sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sobre casas, flores e borboletas.


Hoje quando acordei descobri que estava pronta para abrir as janelas. Não sei como a gente sabe que é a hora, mas eu de repente senti que era hora de deixar o sol entrar. E ele entrou. Correu para iluminar todos os cantinhos escuros da casa que estava fria e sombria. As janelas abertas fizeram com o que vento corresse pelos corredores e visitasse todos os cômodos escondidos, varrendo pra longe toda a poeira sobre os sentimentos. Decidi limpar os tapetes, tirar debaixo deles todos farelos escondidos ali no tempo em que lembrar era doer. Limpei, não de forma rápida nem indolor, as marcas de lama que ficaram no chão quando você foi embora, passei um pano na porta marcada pela sujeira que causei quando a tranquei. Perfumei todos os ares, aparei a grama, reguei as flores do jardim que haviam esquecido de crescer. Desci as escadas e o ar me encontrou de forma violenta, acabou sacudindo também de mim toda a poeira. Alguns chamam de libertação, outros de desprendimento e alguns de coragem. Não sei dar nome, era simplesmente o que eu devia fazer. Não dava mais pra me trancar num mundo escuro e me privar da luz exterior. Nem dos perfumes, das flores e dos sons. A minha casa agora é outra, mas ainda existe no mesmo endereço. Os muros foram pintados, alguns móveis trocados de lugar, outros diretamente pro lixo. Algumas coisas ainda são as mesmas, não nego. O seu sorriso continua na estante, a sua voz ainda é a música mais tocada no toca-discos da sala de estar, a sua parte do guarda-roupa continua reservada. Não sei do que chamo. Talvez esperança, talvez insistência, talvez suicídio. Depois descubro. Agora não tenho tempo. Tenho uma casa pra cuidar, visitas pra receber, fotos novas pra colocar no mural. Meu jardim precisa de mim. Novas espécies de flor precisam ser plantadas e cuidadas com atenção. Ervas daninhas precisam sumir de uma vez do meu jardim da vida. As minhas gavetas precisam ser examinadas e tirado de lá tudo o que não combinar com a minha casa tão nova. As roupas velhas precisam ir pra outro guarda-roupa onde supram a necessidade de calor de outra vida. Não sei definir. Mudança é pouco. É algo maior. Que suplica por descobertas e liberdade. É algo maior que precisa do novo pra sobreviver. Definiria como vida porque acredito que chega um ponto em que continuar o mesmo é impossível. E hoje ao abrir as janelas, corri pra me olhar no espelho pra perceber que já não era a mesma. Não é questão de abandonar o passado, é sobre não sufocar com ele. É sobre prosseguir e encontrar nas flores e no sol motivos inteiros pra sorrir. É sobre ter uma cadeirinha num jardim e poder se sentar sozinha e feliz. É sobre poder contemplar a vida sem medo. É sobre olhar pra fora do portão e saber que existe um mundo inteiro a minha espera. É sobre ficar olhando as borboletas sobre as flores do jardim e pensando quantos jardins elas ainda vão conhecer. Há quem diga que borboletas voam por vários jardins, mas no fim sempre voltam para aquele com as flores mais perfumadas e com as cores que mais fizeram suas asas vibrarem. E embora a minha casa seja outra, o meu jardim ainda é o mesmo. E embora a minha vida seja outra, a voz soando no toca-discos da sala me faz sentar todos os dias na mesinha em frente ao jardim e contemplar as borboletas. Me perguntando quando. Quando será que a borboleta mais bonita que pousou no meu jardim, voltará pra lembrar das cores que um dia fizeram suas asas - e seu coração - vibrar.

2 comentários:

Amanda Arrais disse...

"Alguns chamam de libertação, outros de desprendimento e alguns de coragem. Não sei dar nome, era simplesmente o que eu devia fazer."

Adorei o texto. Sou fascinada por mudanças e a favor da lei do desapego. Nada como deixar o novo chegar e guardar o velho como memória.


=*

Luiza disse...

texto lindo! e a gente segue esperando, com a esperança camuflada, a insistência pesando. não pude copiar meus trechos, mas eu adorei. o que é seu que eu não adoro? beijos

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