sábado, 29 de janeiro de 2011

Amanhecer.


- Parece noite, sabe? Céu escuro, silêncio, o vento passando pelas calçadas e arrastando as folhas e eu aqui: parada perdida precisada.
- Mas mesmo à noite temos as estrelas, você não vê?
- Vejo. Mas ficam lá. Não andam pelo céu e me mostram uma direção, não falam, não dão avisos, sinais. Somos eu, elas e o silêncio.
- Mas sempre se pode cantar.
- Sempre se pode escrever. Palavras ao vento. Meu grito mudo nesse silêncio que não entendo. Meu pedido de socorro.
- E o socorro vem?
- Vez ou outra. Nem tudo é só noite. Minha vida amanhece também. Surgem sorrisos que têm função de raios solares e que derretem o gelo de qualquer coração. Existem esperanças que se colocam no céu como nuvens e que me fazem deitar nelas e sonhar.
- E então a noite volta?
- Volta. Esse é o ciclo não é? O dia antecede a noite, a noite precede o dia. Mas nem todas as noites são iguais.  Algumas possuem resquícios do dia, uma luzinha ínfima que seja. Só essas que agora não consigo entender, se mostraram escuras em totalidade, completamente solitárias em sua escuridão.
- Mas mesmo elas amanhecem, ou não?
- Amanhecem.
- E trazem de volta o som, a luz, a vida?
(silêncio)
- É isso o que você precisa entender, é esse o ponto: amanhecer. Apesar de. Encontrar nas noites um descanso pra chegar ao próximo dia. Encontrar nos dias a força necessária pra suportar as noites que sempre vêm. Guardar a esperança num potinho, porque é ela o que te fará viver os dias e sobreviver as noites. Mesmo as noites mais sombrias amanhecem, é certo que tardam, mas sempre amanhecem e trazem de volta o que se perdeu.
- Amanhecer...
- Não importa a escuridão, o silêncio, a dor. Levante e amanheça brilhando mais forte*. Mais forte. Mais f o r t e .

*O Teatro Mágico.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Para a estrela de Big Field.



Não foi fácil nem previsível. No início de tudo estávamos lá mas não estávamos; éramos amigas mas não éramos; nos sabíamos ali mas não nos conhecíamos. Então onde aconteceu? Não sei ao certo. O fato é que um dia eu olhei pro lado e encontrei a verdadeira moça do sonho. Você, Juliana Alves. Quando achei que fosse a única maluca no mundo, você apareceu. E me contou seus sonhos mirabolantes, seus amores intensos, as dores sofridas, as lições tiradas, suas filosofias e poesias de vida. Eu descobri que não era a única a carregar um mundo inteiro de sonhos na mochila, alguém, ali do meu lado, sabia bem o que eu passava. E por você ser assim, é tarefa difícil escrever pra você. Porque ao mesmo tempo que é quase impossível pra mim fazer seu coração, tão acostumado a frases mais bonitas e intensas do que as minhas, sorrir e sentir especial com alguma palavra escrita é tão fácil fazer um coração tão sensível como o seu sorrir e se sentir especial com essas palavras que não tem outro objetivo se não o de te fazer saber o quão importante você é pra mim. Assim mesmo com todo esse seu jeito que nem sempre todos são capazes de entender. Sendo aquela Ju que não admitia conversa durante as aulas ou aquela que ignorava todas as regras pelo prazer de conversar com um amigo e se sentir essencial pra alguém. Sendo a menina saltitante que girava comigo no pátio durante os intervalos ou a mulher que tinha sempre o que dizer quando um coração precisou de conforto. Você, de todos os seus jeitos e com todos os seus trejeitos, é especial. Quer prova disso? olha pra sua horta sempre tão movimentada. As chuvas que sempre se anunciam por aí, comprovam o quão importante é te ter por perto; o quanto seu coração sensível, seu amor sem medidas, sua entrega absoluta são essenciais. Já não se  fabricam mais corações como o seu. Corações que não param na primeira barreira,  que não desistem na primeira queda e que não medem esforços pra ajudar. E sabe o que você consegue com tudo isso, entre tantas outras coisas? a minha sincera admiração.
Te admiro pela responsabilidade que você automaticamente puxa pra si em grandes obras, seja na igreja ou no colégio. Só não se cobre demais. Não coloque nos seus ombros todo o peso do mundo, divida-o, se precisar de alguém, deixe meu nome vir à sua mente. Te admiro pela aceitação desse ser que você carrega, por não teres vergonha de assumir que sim, o seu mundo interior é incontáveis vezes maior do que o exterior e é assim que ganharás o mundo e as pessoas. Se aparecerem querendo te diminuir, fazendo sufocar a beleza de tudo isso, descarte do teu caminho. Alguém como você deve ser aceito pelo que é - porque o que se é, é de uma beleza que não se pode contar.  Admiro a dedicação com que fazes tudo o que vem à tua mão, desde um trabalho manual à alguem feliz. E sobre isso não tenho o que te dizer, a não ser pra que continues sempre assim, dando o melhor de si, buscando lugares altos sem nunca desmerecer alguém. Admiro a seriedade com que certas vezes olhas para o lado de fora, mas não leve a vida tão a sério, descubra o espaço para que o seu lado meninona - o seu lado Juzão - possa existir. Admiro, inclusive, o que você se tornará, porque com toda essa alma do bem, você certamente brilhará, não duvide. Não duvide e, sobretudo, não desista. 
É verdade que não fui sua dupla, nem você a minha. Também é verdade que passei longe do título de melhor amiga. Mas não posso deixar de dizer que eu conheço você mais do que gente que esteve bem perto de ti - porque em você eu encontro partes de mim e assim entendo, analiso, descubro. Lembro quando, numa tarde quente, dentro de uma biblioteca filosofando sobre ventila-dores enquanto deveríamos fazer algum trabalho impossível de matemática, você disse que sentia falta de falar, de ter alguém pra conversar, pra te entender, uma amiga pra te ver sozinha num canto e não te deixar ficar lá, te chamar pra perto, andar contigo pelo pátio, ser alguém pra dividir uma vida. Eu quis dizer que eu poderia ser essa amiga, mas fiquei quieta porque, além de não ter no momento condições emocionais pra realizar o sonho de alguém, era um pouco tarde demais. E foi o que aconteceu: a tarde chegou. O colégio acabou. A rotina virou lembrança. As lembranças viraram fotografias. Só a amizade restou. E o pátio agora é outro, chamam de vida real. Nos jogaram nela, mas não há motivos para sustos, iremos juntas - eu, você, as estrelas. 
Agora, ano novo, você novo, idade nova, te convido pra andar por esse pátio comigo, de mãos dadas pra nunca nos afastarmos, dividindo dores, amores, conquistas. Vamos juntas, Juzão. Pra nossa nova vida, que será do jeito que nossos corações sonhadores pensaram um dia. Você merece. Tudo de bom. Todo sucesso do mundo. Porque você é alguém que saberá lidar com ele. Estarei aqui. Aplaudindo o que você é e se tornará. Eu acredito em você, minha amiga. Mantenha sempre o contato, o meu coração precisa das suas histórias pra continuar acreditando na vida, no amor e nas pessoas.

Eu te amo muito, Juliana Alves Rock'n'Roll. 
Feliz Aniversário.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Disfarce.



Foi uma lágrima solitária. Sem som, sem cor, sem hora marcada. Rolou do olho ao queixo em questão de segundos e foi embora sem deixar vestígio. Foi um gemido mudo do coração ao sentir a saudade abrindo espaço e conquistando o seu lugar. Foi um grito no silêncio, um protesto ao meu torpor, uma verdade de dentro borrando a máscara de indiferença do lado de fora. Tenho saudade sim. E o coração trai o que eu tento ser. Dói sim. Dói muito, amor. E a lágrima que saiu sozinha foi aquela que não se conformou com o roteiro do nosso filme. De onde ela saiu existem outras - muitas. Só que todas as outras se conformaram, só essa se rebelou. Todas as outras constroem o rio por onde meu coração navega, navega, navega, sem saber ao certo onde vai chegar. Sem direção, amor. Desde o primeiro dia e da primeira lágrima sem você. O resto foi só disfarce. O coração nunca mente.

"We are the lovers
If you don't believe me
Just look into my eyes
'cause the heart never lies."
(McFly)

(Escrito em 14/12/10, achei pequeno e quase desisti de postar, mas como não tenho outro melhor, vai esse mesmo.)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Motivos.

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- Fica mais um pouco?
- Me dê motivos.
(Porque seus olhos me prendem e há algo por trás deles que preciso descobrir enquanto é tempo. Como ontem, quando apareci e seus olhos fixaram nos meus, aparentemente buscando abrigo, fiquei sem saber o que fazer, mas senti vontade de envolvê-los e oferecer descanso, repouso, amor. Porque suas palavras me acertam em cheio e seus silêncios ocupam lugar de causa principal da minha insônia. Porque preciso lê-lo, descobrí-lo, encantá-lo. Porque é cedo. Porque há tempo. Porque é tarde e pode não haver mais tempo. Porque tudo. Porque seu corpo submete o meu à um choque térmico e suas mãos tão grandes, quando entrelaçadas às minhas, têm o poder de me levar à lugares que só haviam em meus sonhos. Porque nós dois, assim entrelaçados, nesse tempo que nos resta e nos é oferecido, temos um mundo inteiro a conquistar. Porque quero acordar de mau humor ao teu lado e esquecer de tudo ao ver seu sorriso refletido no espelho. Porque ao teu lado o dia vale a pena, mesmo quando se resume a nós dois sentados num sofá, você com a cabeça no meu colo e eu com o pensamento em você e na grandeza do que somos - fomos, poderíamos ser. Porque existem os sonhos, lembra deles? tantos ainda não realizamos. Quero andar de mãos dadas contigo ao entardecer, rir numa mesa de restaurante enquanto você elabora diálogos possíveis para o casal da mesa ao lado, sentir tuas mãos passando pelos meus cabelos e fazendo tremer cada célula do meu corpo. Porque quero te sentir. Te sentir meu. Te saber meu. Te escrever meu. Porque quero te mostrar a felicidade que podemos alcançar, te fazer saber que eu posso te fazer feliz e não querer outra pessoa além de mim. Porque quero te contar dos meus muitos eus, te ouvir sobre os seus e nos assistir moldando um ao outro. Porque quero que todos esses versos bobos façam sentido, ainda que a nossa história não o faça. Porque gosto de ouvir suas histórias, de te ver sorrir sem graça, de caber no teu abraço. Porque o seu sorriso ilumina a parte mais sombria da lua e essa luz nunca se apaga, mesmo quando você vai embora. Ah, e porque quando você vai embora, tudo some, tudo morre, tudo fica sem cor. Porque eu me descubro mais eu ao teu lado. Porque você foi o único a ter permissão para me conhecer, a ter todo o meu coração e a me ouvir dizer as três palavras mais sinceras da minha vida: eu te amo.)
- Porque eu preciso de você e pode ser que você precise de mim também.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Você é forte, moça.


Levanta, moça, sacode a poeira, tira o luto e vem pra dança. Não deixa aquele sonho tão bonito virar pesadelo. Não deixa as lágrimas continuarem a borrar a beleza do que você é. Não deixa essa saudade te impedir de andar pra frente, ao contrário, faça dela o teu combustível. Afinal, se é no futuro que reside a esperança de que a saudade enfim seja largada nos braços do amor, siga com toda a sua força até ele. O fim não pode ser o seu fim. Você fez o que estava ao seu alcance. Lutou, mostrou, insistiu. Recomponha-se agora. Não chore por não ter alcançado o seu objetivo, o que importa na vida é a coragem que se tem pra arriscar. Você arriscou, moça, o quanto pôde, arriscou seus sonhos, sua sanidade, seu orgulho. Gritou aos ventos, anunciou em toda esquina, o deixou saber, agora retire-se e cuide de ti. Cuide desse coração que insiste em bater, desses olhos marejados, desse corpo cansado. Cuida desse caminho enorme que você precisará percorrer sozinha. E não pense que será impossível, olhe para você e descubra a força que há escondida por trás desses olhos com medo de se entregar, desse sorriso que disfarça toda sua dor, dessas mãos que levantam e escrevem histórias. Vai, moça, o mundo há de ser seu e de todos esses sonhos guardados no fundo falso da gaveta. Não deixe que um coração partido a faça desacreditar em finais felizes, ou que as nuvens te façam duvidar se o sol realmente está ali. Ele está. Se não for possível vê-lo e isso te assustar, o rabisque no céu com suas próprias mãos. O invente e se reinvente sempre que a vida exigir isso de ti. Não desista, moça, durante todo o percurso repita para si mesma: não desistirei. Um dia você encontrará um porto. Um coração como o teu, um amor maior, uma razão oculta nessa dor que hoje samba no teu peito. Reme teu barco e o leve para águas tranquilas, sem medo de se afastar demais do lugar onde estava. Aquele barco que um dia navegou junto ao teu, te encontrará onde estiveres se assim tiver que ser. Prossiga. Escreva, grite, chore, mas sem parar, faça tudo isso andando sempre em frente. Sinta saudade, mas siga sem medo. Faça tudo sabendo que os riscos estão sempre a beira do caminho. Navegue por águas mansas sabendo que a tempestade pelo menos uma vez se anunciará. Cultive um jardim sabendo que as pragas precisarão ser vencidas. Ame sabendo que corre o risco de sobrar sozinha com o coração na mão. Só não desista. Você é forte, moça. E se suportou tudo isso até aqui, você consegue ir muito além. Eu acredito em você, acredite também. Talvez seja isso o que falta: você olhar no espelho e ver alguém que pode ser o que quiser. Acredite, você é forte, moça. Lágrimas não são sinônimo de fraqueza, desistência sim. Mas você não vai desistir, moça do sonho, você é forte.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Fugitivos.


- Já sentiu vontade de fugir?
- Já. Todos os dias.
- Pra onde iria se pudesse escolher?
- Pra longe dessa falta de nós. Pra qualquer lugar onde houvesse espaço pra gente existir.
(silêncio)
- Pra uma casa pequena e só nossa. Pra onde a lua não deixe de brilhar. Pra onde todas as estradas unam nossos caminhos.
(silêncio)
- Não acredita em mim, não é?
- Não sei, acreditar, eu acredito. Mas não te imagino assim. Correndo por mim. Largando tudo por mim. Acreditando no eterno que eu tanto canto sobre o amor.
(silêncio)
- Foram muitas palavras, compreende? Delas eu já estou cheia. Sei que elas nos ajudaram em certo ponto do caminho, mas e agora? É hora de mostrarmos que sabemos colocá-las em prática. É bom saber que se fosse uma comédia romântica e você o personagem principal, largaríamos tudo e sairíamos para algum lugar dos sonhos, praquela praia deserta, onde os créditos subiriam enquanto nos beijássemos na areia em frente ao mar. Mas é a vida real, você entende? E eu já tô cansada de saber que nada aqui acontece como nos filmes. Que todas as suas falas dariam um ótimo diálogo de filme clichê, mas aqui é a vida. É o amor real em jogo. O nosso amor. E aqui tudo aconteceria de forma simples, se nós não complicássemos. Não preciso fugir de tudo para ficar contigo, e nem quero que você o faça. É diferente. É um sentido metafórico da fuga.
- Eu só queria ir para qualquer lugar onde pudéssemos existir.
- E viveríamos fugindo pra sempre? De estrada em estrada, em busca de um lugar que nos abrigasse? Na vida as coisas costumam acontecer de forma diferente. Na vida são as nossas mãos que tornam o lugar em que vivemos propício para existirmos por completo.
(silêncio)
- O que quero dizer é que em qualquer lugar, numa casinha no fim do mundo ou num apartamento numa cidade grande, podemos existir. Veja só, o céu, a lua, as estrelas, são os mesmos em qualquer lugar. Nós também. E o bastante é a certeza de que queremos um ao outro. Com isso encontraremos força nos dias em que for impossível ser feliz. Encontraremos impulso para pular as incontáveis barreiras que aparecem no caminho. O amor será ponte entre distâncias, consolo para qualquer dúvida que surja, sol em meio ao temporal.
- Você tem essa certeza, certeza de que me quer, apesar de tudo?
- Tenho. E tive durante todos esses dias que acordei sem você. E ainda a teria daqui a cem anos.
(silêncio)
- Você não tem, não é?
- Tenho. Claro que tenho. E sempre tive. Desde a primeira vez que te vi e desejei estar contigo. Eu estava só pensando que, daqui a pouco o diálogo acaba e as palavras ficam na nossa mente, será mesmo só isso? Será que mesmo depois de tudo isso, continuaremos assim? Nessa fuga, que me ocorre agora, que sempre foi fuga de nós mesmos? Me parece agora que estivemos correndo o tempo todo, por cidades distantes, conhecendo gente que não era como nós, corremos em direção opostas o tempo todo, mas sempre houve uma esquina mágica que ligava os lugares em que estávamos, não importando o quão distantes fossem um do outro. Vezenquando mandávamos cartões-postais que tinham função de pedido de socorro. Ambos sabíamos. Você lia em minhas palavras e eu nas suas. Pedíamos resgate. Os dois. Queríamos ir embora dali e nos perder para sempre um no abraço do outro como naquelas vezes e existir como naquela manhã de novembro. Só que, desacostumados a agir, pensamos que fossem só palavras. Sufocamos nossos impulsos de fazer telefones e campainhas tocarem, por medo de ter apenas lido algo que foi simplesmente escrito sem pretensão nenhuma. Só que nunca foi só palavra. Sempre foi pedido de socorro disfarçado, sinal de fumaça de quem pede salvação. Só que não sabíamos. Não conhecíamos o poder que tínhamos em mãos de fazer o nosso roteiro mudar com apenas um gesto. Mas agora sabemos. E será que estamos dispostos?
(silêncio)
- Vê só? você espera que eu fale e eu espero você falar. Ninguém dá uma cartada sem antes ver a do outro. Zero a Zero sem fim. Pior do que fuga: inércia.
- Nunca tive certeza sobre o que você queria. Enquanto você sempre soube que eu estive aqui a todo o tempo e que toda a minha fuga foi apenas disfarce. Esperei por você, pelo seu resgate, porque sempre acreditei que era eu a sobrevivente daquele naufrágio perdida numa ilha. Nunca soube que você, ali do outro lado, esperava também o meu resgate. 
(silêncio)
- Mas se ainda for tempo, vê agora a fumaça no céu dizendo que te amo. Atende ao telefone que toca, agarra à boia que te é jogada, abre a porta da tua vida pra mim. Esquece os erros do passado e deixa de uma vez o presente se misturar ao futuro e tornar tudo uma coisa só.
- Então vem. Se encaixa novamente pequenininha no meu abraço, no lugar de onde você nunca deveria ter saído.
- Você ainda pensa em fugir?
- Não. Aceito o lugar onde estou e que agora é onde você está. Estamos juntos. Essa é a maior fuga que já existiu: fugimos do fugaz que o mundo oferece, escrevemos hoje o nosso eterno.
- Fugitivos. Gosto desse nome. Se fóssemos comédia romântica, nos chamaríamos assim.
- Se fôssemos comédia romântica, teríamos fim. Não temos. Somos eternos.
- Mas olha, antes preciso dizer que não será fácil.
- Mas haverá amor. Isso basta. Eu prometo. Não tenha medo de que eu desista.
(silêncio)
- Eu te amo, sua boba. Eu sempre te amei. E te amarei por todas as manhãs, todos os invernos, todos os pôres-do-sol da nossa eternidade que começa agora.

(20/10/10 e 06/01/11)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Virada.


O relógio ameaça completar a volta, os fogos lá fora avisam que os passos do tão esperado convidado já podem ser ouvidos, cada vez mais próximos, do corredor. A música fala alguma coisa sobre virada, sobre sonhos que foram esquecidos saírem da gaveta, sobre o silêncio que agora virou festa. O meu coração pula com cada acorde, minha garganta grita cada palavra, minha mente decora toda a letra para mais tarde lembrar do sentimento de hoje: virada. É isso, a palavra chave que é tão anunciada na tv, mas que eu nunca parei pra observar dessa forma, afinal, o ano vira e eu? continuo aqui no meu lugar cômodo ou viro com ele e transformo tudo a minha volta? Segunda opção, por favor. Virei com o ano. Dentro de mim houve um Reveillon particular, os fogos foram batidas do meu coração expectante, a companhia, meus sonhos - sentados na primeira fileira esperando a hora de serem chamados, um a um, para subirem ao palco. Virei. Me desejem junto ao feliz ano novo, feliz eu novo. Tudo o que vivi em 2010 me conduziu para esse estado de mim, é nessas horas que a gente vê que no fim tudo vira aprendizado mesmo. O que eu mais aprendi? a lidar com separações e tirar algo bom delas - mesmo que só a longo prazo.
Em 2010 perdi minha avó, mas aprendi a conviver com meu avô. Me despedi do colégio, para descobrir que tudo na vida é apenas uma estação e nós uma bagagem enorme que abriga um pouco de cada lugar e cada pessoa. Mas bagagens precisam ser esvaziadas. Em 2010 me esvaziei de gente que um dia foi importante para mim, amizades que me acompanharam enquanto eu crescia, mas que agora não me serviam mais. Não foram regadas e murcharam, aprendi a regar tudo o que é essencial. Aprendi a reconhecer o essencial e a tê-lo sempre por perto. Me afastei de alguns para me aproximar de gente que esteve ali o tempo todo e minha bagagem cheia não era capaz de carregar. O ano 10 me trouxe perdas irreparáveis, mas me mostrou que o que é de verdade e forte, isso não se perde jamais. Quando eu pensei em desacreditar em algumas amizades, apareceram aquelas que sobrevivem ao silêncio e a distância e que servem de exemplo sempre que penso em desacreditar. Entre perdas e separações, descobri que o "Para Sempre" existe sim, não importa o que digam. Em 2010, conheci o amor. Fui ao céu e ao inferno por ele. Mas sabe quando tudo serve pra te trazer a certeza do que você quer? eu descobri: quero ele. Apesar de.
De repente os fogos anunciam: o convidado chegou. Viramos.Virei. Virei o que eu queria ser e o medo e os olhares alheios me impediram. Revirei minha gaveta e coloquei meus sonhos onde eu posso ver. Do silêncio eu não lembro mais, das lágrimas só o que aprendi. Minha bagagem revirada pelas separações de um ano passado impiedoso, carrega apenas o essencial, nada além de estrelas, um tripé que nunca me deixa, alguns rostos conhecidos há tempo e um espaço reservado para aquele que ainda tem a maioria absoluta do meu coração. Não acho que o clichê "Ano Novo, Vida Nova", remeta a abandonar tudo o que passou, acredito que seja carregar contigo o que foi bom e adequar isso tudo ao novo. Adequarei um a um, ao meu novo eu, ao meu novo estar dentro de mim. Tenho uma esperança inesgotável de que tudo se arrumará, de que esse ano fará bem, será bom, regado de música boa, amigos e sonhos que saíram do papel. Mas hoje, enquanto é apenas o primeiro dia do ano que andará comigo por tanto tempo, eu tiro do papel a ideia da virada. Trago para a vida sem medo. Virada. 
Dois mil e dez virou dois mil e onze, eu virei tudo o que o ano passado me ensinou. Tô pronta para viajar por todo o céu do novo ano e descobrir o que há reservado para mim. Não importa a turbulência ou a tempestade que a vida trará. Estou pronta. Dois mil e dez me preparou. Dois mil e onze é o futuro e já disseram por aí que o futuro já começou. É agora. 2011. Ano Novo. Eu Novo. Sonhos, devorem-me.

"Então, que seja doce."
(Caio Fernando Abreu)


____

Jurei pra mim mesma não escrever nada assim, mas foi mais forte. Como diria Clarice: "Eu sou mais forte do que eu". 
Feliz Ano Novo para cada um de vocês que de alguma forma me acompanham e me acompanharam por todo esse ano, continuem aqui que eu continuo aí com vocês.
Muito amor, felicidade, paz, sucesso e sonhos realizados.

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