domingo, 21 de novembro de 2010

Balada para João e Joana.


João vai sair de casa atrasado como sempre faz. Vai olhar o relógio atrasado, praguejar ao vento por ter que acordar a essa hora da manhã e bater o portão como sempre faz. Joana vai acordar antes da hora. Arrumar o cabelo, a cama, o coração. Vai se olhar no espelho, abrir as janelas, dar bom dia ao próprio dia, desejar que seja doce. João vai jogar futebol, não prestar atenção nas aulas, ouvir um rock gritante. Joana vai pegar um livro na biblioteca, sentar na primeira fileira na aula, ouvir uma música com mais letra do que ritmo.
João é mais um menino num mundo de milhões de meninos. Joana é só mais uma menina num mundo de milhões de meninas. João usa uniforme, não penteia o cabelo, não tem muito o que o diferencie na multidão. Joana usa uniforme, tem cabelo preto e escorrido, nenhuma roupa que chame atenção numa multidão. João acha o amor coisa de novela mexicana, desacredita em finais felizes, tem medo da palavra compromisso. Joana acredita em destino, príncipes encantados, espera a todo momento por um compromisso que valha toda a espera. João teve seu coração partido uma vez e lutou pra reconstruí-lo. Joana nunca se entregou. Sempre fugiu das possibilidades. Sempre se refugiou no sonho. Joana espera por algo que se pareça com as histórias escritas nos livros, com declarações em público, despedidas num sagão de aeroporto com direito ao nome dela chamado no auto-falante. Mas um dia ela irá conhecer João.
Conversarão sobre amenidades, depois sobre afinidades e então sobre disparidades. Descobrirão que não têm nada a ver. Que João prefere o branco e Joana o preto. Que João suja a rua e Joana vira a cara quando um abusado joga o lixo no chão. Que João assiste terror e Joana suspira com os romances. E daí o que farão? Fugirão um do outro? Joana correrá para seu livro aberto em cima da cama, esperando pelo cara com os mesmos gostos? João continuará a se proteger com medo de que tantas diferenças destrocem novamente seu coração? Acredito que não. João e Joana descobrirão juntos que as diferenças somadas formam um igual. Que o amor não escolhe, ele acontece. Os dois aprenderão que é inevitável sofrer, mas que é impossível não reconstruir o coração. Aprenderão a pedir perdão, a dar lugar a preferência do outro, a ser um só. Brigarão muitas vezes, baterão telefones, rasgarão pedaços de papel. Ficarão dias sem se falar, provocarão ciúmes, usarão as diferenças como desculpa. Mas no final descobrirão que o clichê é válido: os dois se completam. E correrão, subirão nas montanhas impossíveis, abrirão mão de tanta coisa pelo outro. Esmagarão toda a dor com o amor. Esquecerão toda a mágoa com o amor. Diminuirão todas as diferenças com o amor. Joana um dia perceberá ser tão feliz quanto a personagem do seu livro favorito dizia ser. João um dia perceberá que o amor é coisa de novela mexica sim, mas também é de vida real e não coisa de outro mundo. Joana receberá sua declaração num sussuro ao pé do ouvido e descobrirá fazer mais efeito do que gritada em meio à multidão. João perceberá que não existe liberdade melhor do que estar preso à alguém. João e Joana darão conta de que o amor não é uma fórmula pronta, um cálculo matemático que um dia deu certo. Amor é uma experiência química, que pode explodir se não for regulado nas doses de sentimentos que o compõem e que pode mudar de cor todo o composto vital, transformá-lo num arco-íris de felicidade. João e Joana decidirão lutar juntos contra tudo o que aparecer. Porque João e Joana se amarão. E descobrirão que juntos são melhores, maiores e invencíveis. Porque João e Joana se descobrirão dependentes da maior droga que já existiu.
Hoje João e Joana não se conhecem. Mas amanhã, numa esquina qualquer, João enquanto corre atrasado, esbarrará em Joana e derrubará seus livros no chão. A cena que Joana viu no filme ontem a noite acontecerá com ela amanhã. Seus livros irão ao chão e ao abaixar para pegá-los junto ao garoto estranho que os derrubou, ela levantará outra pessoa. Com um sorriso que dará sentido à uma vida inteira de buscas. Com um encontro que fará valer a pena toda procura. Com um João que valerá por mil príncipes. E João com uma Joana que cuidará de todas as feridas restantes e dará ao coração motivos para acreditar no amor. A balada para João e Joana começará assim que os dois deixarem o coração vencer.

"Então eles se deram na convicção
Feitos um pro outro, mas por exclusão
Seu destino cego a lhes conduzir
Sua sorte à solta a lhes indicar um caminho
E dançavam lá em meio a tanta gente
Se encontraram ali
"
(Skank)

4 comentários:

Amanda Arrais disse...

Amei o texto, a história, a ideia.
É realmente assim, no fim das contas sempre há um João pra uma Joana e o contrário. Só é preciso ter coragem pra arriscar de novo ou mesmo pela primeira vez, mas é preciso coragem.
Lindas tuas palavras e amei o trecho final, Skank é mesmo sensacional.

=*

Adrielly Soares disse...

Adorei o texto, mais ainda porque adoro a música do skank.

Luiza disse...

Definitivamente, um pecado eu não o ter lido antes. Que incrível, que lindo. E sim, o amor ainda está ai né, escondido, no mundo e uma hora a gente se encontra, assim como o João e a Joana. Incrível a forma que você faz com que eu me sinta ao ler seus textos. Um beijo

Luciano disse...

Interessante.

Mas pra mim, na música, a história termina mal para o casal.

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