácil? não tenho dúvidas que não. Mas é o que resta e a única opção de sobrevivência, nunca ouvi sobre alguém que desistiu e conseguiu sobreviver. O segredo é acreditar, não medir esforços, suor, tempo, nada. Lutar, dar o que for possível - e o que for impossível também, por que não? -, deixar que chamem de loucura ou o que for. 
Nossas tragédias cotidianas parecem contos infantis perto da tragédia que sobreveio à centenas de pessoas - e sobrevém dia após dias sobre outras. Mas a questão é que não importa se a enxurrada é de água ou palavras, ambas possuem capacidade para destruir nossas construções, carinhosamente apelidadas sonhos. O que mais seriam os sonhos se não construções? Você tem nas mãos um projeto arquitetado por você mesmo e se predispõe a todos os dias conseguir um tijolinho que o ajude a torná-lo real. Mas aí vem a chuva, a frase de alguém que diz que vai embora, a demissão, a reprovação no vestibular, as milhares e diversas enxurradas que a vida disponibiliza e pronto, construções são levadas embora, tijolo por tijolo. Seria hipocrisia dizer que recomeçar é fácil e que imediatamente é possível correr atrás de novos tijolos, novos projetos, novos ares. Não é, e por isso há o luto. Mas depois do luto e antes da festa, deve sempre vir a luta. Nossas desistências não podem passar de uns dias sem nada a ser pensado, nosso desânimo não pode ser mais do que uma noite trancados num quarto, nossa descrença jamais deve ser maior do que a esperança de que amanhã tudo se resolverá. Então você vai, eles vão, nós vamos à luta. Em busca de dias melhores. Atrás da força pra construir um edifício sólido, um sonho que não desmorone, uma construção que não desabe e sirva de abrigo quando a enxurrada vier - porque sempre vem. 
Àqueles que tiveram suas casas destruídas e hoje se perguntam por onde (re)começar, peço, como Caio fez, que Deus derrame o sol mais luminoso por eles continuarem tentando; e que essas nuvens sumam de vez desse céu e a luz indique um caminho, ínfimo que seja, em meio à destruição. Àqueles que tiveram seus sonhos destruídos e que não imaginam como voltar à ativa, sugiro que olhem para o lado, para aqueles que, segundo a lógica humana, foram atingidos por uma tragédia maior e continuam de pé, firmados na certeza de que o melhor se anunciará em breve. Enxurradas vêm sobre a vida de qualquer um. A diferença é a forma como elas são encaradas. Entre sentar em meio aos escombros e chorar o que não mais existe e recolher a sujeira pra construir algo mais sólido, prefira a segunda opção. Não é cômodo, muito menos indolor. Mas é a única opção com recompensa.

Escrito em 18/02/11

4 comentários:

Ariana disse...

Nossa flor, tu conseguiste falar de um assunto tão sério de uma forma suave.
A vida é assim, cheia de tempestades, enxurradas e temos que ser fortes pra quando elas passarem não desabarmos juntas.

Amei o texto!

Beijos

Ana Flávia Sousa disse...

A querida Nicole!
Como você é talentosa menina!
Suas palavras chegam tão lindas, limpas, suaves e macias aos meus olhos, mesmo que estejam falando sobre um assunto tão delicado.

Você tem toda razão, e sigo esta lógica desde sempre!
Claro que é inevitável reclamar de uma chuva que não passa, de uma calça que não serve mais, de uma nota baixa na faculdade... mas, pensar nas tragédias alheias e na maneira que são encaradas e superadas, é um exercício a ser realizado dia após dia.

É encarar nossos fantasmas e orar por quem está numa enxurrada de correnteza mais forte e traiçoeira.

Grande beijo.

Gabriela F disse...

A, olha só, est um assunto realmente serio, do tipo que aperta o coração de se ver, ouvir e ler, fiquei sem palavras para te dizer o quanto este textp está incrivelmente bem escrito.

Luiza disse...

Ah como ficou bonito o seu blog :)
Investiu no layout e eu adorei. O conteúdo sempre vai ser o mais importante, mas você sempre cativa através dele. Dessa vez você não falou de amor, você mudou o tópico mas seguiu com sua mesma essência. E essa fé que você sempre me apresenta, é o que me ilumina muitas vezes quando eu penso em desistir, ou recair. Você me faz acreditar. Beijos moça do sonho

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