quinta-feira, 26 de maio de 2011

Do alto da pedra mais alta.


Por alguns segundos esclarecedores, essa não é uma carta de despedida. Devido a um raio de sol atrevido, rompendo as barreiras impostas pelas nuvens negras, o que era fim virou um recomeço; o que seria um salto, virou um voo; o que seria uma fuga, virou um reencontro.
Daqui de cima dessa pedra vejo a cidade inteira, suas luzes acesas, seus carros que vez ou outra avançam o sinal, suas pessoas que levantam em mais uma manhã e seguem suas vidas, cumprem suas rotinas, dão um passo à frente todos os dias. Para cada uma dessas luzes, ao menos um coração partido; em cada uma dessas esquinas, ao menos um buscando uma razão; em cada passo aparentemente decidido, ao menos um pensamento de vacilação; em cada levantar da cama, ao menos a esperança de que hoje será melhor do que ontem e amanhã melhor do que hoje. Para cada pessoa um pôr-do-sol, e para cada pôr-do-sol, a certeza de que, ainda que entre as nuvens, o sol voltará na manhã seguinte.
Não tenho muita certeza do que farei daqui em diante, para onde esses meus passos me conduzirão, com quem cruzarei numa dessas esquinas, mas hoje eu escolho viver. Nem tudo me é claro, o 1 + 1 que a vida me apresentou, continua somando zero, os dias parecem desobedecer o calendário que agendei pra mim, nem tudo é como esperei, as letras das promessas foram apagadas daquele pedaço de papel, a vida sacudiu minhas certezas, me rodopiou dentro de mim mesma, e o que sobrou foi isso: dias de intensa movimentação interna - auto-conhecimento, é o que dizem - como se eu estivesse fora de mim - ou cada vez mais dentro? - e me observasse e fizesse um retrato falado de mim mesma, pra descobrir quem afinal habita nesse corpo.
Descobri que desistir agora seria muito fácil, ir embora, fugir da possibilidade de esbarrar com meu passado por essas esquinas, seria algo não perto de coragem. Por pouco não fugi, não fosse o sol. O sol bateu no meu rosto e me acordou, me convidou pra viver a vida como ela é - longe das idealizações românticas, cada vez mais perto do cotidiano realista, mas ainda assim encantadora. A vida, essa caixinha de surpresa controlada pelo tempo, bateu na minha porta e me tirou pra dançar. Um passo de cada vez, como um aprendizado, como se eu nunca tivesse pisado nesse solo, como se cada experiência fosse o começo. Sem passado, sem traumas, sem memória dos passos em falso. A vida, essa estrada finita, mas infinita em suas possibilidades. Para cada dor, um aprendizado; para cada um, um tempo, um lugar, uma história; para cada história terminada, um novo 'era uma vez'; para cada 'nunca mais', um 'mais uma chance' escondido no fundo da gaveta. 
Tô indo viver, de mãos dadas com a vida. Como um pássaro desacostumado a voar, que cai, mas descobre que sobreviveu pra tentar novamente, eu abro novamente minhas asas pra alçar um voo ainda mais alto dessa vez. A queda não me importa, assumo os riscos, decoro minhas falas com segurança, reescrevo a rota dessa longa viagem que me aguarda. Não quero parar aqui, quero ir além e descobrir o que a vida tem pra mim. Custe o que custar. Em algum lugar desse caminho há algo que só eu posso fazer, há alguém de quem só eu posso cuidar, há um coração que só minhas palavras podem tocar. Preciso chegar até lá, intacta, cada vez mais armada e mais consciente do que sou. A viagem é longa, eu sei, e eu não quero me perder de mim, abrir mão do que sou pra chegar mais rápido. Quero o caminho mais difícil e a contramão, se esse for o jeito de não poluir meus sonhos e ideais. Quero aprender nesse meu caminho, sem atalhos. Quero ser o melhor de mim, todo dia desistir de desistir, desaprender pra aprender, perder pra reencontrar. 
Essa carta, que seria de despedida, agora é o tapete de boas-vindas que a vida estende para que eu passe. Aqui, do alto da pedra mais alta, descubro que a vida, mesmo quando parece apenas escuridão, tem também seus raios de sol.

"E a vida existe e também é bonita. E se renova. Tem lados de luz."
(Caio Fernando Abreu)

(Da série: textos da madrugada, com minúsculas correções, deixa assim como está. É uma personagem que até agora me pergunto se ia pular da pedra ou apenas fugir da cidade e o que teria acontecido com ela para tomar tal decisão. Talvez assim livre dê a oportunidade de cada um que ler se encontrar nela e criar a sua própria história.)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Bobagens, meu bem, bobagens.


Você pode ir até esquina para respirar outro ar, você pode procurar um outro par pra sua dança, você pode culpar a chuva pelo trânsito que sempre te impede de chegar até mim. Você pode rasgar todas as folhas que citam meu nome e me excluir de todos os seus contatos, você pode me calar, me colocar numa estante e deixar que a poeira esconda o meu rosto, pode ignorar os dias em que a saudade te acordou de madrugada e lembrar apenas das vezes em que a minha lembrança era um ponto distante demais no horizonte ao qual você dava as costas enquanto caminhava. Você pode usar de todos os artifícios para não lembrar, de todas as rotas para fugir, de tudo o que não foi pra se convencer; você só não pode negar o amor.
Existe algo que acontece por trás de tudo isso, além das suas palavras escolhidas para se esconder, na frente de cada nota abaixo de cinco que você distribui mentalmente àqueles caras que sonham com o dia em que serão eu - ou ocuparão o lugar que ocupo. Ambos sabemos que não sou o nota 10 na sua escala, mas do saber até o convencer o coração, eis aí a verdadeira batalha. Você luta, eu sei. Passas seus dias sem nenhum pensamento em mim, mas antes de dormir os seus pensamentos são meus. Rabiscas versos sem rimas em mim, mas deixas nas entrelinhas a inspiração que tirastes daquelas lembranças que também são minhas. Sei que todos os dias você narra para si um capítulo da história sobre nossas ausências, cujo tema principal deixou de ser a saudade para ser essa sua certeza de que todas as minhas palavras já mudaram de endereço. Mas toda essa sua corrida para longe de mim é em círculos, porque você, mais do que ninguém, sabe que o amor sempre encontra um jeito de te atropelar e de te empurrar de volta praquele nosso canto. Você sabe, meu bem, que a canção não terminou, e que esses solos de guitarra do tempo apenas anunciam a virada que em breve acontecerá, quando nossas vozes unidas gritarão aquele nosso refrão. Existe algo que te traz de volta e nos prende aqui, se não for o amor, me empreste a sua gramática, porque na minha só há essa explicação.
Vá até a esquina, mas volte pra me contar da falta que fez o meu braço ao teu redor; dance com outro par e tente não comparar os passos dele com o meu, se conseguires, aí então te deixo ir, mas se seus passos ensaiados precisarem da minha falta de jeito e do meu ritmo descompassado, você sabe onde me procurar. Corre de uma vez e entra nessa porta que sempre esteve aberta para você. Entra e fica. Coloca os pés no sofá, põe teus livros na estante e tuas páginas nos meus favoritos. Coloca tuas músicas carregadas de histórias pra tocar, forra a cama com teu lençol lilás, borrifa o teu perfume no ar desse apartamento tão castigado pela tua ausência. Toma de uma vez por todas o lugar que sempre foi teu.
Não, prometo não dar nome às emoções, se isso te assusta tanto. Mas não, não há como dizer que não é amor. Como você explica a mensagem diária que pisca no meu celular me dizendo pra não esquecer o casaco, usar o capacete, me alimentar bem? Como você explica a sua virada de cabeça toda vez que uma colega se aproxima de mim ou meu telefone toca e você sabe que a voz do outro lado da linha é feminina? Como você explica essa angústia que samba no teu peito sempre que eu conto sobre o que vivi sem você, isso que te faz sentir tão excluída do que me fez ser esse cara que hoje não só te inclui na história, como te faz personagem principal? 
E o que mais seria esse meu cuidado por ti, essa consciência de que a sua felicidade - longe ou perto de mim - é a única coisa que importa? Tem também o frio na barriga que sempre sinto antes de te encontrar, o medo de te ver escapar por entre meus dedos, a expectativa de que um dia você me diga um sim definitivo e se tranque aqui dentro. Sem contar na falta excruciante que você me faz mesmo quando vai na padaria, dizendo ir apenas verificar se aquela canção dos barbudos faz mesmo sentido e você não a canta por cantar. E aí, todos eles sabem que você me encontrou ao te verem sorrir lendo o jornal enquanto espera o pão? Porque sim, meu bem, quando é a minha vez de testar a veracidade da canção, parece mesmo que alguém se inspirou em nós para escrevê-la. 
E então, do que chamar o peso que carregamos durante nossas ausências, as lágrimas que derramamos quando não havia nenhum sentido aparente, os telefonemas que demos só pra ouvir o riso tímido, de quem não sabe o que dizer, mas não quer terminar a ligação, do outro lado da linha? Ah, amor, é amor.
Até quando você vai insistir em não ver? Até quando você vai fugir? É amor sim, um amor que você nunca conheceu e se assustou ao sentir. Eu sei que todos os outros tentaram e falharam, mas eu posso ser diferente. Eu sei que nenhum deles nunca te tratou como eu, e que todos esses clichês te assustam, que você teme todas essas discussões bobas e as interrupções bruscas que acabam te ferindo e enchendo teu peito de ausências. Mas dessa vez é diferente, acredite em mim. Não importa o que passou, o que importa é o amor.  E só. O seu medo, o meu medo, nossos passados e cicatrizes são apenas bobagens. Bobagens, meu bem, bobagens.

"então vem
vem e me ama
por uns momentos profundos
e o resto?
bobagens, meu filho, bobagens."
(Caetano Veloso)


terça-feira, 10 de maio de 2011

Clichês, saudades e confissões.


Chove lá fora. E é com esse clichê que começo o e-mail que nunca encontrará sua caixa de entrada, porque foi com esse clichê chuvoso que a saudade encontrou a porta de entrada do meu coração. Clichês e comparações toscas, e a culpa é sua. Às vezes me surpreendo porque, apesar de tantas outras pessoas terem surgido e partido depois de você, ainda é seu o primeiro rosto que vem à minha mente quando alguém menciona "saudade". Lembra de quando ainda fazia sentido escrever todos esses clichês? Ainda hoje reli tudo o que dissemos quando andávamos por aí sufocados com essa saudade que não sabíamos como seria tratada ou matada. Parece que enfim descobrimos o que fazer com ela: fazer de conta que não existe. O problema é que ela existe e o único jeito de torná-la inexistente é sufocando-a com sua presença. 
Às vezes me pergunto por que cargas d'água você não cumpria o que suas palavras diziam sobre trocar tudo o que você tinha para estar comigo, eu nem exigia tudo isso, bastava que você trocasse o medo que tinha de mim pela vontade de estar comigo e tudo ficaria bem. Você temia meus nãos e eu guardava pra você a minha coleção mais bonita de sins. Sim, tudo o que eu mais queria era te encontrar. Sem cobrar palavras como amor, amizade ou qualquer outro rótulo que tentamos colocar sobre nós, sem nunca conseguir. Sim, não era só amizade, mas será que chegou a ser amor? Não importa o passado, importa o aqui e agora, e o que eu quero dizer é que preciso te encontrar.
Quero te encontrar pra relembrar teu sorriso, pra esquecer a sensação de estar perdendo tua fisionomia, pra sorrir de novo a cada minuto. Quero um abraço teu, como nunca tive; quero te ouvir dizer um "tá bonita" mesmo que o meu cabelo esteja em pé por causa da chuva; quero esquecer por instantes do que eu fui sem você pra relembrar do que eu era ao teu lado. Quero um apelido novo, te chamar de chato e depois dizer sobre o quanto sua companhia fez falta. Quero quebrar essas barreiras, pular esses abismos que surgiram no nosso caminho, e recuperar a certeza de que não importa o tempo ou a distância, sempre haverá sentido - e verdade - em nossos clichês. 
Esses dias precisei de você pra andar comigo debaixo desse céu escurecido, pra dizer o que sou e não enxergo, pra me lembrar de que o que é verdadeiro não morre. A vontade é de te dizer que pessoas como você são proibidas de sumir, proibidas de se ausentarem dos mundos e das vidas que os cercam porque o preço da ausência é caro demais, é pago em saudade, falta e dor. Mas não digo, porque há muito tempo nossos clichês foram escondidos em alguma parte da estrada dessas milhas que nos separam. 
Esse e-mail recheado de saudade e vontade de te ver é só pra confessar que eu preciso de você. Preciso de você, e isso deixou de ser uma confissão pra ser um grito de socorro, um pedido de resgate, um sinal de fumaça em meio à imensidão desse mar - de dúvidas, medos e incertezas - que separa nossas ilhas e que quase me afoga sempre que tento chegar até você.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Provocação.


Lembro da primeira vez que te vi, era primavera, havia uma flor recém colhida em seu cabelo e paixão em seus olhos. Ousei pensar que ainda que fosse inverno, você encontraria um jeito de tirar flores da cartola e aquecer pelos seus próprios meios a chama daquela paixão que seus olhos me mostravam. Eu me perguntava baixinho como podia alguém acreditar tanto na vida como você, de onde vinha tanta força, qual o preço que você pagava pra manter aquele sorriso no rosto. Naquela primavera você sorria e cantava canções que pela primeira vez faziam sentido. Você rebatia com convicção cada argumento contrário que te lançavam, levantava a bandeira do "all you need is love", sem saber que você mesmo um dia iria confrontá-la. Antes de ir embora te perguntei por que você escrevia, você sorriu e disse que apesar de não ter certeza, arriscava que o motivo fosse provocar. Que cada letra, cada sentimento exposto, cada argumento, era uma provocação. Você queria que as pessoas descobrissem os sentimentos, os que muitas vezes são soterrados pelo tempo, os que são guardados numa gaveta à espera da tal hora certa que nunca chega, os que são abandonados à beira do caminho por doer demais. Então, naquela noite primaveril eu entendi que você, como disse Vinícius de Moraes naquele verso, era "feita de música, luar e sentimento", apostando claramente numa dose maior do último componente.
Talvez você não entenda o motivo dessa carta repentina, já que há poucos dias atrás nos encontramos ao acaso naquela mesma praça e dissemos todas as habituais coisas que dois conhecidos que não se veem há bastante tempo dividem um com o outro. Mas é que eu te achei diferente e te examinei sem que você soubesse, à procura do tal traço que não combinava com a menina que eu conhecia. Só ao chegar em casa e comparar as duas cenas na minha mente, descobri: a praça era a mesma, a estação primaveril acabara de entrar em cena, as flores já estavam lá, só seus olhos pareceram apagados. Você era a mesma, mas lhe faltava o componente principal, a paixão, o sentimento pela vida que você passava toda vez que seus olhos encontravam os meus. 
É por isso que te escrevo, para me vingar de você e, dessa vez ser aquele que te provoca. Essa carta é uma provocação. Quero trazer a tua memória aquela garota que existe aí dentro de você e que você agora esconde por ter medo de fazer o papel de boba. Mas é essa sua bobeira que te faz ser diferente, e disso você bem sabe. Entendo que você tenha cansado, apagado as luzes do sentimento e deitado serena na rede, sem nada a pensar, muito menos a lutar. Uma alegria triste, um sossego sem paz, um grito duramente silenciado. Entendo, mas peço que você acenda de uma vez essa luz e descubra todos os sentimentos que a vida ainda tem reservado para você.
Quero te provocar a sentir tudo de novo, a se arriscar, a tentar o voo, mesmo já tendo sofrido a queda. Te provoco a lembrar daquele sentimento da primavera passada, do que feriu e do que curou, a perder o medo das lembranças. Te provoco a chamar aquele riso tão conhecido por ti e a deixar-se sorrir junto, a evocar as frases que te tiraram do chão, a ler o que foi dito e encontrar naquelas palavras a verdade que você bem sabe ter sumido dessas frases que você escolhe a dedo para não se entregar. Te provoco a sentir de novo aquela dor, a chorar as lágrimas que te sufocam, a lembrar dos erros do passado e decorá-los para não vir a repetir nenhum deles. Só assim estarás pronta para enfrentar a vida e perseguí-la. Te provoco a colocar o dedo na ferida e a escrever todas as linhas que forem necessárias para que seu peito respire livre da responsabilidade que é dizer o que se sente. Te provoco a se olhar no espelho com os olhos não de alguém que sofreu, mas de alguém que sobreviveu e escolheu ser mais forte e não deixar que a fria realidade impedisse que a paixão nos seus olhos queimasse, incendiasse, esquentasse quem está do teu lado por causa dessa chama.
Te reencontrei aquele dia e substituí minhas perguntas habituais por outras. Será que aquela menina ainda se apaixonava pelas coisas simples? Será que a lua que impera lá no céu ainda a fazia pensar em alguém, seja lá quem for, e a lembrar de todos os sonhos? Ah, e os sonhos? Será que eles ainda a alimentam ou a vida tirou o que aquela menina tinha de mais ingênuo e belo: os sonhos que nasceram num coração e incendiaram um olhar desde a primeira vez em que um livro caíra em suas mãos?
Por fim, te provoco a responder de forma positiva todas as perguntas feitas por mim, ainda que não seja verdade, mas que sirva ao menos para te convencer de que a vida continua e que o coração cedo ou tarde há de vencer, principalmente na vida de quem acredita. E isso, menina, você sabe muito bem que faz como ninguém. Acredite em mim: abandone a paixão pela vida e a vida te decepcionará, entretanto, escolha nutrí-la a cada dia e a vida te recompensará. Olhe no espelho e veja seus olhos como você nunca viu antes, como um espelho daquilo que tens por dentro: sentimento. Perca o ritmo, perca a hora, perca o medo, só não perca isso.

poderá gostar de:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...