quarta-feira, 2 de março de 2011

Dois barcos.


Você vai sair por aquela porta daqui a alguns dias. Como eu sei? Eu só sei. Acho que seus olhos hoje me disseram adeus, foi algo na forma como fugiram de mim quando eu os procurei e na profundidade com que me encararam quando eu distraída observava o mar. Eu te vi me olhar, talvez procurando razões escondidas para ficar ou talvez ensaiando frases que dissessem o que eu já premeditara ouvir: que o tempo havia chegado. Eu não sei se existe uma regra, aquela coisa de que todo casal deve experimentar a distância pra ver se o amor é realmente tudo o que dizem ser, mas creio que não. Você apenas precisará partir porque além desse mar existe o mundo, e você sentirá vontade de conhecê-lo, tocá-lo, conquistá-lo. O seu barco remará para outra direção e o eu aprenderei aos poucos a navegar sozinha. O porto do nosso amor continuará aqui. Até quando? até você voltar.
Você vai voltar. Porque vai se pegar numa manhã chuvosa ouvindo a nossa canção. Porque quando o seu barco ameaçar naufragar e a tempestade for violenta demais, você lembrará de como estávamos seguros dentro do nosso porto, do lugar que construímos com tanto suor e lágrimas. Você vai voltar porque minhas palavras, como um disco arranhado, ficarão se repetindo na sua cabeça. Não eram grandes coisas, pode ser que você pense, mas eram tudo o que eu tinha a oferecer, o amor mencionará. E então você vai voltar porque encontrar alguém que se inspire no seu sorriso e componha dentro do seu abraço, não será tão fácil assim. Você vai voltar porque a página daquele livro continuará aberta naquela frase grifada que diz sobre querer a eternidade, você voltará para cobrá-la. Você vai voltar porque vai fazer falta a minha preocupação, o cuidado que eu disfarçava pra não te sufocar, o sorriso sem graça que formava no meu rosto toda vez que você me suspendia no ar com alguma frase boba. Você vai voltar porque, como naquela canção, só encontrará solidão pelos mares navegados sem mim. Você vai voltar porque, feito música, nosso amor pode ficar adormecido no tempo, mas um dia ele desperta e então todo o oceano deixa de valer a pena se nossos barcos estiverem assim tão distantes um do outro.
E então, como em uma corrida contra o tempo, você voltará. Depositará toda sua energia em remar de acordo com a nossa maré pra alcançar nosso porto e uma vez lá, soltar o barco sozinho no mar, feliz por ter encontrado o lugar ao qual pertence. Você vai voltar e, antes de subir o cais que dá no porto, vai temer que eu não saiba mais voltar, que tenha ido pra sempre, que não esteja mais disponível pro amor. Você vai voltar e não encontrará meu barco encostado no cais. Ao adentrar em nossa casinha perceberá as luzes acesas, os móveis em seus devidos lugares, a poeira recentemente retirada. Você vai voltar e me encontrar na oficina, cuidando, limpando, conservando o nosso barco para que possamos navegar juntos por aí. Você vai voltar e perguntar sobre o meu barco, sobre a minha viagem, sobre o amor. E eu vou te responder que do meu barco fiz o nosso, da minha viagem nosso repouso, da sua fuga minha espera e do nosso amor minha única certeza. Você vai voltar e sussurrar que, previsíveis como dois barcos que sempre encontram seu porto, somos apenas duas solidões que sempre encontram seu abrigo: nosso amor.

(Em 21/02/11)


"Você vai voltar porque, ainda que saiba como ninguém teimar e resistir, você não aprendeu a se acostumar a conviver sem a qualidade dos meus defeitos. (...)E as pessoas vão perguntar se você voltou. E você vai dizer que nem foi. "
(Gabito Nunes)

8 comentários:

Luanda M.S. Cabral disse...

Que texto maravilhoso.
Amei estar aqui no seu blog.
Venha me visitar também...
Abraços.

@juusep disse...

UAU! Quem ama SEMPRE volta.

Rebeca disse...

Acabei de perceber que o barco daquele que navegava comigo estava partindo para outros horizontes, buscando outras companhias para navegar por aí nesse imenso Oceano Facultativo e aí lembrei-me de você, de como suas palavras me fazem fortes em meio a tantas lágrimas. Não foi novidade esse texto, nunca é, eles sempre coincidem com tudo que eu acabo passando, sempre. Desde o começo, eu sempre segui você, porque nas suas palavras me faço mais forte, mas nunca quis lhe contar, agradecer, elogiar, tive medo de parecer fraca ao admitir que a minha força é, na verdade, toda sua. Perdão por isso. E claro, parabéns, por tudo. Não só pelas palavras.

juliana_alves disse...

oi nicole ;D vou tentar voltar pra esse mundo aqui, e claro vou seguir vc. és a primeirissímaa! te amo querida amigaa ;**

Drii disse...

seguindo aqui..beijos linda

Luiza disse...

QUE LINDO! AMEI!
"Você vai voltar porque vai fazer falta a minha preocupação, o cuidado que eu disfarçava pra não te sufocar, o sorriso sem graça que formava no meu rosto toda vez que você me suspendia no ar com alguma frase boba." moça, que lindo, lindo lindo. que coração lindo e dedos talentosos que você tem! ele vai voltar né moça, tá na hora dele se dar conta...
"vou te responder que do meu barco fiz o nosso, da minha viagem nosso repouso, da sua fuga minha espera e do nosso amor minha única certeza. Você vai voltar e sussurrar que, previsíveis como dois barcos que sempre encontram seu porto, somos apenas duas solidões que sempre encontram seu abrigo: nosso amor."
lindo, demais. to orgulhosa de ti. parabéns.
eu volto, pode deixar que eu volto. beijão

fatoSempalavras disse...

ok...vamos lá...soou como um sonho e ao mesmo tempo como um soco em minha face isso que acabo de ler.

comecando pelo título: dois barcos...

alguma alusão ao los hermanos??? S2


eu fiquei mt admirado com a lenidade em suas palavras. e, o melhor de td, lenidade sem ser melancólica.

PARABÉNS!

Estou seguindo aqui, ok?

carlo.lagos@hotmail.com

Abraços.

Raíssa Santos disse...

Pena que comigo nunca ninguém voltou. Sinto falta da sensação de ter um outro alguem, ou quem sabe nunca soube como era a sensação. Não chegou a hora eu tento me fazer acreditar.
Amei seu blog e seu texto. :}
Beijos

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