sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

À você.


À você que chegou ao dia 365 com pernas esgotadas, braços cansados e coração ofegante. À você que sobreviveu bem, que cumpriu todas as suas promessas ou descumpriu algumas em prol da felicidade. À você que descobriu que 365 dias são dias demais, tempo suficiente pra algo nascer, pra algo morrer, pra algo se reinventar. À você que teve tempo de sorrir de felicidade, de chorar de felicidade, de viver a felicidade. À você que mudou de opinião, descobriu novos amigos, reatou o laço que havia se rompido, mas deixou alguns rostos desbotarem do mural porque assim seria melhor. À você que escreveu uma carta e não enviou, à você que enviou e se arrependeu, à você que teve resposta. À você que chorou também, que aprendeu com a dor ou ainda espera pelo sentido de tudo. À você que olha pro que passou e não se orgulha e à você que voltaria à qualquer momento pra algum dia que ficou pra trás. À você que sabe que começar tudo de novo requer disposição e, sobretudo, coragem, mas não se deixa intimidar. À você que sabe que começar tudo de novo não vai ser possível ainda, não até o relógio zerar, mas quem sabe depois?, afinal, o ano novo começa em nós, tudo bem se começar no meio do ano, importa que comece, não quando. À você que não tem nada a esperar e não sabe o que pedir nem prometer, mas se veste de esperança, fecha os olhos e abre os braços pro que o ano trará. À você que não vê possibilidade de mudança, mas sabe que em um ano tudo pode acontecer. À você que se despede cansado, à você que se despede com fôlego de sobra pra começar de novo, à você que se despede com medo. À você que camuflou lágrimas em sorrisos, que arrancou um sorriso à fórceps e descobriu que tinha força. À você que descobriu o amor, à você que perdeu o amor, à você que desaprendeu o amor. À você que espera um giro de 180º, uma ventania que arranque as raízes fracas, uma tempestade que só deixe o que for verdadeiro. À você que se quer de volta, em sua versão que se importa com as pessoas sem esperar nada em troca; com sua roupa de sonhos sonhados antes de dormir; com sua fé inabalável. À você que quer se tornar tudo o que sonhou, que espera passar no vestibular, que sonha em conseguir rodar o mundo. À você que mudou de casa, de carro, de prioridades e à você que espera que a mudança chegue junto com o ano novo. À você que é cético pra tudo isso, que acha essa ladainha de ano novo e renovações história pra boi dormir, coisas que serão esquecidas após a primeira semana do primeiro mês, como manda a tradição. À você que aguentou o tranco e arregaça as mangas e não se esconde pra tudo que ainda virá. À você que se perdeu no meio do caminho e está disposto a pagar o preço do resgate, por mais alto que ele seja. À você, você e todos nós sob a promessa do fim do mundo: arregacemos nossas mangas e vamos vestidos de coragem, pintar as reticências onde veem o ponto final.
Que 2012 seja o fim do mundo como ele é, e o início do mundo como nós sonhamos. Que a gente sonhe mais e realize também, e até desista de alguns, mas que a gente nunca deixe de acreditar, por mais bobo que seja o sonho e por mais bobo que seja continuar acreditando. Que a gente aproveite o vento de mudança que passa à meia noite, e resolva acreditar que dessa vez pode, sim!, ser diferente. E será. Se assim o fizermos. O que importa nessa época tão bonita do ano, é a fagulha de recomeço que acende em algum lugar dentro de nós. Vamos recomeçar, vamos juntar novos sonhos, vamos contar novas realizações. Vamos enfrentar, vamos pra guerra, vamos pro que vier, porque a vida nos chama e começa novamente. A vida estende o tapete e a gente decide com que passo seguir: eu escolho voar.


Muitas coisas bonitas e muitos sonhos pra todos vocês, que 2012 surpreenda e venha doce. Doce como 2011 esqueceu de ser e como nós esquecemos de adoçar por nossos próprios meios. 
Que façamos 2012, e que "fazer" também seja nosso verbo de guerra, junto com o "sonhar".

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Sobre a vida, os quebra-cabeças e suas peças.

É madrugada de um dia chuvoso e sem maiores promessas e, enquanto ouço a chuva bater no telhado, penso em quantos corações, nesse momento, batem apertados, choram despedaçados, dormem doloridos. Ninguém está imune a isso, nem mesmo você, minha amiga, e esse seu coração que só merece coisa boa. Foram tantas as vezes, né? Você não sabe, mas é forte. Você não sabe, mas é corajosa por não ter desistido até aqui. Você não sabe, mas um dia as coisas se encaixam, feito peças de quebra-cabeça nas mãos de uma criança: de início não faz sentido e é só algo disforme, mas conforme o olho se acostuma e outras combinações são feitas, passa a parecer parte da figura maior à qual pertence. É assim com a vida da gente também: hoje não dá mesmo pra entender, pra desejar estar em outro lugar se não naqueles braços, pra escrever uma nova canção. Mas um dia, vai por mim, a vida vai bater na sua porta e te entregar algumas surpresas, peças que te farão entender o que hoje é apenas um acontecimento enegrecido pela fumaça do que era castelo e agora é cinza.
Um dia a vida te surpreende de novo. Um dia um telefone toca ou uma carta chega ou um olhar conhecido esbarra no teu. Um dia um cara diferente senta do teu lado e você sente aquilo que há tempos não sentia: vontade de estar junto. Um dia alguém te apresenta um amigo, que te apresenta um novo modo de sorrir, e  você acaba descobrindo que existe vida além do que passou. Um dia você descobre que além de um sorriso, de um modo de fazer piada, do calor de um abraço: existem outros. E outros. E outros. Um dia você acaba descobrindo que o quebra-cabeça era muito maior do que você imaginava e que as peças acabam se encaixando, e as que não se encaixam viram, no mínimo, aprendizado. 
Essa carta, cheia de lição de moral, é só um jeito de tentar te convencer que as coisas se explicam. Que as coisas acontecem por razões maiores. Que o que não se explica nem se entende também existe, e a gente aprende a lidar, a esquecer, a conviver com. Que talvez seja justamente esse não entender o que move a vida, porque nos impulsiona e nos leva pra frente. O que a gente não entende empurra nossa vontade de viver o dia, de desvendar o mistério e descobrir outro. É isso que quero dizer: pra quê remoer o passado, desejar voltar e consertar as coisas - ou errar tudo de novo? -, se apegar ao que não volta mais? Muda o foco. O que passou, bom ou ruim, com vontade de viver de novo ou esquecer, passou. Foi só mais uma peça desse quebra-cabeça chamado vida real. Uma peça que um dia vai se encaixar ou ir embora de vez com algum vento. 
Se você quer respostas, se você quer entender, se você quer, sei lá, só sobreviver: rema o barco pra frente. No futuro as coisas se explicam, se entendem, se esquecem. No futuro, de tanto ter olhado pra todas aquelas peças, a gente acaba se acostumando e encaixando um pedaço de vidro, que parecia apenas um caco, de forma que monte um coração. Nesse quebra-cabeça que é a vida, os cacos não são apenas cacos, são pedaços do que seremos um dia. Um caco de coração é um pedaço do novo coração que um dia você terá, mais experiente, mais forte, mais do seu jeito. A vida é assim: ruim com os cacos, pior sem eles. Um dia a gente chora, no outro a gente reúne forças, cata os sonhos do chão, improvisa uma bolsa maior e mais forte do que a se rasgou e levanta e carrega todos eles e inventa novos sonhos e transforma dor em aprendizado. Ou só esquece mesmo. 
Um dia, minha amiga, você vai ver só: isso tudo que dói vai virar piada em mesa de bar. Agora é impossível acreditar no que digo, mas vai por mim, um dia vamos encontrar força no que hoje é fraqueza e vontade de deitar no chão em meio aos cacos. Vai por mim, é isso o que faz a vida ser incrível: essa capacidade de transformação, de aprendizado, de superação. Somos todos super-heróis e não nos damos conta. Vai por mim, um dia você vai encontrar alguém que vai trazer sentido à todas as perdas e um sorriso que vai te fazer sentir como se nenhum outro houvesse existido. 
Anota aí: as coisas acontecem quando têm que acontecer. Algumas sem que queiramos, outras sem que façamos nada, outras apenas se nos movermos. Mas acontecem quando têm que acontecer. Por algumas coisas vamos nos mover e mover céus e terras e, mesmo assim, elas não acontecerão. Fracasso? Não, vida. Preparação para algo melhor, maior, mais verdadeiro. Algo que a gente só descobre depois. E o "depois" não fica no passado. Por isso, minha amiga, fica aqui o meu convite à vida. Recolhe tudo isso e vamos caminhando. Caminhando e chorando, se ainda doer demais. Caminhando e caindo vezenquando, se ainda não der pra ficar muito tempo de pé. Caminhando e tropeçando, se as lágrimas embaçarem a visão. Mas sempre caminhando.Vai por mim: ficar parada não resolve, voltar no tempo também não. Existe um quebra-cabeça incrível a ser montado por todas essas peças que ficam espalhadas pelo caminho; como numa caça ao tesouro, estamos todos à inconsciente procura por nossas peças, por tudo aquilo que nos torna mais completos. Às vezes achamos sorrisos, noutras, lágrimas. Mas sempre peças. Vai por mim, tudo se completa de algum jeito, até mesmo esse seu coração despedaçado e esse quebra-cabeça que foi desmontado pela última tempestade. Vai por mim, um dia há de valer a pena toda essa caminhada. Vambora, a felicidade está logo ali. 

A "Minha Amiga" em quem essa carta é livremente inspirada, existe. 
E talvez seja mais de uma. E talvez sejamos todas nós.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Do amor e da culpa.


"Ir embora", você não sabe quantas vezes cogitei, quantas vezes ameacei escrever bilhetes que estariam na mesa de centro quando você chegasse, te orientando a não me procurar e com a marca dos meus lábios num beijo no papel pra que você soubesse, sem que eu precisasse dizer e correr o risco de mudar de ideia, que fui embora te amando. Agora não há bilhete nem luzes acesas ou portas batidas, apenas o silêncio de quem não estará mais ali quando você chegar. Pode correr pra espalhar que fui covarde, só não esquece de avisar que a covardia maior era essa que a gente vinha dividindo: fazer de conta que nada acontecia.
Olha, eu poderia ficar e continuar remando nessa maré contrária, garantindo nossos beijos e abraços quando as luzes do mundo estivessem apagadas e jogando pra debaixo do tapete todas aquelas incompreensões, ausências e, sobretudo, silêncio. Mas vou embora pra nos preservar, saio enquanto posso guardar uma lembrança boa de você; enquanto olhar pra trás me faz querer sair correndo pros teus braços.
Guarde uma lembrança boa de mim, sinta saudade nas noites frias, sussurre meu nome enquanto anda pelas ruas querendo me encontrar. As coisas não precisam virar pesadelo só porque aconteceram do lado do avesso. Pode se sentir orgulhoso por todas aquelas palavras que são minhas, mas tão tuas. Pode bater no peito e gritar praqueles outros que tentaram, que só você, de fato, teve meu amor. Pode andar pelas ruas de cabeça erguida e peito estufado, se me ter for uma espécie de troféu, você foi o único a subir no pódio para recebê-lo. O único que me fez colocar mãos no fogo, enfrentar quedas-de-braço com o que eu deveria sentir, vencer tudo o que ia contra pra poder te dizer que eu estava contigo, sabendo dos riscos e dos desafios, mas dentro, cada vez mais dentro, daquele plano que incluía nós dois.
Foi tudo do avesso, o contrário do que planejamos, mas a gente pode salvar o amor. Foi real de algum modo, do nosso modo. Certo ou errado não define, foi só nosso, e isso deve ser o bastante. Sabe, eu te amei pelo que você era, pelo que eu queria que você fosse, pelo que você não era e pelo que eu sabia que um dia seria. Te amei pelas vezes que você errou, pelas que você acertou e por todas as outras em que você ficou em cima do muro. Te amei mesmo, se isso te importa saber, muito mais do que deveria. Te amei, como é que dizem? in-con-di-ci-o-nal-men-te. Coloquei todas as forças em te amar e não consegui ser. Fui uma espécie de sombra, um parasita que precisava do seu sorriso pra continuar vivendo, e me esqueci. Agora vou embora pra me reencontrar, vou descobrir em qual esquina eu deixei o que eu era, em qual topada tudo desmoronou. Deve ser essa a raiz de todos os males: eu te amo, mas quem sou eu?
Não precisa correr atrás de mim, não precisa procurar explicações, não precisa nem mesmo se sentir o único culpado. Culpa é aquilo que todo mundo carrega um pouco. De alguma forma, somos todos culpados por aquilo que fazemos ou deixamos de fazer, falamos ou deixamos de falar, abandonamos ou sufocamos. Eu também tenho culpa, e de repente toda essa busca por mim mesma pode se revelar um encontro de culpas,  um encontro com os meus erros amontoados que impediram que eu me enxergasse. Não dá mesmo é pra ficar e fazer de conta que tá-tudo-bem e o-que-não-tá-se-resolve-logo. Resolve? Quando? Quem é que vai resolver? Não vamos mais adiar. O conserto começa por mim, termina em você e, se tudo der certo, se eterniza em nós dois. Vou procurar por mim pra me entregar pra você. Mais uma vez. Eu volto. E a culpa é do amor.

"Te amei e amei minha fantasia amei de novo e amei a nossa estreia
Amei meu próprio amor e amei a tua audácia
Te amei muito e pouco e comovidamente 
Amei a história construída, os ritos e os porquês
Te amei no invisível e no inaudível amei no crível e no incrível
Amei ser dona e te amei freguês
Te amei e amei a farsa arquitetada
Amei o nosso caso e amei a nossa casa
Amei a mim, amei a ti, parti-me ao meio
Te amei no profundo, no raso e com atraso
Não era tua hora, não era minha vez." 
(Martha Medeiros)

Da série daqueles textos que ficam acumulados nos rascunhos e a gente descobre sem querer. Escrito em 26/07/11 e postado antes que terminasse o ano.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Diálogo V


- Oi, tô ligando só pra dizer que você pode vir. Quer dizer, a casa ainda tá meio bagunçada, ainda tem poeira naquele cantinho esquecido da sala e o porão continua intocado em seu esquecimento. Desculpa, não tive coragem. Ainda. Mas acho que isso a gente pode fazer juntos, não? Vai ser mais fácil se você me ajudar, se você estiver aqui me fazendo rir enquanto eu tiro o que está embaixo do tapete; você pode ficar sentada no sofá me contando sobre seu dia enquanto eu jogo aquelas fotos no lixo; você pode segurar a lanterna enquanto abro todas as caixas e me livro do que não me serve mais; você pode, sei lá, só estar aqui. Há de ser o bastante. O que eu tinha que fazer sozinho, eu fiz, mas preciso de você pro que é mais difícil. Já arrumei a estante, tem espaço de sobra pra você e todos os seus sorrisos, tem espaço pros seus livros, pros seus discos, pro que você quiser trazer. Tem sua comida favorita na geladeira, chocolate na mesinha de centro, um bloquinho pra suas anotações de cabeceira. Só falta você. A gente pode se divertir enquanto pinta todas essas paredes com as nossas cores, enquanto dançamos nossa canção que ainda precisamos descobrir, enquanto deixamos a minha vida parecida com nós dois. Eu sei que tudo isso requer coragem e que daqui a um tempo pode ser a hora de limpar tudo de novo, desmontar o que construímos e revirar passados e baús, pintar as paredes de outra cor, tirar da minha vida tudo o que hoje eu faço questão de colocar. Por isso eu tive medo, tenta entender. Mas agora, às cinco e cinquenta e três dessa tarde nublada, do último mês desse ano que foi mais feliz porque te encontrei, enquanto o rádio toca a canção que você odeia e os carros lá fora buzinam em frente ao sinal com defeito, eu descobri: eu-quero, eu-não-me-importo-com-os-riscos, eu-não-vejo-coisa-melhor-do-que-inaugurar-nós-dois. A gente nem precisa ir tão longe ou tão fundo e se esforçar pra falar de amor; a gente fala só daquele espaço que falta ser preenchido quando vamos embora, daquilo que está por trás das risadas que a gente dá sem motivo nenhum, daquilo que fica estampado na minha cara de bobo quando te vejo chegar. Daquilo tudo que eu tentei não ver enquanto você já sabia e tentava me alertar. Aquilo que eu senti naquele dia em que você desceu as escadas e disse que voltaria quando fosse a hora. Eu ainda não sei muito bem se a gente pode saber com exatidão se é a hora ou não, mas deve ser. Essa ligação é só pra dizer que o relógio já foi ajustado pra gente começar, que a casa está preparada pra te receber e que você nunca mais vai precisar ficar esmagada naquele sofá de sempre: você tem liberdade pra dançar pelo corredor e por todos os cômodos. Enfim limpos. Enfim vazios de coisas velhas. Enfim preparados pra te receber. Era essa a hora? O momento em que eu encontrasse a coragem que nunca te faltou e assumisse o presente, soltasse de uma vez as amarras que me prendiam ao passado e me limpasse do que só servia pra ocupar espaço e acumular poeira? Pois bem, meu bem, vem agora. Agora é o tempo das nossas vidas.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Carta à Delilah.

Ou carta praqueles que foram enquanto precisávamos ficar, ou pros que ficaram enquanto precisávamos ir.


Olho pela janela as nuvens se formando, vem chuva por aí. Os ventos já sopram há algum tempo, a temperatura caiu e esse clima que se monta me dá vontade de escrever algo bonito. De tocar alguém, aquecer um coração, transformar saudade em poesia ou canção. No inverno passado te encaixei numa canção, falava sobre sua cidade e as coisas que nunca mais seriam as mesmas sem você. Eu não queria nada disso, você sabe, se eu pudesse te colocar no meu bolso e te carregar por onde fosse, eu faria; eu não queria um dia sem você, nem um ano ou uma vida, mas agora olha pra mim: quantos dias, quantos anos, vivendo aquela vida que eu temia só de imaginar? De alguma maneira, aqui estou eu: vivendo.
A distância pode ser cruel, o tempo pode ser mesmo um divisor de águas e o que sobra de tudo isso é o que a gente se permite carregar. Carrego comigo uma lembrança bonita de você, sua imagem na varanda do meu apartamento, a gente se escondendo da chuva debaixo daquela escada escura, você sorrindo da minha bobeira e eu me perdendo em pensamentos sobre como o seu sorriso era tudo o que importava pra mim. Carrego você comigo, pequena. Faço da saudade uma ponte pra não te esquecer e transformo tudo em esperança, porque ninguém sabe qual o próximo coelho que a vida vai tirar da cartola mágica. Torço pra que seja você, atravessando a rua cuidadosa e levando um susto ao olhar pra frente e me ver te dizendo que já podia atravessar, como nos velhos tempos.
Ninguém sabe o que a vida vai trazer, e isso me assombra, mas me alegra também. Tenho vivido tempos de absolutas surpresas, tenho revisto pessoas que há muito não via, tenho recebido abraços de quem há muito eu pensava ter me esquecido. Esse deve ser o papel da vida, separar e juntar de acordo com a necessidade, com a prontidão, com o tempo. Quem sabe a próxima a aparecer por aqui seja você? Só me resta ter esperança, torcer pra que em você ainda haja pelo menos saudade e que você tenha permitido me carregar por aí. Amanhã ou daqui a anos, a gente se reencontra. E se reinventa. E se redescobre. Acaba acontecendo.
Um dia a gente toma as rédeas do destino, que a essa altura me parece mais uma desculpa mal inventada pra gente não se mover, e faz um telefone tocar, uma mensagem surgir, um avião decolar. Por que a gente se deixa afastar assim, me diz? Onde é que a gente deixa a nossa coragem e a nossa vontade de estar perto? Por que é que a gente se contenta com a saudade? Sabe por que estamos aqui, nesse abismo, nessa distância, nesse silêncio? Porque somos o resultado da mão que vacilou ao digitar um número e ao escrever uma carta e enviar. Somos a consequência da nossa covardia, da nossa saudade não anunciada, do nosso medo de parecer bobos. Somos a soma daqueles acasos que afastam.
Às vezes penso em quantos acasos nos separaram. Em quantas vezes assistimos a um filme tendo o outro na sala ao lado, em quantas vezes andamos ao mesmo tempo por lados opostos do mesmo lugar, em quantos segundos me impediram de te ver passar. Depois penso em quantos telefonemas fariam tudo mudar. É tudo nossa culpa, Delilah. E te peço perdão, não sei onde foi parar a minha coragem, a determinação em andar todas as milhas necessárias pra te encontrar. Se transformou em um medo na metade do caminho: eu andaria, mas você me receberia? 
Como você está, pequena? Como andam as luzes dessa cidade? Como vai essa sua vida tão desorganizada em sua falsa organização? Sinto falta de você. Sinto falta de nós dois. Sinto falta do que eu fui com você. Sinto falta de te ter. De poder te ligar só pra te contar algo corriqueiro, de poder de te ver a qualquer momento, de dividir meu guarda-chuva quebrado. Se eu pudesse escolher, te escolheria aqui. Sinto sua falta, Delilah, e quase não consigo parar de escrever isso: sinto sua falta. E quanto mais escrevo mais sinto. E quanto mais sinto mais te quero aqui. E de tanto te querer mais te amo. Gosto de pensar que você nunca vai me abandonar, que em algum lugar do mundo eu sempre vou ter um abrigo, um porto, um lugar para onde correr. Talvez esse seja o sentido de tanta gente passar por nossa vida e depois ir para longe: para que tenhamos sempre para onde correr, onde encontrar um socorro em qualquer canto do mundo. Mas eu só queria que o seu lugar fosse aqui. Que fosse eu. Que fosse nós.
Onde você está, Delilah? O número que disquei não existe mais, as cartas que mandei não tiveram respostas, e a última voltou. Me dá uma pista ou encontra essa carta nessa garrafa atirada ao mar, e vem. Vem, Delilah, você tem para onde correr. Lembra da minha frase clichê favorita: "eu sempre vou estar aqui"? Então, "aqui" não é um lugar físico, "aqui" significa com você, significa com telefones e caixas de mensagens abertas, significa disponível, pronto pra lutar por sua causa, pronto pra te abraçar e nunca mais te soltar. Eu sempre vou estar aqui, Delilah. Quer eu queira ou não, quer você queria ou não: porque certas coisas a gente não escolhe. Certas coisas a gente só sente, abre os braços pro vento bater e se curva: que assim seja. Que assim seja o nosso amor, seja ele qual for.


domingo, 20 de novembro de 2011

Ô seu moço.


Ô seu moço, ainda dá tempo de parar esse trem e jogar fora esse bilhete que tenta te afastar dessas terras? Pra quê ir agora? O céu tá tão bonito, as flores começaram a brotar, os campos estão prontos pra nossa corrida. As coisas não precisam acabar agora, só porque o tempo parece ordenar que seja assim. O que é o tempo? Isso deve ser invenção da sua cabeça, moço, coisa de gente da cidade grande. Por aqui, por essas terras do sertão, a gente mede o tempo pelo cheiro do ar, pela sombra da árvore, pela vontade que a gente tem de viver o dia. Você não precisa acreditar nesse papel com dias marcados, nesse negócio no teu braço que parece uma bomba prestes a explodir, que conta as horas pra sei lá o quê. Aqui não precisa de nada disso, moço, pode esquecer, se quiser. Esquece e fica por aqui. Essas terras gostaram da sua presença. Se você quiser ficar, moço, mas quiser mesmo, você pode. O tempo aqui anda a nosso favor, a favor da nossa vontade de viver. E se você tiver vontade de viver esse momento, de viver mais nessa terra, o tempo te ajuda e faz de conta que não existe. Fica, moço?
A gente por aqui é tudo meio bobo, com uma fé meio bonita na vida, com um sorriso que às vezes é torto no rosto, mas a gente é feliz, moço, a gente é feliz do jeito que só sabe ser quem é simples. Você é assim também, eu sei. Percebi quando você chegou e no mesmo instante fez todo mundo sorrir, se aconchegou no sofá da sala e de repente foi como se você sempre estivesse ali. Você tem alguma coisa, moço, um quê dessa simplicidade que a gente carrega em nossos bolsos furados, eu sei, moço, eu vi no seu sorriso. A gente que é dessa terra, tem o costume de conhecer as pessoas, deve ser porque a gente não tem muitas dessas coisas que vocês do lado de lá tem, a gente não tem essas máquinas todas, esses objetos engraçados pra observar. Por aqui a gente se observa. E, olha, moço, tá pra existir coisa mais bonita do que a gente mesmo. E ainda disseram que somos complicados, vê se pode, vocês, do lado de lá, é que complicam tudo. Mas você é diferente, eu já disse. Pode apostar que é. Por isso não vá embora, moço. Fica aqui pra gente descobrir. Quero te conhecer mais, observar seus pés correndo pela terra, ouvir das tuas histórias sempre tão engraçadas, ver seu sorriso de canto de boca quando olha, sozinho, o horizonte. 
O que é que você tem, moço, que quando passa tudo para, que quando fala tudo ri, que quando some tudo chora? O que é que você tem que me faz largar tudo pra vir te ver e tentar parar esse trem com flores? O que é moço, você sabe dizer? Esse sertão vira mar sem o senhor, um mar de saudades suas, um mar de lágrimas de todos nós.
Você, moço, faz um bem danado a todos que por aqui passam. À minha parte que desconfia e à outra que crê. À minha parte que foge e à outra que abraça. À minha parte que te pede pra ficar e à que te deixa ir. E fazer bem, moço, por essas terras não é pouca coisa. Fazer bem é aquilo que a gente sente quando quer estender o momento, quando quer abrir uma rede num sorriso pra descansar ali, quando quer absorver uma presença e nunca se esvaziar. É você quem faz isso por aqui, moço. Essas ruas são minhas, é o caminho por onde levo minha vida, e mando, sim, ladrilhar com as pedras mais bonitas que existirem: pra você passar e ficar, ficar e morar. Essa rua ladrilhada é minha, tem pedrinhas de brilhante, tem vestígios de sonhos, tem sorrisos de sinalização, e é tua, se você quiser.
Ô seu moço, escrevo pra pedir que você não vá. Pra pedir que você continue sentado naquela mesinha contando histórias e fazendo rir quem já tinha perdido o jeito da coisa. Que você continue por essas terras, pra gente continuar o que não precisa acabar. Escrevo como quem te pede pra ficar. Escrevo como quem diz que se não puder ficar, ao menos me leve, ou deixe um sonho bom e um vento que exale o som da sua risada quando passe. Escrevo só pra dizer que se você for eu vou morrer de saudade, como naquelas canções que você me ensinou a cantar sorrindo num final de tarde, e vou olhar o horizonte pensando em você, vou ver o seu sorriso na forma do sol quando se põe; me questionando, pela milésima vez, o que é que você tem que me deixa assim. Se você for, só vai restar saudade, e eu vou ficar vasculhando pelos cantos, esperando na estação, por alguém que faça tão bem a essa terra quanto o senhor, seu moço. Será que existe?
Ô seu moço, eu escrevo como quem pede: fica mais um pouco, tem uma rua inteira pra gente percorrer de mãos dadas. O tempo? o tempo não existe.

sábado, 5 de novembro de 2011

00:00


- Seria mentira se eu dissesse que ainda te amo.
- Seria mentira se você dissesse que não me ama mais.
- E então?
- Então estamos perdidos.
- Sempre estivemos. E ninguém nunca nos deu um mapa.
- Talvez não exista um.
- Eu só quero fugir.
- Fugir não vai fazer você se encontrar.
- Eu me encontrei no momento em que nos perdemos.
- Parece contraditório, não?
- Foi o que me restou: me agarrar a mim ou enlouquecer.
- Então pra que fugir?
- Pra desatar o nó de nós, pra nascer de novo, pra sair desses zeros da meia noite e começar um novo dia. Estar suspensa nesse vácuo em que te amar não é mentira nem verdade, me faz mal. Corrói meu coração, ocupa um espaço que eu poderia oferecer pra outro alguém. Essa meia noite em que estou me dá vontade de amanhecer, de girar os ponteiros do relógio por minhas próprias mãos, de assumir o controle desse trem. Meia noite, parada no vácuo, não é ontem, não te amo, mas não é amanhã, não posso dizer que não te amo mais. É o quê então? Alguém tem a resposta? Alguém tem um mapa, uma bússola, um relógio que não esteja parado no tempo?
- Você não mudou. Quer dizer, sim, mudou eu sei, seu cabelo está mais curto, sua franja mudou de lado, você emagreceu. Mas não falo disso, falo dessa sua mania de controle. Você sempre precisou ter algum controle, alguma defesa pronta, alguma ação pré-determinada. Nunca conseguiu ver um papel no chão e não pegar, uma amiga chorando e não socorrer, uma pergunta no ar e não responder. Você sempre resolveu as coisas, ou pelo menos tentou. Te admiro por isso. Mas talvez agora você deva parar. Apenas se deixar levar. Talvez tudo ainda doa demais porque além de te ferir por ser um amor não resolvido, fere suas defesas, fere o que você costumava ser e agora não consegue.
- Eu sei, mas... mas não saber o que fazer me paralisa. Não ando pra trás porque não sei se te amo o suficiente pra arriscar tudo de novo, e não ando pra frente porque não consigo enxergar além desse amor. Amor que eu sinto. Mas que não sinto. E só sei que existe.
- Amor. Como você sabe que é ou não é?
- Se fosse amor eu não cogitaria outra alternativa senão quebrar o relógio às 23:59.
- Mas talvez mesmo seguindo em frente seja amor. Talvez seja amor mesmo quando a gente precisa avançar pra 00:01. Quando o amor precisa continuar sendo, ele é. E isso você precisa aceitar: você não pode controlar.
- E então?
- Então estamos perdidos.
- E isso, pelo que parece, eu também não posso controlar.
- Será que alguém pode?
- Alguém chamado nós, talvez.
- (...)
- Seu silêncio é como a meia noite pra mim. E é disso que eu preciso fugir. Adeus, você.
- Adeus. Até o ponto, até a virada de ponteiro que une novamente nossas rotas perdidas.


(Meu professor de filosofia tem uma filosofia bonita sobre a meia noite: é o infinito do tempo. Ao mesmo tempo que é a última hora de um dia, é a primeira hora do outro; um minuto a mais é um dia, um minuto a menos é outro. Tomei a liberdade de me apropriar dela e fico por aqui, elaborando milhões de possibilidades pra essa peculiaridade tão bonita, pensando que às vezes a nossa vida é bem assim: meia noite. Nem ontem nem amanhã, ontem e amanhã, uma suspensão mínima do tempo. Quando nossas escolhas não estão bem certas, nossos caminhos estão parados, e a gente respira na hora zero da vida pra pensar que rumo tomar. Talvez eu esteja só filosofando bolinhas aleatórias, mas a questão é que eu achei incrível tudo isso e sou apaixonada por metáforas.)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Do modo imperativo do verbo reagir.

"Você precisa reagir
Não se entregar assim
Como quem nada quer."

- Reage. Tira a bolsa da mesa, levanta o celular, afasta a cadeira, não deixa o que foi derramado escorrer e piorar tudo, estende o pano pra secar.
Vai, reage. Não deixa as lágrimas borrarem teu rosto a ponto de o desconfigurarem. Já foi, todo mundo tem um limite, o seu já se esgotou; agora é a hora da reação. Reage de uma vez, levanta desse chão e vai à luta. Reescreve a história, coloca seus pés pra correr, faz o que você nunca fez. Reage. Pula desse trem que te leva aonde você sabe que não quer ir, não se acomode, não ache que melhor do que está é impossível, reage ao comodismo e pula desse marasmo, dessa vida parada mesmo em movimento.
Vai, pula, corre, escreve, levanta, reage. Sai dessa dor, abre essa janela, o sol quer entrar. Eu sei que quando o céu fica escuro o melhor a ser feito parece ser fechar a janela e ficar ali até o tempo passar. Mas quando o tempo passa, a vida vai junto. Você quer que ela passe enquanto você se esconde do mundo? O que é, afinal, que você vai contar pros seus netos? O que é que você vai ensinar, pros seus netos, pros seus filhos, pro seu vizinho? Vai, reage, deixa que essa seja a lição mais bonita que você já deu, que se lembrem de você como aquela que reagiu. Abre logo essa janela, não deixa essa dor vencer. Se a vida oferece chuva, vai, se molha. Depois o sol volta e conserta tudo. Mas não fica parada esperando. Reage. Há tanta coisa a ser vista, tanta coisa esperando sua decisão e reação pra acontecer. Às vezes o que falta na nossa vida é tão unicamente a nossa ação. Age. Re-age. Responde à essas ações que sua vida parece te impor. Muda o cenário, muda os personagens, muda o que não te agrada. Você tem a liberdade, de deixar como estar ou se envolver no que já chamaram por aí de mudança radical. De que lado você está? Na sua vida você é protagonista ou coadjuvante? Se às vezes os dias passam por você como estranhos, não há problema, é assim pra metade - se não todos  - do mundo lá fora, mas é você que não pode passar como uma estranha por dias que são seus, e de mais ninguém.
Reage ao que foi imposto, à janela que foi fechada, ao sol que esqueceu de sair. Ao que foi derramado e agora escorre, ao que foi perdido e agora sangra, ao que foi quebrado e agora pulsa descontrolado: reage. Reaja a seus medos: ao medo do escuro, acenda a luz; ao medo da solidão, coloque uma música pra tocar e dance sozinha; ao medo da saudade, faça telefones tocarem. Sua vida espera sua coragem. Reagir é não se entregar, resistir, lutar, tentar. Reagir é ir contra nosso comodismo, é ter iniciativa. Reagir é, mais do que tudo, se saber forte, se saber capaz, se saber apto para lidar as surpresas que a vida traz; é se vestir de coragem em meio ao medo. Reage que no meio do caminho a força vem, reage e não fica de mãos atadas e queixo caído enquanto o líquido derrama: reage. Todos nós somos lutadores em potencial, a gente só precisa descobrir aquela parte de nós que não se conforma, que não se deixa levar pela correnteza, que se agarra no primeiro galho que aparece e alcança novamente a margem do rio.
Se toda ação tem uma reação, o que te falta pra dar o pulo, o tiro certo, a cartada que mostra que você continua viva, continua no jogo e não foi o fim? Àquela porta que foi fechada, a solução não é sentar e chorar, pelo menos não por tanto tempo assim, levanta e vai pelo outro lado da rua, aquele por onde você nunca passou, ouvi dizer que por lá as casas são melhores e as portas levam à lugares incríveis. Reage, tenta de novo, e de novo, e de novo, e deixa o disco repetir, feito vitrola velha, essa mesma ladainha: tenta de novo, e de novo, e de novo... Àquela rasteira que a vida te deu, não aproveita pra ficar no chão, não, sacode a poeira, passa um algodão no que foi ferido, e levanta. Reage se mostrando mais forte, reage se mostrando determinada, reage se mostrando, dando a cara à tapa pra vida, se mostrando pronta para o que virá. Àquele não que a vida lhe impôs, enquanto você chora e não sabe o que fazer, repensa suas escolhas, repensa as consequências que um sim te traria, se descobrir que um sim seria melhor do que qualquer outra coisa, reage!, apaga o não que foi escrito e rabisca devagar aquele sim que você deseja; se descobrir que o não, ainda que doloroso, é melhor do que um sim que seria incerto, reage!, cuida de você, do seu coração, do que você esqueceu quando achou que o mundo tinha acabado. Olha ao redor e vê que ele continua girando e que o amanhã é a maior incógnita que já tivemos que enfrentar; suas ações o determinarão, suas reações o transformarão.
Reagir é um verbo bonito demais pra que seja esquecido naquele dicionário empoeirado na estante, é hora de trazê-lo pra vida. Eu reajo, tu reages, ele reage. Nós reagimos, vós reagis, eles reagem. E nossas vidas se transformam e o mundo gira a nosso favor. Vai, reage, tá esperando o quê? Sua vida espera a sua coragem.

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Um dia um refrigerante se esparramou pela mesa, celulares e bolsas eram vítimas em potencial e ninguém se movia. Todos olhavam assustados pro tal desastre, até que alguém - eu - gritou : REAGE!. E daí surgiu esse texto, enquanto eu tirava da mesa tudo o que eu podia, eu pensei no poder e necessidade de uma reação. Deve ter sido o conselho mais bonito, embora num momento tão banal, que dei pra alguém: reage.
Desde então fico pensando e quase chego a dizer, quando é a hora de desejar coisas boas pra alguém, "eu desejo que você reaja". Desejem isso pra mim, que eu desejo pra todos vocês! Reajam, reajam, reajam. A vida tem coisa demais pra oferecer pra gente ficar de mãos atadas e queixos caídos diante das surpresas que nem sempre são boas.
Vamos reagir, a força vai vindo com o tempo e no meio do caminho a gente se surpreende sendo forte. E se eu estiver em condições de aconselhar alguém nesses tempos em que não sei nem o que fazer de mim, o conselho é tão somente esse: reajam.
Boa reação para todos vocês. A gente se vê por aí, reagindo e, sobretudo, seguindo em frente, porque o que virá, aquilo que construiremos, há de ser incrível.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sobre canções, caminhos e sentido ou um texto confuso.

Ou, o que foi escrito através da janela do ônibus.


O aleatório toca a canção que eu esqueci de lembrar para te esquecer e de repente tudo volta, menos você. E eu só questiono aonde é que a gente esteve até aqui; o que, afinal, estávamos fazendo com aquilo que até o final da canção anterior carregava consigo o nosso mundo inteiro. Amor, eu te disse naquela manhã nublada, era isso. Mas agora não sei mais o que fazer com termos que já foram usados, amor, saudade, e todo vocabulário que usei quando fazia sentido ou quando eu não tinha receio em não fazer sentido e ser tachada de louca. 
É o mesmo não saber que me paralisa em relação à canção que toca, não sei se interrompo a canção e o pensamento, ou se deixo continuar, só para ter certeza de que, pelo menos ali, você ainda é meu, eterno prisioneiro da canção que parecem ter criado pensando em nós. Em algum lugar a gente ainda existe, em algum lugar a gente sempre vai existir. É um pensamento bonito, saber que mesmo o fugaz pode se estender ao sem fim. É uma espécie de segurança saber que tenho para onde correr quando quiser morrer de saudade ou arrependimento ou vontade de estar perto, estar junto, estar com. Você. O moço desses versos da canção, das rimas pobres que arrisquei, das entrelinhas que fiz questão de escrever.
Pena que a gente tenha que se perder no meio do caminho para descobrir o que precisa mudar, pena que para se encontrar a gente tenha que se perder, pena que se perder no meio do caminho signifique estar alheio à vida do outro, se submeter ao risco de ser reduzido a nada e nunca mais recuperar a totalidade de um coração. Pena que todo o processo inclua o não saber e o não saber inclua suposições que ferem, julgam e afastam.
Tenho andado lúcida o bastante para perceber tais coisas, para não me deixar cair na besteira de acreditar que o querer seja poder e que telefones tocarão na manhã seguinte, mudando minha agenda e para sempre minha vida. Mais do que somente lúcida, acho que sou uma nova versão de mim mesma, porque depois de certas coisas e pessoas, a gente sabe que não pode continuar o que era antes. Existem novos erros, acertos, anseios que precisam ser considerados. Existem novos rostos que precisam ser estudados e alguns antigos que precisam ser riscados de vez.
Faz parte do processo, disseram, abrir espaço para novas pessoas, mas não acredito nessa sobreposição fácil de rostos que acontece por aí, até conseguirem ocupar o lugar que foi (e ainda é?) seu, existe uma estrada enorme a ser percorrida por pernas que não sei se quero que cheguem até mim. Para você o caminho é o mesmo, sem atalhos, porque atalhos enganam, mas com um diferencial: eu quero que você me alcance. Só não sei em qual caminho você está nem em qual direção; parados, nenhum de nós dois ficou, estou certa. Mas talvez seja só uma questão de ajustar os passos, trazer do passado apenas o que foi bom o suficiente para ficar gravado na canção que toca, e fazer do amor que está ali, mas esquecemos de lembrar, uma bússola. Havemos de ser o norte um do outro, e se não formos, espero por uma reviravolta na história que me aponte o norte diferente de você, que hoje, olhando dessa janela, não consigo enxergar. Se eu pudesse escolher, pediria que esse ônibus fosse parar de uma vez por todas na sua vida. Será que faz sentido? Quem sabe o sentido que há naquilo que eu não sei? Quem sabe aonde eu realmente quero estar? Quem sabe o que eu deveria sentir?  Quem sabe o que eu não sei mais? Ah, meu bem, interrogações demais para quem só queria você como ponto final e cardeal. Você como o meu norte, ainda que o meu norte se revele, cada vez mais, o seu sul.
Mas agora deixe-me ir, deixemos as interrogações para mais tarde, a canção terminou e é preciso seguir em frente, porque outra canção começou a tocar e nela você não apareceu.
(Mas quem sabe na próxima canção, na próxima esquina ou na próxima estação?)


Escrito no ônibus, dia 19/10, numa nota no celular. 
Não é bom, mas é meu, que se há de fazer? rs

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tardes nubladas, chá e poeira.


Acredito em tardes nubladas em que nada pode dar certo, acredito em tardes ensolaradas em que tudo pode dar errado, só não acreditava em tardes nubladas em que as coisas simplesmente acontecessem. Até você. Ainda não sei porque resolvi aparecer naquela festa e só me falta me tornar uma daquelas pessoas que acreditam que tudo está ligado e blábláblá. Eu apenas estava lá, podemos deixar assim? Só resolvi entrar, decidi sentar naquele sofá em frente ao lugar onde você sentaria em breve e esbarrei em você, derrubando chá por todo o tapete e metade da sua blusa, por simples acaso. Não vamos procurar razões onde não existem, deixa que a questão principal seja: eu te encontrei, e nada mais. 
Eu te encontrei naquela tarde nublada, onde nada de bom aconteceria se dependesse da minha fé. Era fim de tarde, havia gente por todo o lado, chá e poeira pelo tapete, levantei meus olhos da besteira que tinha feito e te encontrei: seus olhos fechados, sua blusa agora manchada, suas mãos tampando a boca, prendendo o palavrão que ameaçava sair. Estraguei sua blusa, mas alegrei sua tarde, você admitiria depois, naquela noite chuvosa, quando eu disse pela primeira vez que te amava.
Mas naquela tarde, quando tudo o que ia acontecer ainda era longe demais para nossas visões, você apenas saiu, disse "tudo bem" para meus pedidos de desculpa e sentou do outro lado da sala, me deixando com a visão perfeita daqueles olhos que até hoje navego, cada vez mais preso no oceano que há ali. Ainda lembro quando um amigo se aproximou, percebeu que eu te olhava e me aconselhou a não cair na sua armadilha, a correr antes que fosse tarde. Mas já era tarde, eu quis gritar. Eu já estava preso. Eu já estava dentro daquilo. Eu já estava refém de seus gestos, passos e olhares. Então arrisquei. Me aproximei. Te chamei para perto e você fugiu, te busquei com o olhar e você se escondeu, me escondi e você me procurou e a gente enfim se encontrou. Você me disse sobre sua música favorita, seu livro de cabeceira, seu medo de estimação. Eu te disse sobre o meu time de futebol, meu projeto da faculdade, minha versão melhorada de mim mesmo. Você falou sobre suas contradições, opções e ideologias, e eu te disse sobre meu ceticismo disfarçado de indiferença. Decorei suas palavras favoritas e entendi que cada uma delas representava uma coisa para você, e que ceticismo era a palavra certa para definir sua relação com coisas que aconteciam de repente, que eram fugazes e superficiais. Então você não acreditava naquilo que acontecia entre nós, pensei, pelo menos não ainda, era preciso te convencer. Te convencer, mesmo depois de tanto tempo, ainda é minha missão diária, todos os dias acordo e penso no que posso fazer para te convencer de que te amo, de que vale a pena estarmos juntos, de que algo que começou "do nada" tem potencial para crescer se estivermos dispostos à trabalhar. Mas naquela tarde fui eu que me convenci de onde eu queria estar: onde você estivesse. Não nego, tentei fugir, mas bastou que eu desviasse o olhar por um momento para entender que quando o mundo te chamava você se dobrava em três, de medo ou vergonha, mas quando o mundo te esquecia você dobrava o seu tamanho em três, ressurgia maior e se fazia notar. Meu olhar voltou e nunca mais encontrou espaço por onde fugir, nunca mais desviou de você, nunca mais precisou se esconder.
Hoje, tanto tempo depois, enquanto te vejo dormir com os pés descobertos, relembro como foi bom que a gente tivesse se encontrado assim, sem planejar, sem marcar na agenda, sem sair de casa com o pensamento de encontrar alguém especial. A gente se encontrou, penso com um sorriso no olhar, não nos procuramos, não corremos um atrás do outro, apenas nos encontramos naquela tarde nublada onde nada foi previsto. Era fim de tarde, você era o chá e eu a poeira, o tapete era aquele sofá. Você, feito seu chá, se lançou sobre mim, adormecido feito poeira, esquecido naquele sofá. E a gente se misturou, chá e poeira, e nunca mais se separou.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

(sem) Querer.


Sabe, não acho justo estar contigo para tampar um buraco, preencher meu tempo enquanto o outro não vem, te dar as mãos torcendo para que o telefone toque e o outro chegue e me roube de você, de mim, da vida que inventei para reescrever canções esquecidas no fundo da gaveta. Antes só do que brincando com o sentimento que não é meu, pensei numa madrugada qualquer. É isso. 
Eu sei que a gente precisa arriscar, que certas coisas só se sabem se valem a pena quando a gente tenta. Eu sei, claro, poderia ter dado certo, por que não? Sempre existe a possibilidade de acertar o passo, não importa o quanto dure a caminhada, um mês ou três, tanto faz, dar certo é tudo o que acontece naqueles segundos eternos em que nada mais importa além daquele sorriso no outro lado da mesa. "Dar certo" é bonito demais para que eu ocupasse de má vontade o porta-retrato na sua cabeceira, quero que você experimente a sensação com alguém que pense todos os dias em quão sortuda é por ter algo que dê certo nesse mundo em que o que não vai para frente é tão comum. Sempre tive aversão àquele tipo de relação egoísta, jamais te daria a mão apenas para ir à algum lugar bonito e te fazer acreditar que era onde eu mais queria estar. Até poderia ser, mas não com você. Não sei se alma gêmea, química, opostos que se atraem, ou qual outra teoria me apoio e me justifico numa hora dessas, fico então com a frase clichê, me perdoe de antemão: não era você. 
Juro que tentei, ameacei ficar feliz ao te ver, ignorei suas bobeiras e olhei-as como tentativas de atrair atenção de alguém que nunca deixou transparecer o que pensava, até te escrevi umas linhas meio desengonçadas, não é qualquer um que transformo em texto e encontro um jeito de eternizar. Não deu. E fico triste em te dizer, porque admirei seus esforços e tentei fazer também a minha parte, mas tudo o que consegui foi fugir, mudar de opinião mais vezes do que a indecisão permitiu, correr antes que acabasse entrando no jogo e saindo de lá como a destruidora de corações que nunca planejei ser. 
Sabe, quando hesito demais entre ir ou ficar, quando cada ação é um pretexto para adiar, quando minha visão de céu azul é ameaçada por nuvens negras e os ventos de limpeza parecem nunca chegar, eu sei que é porque eu não quero. Quando eu quero, não há empecilho que me tampe os olhos, não há barreira que eu não acredite poder ser transportada para algum lugar bem longe, não há impossibilidade que me tire o querer. Quando eu quero, o outro lado do oceano é ali na esquina, os contras são pontinhos distantes num infinito de prós, as opiniões alheias são opiniões, e só. Minhas certezas não titubeiam, quando eu quero, eu sei. Não me resta dúvidas, não me sobra tempo para chorar o que pode dar errado, todos os pensamentos contrários são soterrados com a força do verbo que lateja na minha mente por todo o tempo: querer. E ele, esse verbo que tanto valorizo, dessa vez esqueceu de passar por aqui. Deixou a "vontade", o "pode ser", o "talvez seja legal", mas não veio em forma desse querer que arrebenta todas as portas e invade de uma vez. Deixou nomes parecidos, brisas mansas demais para quem queria um furacão de sentimento para tirar de novo os pés do chão. 
Se ainda dá tempo? Não sei. Quem é que sabe de uma coisa dessas, sabe-se lá quando é que esse querer vai largar de uma vez o lugar onde está. Não dá para prever. E numa situação dessas é melhor ser sincera do que te prender aqui, nessa possibilidade que pode acontecer amanhã ou nunca. Vai, querido, segue em frente. Ruma para outro mar, guarda essa canção que nunca ouvi, não desperdiça o que é tão puro com alguém que não sabe te querer. Sem querer eu não vou a lugar nenhum. Se tudo é uma questão de decisão, é o querer que me faz aceitar todo e qualquer risco. O sem querer nunca regeu meus sentimentos, não vai ser agora que vou esquecer do que me prometi. Vai, o tempo há de te mostrar alguém que te queira. Segue em frente, coloca outra canção para tocar, aponta para fé e rema, como disseram os barbudos. 
É sem querer te magoar que te digo: é melhor ficar só do que fingir querer. É melhor não querer, do que querer mais ou menos. É melhor quando a gente quer do que quando a gente vai só porque é mais prático e confortável. Sem querer não vou a lugar nenhum, nem eu, nem você, nem o mundo. É o tanto que a gente quer que nos leva além e nos faz alcançar. E agora, me perdoe, mas não há querer.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Attraversiamo.


Atravessar é uma decisão - lembro de te ouvir dizer isso antes de descer as escadas e se perder de mim. Quanto tempo faz? Um ano ou um dia, tanto faz, sempre perco a noção do tempo quando sei que o número de voltas do ponteiro do relógio é diretamente proporcional aos passos que você dá para longe de mim. Se voltar o relógio servisse como um "replay" dos seus passos, ah, meu bem, os ponteiros brincariam de ir e vir aos momentos em que você estava aqui. Mas não é assim, eu sei. Existe toda aquela questão dos erros, dos acertos que não foram suficientes, das interrogações que vão além dos porquês sobre a incapacidade de voltar no tempo e te trazer de volta.
Depois que as coisas passam, a gente enxerga com mais clareza, meus erros hoje pulam na minha frente e faltam-me dedos para contá-los. Os seus? não sei, faço questão de não lembrar. A questão não é quem errou mais, mas sim o que podemos fazer para não errar mais. Continuo cabeça dura, se você quiser saber, ainda acho que querer muito deveria ser poder, porque certas coisas só acontecem se a gente quiser, mas quiser mesmo. Eu quero, amor. Eu quero amor. Eu quero, e você, amor? Atravessar é uma decisão.
Você sempre quis o voo e eu sempre temi a queda; você preferia o improviso e eu seguia todos aqueles planos feitos antes de dormir, mas do que adiantou se, o principal deles, ter você comigo, eu não consegui? Confesso que nunca consegui entrar nesse teu ritmo, só lembro de você dando risada do meu descompasso com mania de perfeição. Nossas diferenças nos tornavam um daqueles casais com histórias divertidas para contar numa roda de amigos, você defendia, parecendo querer tanto quanto eu que não terminasse nunca, que as diferenças fossem um ingrediente a mais. Você sempre me levou à lugares altos demais para mim e eu sempre decidi atravessar o limite dos meus próprios medos. Estar contigo era estar constantemente exposto à riscos, novidades e emoções à mil e eu nunca fugi. Mas o jogo virou, meus planos de repente não pareceram mais tão irreais, a gente precisava decidir enfim para onde ir. Era preciso decidir atravessar ou não. Atravessar é uma decisão - você disse - e eu não estou pronta para tomar.
Atravessar sempre foi nosso verbo de guerra. Desde o início de tudo isso, decidimos que quando tudo ficasse ruim, nós daríamos as mãos e sorriríamos dizendo: vamos atravessar. Atravessar, você dizia, é chegar ao outro lado, vencer uma barreira, um limite, uma multidão de carros. A gente precisa decidir o tempo todo não ficar parado no mesmo lugar e progredir, prosseguir, atravessar. Dizer "vou atravessar" é se proclamar forte, se saber capaz, prometer para si mesmo ir e... ir. Então, onde você está? Qual foi a rua que te assustou? Qual é o semáforo que te impede de atravessar? Qual é a distância que preciso percorrer para ir te buscar?
Hoje pela manhã, abri a janela e prometi atravessar o dia, chegar ao outro lado do relógio com a sensação de vitória. E só falta você. Eu já sei, amor, decidi na primeira vez que te vi, que por você vou para o outro lado - da rua, do país ou do oceano. Vem, amor, sem medo. Abre o bilhete que está embaixo da tua porta, "attraversiamo", como naquele livro que você leu, como na primeira vez que você me disse no seu italiano de uma palavra só. "Attraversiamo", pequena, vamos atravessar, essa fase e todas as outras. Vamos chegar do outro lado cantando, contando histórias sobre nossas diferenças, ensinando aos outros que, mais do que decisão, atravessar é coragem. Vem, amor, o semáforo diz que é a nossa vez, "Attraversiamo".



Oi, gente, o blog voltou a normal - ao que parece - depois de ter sido acusado de possuir um tipo de vírus. Precisei tirar a lista de blogs por precaução, mas prometo voltar assim que essa onda de blogs contaminados passar. Foi um sufoco descobrir o motivo de tudo isso, me desesperei um pouco, mas aqui estamos nós: de volta. Atravessamos essa fase hahaha
Aliás, o post de hoje é inspirado nessa palavra que acho incrível e cheia de significado: "atravessar" e sua versão italiana roubei do livro "Comer Rezar Amar".
PS: Qualquer problema para acessar o blog, qualquer aviso incomum, por favor, me comuniquem.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Sobre barquinhos de papel, a enxurrada e eu.


"Meio tolo, você se pergunta assim:
“Para onde vão os barquinhos de papel soltos na enxurrada?” 
Com sorte, você deseja, o barquinho chegará à outra esquina. 
Com mais sorte ainda, cairá em algum ralo, depois num esgoto, depois ainda, sempre inteiro, será levado até algum rio. Até o mar, quem sabe? 
Você imagina um barquinho de papel capaz de atravessar incólume
 todas as torrentes e perigos para chegar ao mar."  

Barquinho de papel, eu. Eu, barquinho de papel. Barquinho de papel solto na enxurrada. Para onde vou com toda a minha fragilidade e inabilidade? Em direção ao mar, certamente.
Hoje quero falar de mim, como para o diário que nunca tive e que esse blog nunca planejou ser. Por isso venho aqui, sem precisar me camuflar em história alguma, me reconhecendo como um barquinho de papel que viaja por aí numa enxurrada - chamada vida - muito mais forte do que eu, só para dizer que eu me descobri, me reinventei e agora me sei sendo.
Acho que acontece com todo mundo, em algum momento a vida esbarra na gente, nos chama para luta, nos coloca frente a frente com o passado e a gente se vê perguntando o que é que aconteceu. Aconteceu comigo. Caí no chão, a vida bateu forte demais, os ventos foram frios e violentos demais para um simples barquinho que só havia navegado por águas rasas. Então, quando dei por mim, enquanto tentava me levantar e colocar esse barco numa direção certa, me olhei no espelho e questionei: "O que é que aconteceu até aqui?", "Onde é que eu estava enquanto minha vida corria para longe de mim?", "Quando é que eu ia acordar e me enxergar?" Só pude concluir que essa era a hora, em meio à toda a fraqueza, eu decidi que seria forte; em meio à uma noite de  choro, eu decidi que pela manhã eu sorriria; em meio à escuridão daquele céu, eu decidi que era um ótimo momento para aprender a ser feliz mesmo em dias nublados.
Não tenho a vida perfeita (e cá pra nós, tenho dúvidas se ela existe), tenho amigos que dão trabalho, tenho saudades de quem não deveria, tenho uma lista de coisas que quero dessa vida pregada na minha parede pessoal. Mas eu me sinto, enfim, bem. Houve um tempo em que estar assim seria algo perto do fim do mundo, mas agora é só a vida. É só a enxurrada que leva o barquinho para o mar, sem ela o barquinho não chega nunca, sem esses ventos fortes, o barquinho demoraria demais para alcançar as águas mais calmas.
É isso: encontrei beleza na enxurrada. Arranjei um tempo para ser feliz e troquei preocupações pela certeza de que o vento bagunça tudo hoje para arrumar amanhã. Limpei meu coração das mágoas e reconheci que tinha gente especial demais ao meu lado. Quando eu quis sumir, encontrei gente que quis me ver, que me disse palavras sinceras, sem precisar de ensaio ou cálculo, com a espontaneidade que só a sinceridade sabe ter. Me peguei sorrindo sozinha ao perceber o valor que algumas pessoas tinham para mim, foram segundos de eternidade, quando a gente esquece que a vida pode ser barra pesada e decide que certas coisas nasceram para nunca acabar. Descobri novas manias, novas paixões, modos diferentes de ver a vida. Mudo de opinião sem medo, sinto saudade sem culpa, assumo meus desejos sem vergonha. Me assumi para o mundo, coração: gelatinoso, sorriso: frouxo, convicções: fortes. Tem espaço para mim aí?
No meio de tanta escuridão fui obrigada a olhar para dentro e agora, talvez pela primeira vez, começo a gostar do que vejo. Não sou tudo o que queria ser, mas sou alguém que eu gostaria de ter por perto. Sou um barquinho na enxurrada e isso me alegra. Sou um barquinho de papel que, depois te ter sido amassado, rasgado e de ter afundado - porque assim tinha que ser - teve que ser refeito. Um barquinho novo em folha, porque arrumar às vezes não basta, é preciso descontruir para construir de novo.   
Sou só um barquinho na enxurrada. Alguém que abre a janela e vê esse céu, que já foi negro de dor e vermelho de paixões que fizeram mal e hoje é só azul. Azul de vida, azul de vontade de viver, azul de possibilidades. Sou só alguém que se descobriu e se sabe imperfeita e cheia de erros, mas certamente especial. Um barquinho solto na enxurrada que segue sem preocupações, segue sabendo que o mar há de chegar, com águas calmas e um barco que reme numa mesma direção e num só sentido. 
Eu, barquinho solto na enxurrada. Barquinho solto na enxurrada, eu. Uma canção de amor para mim mesma.

"Então você abre a janela para o ar muito limpo, depois da chuva. 
Você respira fundo. Quase sorri, o ar tão leve: blue."

(Aspas no início e no final: Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Aquela única certeza.


Lembro de ter dito numa tarde chuvosa que você havia sido o único. Não sei se você acreditou de cara ou se considerou como uma frase de efeito de quem não sabia o que dizer, mas não queria ficar calada. Agora tanto faz o que você pensou, não há mais nada a ser feito e explicações não têm força nenhuma. Agora são só lembranças de um amor que foi e ficou, foi e marcou, foi e esqueceu o caminho de volta. São só lembranças que me atropelam num fim de tarde, quando encosto a cabeça na janela do ônibus e tenho certeza de que deveria estar pensando em outro rosto, escrevendo frases sem entrelinhas que esperam por você para descobri-las. São só lembranças que me fazem confirmar: você foi o único. 
Sabe, depois de você eu nunca mais tive certeza, nunca mais aquela força que um dia me fez ignorar o mundo para ouvir sua voz, nunca mais aquela determinação em assumir os riscos, nunca mais aquela desconfiança de que a felicidade só seria mesmo completa nos braços de alguém. Ah, meu bem, nunca mais.
Desde quando você se foi e eu reconheci que era hora de continuar a andar, nunca mais tive certeza ao olhar para alguém. O mundo é sim cheio de opções sem você, todos estavam certos, mas me diz, de que vale o mundo sem teus braços, abraços e palavras? Aqueles outros que apareceram foram só distrações, pequenas mentiras que contei fingindo te esquecer, invenções de um final feliz que eu sempre desejei escrever com você. Em nenhum deles resolvi investir, até ameacei outras rimas, mas deixaram de fazer sentido quando percebi que as rimas que compus dentro do seu abraço, superavam qualquer uma outra. Foram só sorrisos que achei bonitos, olhares que demoraram um pouco mais, características que admirei. Foram só pessoas que usei sem que soubessem, só para me convencer de uma possível vida após você. Foram só defeitos que criei no minuto seguinte, em pessoas cujo principal defeito era também a maior qualidade: nenhum deles era você.
Eu sei que um dia consigo, que a tal libertação enfim acontece e eu recupero e enxergo em outro olhar aquela certeza que você roubou de mim. E eu quero. Me apaixonar, me lançar, me oferecer ao risco de ser feliz - com ou sem você. Mas até lá, alguém me diz, quanto chão ainda tenho que percorrer imersa nessa nossa indiferença? Quantos sorrisos vou ter que fingir para tentar me convencer de que aquele outro me diverte tanto quanto você? Quanto de você ainda vou ter que extrair de mim, nessa cirurgia de peito aberto e sem anestesia? Ah, o futuro, o que será de mim, de você, do nó que restou de nós? 
Por hoje, continuar a seguir em frente, é a instrução pendurada no mural dos meus dias. As lembranças às vezes me fazem perder o ritmo, mas logo me reencontro. Em frente. Dando chances e oportunidades, quando tudo o que eu queria era me perder naquele nosso jogo. Continuo por aí, meu bem, tatuando meias verdades no peito, tentando descaracterizar a marca que você deixou. Continuo até encontrar outro olhar que me convença. Continuo te esquecendo enquanto lembro cada vez mais, emprestando pensamentos aos outros e os trazendo sempre de volta para ocupá-los com você: o único.
O único que valeu o risco, que amei mesmo, com direito à todo o espetáculo que vem junto: os choros, os sorrisos, a vontade de te matar e de morrer por você a qualquer momento. O único que esqueci de esquecer para lembrar mais uma vez. Continuo procurando certezas diferentes, porque a que sei de cor talvez não faça mais sentido: você ainda é o único pelo qual eu aceitaria o voo, mesmo sabendo da possível queda e das inúmeras tempestades que virão. É só uma certeza: você, você, você - quem eu escolheria hoje ou daqui a mil anos, todas as vezes que me fossem possíveis.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A gente.


- Que dia é hoje?
- Quinze meses e vinte dias depois.
- Sério que você conta?
- Dia sim dia não, para ter algo pelo qual declarar saudade e pensar nostalgicamente enquanto deito a cabeça na janela do ônibus e deixo o pensamento te encontrar.
- Uma espécie de masoquismo?
- Não, você é a saudade que eu gosto de ter.
- E você a que eu gostaria de nunca mais sentir.
- Nunca mais sentir devido à minha presença constante ou à sua total indiferença à minha ausência?
- Sinceramente? De qualquer forma que aliviasse meu peito de sentimentos que só prometem e nunca são e me tornasse capaz de, mais uma vez, experimentar o prazer do voo em vez dessa imobilidade angustiante.
- E se você pudesse escolher uma dessas formas?
- No amor a gente nunca escolhe.
- Mas e se pudéssemos?
- Jamais escolheria a sua presença.
- Por quê?
- Porque nesse mundo em que amor não se escolhe e o que a gente escolhe nunca é, não quero correr o risco de te escolher e não ter. Quero sempre o risco de poder cruzar com você, mais uma vez e sempre, numa dessas esquinas.
- Já que a gente não escolhe, essa história de amor poderia ser ao menos simples. A gente se cruza numa esquina e nunca mais desfaz o abraço, nunca mais conhece motivos pra se afastar, nunca mais deixa qualquer um outro entrar nesse jogo, além de nós dois.
- Mas o amor é simples, a gente é que complica.
- A gente: eu e você ou a gente: o mundo inteiro.
- A gente.
- Como assim?
- Quando eu te perguntei o dia, bastava que você dissesse a data de hoje. Simples. Não precisava que você revirasse o passado nem entrasse em explicações que acabaram por remexer em cicatrizes. Bastava que fosse a data de hoje e eu diria que era um ótimo dia pra desenharmos mais uma esquina e nos cruzarmos por lá. Mas no passado não há como interferir. Só no agora. Poderia ser simples como 1 + 1, mas a gente faz do amor uma equação com incógnitas demais para qualquer coração. Felizes são aqueles que não se preocupam em entender o que aconteceu, só continuam. Aprendem, não reviram mágoas. Se dão mais chances, acreditando no que foi bom. Seguem em frente, não supervalorizam dores.
- E quem são essas pessoas?
- Por que não a gente? Ainda dá tempo, antes do precipício tem espaço para improvisarmos uma esquina e um encontro que não precisa acabar.
- Esquece o que eu disse, hoje é dia de começar de novo. Eu e você. A gente. E só. Sem passado ou nenhuma outra pessoa. A gente. E nos bastamos.

Texto da Madrugada: 15/08/11

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Aperte o play.

Um post regado à músicas boas e outras não tão boas assim, uma tentativa de testar minha memória musical, que só acabou me fazendo descobrir que pouca coisa ficou. O texto é culpa do Carpinejar e da sua crônica "Deixe-me dançar sua vida", da qual eu tomei a liberdade de tirar inspiração. Enfim, apertem o play.


Quando você chegar essa noite, entre sem bater. Coloque o casaco e a bolsa sobre a mesinha de centro, tire os sapatos e vá para perto da janela, permaneça onde a luz da lua possa bater em você e não se assuste ao reconhecer a trilha sonora. Essa noite eu quero dançar a sua vida. Quero me tornar o primeiro e o último amor, estar contigo no primeiro beijo e na primeira decepção. Quero aprender os passos que você deu e me tornar parte do que não pude ser contigo, estar onde não pude estar, conhecer as sensações que você conheceu sem mim. Essa noite o seu passado é meu, apenas encoste em  meu ombro e deixe-me te conduzir por estrofes que você conhece tão bem, deixe-me estender uma rede em cada verso, apenas feche seus olhos e deixa-me te dizer baixinho que tudo nos trouxe para esse ritmo que dançamos ao longo dos nossos dias. Se a vida é uma dança, eu quero recuperar o tempo em que você pertenceu a outro par. Deixe-me tentar. Acomode-se em meus braços e deixe-me pertencer a você desde sempre e para sempre. 
Primeiro vamos à infância, lembra daquela canção de novela, "assim será"? Comecemos por ela. Quero estar nos seus pensamentos quando aquela garotinha cantava em frente ao espelho a letra que já sabia de cor, quero ser o cara de blusa listrada que te fez se atrever a mudar a letra da canção, quero ser o amor que você esperou tanto tempo. Depois, vamos passear por outras. Deixe-me ser o "cara esperto" que perdia a fala e sentia calafrios ao te ter por perto; deixe-me ser a pessoa que te fez sorrir dentro daquele ônibus, olhando a paisagem correr, ao ouvir alguém cantar "seu sorriso é meu", deixe-me ser quem te dá essa certeza. Quero estar naquela noite escura quando "pensando em você" te fez derramar a primeira lágrima por alguém; quando "Quem, além de você" te fez questionar o futuro, deixe-me ser a resposta; quando "Make you feel my love" te fez desejar alguém a quem provar todas essas coisas, quero estar ao teu lado sussurrando que um dia eu estaria aí, aqui, com você. Deixe-me morar em "Conversa de Botas Batidas" pra não te deixar responder errado a questão: nada é maior do que o amor. Abra espaço pra mim naquelas canções que nunca mais foram as mesmas, deixe-me ser o bobo em questão, quem luta com você contra o resto do mundo, a única exceção e razão pra tentar de novo. Deixe-me ser, mais uma vez e sempre, o cara que faz com os outros saibam na fila do pão que você encontrou, o teu último romance, aquele que nunca acabou. Deixe-me te provar que suas canções favoritas estavam certas: o coração nunca mente, a estrada vai além do que se vê, tudo o que o mundo é precisa é amor. Deixe-me cantar baixinho pra você nos dias de chuva, te dizendo pra ir devagar, pra não carregar o mundo em seus ombros, pra não se esconder nem ter vergonha de suas marcas e cicatrizes, acalmando você ao dizer que a madrugada acaba quando a lua se põe e que o sol, ah, querida, o sol sempre volta. Deixe-me estar nas canções que você nem lembra mais, nas notas que te fizeram chorar em casamentos, nas letras que te fizeram gritar arrependimentos, aprendizados e declarações. 
Não importa a época, a razão ou a qualidade: deixe-me estar. Apenas isso. Abra espaço para mim, porque te quero inteira. Perdoe a presunção, amor, perdoe-me por querer invadir teu passado, mas é que presente e futuro com você não me bastam. Te quero por inteiro, com cada passo que você deu, com cada calo que um passo em falso causou, com cada nó na garganta que aquela música te deu. Permita-me dançar tua vida, com as determinadas pausas, refrões que repetiram demais e custaram caro, estrofes que deveriam durar para sempre, mas terminaram. O que doer reviver, apaga em mim. O que der vontade de reviver, reinventa comigo. O que não deu tempo de viver, vive aqui. Faz dessa volta ao passado apenas a confirmação de que estamos no lugar certo, no tempo certo, em braços certos. Porque pra mim não importa o que você traz na sua lata, a bagagem que te acompanha; não importa se mais sentimental do que você não há ou se você não quer mais se entregar. O que importa é que longe de você, eu enlouqueço; que nem 50 nem mil receitas me fariam te esquecer e que algo no seu sorriso me faz querer não te deixar nunca mais.
Essa noite, quando você entrar, aperte o play e deixe começar a fusão entre nossos passados, até que tudo vire o presente e o presente tenha combustível pra se tornar futuro. Essa noite, quando você entrar, aperte o play e venha comigo dançar a canção que não tem fim: aquela que começa quando nossos olhos se encontram e nossos corpos se encaixam. Aperte o play, morena, porque pra nós todo amor do mundo ainda é pouco e porque eu prefiro assim com você: juntinho, sem caber de imaginar o fim.

"Dançamos.
As canções são a memória dela.
Entro nas rimas, hospedo-me em suas impressões, faço cama nos estribilhos.
Vou girando e levando-a para perto."
(Fabrício Carpinejar)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Carta ao desconhecido.


Eu estava aqui quando você apareceu: nesse campo imenso onde nada acontecia. Onde eu brincava com o vento em minha própria solidão, escrevia palavras soltas sob sol, chuva e céus estrelados, sobre as histórias que nunca vivi. No início estar aqui era uma obrigação, como se a vida quisesse tratar comigo, me ensinar na marra, pingar todos os meus is e, quem sabe, me tornar mais forte em tudo o que eu era. Mas agora, nessa exata hora em que você surgiu, estar aqui é um prazer. Uma espécie de refúgio, onde me sei forte, mais segura de mim mesma e, enfim, livre. Então, pássaros anunciaram sua chegada, ouvi seus passos a caminho, vi sua sombra se esconder atrás daquela árvore. Te observo daqui, me perdendo em hipóteses, razões pra ir ou ficar, assistindo seus esforços, ouvindo o vento trazer palavras que você disse sobre em mim enquanto o máximo que eu fazia era ficar aqui e sorrir: nunca antes tão eu mesma. 
Você me viu pelo que eu era, sem que eu tivesse tempo de prever sua chegada e acertar os passos dessa minha dança com o vento. Você me viu em minha solidão, sem maquiagem ou disfarce, em meus passos espontâneos e falas de última hora. Você me enxergou. Se nada der certo e eu acabar machucando teu coração, ao menos fique feliz: você é especial demais por ser assim e merece, merece mesmo, alguém que pode não ser eu, mas que te faça absurdamente feliz.
Sabe, você chegou quando eu menos esperei e não sei ao certo se quero sair daqui, se quero me expor novamente pra todos aqueles riscos que um dia castigaram tanto esse coração que ainda tenta bater num ritmo diferente. Por mais que eu tente fugir do clichê das cicatrizes, não há como não cair nessa tecla: elas estão aqui e me lembram que podem voltar a abrir a qualquer momento. Eu sei que uma hora iria acontecer e alguém viria me chamar de volta, mas já? será que estou preparada? Ah, moço, é que você não sabe. Você não sabe meus medos, meus sonhos, meus erros. Você desconhece minhas manias, meus trejeitos, meus conceitos. Desconhecidos, é o que somos. E o desconhecido me assusta. Só mergulho quando tenho certeza de que é o que quero e só salto quando sei quem vai estar lá embaixo pra me segurar.
Olha, não quero te repelir nem te assustar. Não quero fechar a porta pra você sem nem ao mesmo ter ouvido sua voz me chamar. Então, venha. Pode vir, saia de trás dessa árvore, se aproxime aos poucos do meu campo, cante sua canção preferida, deite aqui do meu lado ao anoitecer e conte sua história sob um céu estrelado. Me convença a te pedir pra ficar, a te dar permissão pra me decifrar, a tirar o prefixo do desconhecido e segurar minha mão para irmos. Hoje é impossível, mas amanhã quem sabe? Venha, tente, se aproxime. Você não estava nos meus planos, mas já que está aqui, puxe uma cadeira e fique mais um pouco. Não deixe essa casca dura que carrego por fora te assustar, por dentro sou assim: só coração. Não deixe que eu te use apenas como uma desculpa pra não pensar no que passou, faça com que não me reste outra alternativa se não pensar em você. Não se atrapalhe nas dificuldades que vou enxergar, amplie minha visão. Não pare na primeira barreira que vou impor, seja criativo e persistente, diga que não importa onde iremos parar, o caminho certamente valerá a pena. 
Confesso que não gosto de riscos, mas tenho aversão à ideia de desistir sem tentar, de manter portas fechadas com medo da bagunça que poderá restar depois, pra eu limpar sozinha. Se aproxime, mas não tenha pressa. Aqui nesse campo o tempo anda a nosso favor. Querido, tenho medo, porque você tenta me levar a um lugar que nunca conheci, mas revele-se e me convença a ir. Alimente minha paixão e meus sonhos, que eu encontro a coragem para escrever um sim. Me convença, mostre que meus pré-conceitos estavam errados e me surpreenda com suas qualidades. Estou disposta, moço, me encante e vamos: rumo ao desconhecido, como dois desconhecidos cujos olhares decidiram se conhecer.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Ah, não sei, só deixa eu te olhar.


Ah, não sei, não foi nada. Ou foi? O quê? Saudade, talvez. Amor? Amor não sei. Não diz nada, só deixa eu te olhar. Deixa eu te varrer com meus olhos e descobrir quem você agora é. Quem é você? Quem sabe te observando assim fique claro. Tão estranho te conhecer há tanto tempo e ainda e me perguntar baixinho quem é você. Você, que já foi o primeiro-amor, o amor-da-minha-vida, o nada-a-ver, agora, quando tudo se misturou e acordamos no tempo, me diz, quem é você? De repente novamente te vejo; de repente você existe nítido na minha mente; de repente minhas certezas evaporam. Não sei, e o que se diz numa hora dessas?
Seria sincero dizer que nem por um minuto sequer, esqueci de te desejar coisas boas, de me preocupar com a sua felicidade, de comemorar o teu crescimento. Sempre que te via aplaudido, elogiado, comemorado, sentia um orgulho besta, dava um tapinha discreto no peito, feliz por te conhecer há tanto tempo, feliz por nem lembrar da minha-vida-sem-você, feliz por ter te conhecido e, de alguma forma, te marcado. Mas não é amor. Ou é? Mas existem tantos tipos, não serei eu louca a ponto de cometer o mesmo erro duas - três, cem, mil - vezes e confundir tudo.
Sabe, você sempre esteve presente. Começo mesmo a acreditar naquela história de que o-primeiro-amor-a-gente-nunca-esquece, culpa sua.  Não, fica calmo, não vou fazer alarde, nem dar corda pra esse sentimento que ameaça despertar daquele sono profundo. Não se assuste quando me encontrar te olhando, só quero descobrir você. Só isso. Só quero voltar a associar minhas lembranças bonitas à você, aquela nossa foto no bosque, todos os sonhos que minha mente de criança bolou pra nós dois.
Quero lembrar desse tempo, deixa eu te olhar só mais uma vez e sempre. Deixa eu te transformar em literatura, porque de todos os amores e desamores, é você o único que nunca ganhou um parágrafo sequer. E você, ah, querido, você merece tanto. Foi você, e aquele nosso amor utópico, que me colocaram no caminho que sigo. Às vezes solto risadas quando lembro que desde pequenininha tive um pé no drama, uma tendência às loucuras, uma força gigante pra lutar pelo que meu coração escolhera. Ainda não sei de onde me vem tanta determinação. Do amor? Não, não coloca ele na história - não ainda, não de novo, não nesses termos.
Sabe? não, não sabe, então deixa eu dizer: de repente voltei a sonhar. Não sou mais aquela criança, parecia que a vida tinha tirado essa capacidade de mim, mas olha só o que você fez, quebrou o (des)encanto: eu posso sonhar novamente. Nesses tempos de vazio sentimental, encontrar você me faz querer plantar pequenos jardins no coração, lançar sementes e ser boba por acreditar que elas podem sim germinar. De repente lembro de todos aqueles acasos que me levavam até você e os trago de volta. Não quero mais me afastar, quero te conhecer. Esquece esse intervalo de tempo que passou em aberto, olha pra esse abismo entre nós e pensa que é hora de plantar flores ali, de construir pontes, porque somos grandes agora, sem aquele medo infantil que nos afastou.
Ah, pequeno grande primeiro amor, só deixa eu te olhar e quase acreditar que não precisa ser assim: você lá e eu aqui, no meio: abismo. Não, não diz nada, me olha. Vai que um dia esses olhares se encontram e a gente se pega rindo da obviedade da vida. É, de alguma forma, te amo. Não há escapatórias para o primeiro amor, ele é sempre um só. Mas eu já disse: não vou confundir nada, vou fazer tudo certo dessa vez. Só deixa eu te olhar, é bom poder sonhar novamente, você me faz bem.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Para o moço que me vê da sacada.


Eu não deveria estar aqui, mas agora que estou, deixe-me sentar no meio-fio e te escrever uma carta extraviada de tudo o que eu deveria sentir. Num ato louco e impensado, me vi virando a sua esquina, entrando naquela rua que já percorremos inúmeras vezes, de mãos dadas, apostando corrida, carregando sacolas com nossos jantares. É a primeira vez que passo por aqui em anos. Não sei porque estou aqui, o que foi que me deu depois de todo esse tempo pra estar aqui fazendo papel de boba, mas estou. Em carne, osso e coração, parada em frente à sua casa, ouvindo suas canções favoritas saírem da janela do seu quarto. Pode chamar de maluquice, masoquismo ou só saudade. Não vou te chamar, fazer escândalo, muito menos serenata; não vou bater na porta e sair correndo, tocar o interfone só pra ouvir tua voz ou tacar uma pedra na tua janela. Só vou sentar aqui e escrever uma carta pra não te mandar, sobre todos os dias que passaram e o que nunca mais foi o mesmo sem você.
Sabe que hoje no mercado tocou aquela nossa música e eu fiquei cantando feito louca desejando que você estivesse lá? Como naquele dia em que sem querer fizemos um dueto ao reconhecermos aqueles acordes tão nossos soando numa caixa de som qualquer. Sua música favorita nunca mais será a mesma, e isso me soa como uma espécie de vingança por tudo o que nunca mais será o mesmo nessa vida que, depois te abraçar, foi forçada a abrir os braços e te deixar ir. Disseram que amor só passa a ser amor quando você a encontra nos versos de uma canção que não é uma qualquer. Então foi amor, eu descubro sempre que tiro o pó das lembranças. Mas a canção não parou, as notas continuam a sair da sua janela, e o amor?
Ah, moço, depois de você, seu estilo literário nunca mais foi apenas mais uma estante da livraria; as músicas que um dia ouvimos nunca mais tocaram sem nossa história nas entrelinhas; as coisas sobre as quais falamos nunca mais foram apenas coisas, são pequenas partes suas que não me deixarão jamais. Inevitável pensar se na sua vida também existe uma espécie de exposição "depois de você", baseada em mim, cujos corredores estejam abarrotados de pequenas coisas que só nós conhecemos e por eles sopre aquele vento de saudade.
Será que alguma vez você me escreveu uma carta que nunca li? Será que um dia, passando pela minha rua, você ameaçou parar em frente à minha sacada? Será que seus dedos já digitaram meu número e desistiram de ligar? São tantas perguntas. É difícil aceitar que pra você não tenha sido como foi pra mim, que tenha sido fácil se recompor, colocar as lembranças num baú e esquecê-las por lá, encontrar outra inspiração, alguém que soubesse melhor do que eu a receita pra sua felicidade. Sempre penso em você assim, como alguém que já me esqueceu há anos, que não se intimida com minha presença e não sente nenhuma vontade de um daqueles controles que voltam no tempo. Me ocorre agora que não sei quem é você, não sei pra quem escrevo, mas diz: depois de todos esses anos de silêncio, o que restou? Amor, saudade, torpor? 
Sabe, não te esqueci. Nem por um dia ou noite fria. Nem por um segundo eterno de solidão. Nem por uma ou outra intenção que tiveram em me fazer feliz. A minha vida continuou, foi preciso. Até inventei umas paixões instantâneas, uns suspiros quando outro passou, uma esperança num relacionamento que nunca aconteceria. Tentei, tenho tentado até hoje me livrar do passado, por causa daquele blábláblá todo de que o futuro só vem quando a gente abre mão do que passou. Ah, se o futuro soubesse das vezes que abri mão de você, correria até mim sem perda de tempo e arrombaria minha porta. Só eu sei o quanto desejei o novo, o não você, o que me levaria embora desse lugar. Foram muitas as noites em que estive disposta a te deixar de lado, em que não enxerguei em você nenhum prazer, nenhum sentimento que valesse a pena ser reconstruído. Mas, DROGA!, ainda é você o que mais vale a pena. Com todos os seus erros, defeitos e incompreensões. Com tudo o que me faz te odiar uma noite inteira e derramar lágrimas por tanto te amar. Dias sim dias não acredito na gente, num futuro brilhante. Dias sim dias não, ondas de desesperança fazem o travesseiro onde minha cabeça tenta descansar. Mas dias sim e dias também te amo.
Você, moço, que me vê da sacada, sentada nesse meio-fio, ainda é o primeiro nome que vem à cabeça quando pronunciam amor, ainda é o que há de mais novo pra me fazer suspirar, ainda é um motivo valido pra acreditar naquelas filosofias baratas sobre todos os obstáculos até o verdadeiro amor. Peço pra que um dia me liberte ou então desça até aqui de uma vez e me roube de mim mesma, desse caminho que eu seguia e tentava me levar pra longe de você. Vem cá, moço, que nossa canção não terminou. Ah, moço que amo, você é a saudade mais bonita daquela vida que ainda não vivi. E caminho melhor até lá, não há.

sábado, 9 de julho de 2011

Seu recado após o sinal.


- Oi, sou eu. Sim, eu. Ainda reconhece a voz rouca de quem não consegue dormir quando é assaltada pelos pensamentos? Pois é, sou eu. Faz tempo, né? Quantos meses, você conta? Eu fiz questão de deixá-los passar, quem sabe me livrando de contá-los, me livro também de sofrer ao vê-los passar. Não sei se dá certo, provavelmente não, mas tento...

- Antes que você pergunte, não bebi, me sinto mais lúcida do que nunca e a TPM foi embora há dias. Só senti saudade e derramei lágrimas ao lembrar do seu sorriso, não aconteceu nada de mais, nada que me tirasse do meu estado normal. É que de repente dei por mim e percebi o quão exausta todo esse teatro me deixou...

- Passei dias fingindo estar bem, arrisquei rabiscar versos com outra rima, programei minha mente pra seguir em frente e quase atropelei o sentimento. Passei noites listando prós e contras, imaginando se haveria ou não um futuro pra nós dois, me perdendo em suposições e me forçando a acreditar que não dá mais. Mas olha eu aqui...

- Resolvi assumir minha fraqueza. Apaixonada por você? SIM, EU SOU. Perdidamente. Loucamente. Completamente. Em meus pensamentos não há outro, de todos os meus planos é você o que me faz querer continuar, de todas as canções é você o refrão que me faz suspirar. De todos os meus sonhos, foi você o único que aconteceu. De todos que foram embora, você foi o que mais doeu. De todos os que abri mão, você é o único que volta e muda meus pensamentos...

- Eu não quero mais fugir nem inventar desculpas e pretextos pra nossa distância. Não quero negar meu presente com você, alegando não enxergar o futuro. Não quero viver a vida imaginando como teria sido se. 
Não importa se haverá choro, se não vejo futuro ou se tenho medo. Quero mergulhar nesse sentimento e nunca mais emergir, ou apenas se for pra sair do fundo desse mar com a sensação de tê-lo vivido até a última gota. Venha agora e mais uma vez cale meus medos. Me surpreenda, que juntos improvisamos um futuro e eternas reticências onde um dia houve um ponto final...

- Venha, porque sinto falta do que fui com você, de te procurar seus olhos e sorrir feliz ao encontrá-los em mim, meus. Quero, mais uma vez e sempre, caber pequena no teu abraço enorme, inventar surpresas pra te ver sem graça e ficar sem graça depois de suas surpresas. Quero você aqui, por todos os dias e sem passado. Sinto saudade, mas todos pensam que estou bem, me salva desse teatro, me liberta dos meus pensamentos, me arranca dessa rotina sem você...

- É, eu te amo sim (risos), eles disseram pra não te dizer, mas você sabe que não aguento fingir. Eu te amo, eu te amo, eu te amo. Acho que essa é a única frase que mesmo quando repetida mil vezes jamais perde o sentido. Sabe que você foi o primeiro a quem eu disse as três palavras mágicas? Deve ser por isso que não consigo parar ou talvez seja porque é amor demais...

- Já vou desligar, prometo. Eu sei que agora é impossível, que você tá fora da cidade e tudo o mais, mas quando der, vem e me leva contigo para aquele futuro que eu não consigo imaginar de tão bom que será.
Ah, esquece o que eu disse sobre estar lúcida. Estou bêbada, sim. Só estando absolutamente embriagada de amor para, numa madrugada fria, ficar ligando pra sua secretária eletrônica pra dizer coisas de amor. E me perder, a cada início de gravação, decorando cada nuance da sua voz, pra ter certeza de nunca esquecê-la. 

- É, continuo boba. Uma menina que não quer contar que sentou e viu o amor correr, mas que tentou enquanto teve força, era o que você dizia sempre que eu defendia um ato falho de alguma amiga. Você estava certo, eu sabia que algum dia a minha vez ia chegar. Olha, vou desligar, um beijo, te espero. E sei que você vem. O barulho da sua respiração nos recados que desistiu de deixar na minha secretária eletrônica me disseram que você me ama. É recíproco, pode vir.

Escrito em 01/07/11

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