sábado, 26 de fevereiro de 2011

Sétimo andar.


Você entra num táxi a caminho de lugar nenhum e eu, da janela do 7º andar, sorrio o sorriso irônico de quem sabe que na próxima esquina você mandará o táxi dar meia volta e te levar ao lugar de onde você sabe que nunca deveria ter saído. Mas o relógio na parede indica o tempo passando e parece que a esquina desenhada no roteiro apenas pra você virar, foi apagada por alguém que, sabendo do meu jogo, resolveu que era a hora do feitiço virar contra o feiticeiro, como diz naquela frase clichê que você tanto odeia. E agora, se nem do 7º andar consigo te ver, me pergunto onde andará o táxi que naquela manhã de sol te levou pra cada vez mais longe de mim. 
Não era pra ser assim, entende? Eu só queria que fosse seu o próximo passo. Reconheço que criar esse jogo foi um passo em falso meu, mas é que em meio à tantas decisões e separações que ameaçam vir sobre nossas cabeças, eu precisava ter a certeza de que a decisão de te levar comigo por onde quer que eu fosse, decisão que eu já havia tomado desde a primeira vez que você disse baixinho, meio com medo de dizer, que me amava, era realmente a coisa certa a se fazer. Eu precisava saber se pra você também era fundamental que estivéssemos juntos, não importando o que a vida jogaria sobre nossos ombros. Eu te mandei embora naquela manhã porque achei que a prova de amor que eu precisava viria logo em seguida, quando você viraria aquela esquina planejada por mim e viria correndo dizer que me amava. Entende meu medo, pequena, eu só precisava saber que você me amava além do que costumava me dizer.
Só agora vejo que o seu amor era provado quando você largava compromissos para estar comigo, quando surgia, sem que eu ao menos esperasse, um eu te amo na tela do meu computador, quando você sentava comigo num meio fio e me ouvia como se meus problemas fossem a coisa mais grave do mundo e você precisasse resolvê-los um por um. Não precisava, amor, estar contigo era a resolução perfeita, eu descobri agora quando eles ainda existem e dessa vez sufocam meu peito porque não te tenho aqui para dividi-los. Cadê você, pequena, pra onde aquele carro te levou naquela manhã? Por onde você anda enquanto a sua secretária eletrônica diz com aquela sua voz envergonhada que você no momento não pode atender? Me assusta pensar que a sua decisão seja realmente estar longe de mim, visto que se fosse apenas orgulho você jamais se manteria distante. Talvez meus argumentos para nossa distância tenham te convencido, mas você é teimosa, lembra? Cadê a menina cabeça dura que vai à luta pelo amor? Luta por mim, amor? Luta contra todas essas minhas convenções e frases feitas. Luta contra esse coração orgulhoso e arquiteto de jogos perversos que carrego comigo.
Tenho te procurado pelas esquinas, morena, em sorrisos e rostos que não são os seus. Vira aquela esquina de uma vez por todas e vem me lembrar o quão burro eu sou. Mesmo que eu não mereça, me dá essa prova de amor. Dessa vez não uma prova de que vale a pena estar comigo, mas uma prova de que ainda há amor dentro de você. Eu não mereço, amor, mas vem, faz a curva e entra de novo na minha rua, na minha vida, no meu 7º andar que desabou sem você.

"Fiz aquele anúncio e ninguém viu
Pus em quase todo lugar
a foto mais bonita que eu fiz,
você olhando pra mim
Alto aqui do sétimo andar
longe, eu via você."
(Los Hermanos)

7 comentários:

Evelyn Colaço . disse...

''a foto mais bonita que eu fiz,
você olhando pra mim''

Cada lindo do texto é tão verdadeira. Dá pra sentir a melancolia que toma conta do rapaz que vê sua moça virando a esquina sem retornar .. Quantos mais não estariam nos primeiros, segundos, quintos andares? Em quantos andares da vida estamos sussurrando ''não vire a esquina, não vire ..''

Maravilhoso Nicoly!
tenha um lindo Fim de Semana, e a mu´sica dos LH eu amo *-*

Amanda Arrais disse...

"Eu não mereço, amor, mas vem, faz a curva e entra de novo na minha rua, na minha vida, no meu 7º andar que desabou sem você."

Que lindo isso...

É, acho que estamos o tempo todo tentando receber provas de coisas que estão ali na nossa frente, se confirmando sempre sem que percebamos, porque só queremos enxergar o óbvio, mas o amor vai além.

Que tu escreves divinamente bem não preciso nem dizer. E não acredito que foi esse texto que tu disseste no twitter que não ficou muito bom, de verdade.

=*

Natália disse...

Tanta coisa tinha que ser diferente, mas por uma escolha mal feita, ficamos do jeito que estamos.

Beijo

Yohana SanFer disse...

Lindo moça, um apelo, um grito de amor do coração! E curioso, esse texto me remeteu à música do los hermanos desdeo início!rs
bjs!

Ananda disse...

TÔ TE SEGUINDO TBM FLOR

Luiza disse...

"Eu precisava saber se pra você também era fundamental que estivéssemos juntos, não importando o que a vida jogaria sobre nossos ombros." mas que LINDO hein? ficou orgulhosa quando postou? nossa, ficou realmente ótimo. ficou natural, ele "rolou", fluiu, sabe, palavras que se encaixam. adorei, certamente. a gente fica esperando a prova de que nos ama, de que faria o mesmo, a gente quer que aja quem só ficou parado. no caso, eu. talvez eu seja essa moça que pega o taxi e foge, mas talvez eu volte também. beijo amada, parabéns e muito sucesso pra ti.

Ariana disse...

Nossa flor, nem sei ao certo o que dizer sobre esse texto, certos trechos deu tanto certo pra mim sabe.
Acho que esses gritos do coração as vezes são inevitáveis e não há como fugir.
Sem dúvidas esse texto entrou pra lista dos meus favoritos!
Perfeito!

Beijos

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