sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Alô, Alô, Realengo,

aquele abraço - e um obrigada do tamanho do amor que existe aqui.


Não é sobre pessoas em particular. Não é sobre determinado ano ou determinada turma. É sobre a instituição como um todo, desde a bandeira que balança ao vento ao cachorro que circula pelo pátio. É sobre tudo o que faz o Colégio Pedro Segundo ser a minha grande paixão e com certeza a maior recordação da minha vida. Foram três anos que mais pareceram uma vida inteira. Parecia não acabar, por alguns momentos tive a sensação de que ia ser pra sempre. Eram provas, trabalhos, pressões, que não pareciam acabar nunca. Foram amizades, sonhos, realizações e alegrias que não mereciam acabar nunca. Mas o ciclo precisa continuar. Novas pessoas precisam entrar e descobrir o sabor que tem a responsabilidade de ser daqui. E talvez seja pra elas que eu escrevo agora. Pra que saibam do valor que tem um emblema e pra que cuidem do colégio que é meio hospício e muito casa. Pra que saibam do que foi o Colégio que hoje é amarelo, enorme e bem equipado. Pra saberem que aquela sala com porta, fechadura, ar condicionado e janela, um dia foi quente, com telha, sem ventilador nem maçaneta. E que um dia uma turma lutou por um simples ventilador e mostrou que a união, de fato, faz a força. Pra que olhem praquele prédio amarelo e lembrem que um dia foi azul clarinho, azul da cor do sonho que se realizou em Realengo quando o colégio ali chegou. Pra que vejam o asfalto e imaginem pedrinhas onde se enterravam traquinas; pra que subam a rampinha e vislumbrem tudo o que existe onde um dia só existiu mato e ruínas; pra que saboreiem o macarrão sem sal que é servido e saibam que um dia centenas de alunos foram na x-copy improvisar um almoço. Pra que aproveitem cada segundo e respeitem a tradição. Pra que valorizem o tênis todo preto, a meia em seu devido lugar, o casaco sem nenhum detalhe colorido; pra que se mantenha em Realengo a ordem que faz o NOSSO colégio ser reconhecido; pra que cada Valdemir, cada Renato, cada Tio do Oclão, cada marcelo, seja sempre respeitado. Pra que suguem cada segundo de cada aula e pra que abram sempre espaço pra que os professores virem amigos. Pra que deem o devido a valor a cada décimo, a cada trabalho, a cada fagulha de salvação pra passar de ano. Pra que quando se sentirem injustiçados, saibam que um dia um terceiro ano quase inteiro, lutou sem armas e se calou pra ser ouvido, e conquistou o respeito não só à tradição, mas também ao aluno. Só quem passa por aqui sabe o que é ser daqui. Sabe o que é perder um feriado, valorizar um fim de semana, ralar pra passar de ano. De fato, que eles saibam que os anos aqui foram os mais difíceis da minha vida. Foram seguidos de urgências e intensidades. Aprendi a não ser a melhor sempre, a tirar 0,1 de cabeça erguida, a passar pela PAF e deixar de lado o orgulho. Chorei muito, sorri muito, gritei muito. Vivi extremos. Foram anos difíceis sim, mas foram os melhores também. Pra o terceiro ano que vai agora, só resta dar as mãos, levantar a cabeça, se munir de todos os escudos e todas as armas que conquistamos nesse tempo e ir - em direção à algo novo, que com certeza não se comparará ao colégio, mas que servirá para mostrarmos ao mundo que o aluno daqui é diferente. Só nos resta nos juntarmos aos milhões que existem lá fora e que carregam um emblema enorme no coração: o de ex-aluno. O tempo que passei aqui é um lugar seguro na minha memória, pra onde correrei sempre que a vida aqui fora ficar dura demais. Lembrarei do tempo em que andar na rua de uniforme era ser reconhecida. Em que acordar cinco da manhã valia a pena. Em que chegar no colégio compensava o cansaço dos três ônibus. No fim tudo vira algo bom. Tudo serve como aprendizado. Tudo vai pro quartinho quente da memória. Alô, Realengo, é seu o melhor Pedro Segundo do Brasil. É sua a honra de ter uma unidade tão valorizada e reconhecida. Todo e qualquer pré-conceitoo sumirá em breve, só restará a certeza de que as melhores turmas são formadas aqui - à base de calor humano, união e macarrão sem sal. Que os futuros saibam cuidar de você. Saibam manter a minha casa em ordem, com os seus móveis em seus devidos lugares e os emblemas com seu devido peso. Obrigada, Realengo, a menininha tímida e sem muitas perspectivas que um dia chegou aí se perguntando se era dela mesmo o nome na lista de aprovados, se despede de você agora cheia de sonhos, vontades, amizades e aprendizados. Eu te amo, Pedro Segundo, a minha vida é certamente outra por ter vivido aqui.  Me tornei não só uma aluna melhor, mas um tipo humano mais evoluído. Com mais atenção pro próximo, com mais sensibilidade, com mais certeza do que quero ser. Recebe pra sempre o meu abraço, Realengo, e me deixa morar pra sempre em você. Meu coração agora tem três estrelas, um mural enorme de fotos, um baú gigante de lembranças. Viverás pra sempre em mim, Pedro Segundo. Prometo te orgulhar, contar pro mundo o quanto tem valor ter pertencido à você, contaminar o mundo com o sorriso que só quem estuda aqui possui. Que o sol ardente continue a brilhar sobre ti. Que o vento continue levantando as saias, o calor continue escaldante, os mosquitos continuem presente. Não perca suas características, não deixe que te imponham novos costumes. Você é assim. Amarelo com coração azul, abafado, pequeno e unido. Não deixe que a grandiosidade te faça diminuir de valor. Você é assim. E é assim que eu te guardarei.

"E o Pedro II resolveu trazer para a rua sua alegria fabulosa. (...)
Mas se este povo é triste, há uma imensa, jucunda, deslumbrante exceção: – o aluno do Pedro II. Tenho um amigo meu que vive rosnando: – Nesta terra, até as cadeiras são neuróticas.  Ao que eu responderia: – Menos as cadeiras do Pedro II -. Porque, lá, os móveis também são coniventes no humor dos alunos. (...)A rigor, não são os professores que me interessam no Pedro II. Nem os seus problemas de ensino. O que me deslumbra no aluno do Pedro II não é o estudante, mas o tipo humano. Ele deve ser um mau aluno (tomara que seja), mas que natureza cálida, que apetite vital, que ferocidade dionisíaca.
Olhem para as nossas ruas. Em cada canto, há alguém conspirando contra a vida. Não o aluno do Pedro II. Há quem diga, e eu concordo, que ele é a única sanidade mental do Brasil. E, realmente, não há por lá os soturnos, os merencórios, os augustos dos anjos. Os outros brasileiros deveriam aprender a rir com os alunos do Pedro II. (...)
E devíamos subvencionar o Pedro II para inundar a cidade, diariamente, com a sua alegria total, ululante." 
(Nelson Rodrigues) 

2 comentários:

Evelyn Ceinwyn . disse...

Transformamos uma rotina de todos os dias em carinho, e eu já me vejo na mesma situação. Um lugar qual vivemos tanto tempo agora terá que ser deixado para trás, fecham-se as portas por onde entravamos e tudo fica assim: seguindo.
Sei da imensa saudade que irás sentir, da mesma forma da minha instituição sentirei.
''e essas alegrias que nas lembranças permanecem, não acabarão nunca...''

O cólégio foi realmente uma época maravilhosa, agora infelismente é com ose tudo fosse uma despedida, e Nicole sei ocmo deves sentir ai no teu peito, pois meu aperta sem limites ao pensar num tempo que terá fim.
Estva com muitas saudades d'aqui, o trabalho me consome, mas espero sempre pdoer vir te ler.
Bjs.

Ulisses Lopes disse...

Conhecemos os verdadeiros amigos ali. Brincamos, rimos, choramos, de alegria e de tristeza. Aprendemos a não ser orgulhosos, a saber também que não somos melhores que ninguém. Também te amo, Pedro Segundo *-*
Mais uma vez, texto perfeito, Nicole.

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