segunda-feira, 2 de maio de 2011

Provocação.


Lembro da primeira vez que te vi, era primavera, havia uma flor recém colhida em seu cabelo e paixão em seus olhos. Ousei pensar que ainda que fosse inverno, você encontraria um jeito de tirar flores da cartola e aquecer pelos seus próprios meios a chama daquela paixão que seus olhos me mostravam. Eu me perguntava baixinho como podia alguém acreditar tanto na vida como você, de onde vinha tanta força, qual o preço que você pagava pra manter aquele sorriso no rosto. Naquela primavera você sorria e cantava canções que pela primeira vez faziam sentido. Você rebatia com convicção cada argumento contrário que te lançavam, levantava a bandeira do "all you need is love", sem saber que você mesmo um dia iria confrontá-la. Antes de ir embora te perguntei por que você escrevia, você sorriu e disse que apesar de não ter certeza, arriscava que o motivo fosse provocar. Que cada letra, cada sentimento exposto, cada argumento, era uma provocação. Você queria que as pessoas descobrissem os sentimentos, os que muitas vezes são soterrados pelo tempo, os que são guardados numa gaveta à espera da tal hora certa que nunca chega, os que são abandonados à beira do caminho por doer demais. Então, naquela noite primaveril eu entendi que você, como disse Vinícius de Moraes naquele verso, era "feita de música, luar e sentimento", apostando claramente numa dose maior do último componente.
Talvez você não entenda o motivo dessa carta repentina, já que há poucos dias atrás nos encontramos ao acaso naquela mesma praça e dissemos todas as habituais coisas que dois conhecidos que não se veem há bastante tempo dividem um com o outro. Mas é que eu te achei diferente e te examinei sem que você soubesse, à procura do tal traço que não combinava com a menina que eu conhecia. Só ao chegar em casa e comparar as duas cenas na minha mente, descobri: a praça era a mesma, a estação primaveril acabara de entrar em cena, as flores já estavam lá, só seus olhos pareceram apagados. Você era a mesma, mas lhe faltava o componente principal, a paixão, o sentimento pela vida que você passava toda vez que seus olhos encontravam os meus. 
É por isso que te escrevo, para me vingar de você e, dessa vez ser aquele que te provoca. Essa carta é uma provocação. Quero trazer a tua memória aquela garota que existe aí dentro de você e que você agora esconde por ter medo de fazer o papel de boba. Mas é essa sua bobeira que te faz ser diferente, e disso você bem sabe. Entendo que você tenha cansado, apagado as luzes do sentimento e deitado serena na rede, sem nada a pensar, muito menos a lutar. Uma alegria triste, um sossego sem paz, um grito duramente silenciado. Entendo, mas peço que você acenda de uma vez essa luz e descubra todos os sentimentos que a vida ainda tem reservado para você.
Quero te provocar a sentir tudo de novo, a se arriscar, a tentar o voo, mesmo já tendo sofrido a queda. Te provoco a lembrar daquele sentimento da primavera passada, do que feriu e do que curou, a perder o medo das lembranças. Te provoco a chamar aquele riso tão conhecido por ti e a deixar-se sorrir junto, a evocar as frases que te tiraram do chão, a ler o que foi dito e encontrar naquelas palavras a verdade que você bem sabe ter sumido dessas frases que você escolhe a dedo para não se entregar. Te provoco a sentir de novo aquela dor, a chorar as lágrimas que te sufocam, a lembrar dos erros do passado e decorá-los para não vir a repetir nenhum deles. Só assim estarás pronta para enfrentar a vida e perseguí-la. Te provoco a colocar o dedo na ferida e a escrever todas as linhas que forem necessárias para que seu peito respire livre da responsabilidade que é dizer o que se sente. Te provoco a se olhar no espelho com os olhos não de alguém que sofreu, mas de alguém que sobreviveu e escolheu ser mais forte e não deixar que a fria realidade impedisse que a paixão nos seus olhos queimasse, incendiasse, esquentasse quem está do teu lado por causa dessa chama.
Te reencontrei aquele dia e substituí minhas perguntas habituais por outras. Será que aquela menina ainda se apaixonava pelas coisas simples? Será que a lua que impera lá no céu ainda a fazia pensar em alguém, seja lá quem for, e a lembrar de todos os sonhos? Ah, e os sonhos? Será que eles ainda a alimentam ou a vida tirou o que aquela menina tinha de mais ingênuo e belo: os sonhos que nasceram num coração e incendiaram um olhar desde a primeira vez em que um livro caíra em suas mãos?
Por fim, te provoco a responder de forma positiva todas as perguntas feitas por mim, ainda que não seja verdade, mas que sirva ao menos para te convencer de que a vida continua e que o coração cedo ou tarde há de vencer, principalmente na vida de quem acredita. E isso, menina, você sabe muito bem que faz como ninguém. Acredite em mim: abandone a paixão pela vida e a vida te decepcionará, entretanto, escolha nutrí-la a cada dia e a vida te recompensará. Olhe no espelho e veja seus olhos como você nunca viu antes, como um espelho daquilo que tens por dentro: sentimento. Perca o ritmo, perca a hora, perca o medo, só não perca isso.

9 comentários:

Juliana disse...

Sempre que eu tento pensar sobre o propósito de escrever, não chego a conclusão nenhuma. O que penso sempre é que é uma válvula de escape, um refúgio, um alívio. Mas a verdade é que é isso: uma provocação.
Talvez eu seja como essa menina para quem tu escrever. Talvez eu tenha deixado minhas paixões no meio do caminho, mas um dia elas voltam. Sempre voltam...
Li o último texto, sempre leio. E tua escrita me encanta sempre. Leio sem a obrigação de comentários e bla bla, leio por prazer.

=*

Amanda Arrais disse...

ps: Era eu aqui. :)

Luiza disse...

Não perca isso moça, não se perca. Não sei se os seus dias estão assim, sem o sol amor como os meus, mas espero que você não esfrie por dentro e se mantenha, guarde a sua fé imensa que respinga na gente. Beijão

Jaci Macedo disse...

Sempre achei que a forma de não se perder no emaranhado que muitas vezes somos, é escrever. Embora que algumas vezes se perder durante o caminho é a melhor forma de se encontrar. Sempre lindo aqui, coração.

beijos.

Súu disse...

Realmente incrivel como vc consegue encantar com as palavras *-*
Muito bom o texto ^^

bjoo

Ariana disse...

"Te provoco a colocar o dedo na ferida e a escrever todas as linhas que forem necessárias para que seu peito respire livre da responsabilidade que é dizer o que se sente."

Uau, nunca parei pra pensar no porque de eu escrever, mas desconfio que seja porque tenho dificuldades de dizer o que sinto e acho mais fácil escrever.
Mas não se perca flor não perca o rumo, os sonhos, como já dizia o Caio F. " vai passar"


Amei esse texto, sem dúvidas entrou pra minha lista de favoritos.

Beijos

Lara Oliveira. disse...

Que texto MARAVILHOSO! Teu blog é lindo, e me encantei pelas tuas palavras. Escrever é sempre um refúgio, mas ás vezes até pra isso temos um certo receio, não é mesmo?
Beijos.

T. disse...

Normalmente só venho aqui, leio e penso sem falar... Mas, menina, seus textos são absolutamente encantadores! Ganho meu dia toda vez que venho aqui! E esse texto... Nossa. Absolutamente incrível. O tipo certo de provocação. Acabou de ser salvo nos meus favoritos. (:

Acho que escrevo meio a meio... Um pouco por prazer, um pouco por refúgio... Um muito pra dizer aquelas coisas que a garganta insiste em travar. rs

Continue a escrever sempre... Você tem a alma mais sensível que já vi. Igualzinha à dessa menina do conto, eu arriscaria dizer :)

Yohana SanFer disse...

Ahhh que coisa linda! Tanto tempo sem vir aqui e olha o que encontro: uma crônica sobre sentimento, sobre viver de sentir!Importante sim, essencial! A vida recompensa, tb acredito e aposto! Adorei moça, vc me encanta sempre!
bjsss

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