terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sobre o que hoje é ventila-dor.


Tudo começou meio do nada. Um dia, enquanto deveria estar dormindo, uma garotinha amontoou um monte de palavras numa folha de papel e escondeu num caderno velho. Não era uma carta, nem nada que pudesse ser endereçado à alguém, era só uma história, uma daquelas histórias que vivem na cabeça de garotinhas que sonham acordada com o tal grande amor. Não sei ao certo como surgiu a ideia, mas um dia a menina pensou em publicá-la em algum lugar, talvez pra que soubessem que dentro daquela menina tímida com o sorriso fixo no rosto, existia um mundo inteiro de sonhos e amores. E assim o fez. Transformou o texto em foto e criou um porta-retrato pra ele. E veio um elogio. E depois outro. E mais outro. E logo depois as perguntas: será que é isso o que eu sei fazer? será que inventar histórias é mesmo o meu talento e não só algo que faço enquanto o sono não vem? será que nasci assim tão tímida e secreta pra que meus dedos tivessem espaço pra falar por mim? E a menina, cheia de dúvidas e inseguranças, se achando mais incapaz do que capaz, resolveu criar um blog, um lugar onde outras meninas sonhadoras pudessem descansar os sonhos e saber que não estavam sozinhas. Então criou: uunsaid-things. Coisas nãão-ditas. Eram isso mesmo. Eram tudo o que a menina não sabia dizer, o que sentia vontade de gritar quando ainda era rouca pra esse tipo de coisa, o que enxergava no mundo e não sabia se tinha o direito de dizer. Por um momento ela pensou que fosse covardia, que as palavras fossem uma forma de se proteger do mundo, mas depois descobriu que era coragem, cara limpa na hora de falar de amor, decisão de se expor sem medo de entenderem ou não. O que era blog virou coração. O que era hobby virou necessidade. O que era só mais uma coisa, virou uma coisa enorme que a aproximou de gente de verdade, gente que sentia como ela, gente que não tinha medo de dizer que o mundo de dentro existe sim e que é maior do que o exterior. O que hoje é ventila-dor, já foi coração e alma; terra do coração; flores, amores e blábláblá - e um dia será outro e depois outro e mais outro, são fases da vida, mudanças da alma, amadurecimento quiçá. O que hoje é público já foi secreto, coisa pra quem não a conhecia; já foi desativado por medo, vergonha, arrependimento; já teve outro endereço que só serviu pra lembrar o quão sem sentido era se esconder. Depois de tudo, tudo ficou. As palavras que um dia sumiram, voltaram ao lugar, com todas as devidas pontuações. A menina, que um dia pensou escrever pra alguém, descobriu que escrevia pra si. Pra que pudesse se conhecer, colocar os pingos nos seus próprios i's, saber o que existia e deixava de existir dentro daquele coração que só conhecera amor. Descobrira que tudo era dela. Cada vírgula, cada acento, cada travessão. Tudo fora parte do que hoje ela é e nada sumiria, nada se esconderia, nada a faria se arrepender. Era composta mesmo por cada texto publicado, por cada frase respirada e duramente pontuada. Desde o início fora aquilo que escrevera, nunca soubera mentir, disfarçar, criar personagens tão distintos de si. Hoje a menina sabe da necessidade do blog, da importância de escrever, de tudo o que esse mundo criado representa pra ela. Não pretende parar, nem ao menos se ausentar temporariamente, seguirá escrevendo. Mesmo quando não souber o que dizer, mesmo quando os nós estiverem prendendo as palavras, mesmo quando a felicidade for intraduzível. Mudará sim, de nome, características, estilos até, mas nunca de endereço. Estará sempre aqui com suas palavras nãão-ditas. Perdida num mundo que criou e de onde não consegue mais sair. Cercada de gente que diz, num comentário ou no silêncio, através das visitas, das procuras, do digitar o www no navegador, que nem tudo o que está aqui é material ruim, que alguma coisa sempre se aproveita e que o coração sempre fala melhor do que qualquer um. É a essa gente que a menina agradece. Porque tantas vezes pensou em desistir e em todas elas a impediram. Vocês, minha gente, são incríveis. Não desistam dessa menina que, mesmo sem saber nada sobre a vida, arrisca umas jogadas vezenquando e acaba acertando; que não sabe nada sobre o amor, mas que consegue falar o que tanta gente sente com ele. Me encontrem aqui e aí em seus respectivos blogs. Nem sempre comento, porque nem sempre sei o que dizer, mas sempre, sempre mesmo, confiro os textos, leio os antigos, sublinho frases importantes na minha mente. São mais de duzentos seguidores que eu consegui não sei como, são 9.000 visitas que vocês fizeram sei lá por quê, mas é tudo isso que me faz ter orgulho do que vou me tornando dia após dia. Obrigada por aturarem meu drama, meus questionamentos, minhas crises - de tristeza e de alegria. Continuem sempre, voltem todas as vezes possíveis, tudo isso aqui é meu, mas é também de vocês. Obrigada, obrigada, obrigada. É clichê dizer, mas é verdadeiro também, meu coração não aguenta ver todas essas visitas, todas essas procuras, todos esses comentários tão cuidadosamente escritos, fico imensamente feliz ao encontrá-los por aqui. Tudo porquê aquela garotinha que começou isso aqui hoje sou eu. E nós nunca imaginamos que o futuro faria isso. Que meus dedos teriam essa força. Que o meu coração tivesse tanto a falar e fosse capaz de alcançar tantos outros por aí.
Obrigada.
A palavra é a nossa arma.
E sempre que precisarem de reforço, me gritem.


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Oi, gente, bom, talvez esse texto seja um recomeço, porque eu estive bem afastada do blog, deixei de aparecer em outros, apareci pra postar e pronto. Não gosto disso e acho incorreto com vocês que sempre são super legais comigo, por isso me perdoem. Então, em agosto o blog fez 1 ano e eu planejei algumas coisas que não puderam ser feitas devido à minha falta de tempo e ao vestibular, portanto, agora nas férias, tentarei pôr o plano em prática, postarei todos os selos que vocês me dão de presente, indicarei todos os que de alguma forma são importantes pra mim. Perdoem minha ausência e esperem uma Nicole mais presente e mais dedicada à isso aqui. Obrigada por tudo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A menina e o amor.


Queria escrever mas nada saía. As palavras não obedeciam aos comandos e o coração continuava pesado com tudo o que sentia sozinho. Queria gritar mas estava rouca. Havia gritado amores e paixões aos quatro ventos e agora a voz não mais existia. Havia tentado amar de um jeito certo e acabara sobrando no final: com um adeus nunca dito, um amor nunca acabado e uma sede nunca saciada. A menina tinha sede de amor. Não conseguia entender como seu coração era capaz de desejar tanto algo que o dilacerava. Tentara esquecer. Tentara não pensar. Tentara fazer de conta que não sentia. Mas o amor não a deixava. Em todas as estradas, o amor parecia ser o local para onde ela sempre era conduzida. Em todas as paradas, todos os estágios, no frio da montanha ou no calor de uma praia: era o amor que sempre a encontrava. Quando chorava ou sorria, o amor. Quando escrevia, gritava, cantava, o amor. Nascera pra ele, a diziam. Era uma menina com um amor que não a largava. Um amor talvez não mais correspondido, mas crescente de forma louca, desobediente e avassaladora. Um amor agora já sem sentido, quase uma lembrança perdida num bilhete de gaveta pra uns, mas um anúncio enorme num outdoor para ela. Todos os dias lembrava dele. Todos os dias ansiava por ele. Todos os dias sonhava com ele. Com o amor e com ele. Com o dia em que o amor e ele se fundiram e vieram como um foguete invadir o país coração dela. Se agarrava a esperanças, incentivava todas as pequenas fagulhas de esperança que vez ou outra ameaçavam apagar. Se agarrava a palavras, construía pontes, portos e abrigos com elas. Se perdia em pensamentos, desejava que o amor fosse nele tão irresponsável quanto nela e que fizesse nascer impulsos que o levassem a largar tudo e saltar os abismos pra chegar até aqui. Até a esquina em que ela e o amor se escondem do mundo. A menina apenas espera. Com os braços abertos que vezenquando ameaçam doer, mas que ainda encontram paredes concretas onde podem se apoiar. A menina com o amor já sofreu demais, já chorou todo choro do mundo, já desejou ser imune à ele. Mas ela aprendeu que ele é maior. E que sempre vence. Ainda que demore, ainda que fique sufocado com tanta pedra, o amor vence. Ela o deixaria vencer enquanto vivesse. Enquanto respirasse, respiraria amor. Enquanto dançasse, dançaria amor. Enquanto escrevesse, sentisse e vivesse, seria amor, amor, amor.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Des(encontro)


Viajei no tempo essa noite. Não sei se sonhei ou se realmente estive lá. Não consigo definir. Mas fui até o futuro, até o lugar que tanto me assusta hoje. Era um noite quente, no céu imperava uma lua cheia, o mar calmo ia e vinha com pequenas ondas. Estávamos nós dois na praia, ninguém mais passava, éramos nós e a natureza, nós e nossos pensamentos, nós e eu ali parada observando. A praia era só nossa, entretanto estávamos um em cada ponta, não nos sabíamos ali. Eu pensava estar sozinha com a minha solidão e você com a sua. Os dois sentados na areia, de frente pro mar. E isso era tudo o que eu podia ver. Não conseguia ver nossos rostos, não sabia se sorríamos ou chorávamos. Talvez estivéssemos fugindo da agitação da nossa vida, talvez buscando respostas. Talvez esperássemos alguém pra nos encontrar e carregar a nossa solidão no colo, talvez nossa única esperança de companhia fosse a própria solidão. Não conseguia saber se estávamos felizes, se nossas vidas estavam no rumo certo, se acabamos nos tornando o que tanto sonhamos. Imaginei quando teria sido a última vez que nos vimos ou a última vez em que pronunciamos algumas palavras; imaginei se você ainda lembrava de mim, ou se eu era apenas mais uma lembrança de fundo de gaveta, guardada junto com alguns papéis amarelados pelo tempo. Imaginei se eu ainda pensava em você, se ainda esperava que em algum momento o telefone tocasse e fosse sua a voz do outro lado ou se eu havia sido convidada por outra voz. E minhas palavras? o que teria acontecido com elas? talvez eu estivesse ali para entregá-las ao mar, com esperança de que chegassem até você ou com a intenção de  que fugissem de mim. Talvez estivéssemos pensando um no outro, você lembrando de quando eu disse que te amava pela primeira vez e eu lembrando de quando você disse que eu era a melhor coisa que havia acontecido na sua vida. Talvez estivéssemos sufocados em nossa nova vida e tenhamos ido ali com o propósito de relembrar os nossos tempos. Mas talvez pra esquecer. Queria ver se você sorria, mas o seu rosto não virava. Daí me ocorreu que fomos por tanto tempo mestres na arte de esconder a dor, que um sorriso seu em meio à solidão da noite poderia significar resistência e não felicidade. Eu também não via meu rosto, mas me escutava sussurrar baixinho, talvez uma poesia ou um texto sobre mar, lua e solidão. De repente, juntos, cada um em sua ponta da praia, erguemos a cabeça e admiramos a lua. Imaginei em quem pensávamos, pra quem compunhamos versos e canções, pra quem dedicávamos aquele momento de luz em meio à escuridão. Mas não soube. Nos levantamos e fomos em direção um ao outro. E eu fui embora sem saber. Não soube se estávamos ali porque havíamos marcado e o nosso tempo a sós foi apenas pra colocar as ideias em ordem e sabermos o que dizer ou se passamos direto um pelo outro com aquela ligeira sensação de já ter visto aquele rosto em algum lugar. Fui embora sem saber. Deixei pro vento, pro mar e pra lua, a missão de me contarem depois. Quando eu chegasse ali, eu descobriria. Não agora. Agora eu viveria o hoje. O amanhã continuaria sendo o daqui a pouco. E do daqui a pouco eu cuido depois. O presente me espera. E é dele que eu vou cuidar. O amanhã depende do hoje, e o futuro é a gente quem constrói.

domingo, 21 de novembro de 2010

Balada para João e Joana.


João vai sair de casa atrasado como sempre faz. Vai olhar o relógio atrasado, praguejar ao vento por ter que acordar a essa hora da manhã e bater o portão como sempre faz. Joana vai acordar antes da hora. Arrumar o cabelo, a cama, o coração. Vai se olhar no espelho, abrir as janelas, dar bom dia ao próprio dia, desejar que seja doce. João vai jogar futebol, não prestar atenção nas aulas, ouvir um rock gritante. Joana vai pegar um livro na biblioteca, sentar na primeira fileira na aula, ouvir uma música com mais letra do que ritmo.
João é mais um menino num mundo de milhões de meninos. Joana é só mais uma menina num mundo de milhões de meninas. João usa uniforme, não penteia o cabelo, não tem muito o que o diferencie na multidão. Joana usa uniforme, tem cabelo preto e escorrido, nenhuma roupa que chame atenção numa multidão. João acha o amor coisa de novela mexicana, desacredita em finais felizes, tem medo da palavra compromisso. Joana acredita em destino, príncipes encantados, espera a todo momento por um compromisso que valha toda a espera. João teve seu coração partido uma vez e lutou pra reconstruí-lo. Joana nunca se entregou. Sempre fugiu das possibilidades. Sempre se refugiou no sonho. Joana espera por algo que se pareça com as histórias escritas nos livros, com declarações em público, despedidas num sagão de aeroporto com direito ao nome dela chamado no auto-falante. Mas um dia ela irá conhecer João.
Conversarão sobre amenidades, depois sobre afinidades e então sobre disparidades. Descobrirão que não têm nada a ver. Que João prefere o branco e Joana o preto. Que João suja a rua e Joana vira a cara quando um abusado joga o lixo no chão. Que João assiste terror e Joana suspira com os romances. E daí o que farão? Fugirão um do outro? Joana correrá para seu livro aberto em cima da cama, esperando pelo cara com os mesmos gostos? João continuará a se proteger com medo de que tantas diferenças destrocem novamente seu coração? Acredito que não. João e Joana descobrirão juntos que as diferenças somadas formam um igual. Que o amor não escolhe, ele acontece. Os dois aprenderão que é inevitável sofrer, mas que é impossível não reconstruir o coração. Aprenderão a pedir perdão, a dar lugar a preferência do outro, a ser um só. Brigarão muitas vezes, baterão telefones, rasgarão pedaços de papel. Ficarão dias sem se falar, provocarão ciúmes, usarão as diferenças como desculpa. Mas no final descobrirão que o clichê é válido: os dois se completam. E correrão, subirão nas montanhas impossíveis, abrirão mão de tanta coisa pelo outro. Esmagarão toda a dor com o amor. Esquecerão toda a mágoa com o amor. Diminuirão todas as diferenças com o amor. Joana um dia perceberá ser tão feliz quanto a personagem do seu livro favorito dizia ser. João um dia perceberá que o amor é coisa de novela mexica sim, mas também é de vida real e não coisa de outro mundo. Joana receberá sua declaração num sussuro ao pé do ouvido e descobrirá fazer mais efeito do que gritada em meio à multidão. João perceberá que não existe liberdade melhor do que estar preso à alguém. João e Joana darão conta de que o amor não é uma fórmula pronta, um cálculo matemático que um dia deu certo. Amor é uma experiência química, que pode explodir se não for regulado nas doses de sentimentos que o compõem e que pode mudar de cor todo o composto vital, transformá-lo num arco-íris de felicidade. João e Joana decidirão lutar juntos contra tudo o que aparecer. Porque João e Joana se amarão. E descobrirão que juntos são melhores, maiores e invencíveis. Porque João e Joana se descobrirão dependentes da maior droga que já existiu.
Hoje João e Joana não se conhecem. Mas amanhã, numa esquina qualquer, João enquanto corre atrasado, esbarrará em Joana e derrubará seus livros no chão. A cena que Joana viu no filme ontem a noite acontecerá com ela amanhã. Seus livros irão ao chão e ao abaixar para pegá-los junto ao garoto estranho que os derrubou, ela levantará outra pessoa. Com um sorriso que dará sentido à uma vida inteira de buscas. Com um encontro que fará valer a pena toda procura. Com um João que valerá por mil príncipes. E João com uma Joana que cuidará de todas as feridas restantes e dará ao coração motivos para acreditar no amor. A balada para João e Joana começará assim que os dois deixarem o coração vencer.

"Então eles se deram na convicção
Feitos um pro outro, mas por exclusão
Seu destino cego a lhes conduzir
Sua sorte à solta a lhes indicar um caminho
E dançavam lá em meio a tanta gente
Se encontraram ali
"
(Skank)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Alô, Alô, Realengo,

aquele abraço - e um obrigada do tamanho do amor que existe aqui.


Não é sobre pessoas em particular. Não é sobre determinado ano ou determinada turma. É sobre a instituição como um todo, desde a bandeira que balança ao vento ao cachorro que circula pelo pátio. É sobre tudo o que faz o Colégio Pedro Segundo ser a minha grande paixão e com certeza a maior recordação da minha vida. Foram três anos que mais pareceram uma vida inteira. Parecia não acabar, por alguns momentos tive a sensação de que ia ser pra sempre. Eram provas, trabalhos, pressões, que não pareciam acabar nunca. Foram amizades, sonhos, realizações e alegrias que não mereciam acabar nunca. Mas o ciclo precisa continuar. Novas pessoas precisam entrar e descobrir o sabor que tem a responsabilidade de ser daqui. E talvez seja pra elas que eu escrevo agora. Pra que saibam do valor que tem um emblema e pra que cuidem do colégio que é meio hospício e muito casa. Pra que saibam do que foi o Colégio que hoje é amarelo, enorme e bem equipado. Pra saberem que aquela sala com porta, fechadura, ar condicionado e janela, um dia foi quente, com telha, sem ventilador nem maçaneta. E que um dia uma turma lutou por um simples ventilador e mostrou que a união, de fato, faz a força. Pra que olhem praquele prédio amarelo e lembrem que um dia foi azul clarinho, azul da cor do sonho que se realizou em Realengo quando o colégio ali chegou. Pra que vejam o asfalto e imaginem pedrinhas onde se enterravam traquinas; pra que subam a rampinha e vislumbrem tudo o que existe onde um dia só existiu mato e ruínas; pra que saboreiem o macarrão sem sal que é servido e saibam que um dia centenas de alunos foram na x-copy improvisar um almoço. Pra que aproveitem cada segundo e respeitem a tradição. Pra que valorizem o tênis todo preto, a meia em seu devido lugar, o casaco sem nenhum detalhe colorido; pra que se mantenha em Realengo a ordem que faz o NOSSO colégio ser reconhecido; pra que cada Valdemir, cada Renato, cada Tio do Oclão, cada marcelo, seja sempre respeitado. Pra que suguem cada segundo de cada aula e pra que abram sempre espaço pra que os professores virem amigos. Pra que deem o devido a valor a cada décimo, a cada trabalho, a cada fagulha de salvação pra passar de ano. Pra que quando se sentirem injustiçados, saibam que um dia um terceiro ano quase inteiro, lutou sem armas e se calou pra ser ouvido, e conquistou o respeito não só à tradição, mas também ao aluno. Só quem passa por aqui sabe o que é ser daqui. Sabe o que é perder um feriado, valorizar um fim de semana, ralar pra passar de ano. De fato, que eles saibam que os anos aqui foram os mais difíceis da minha vida. Foram seguidos de urgências e intensidades. Aprendi a não ser a melhor sempre, a tirar 0,1 de cabeça erguida, a passar pela PAF e deixar de lado o orgulho. Chorei muito, sorri muito, gritei muito. Vivi extremos. Foram anos difíceis sim, mas foram os melhores também. Pra o terceiro ano que vai agora, só resta dar as mãos, levantar a cabeça, se munir de todos os escudos e todas as armas que conquistamos nesse tempo e ir - em direção à algo novo, que com certeza não se comparará ao colégio, mas que servirá para mostrarmos ao mundo que o aluno daqui é diferente. Só nos resta nos juntarmos aos milhões que existem lá fora e que carregam um emblema enorme no coração: o de ex-aluno. O tempo que passei aqui é um lugar seguro na minha memória, pra onde correrei sempre que a vida aqui fora ficar dura demais. Lembrarei do tempo em que andar na rua de uniforme era ser reconhecida. Em que acordar cinco da manhã valia a pena. Em que chegar no colégio compensava o cansaço dos três ônibus. No fim tudo vira algo bom. Tudo serve como aprendizado. Tudo vai pro quartinho quente da memória. Alô, Realengo, é seu o melhor Pedro Segundo do Brasil. É sua a honra de ter uma unidade tão valorizada e reconhecida. Todo e qualquer pré-conceitoo sumirá em breve, só restará a certeza de que as melhores turmas são formadas aqui - à base de calor humano, união e macarrão sem sal. Que os futuros saibam cuidar de você. Saibam manter a minha casa em ordem, com os seus móveis em seus devidos lugares e os emblemas com seu devido peso. Obrigada, Realengo, a menininha tímida e sem muitas perspectivas que um dia chegou aí se perguntando se era dela mesmo o nome na lista de aprovados, se despede de você agora cheia de sonhos, vontades, amizades e aprendizados. Eu te amo, Pedro Segundo, a minha vida é certamente outra por ter vivido aqui.  Me tornei não só uma aluna melhor, mas um tipo humano mais evoluído. Com mais atenção pro próximo, com mais sensibilidade, com mais certeza do que quero ser. Recebe pra sempre o meu abraço, Realengo, e me deixa morar pra sempre em você. Meu coração agora tem três estrelas, um mural enorme de fotos, um baú gigante de lembranças. Viverás pra sempre em mim, Pedro Segundo. Prometo te orgulhar, contar pro mundo o quanto tem valor ter pertencido à você, contaminar o mundo com o sorriso que só quem estuda aqui possui. Que o sol ardente continue a brilhar sobre ti. Que o vento continue levantando as saias, o calor continue escaldante, os mosquitos continuem presente. Não perca suas características, não deixe que te imponham novos costumes. Você é assim. Amarelo com coração azul, abafado, pequeno e unido. Não deixe que a grandiosidade te faça diminuir de valor. Você é assim. E é assim que eu te guardarei.

"E o Pedro II resolveu trazer para a rua sua alegria fabulosa. (...)
Mas se este povo é triste, há uma imensa, jucunda, deslumbrante exceção: – o aluno do Pedro II. Tenho um amigo meu que vive rosnando: – Nesta terra, até as cadeiras são neuróticas.  Ao que eu responderia: – Menos as cadeiras do Pedro II -. Porque, lá, os móveis também são coniventes no humor dos alunos. (...)A rigor, não são os professores que me interessam no Pedro II. Nem os seus problemas de ensino. O que me deslumbra no aluno do Pedro II não é o estudante, mas o tipo humano. Ele deve ser um mau aluno (tomara que seja), mas que natureza cálida, que apetite vital, que ferocidade dionisíaca.
Olhem para as nossas ruas. Em cada canto, há alguém conspirando contra a vida. Não o aluno do Pedro II. Há quem diga, e eu concordo, que ele é a única sanidade mental do Brasil. E, realmente, não há por lá os soturnos, os merencórios, os augustos dos anjos. Os outros brasileiros deveriam aprender a rir com os alunos do Pedro II. (...)
E devíamos subvencionar o Pedro II para inundar a cidade, diariamente, com a sua alegria total, ululante." 
(Nelson Rodrigues) 

domingo, 14 de novembro de 2010

Divagações de uma manhã de domingo.


Ando sentindo coisas que não sei bem o que são. Há algum tempo vivia presa num abismo, mas me tiraram de lá pouco a pouco. Me livrei das lágrimas que pareciam não ter fim e descobri um sorriso enorme vindo de dentro de mim, do lugar onde eu sabia existir algo além de tudo. Quando tudo o que eu enxergava era o fim, uma tímida luz de (re)começo passou a atravessar a minha janela. Convivo agora com uma esperança disfarçada - pelo novo, pelo velho, por algo que eu sei que sempre vem. Há algum tempo perdi o caminho num labirinto que eu mesma criei. Fui tecendo uma teia enorme de palavras que não vieram nunca, de sorrisos que mais pareciam faróis, de sinais que só eu e a minha cabeça enxergaram, e me perdi. Não sabia mais onde estava, não sabia encontrar a saída, não sabia quando aquilo tudo ia acabar. Na verdade ainda não sei. Mas aprendi a conviver comigo. A abrir caminho sob as teias e dar espaço para o sol entrar. Ando bem, muito eu-comigo, muito eu-e-o-que-eu-sinto, muito eu-e-o-que-eu-espero. Me tornei minha melhor amiga e descobri que eu de repente não era mais o eu que tanta gente conhecia. Me livrei de marcas, abandonei vícios e manias que me privavam de certas alegrias, eliminei de mim a intensa preocupação de que aprovassem ou não o que eu fazia. Sigo meu coração e minhas crenças. Abandono a intervenção externa. Vezenquando quebro a cara, descubro que nem tudo o que parece é, que o outro tem o direito de não sentir. Ainda me perco nas tentativas vãs de decifrar um coração que não é o meu. Um coração que vive no silêncio a me dizer que a minha ausência dói. Um coração que parece tentar construir pontes e pequenos portos que façam o amor sobreviver. Repito pra mim todos os dias que é idiotice enxergar sozinha luzes num escuro enlouquecedor, palavras saindo de um olhar que só esteve ali porque era o caminho mais óbvio a se fazer. Mas não paro nunca. Construo castelos de areia, escrevo aos quatro ventos, deixo claro como tudo o que sinto. Descobri que sou forte. Que aguento todos os murros que a vida dá, que caio sim e choro à beça, mas meu sorriso sempre vence e minhas pernas fracas sempre encontram onde se apoiar. Resolveram se apoiar no concreto do que um dia existiu: um sentimento que perdura até hoje e que um dia me fez cantar até ficar rouca. Um sentimento bonito, que arrancou palavras doces e infinitas de mim. Que me ensinou que só me proteger é bobagem, que o amor não se importa com convenções. Um sentimento que ainda faz cada pedacinho que restou do meu coração vibrar no tom da tua voz. Um sentimento que me doeu muito um dia, mas que é agora uma recordação bonita, um passado bem presente desejando ser futuro. Sentimento esse que ameaça ir embora, mas que volta feito enchente e me encharca de vontade de vivê-lo novamente. Tenho esperanças em conserva, mas deixo agora o tempo dizer. Não busco mais, não exijo a urgência que minhas palavras exigem. Aprendi que quando se trata de sentimento não dá pra prever. Não dá pra dizer vou embora e ir, não dá pra exigir metricidade, decisões prontas. Deixo ser. Danço conforme a música que você faz soar quando me procura, quando se cala, quando deixa o coração vencer ou quando o sufoca no peito. Mas canto o meu amor e não calo enquanto ele existir. Deixo nas suas mãos a decisão de ouví-lo ou não. Porque sei que se você não ouvir, a vida se encarregará de afinar outro coração ao som do meu amor.

"Your actions write the melodies
To the songs that we sing
And I finally found that life goes on without you
And my world still turns when you're not around"
(Anberlin)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sobre casas, flores e borboletas.


Hoje quando acordei descobri que estava pronta para abrir as janelas. Não sei como a gente sabe que é a hora, mas eu de repente senti que era hora de deixar o sol entrar. E ele entrou. Correu para iluminar todos os cantinhos escuros da casa que estava fria e sombria. As janelas abertas fizeram com o que vento corresse pelos corredores e visitasse todos os cômodos escondidos, varrendo pra longe toda a poeira sobre os sentimentos. Decidi limpar os tapetes, tirar debaixo deles todos farelos escondidos ali no tempo em que lembrar era doer. Limpei, não de forma rápida nem indolor, as marcas de lama que ficaram no chão quando você foi embora, passei um pano na porta marcada pela sujeira que causei quando a tranquei. Perfumei todos os ares, aparei a grama, reguei as flores do jardim que haviam esquecido de crescer. Desci as escadas e o ar me encontrou de forma violenta, acabou sacudindo também de mim toda a poeira. Alguns chamam de libertação, outros de desprendimento e alguns de coragem. Não sei dar nome, era simplesmente o que eu devia fazer. Não dava mais pra me trancar num mundo escuro e me privar da luz exterior. Nem dos perfumes, das flores e dos sons. A minha casa agora é outra, mas ainda existe no mesmo endereço. Os muros foram pintados, alguns móveis trocados de lugar, outros diretamente pro lixo. Algumas coisas ainda são as mesmas, não nego. O seu sorriso continua na estante, a sua voz ainda é a música mais tocada no toca-discos da sala de estar, a sua parte do guarda-roupa continua reservada. Não sei do que chamo. Talvez esperança, talvez insistência, talvez suicídio. Depois descubro. Agora não tenho tempo. Tenho uma casa pra cuidar, visitas pra receber, fotos novas pra colocar no mural. Meu jardim precisa de mim. Novas espécies de flor precisam ser plantadas e cuidadas com atenção. Ervas daninhas precisam sumir de uma vez do meu jardim da vida. As minhas gavetas precisam ser examinadas e tirado de lá tudo o que não combinar com a minha casa tão nova. As roupas velhas precisam ir pra outro guarda-roupa onde supram a necessidade de calor de outra vida. Não sei definir. Mudança é pouco. É algo maior. Que suplica por descobertas e liberdade. É algo maior que precisa do novo pra sobreviver. Definiria como vida porque acredito que chega um ponto em que continuar o mesmo é impossível. E hoje ao abrir as janelas, corri pra me olhar no espelho pra perceber que já não era a mesma. Não é questão de abandonar o passado, é sobre não sufocar com ele. É sobre prosseguir e encontrar nas flores e no sol motivos inteiros pra sorrir. É sobre ter uma cadeirinha num jardim e poder se sentar sozinha e feliz. É sobre poder contemplar a vida sem medo. É sobre olhar pra fora do portão e saber que existe um mundo inteiro a minha espera. É sobre ficar olhando as borboletas sobre as flores do jardim e pensando quantos jardins elas ainda vão conhecer. Há quem diga que borboletas voam por vários jardins, mas no fim sempre voltam para aquele com as flores mais perfumadas e com as cores que mais fizeram suas asas vibrarem. E embora a minha casa seja outra, o meu jardim ainda é o mesmo. E embora a minha vida seja outra, a voz soando no toca-discos da sala me faz sentar todos os dias na mesinha em frente ao jardim e contemplar as borboletas. Me perguntando quando. Quando será que a borboleta mais bonita que pousou no meu jardim, voltará pra lembrar das cores que um dia fizeram suas asas - e seu coração - vibrar.

domingo, 7 de novembro de 2010

Ela precisa saber.


Não sei se dará certo. Não sei se voltarei com um coração quebrado nas mãos ou com o peito livre da dor que sinto agora. Não sei o que vai ser. Mas hoje quando acordei eu decidi não deixar passar mais nenhum dia. Eu preciso que ela saiba. Não quero que as cortinas do tempo fechem sem que ela assista ao show de expressão que acontece dentro de mim quando ela chega. Não posso mais sufocar tudo o que sinto. Não quero mais viver de suposições. Preciso me expor. Nem que seja pela última vez e doa mais do que esperado. Preciso dizer. Ela precisa saber. Baterei na porta. Farei todos os telefones tocarem. Escreverei no céu. Publicarei mensagens nos outdoors. Encherei sua caixa de e-mail. Eu preciso que ela saiba. E não desistirei até contar. Se for loucura, serei mesmo um louco. Se for suicídio, morro dizendo. Não importa o que apareça no caminho. Eu a farei saber. Emendarei feriados, cancelarei compromissos, escalarei os montes.Só não posso mais viver assim. Não tenho mais lápis pra colorir o meu mundo, preciso que ela me empreste suas cores. Minhas palavras estão presas e com medo de sair, preciso que ela as liberte novamente. Eu descobri que o meu coração não aguenta a mistura de sentimentos que sinto com ela mas que ele aguenta muito menos todos esses segundos eternos sem saber o que fazer com todo o sentimento que restou. Fomos embora um do outro, mas o sentimento ficou. E eu preciso que ela saiba. Preciso contá-la sobre como o mundo perdeu a forma quando ela foi. Sobre como eu a descobri maior em mim do que eu imaginava. Sobre todos os sorrisos que fingi e sobre todas as cenas que criei pra provocá-la. Ela precisa saber. Sobre as noites que perdi tentando esquecê-la. Sobre os dias em que fechei os olhos e a desejei comigo. Sobre todos os planos que armei e não cumpri por medo de afastá-la ainda mais. Sobre as vezes em que fugi do seu campo de visão pra não demonstrar a fraqueza que sentia por não poder tocá-la. Preciso dizer que foram dela todos os meus pensamentos ao amanhecer e todos os meus sonhos ao adormecer. Ela precisa saber que existe em todos os pedaços de mim. Na música que toco, nos sons que ouço, nos retratos que tiro. Ela precisa saber de tudo. Não medirei palavras, colocarei pra fora tudo o que sou. Deixarei meu orgulho no bolso, esconderei minha vergonha, a encararei como nunca fiz. Gritarei que tenho medo de perdê-la pra sempre. Que todos os dias desejo que ela permaneça inteira e não vá se perdendo de mim aos pouquinhos, até que só reste o farelo de um amor um dia tão grande. Que a todo momento desejo que todos sumam do caminho e que o caminho seja enfim livre pra nós dois trilharmos juntos. Que sinto saudade da sensação de mundo parando quando ela dizia no meu ouvido que me amava. Que no meu peito ficou o espaço marcado da cabeça dela que sempre deitava ali. Contarei sobre os dias em que me segurei nas suas palavras pra não desabar. Sobre os sonhos, os planos, os perdões. Ela precisa saber. Que eu a amo mais do que tudo nesse universo que ainda restou. Que a ausência dela preenche todos os espaços de mim. Que o meu abraço enorme só faz sentido se ela estiver ali. Que eu volto. Eu a farei saber. Não perderei mais tempo. Não esperarei o fim, o início, a virada do ano ou a mudança da estação. O tempo certo é o presente. Ela precisa saber. Que sem ela eu não posso mais viver. Que sou metade sim. E que só com ela me basto.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Descobri nas Estrelas.


Eu encontrei estrelas quando só procurava amigos. Encontrei amizade verdadeira quando ela parecia em extinção. Quando quis esconder minha fraqueza por medo de encontrar dedos apontados pra mim, descobri que podia chorar e encontrei braços estendidos pra me socorrer. Pra contar uma piada sobre qualquer lente divergente, pra me fazer cócegas, pra lembrar que estrelas juntas brilham sempre mais. Encontrei motivação quando pensei em desistir. Quando me senti inútil e substituível encontrei gente que me olhou no olho e disse que me amava. Quando meu céu escureceu, encontrei gente que pegou um giz e desenhou um sol do tamanho do mundo. Quando me achei incapaz, recebi elogio por algum conjunto de palavras bem colocadas, um pedido pra ensinar história ou literatura, uma chamada à minha pseudo-criatividade. Quando quis ficar sozinha com a minha dor, encontrei gente que se preocupou comigo e veio me livrar de morrer sufocada com pensamentos. Tão acostumada a negar quem eu era, eu tentei com vocês, fingi que dentro de mim não havia esse mundo inteiro de sonhos, escondi enquanto pude a minha parte que chorava, se decepcionava e tinha medo do futuro. Fugi enquanto pude, mas vocês me encontraram. Quando pensei que minhas histórias não fossem interessantes, encontrei ouvidos abertos a tudo o que eu tivesse a dizer. Pra vocês eu me mostrei sem medo. E contei sobre os meus medos, meus sonhos, meus defeitos. Por vocês eu virei o mundo. Eu me vesti de palhaça mesmo quando estava em luto. Eu plantei bananeira, tirei piada de qualquer fundo de baú, deixei sorrisos fixos no rosto. Muitas vezes larguei a minha dor e fui cuidar da de vocês. De um coração partido, de uma nota baixa, de alguém sufocado com todas as pressões. Ouvi calada mesmo quando era eu quem precisava falar. Errei muito, eu sei. Peguei pesado na piada, tirei molecas vezes demais de um pé, deixei de ver quando alguém precisou de mim, disse verdades sem pensar. Mas tenham sempre certeza de que tudo o que eu fiz foi tentando acertar, foi desejando manter sempre o nosso brilho aceso, foi querendo deixar claro que o meu planeta terra girava em torno das estrelas. Porque eu descobri que a constelação que estava no meu céu era um presente enorme de Deus. Que ele sabia que os anos seriam difíceis e que eu precisaria de força, sorrisos e abraços fortes. Quando imaginei um mundo sem vocês, o imaginei escuro e sombrio. Quando tentei pisar lá fora sem vocês, senti frio e saudade. Quando estive longe, os desenhei pra sentí-los por perto. Quando senti falta de um irmão e precisei de alguém pra xingar e dividir minhas trouxices, encontrei um Felipe. Quando quis uma melhor amiga pra dividir uma vida inteira comigo, encontrei uma Camilla. Quando precisei de alguém com quem implicar, encontrei uma Marcelly. Quando pensei em alguém com quem pudesse falar sobre amores e sonhos e sobre todo um mundo interior, encontrei uma Juliana. Quando precisei de alguém pra cuidar de mim, encontrei uma Rowena. Quando precisei de um amigo gordo e sem graça, encontrei um Igor. Quando precisei de cócegas e flauta doce, encontrei um Marcos. Quando precisei da minha única amiga loira pra dividir os meus livros, encontrei uma Gabriela. Quando precisei de alguém que fosse pelo menos um pouquinho parecida comigo nesse mundo de amigos tão diferentes, encontrei uma Laura. Todos vocês, a todo momento, são importantíssimos pra mim. Todas as nossas enormes aventuras ficarão pra sempre guardadinhas junto com o amor enorme que eu encontrei nas estrelas. Lembrarei sempre de vocês como na foto ali em cima: quando o futuro parecia tão distante e nada parecia tão certo quanto fazer de conta que ele não viria. Podem me chamar de louca, sonhadora ou qualquer outra coisa, mas eu acredito na gente pra sempre. Consigo olhar pro futuro e ver meus padrinhos e madrinhas de casamento. Vejo todos nós com nossas respectivas famílias num jardim enorme e florido de crianças, lembrando de quando nós éramos como elas. Vejo meu filho mordendo o do felipe e ensinando o da Camilla a deixar de ser nerd. Vejo todas as meninas saindo por aí sem compromisso pra falar sobre quando o futuro era um bicho de sete cabeças. Acredito em coisas eternas. Acredito que mesmo que se passem anos sem nos encontrarmos, quando nos virmos nos reconheceremos como se não tivesse havido distância nem tempo. Nunca soube de uma estrela que apagou com o tempo. Ouvimos sempre sobre aquelas que nem sempre podem ser vistas, mas que sempre estão lá. E eu tenho certeza de que mesmo que não os veja todos os dias, não os dê um abraço ou um bom dia, vocês estarão pra sempre no meu céu. E a minha pequena estrelinha, mesmo com sua luz tão tímida, estará sempre se esforçando ao máximo pra ajudá-los a iluminar um caminho que tantas vezes é escuro demais. Me liguem, mandem cartas, telegramas, e-mails, tudo o que a tecnologia oferecer, que eu prometo parar tudo pra encontrar vocês. Não esqueçam que eu sou chata e que se vocês demorarem muito eu vou sempre marcar um super encontro estrelar, pra gente relembrar os velhos tempos, assistir um filme não tão bom assim, cantar que é isso o que você ganha quando deixa o seu coração vencer. Um dia eu o deixei vencer e ganhei vocês. E agradeço todos os dias, sempre quando agradeço pelo alimento que tem na minha mesa ou pelo ar que me foi permitido respirar. Coloco sempre vocês junto com as coisas sem as quais não posso sobreviver. Sem o brilho de vocês eu sou só um pontinho num céu imenso. Com vocês ganho força, motivos enormes pra sorrir, histórias incríveis pra contar. Somos prova de um milagre que nos colocou no mesmo turno e fez durar nossa amizade. Seremos prova de mais um: mostraremos ao mundo que o pra sempre não é coisa de outro planeta. Ele é real. E quando todos os meus pra sempres acabaram, eu olhei pra vocês e descobri que existem aqueles que vêm pra ficar.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Retrato pra Iaiá.

"Iaiá, se eu peco é na vontade
de ter um amor de verdade."
(Los Hermanos)


Iaiá, eu queria tanto te dizer coisas como vai passar, daqui a pouco tudo se ajeita, o tempo é o remédio pra tudo.Todas aquelas coisas que as pessoas dizem quando não sabem o que dizer pra consolar alguém, eu te diria todas elas, se eu ao menos tivesse certeza do que falo. Não sei, Iaiá, e essa é só uma das coisas que não tenho conseguido entender e tornar uma verdade na minha vida. Não tenho conseguido entender tantos detalhes, tanta distância sem sentido, tanto amor calado, tanto silêncio apodrecendo palavras tão bonitas. São tantas coisas que não entendo, Iaiá, a confusão é tão grande que eu só te escrevo pra acalmar teu coração, pra te dizer que tudo isso é normal e que você não é a única a sofrer a assim, a buscar resposta em vão, a tentar encontrar beleza num céu tão escurecido pela dor. Você não está sozinha, Iaiá, eu, a moça sentada no banco da praça, o cara com o fone no ouvido, a menina tomando sorvete, todos nós em algum momento sentimos nosso coração dilacerado e penamos tentando encontrar forças pra juntar o que sobrou e catar todos os pedacinhos do chão. Um dia a gente acaba aprendendo, Iaiá, que a vida é assim mesmo. Que pra ganhar algo a gente primeiro perde o que era tão importante. Que pra sorrir com mais força, primeiro a gente derrama todas as lágrimas acumuladas. Que pra aprender a amar, a gente primeiro sofre, cai, quebra a cara, erra pra caramba, pra, quem sabe um dia, acertar o pulo, a quantidade exata de amor, o tamanho do abraço, o comprimento da carta. E, clichê dos clichês, pra aparecer um arco-íris, primeiro tem que chover.
Tem chovido muito por aqui, Iaiá. Tem sido difícil conseguir enxergar os raios tímidos de sol que vez ou outra tentam penetrar minha janela. Tem sido quase impossível não me assustar com os relâmpagos e sustos de amor que vez ou outra me invadem. Acredito que tenha sido assim pra você também. Se eu soubesse o que dizer, diria pra você e pra mim. Se eu tivesse o controle remoto que acelera o tempo, iria ao futuro por nós e descobriria de uma vez por todas o sentido por trás de tudo o que acontece agora. Essa é minha maior vontade. Meu coração vive ansiando pela chegada de algo que ele não sabe ao certo o que é, mas ansiar foi o jeito que ele encontrou pra continuar batendo. Mesmo apanhando com chicotes de indiferença e sendo encharcado pela chuva de realidade que perfura todo e qualquer abrigo, ele insiste em esperar. Pior, ele insiste em acreditar no amor. Pois é, Iaiá, meu maior erro é ansiar por um amor a cada batida do meu coração.
Se me perguntassem se desejo um amor novo ou aquele outro velho amor, talvez eu não soubesse dizer, eu só quero um que dure pra sempre, Iaiá, será pedir demais? Será que nada nesse mundo foi feito pra durar? Será que estamos todos destinados a amar demais e a não ter tempo de viver a demasia do amor? Será que o amor não é capaz de vencer tudo? Eu queria encontrar as respostas e te contar, te dizer que em algum lugar desse mundo alguém vai ouvir a respiração ofegante do seu coração e vir te socorrer. Eu queria poder te dar motivos concretos pra não deixar seu coração desacreditar nunca no amor, mas a experiência do meu coração insistente talvez não sirva de exemplo pra ninguém. Só tenho conseguido buracos cada vez mais profundos e nem toda a esperança que sinto é capaz de conter a onda desesperançosa que vez ou outra destrói todas as minhas construções. Ninguém nunca me ensinou a desistir, Iaiá, e não aconselho isso a você. O amor ainda é o combustível do mundo, ainda é ele que faz o sol brilhar mais forte, que faz os poetas terem o que escrever. O amor dói sim, sempre vai doer e nunca vai ser perfeito, mas nada consegue ser maior do que a felicidade que a segurança de tê-lo por perto traz. Do amor eu não desisto nunca, Iaiá, nem da esperança de encontrá-lo pra mim. Já me machuquei muitas vezes, me desesperancei algumas, não nego, mas eu sempre vou estar onde houver uma mínima luzinha de amor. Faça sua escolha, Iaiá, o amor nunca vai ser fácil e indolor, mas a balança de dores e alegria é sempre favorável pro lado sorridente. Mesmo que não dê pra ver o sol, mesmo que seja impossível acreditar que tudo irá passar com o tempo, mesmo que tudo te diga que insistir é suicídio, escolha estar onde o amor estiver. Desista de uma vida como a dos livros, em que as palavras convencem, todas as portas são abertas a nossa frente e todos os desentendimentos terminam com beijos apaixonados sob a chuva. Aceite que os príncipes não são perfeitos e dentro deles existem componentes chaves como orgulho, ciúme e indecisão. Só não desista do amor, Iaiá. Não desista de encontrar um príncipe imperfeito que faça seu coração vibrar. Não desista de montar o seu próprio livro com a sua própria história escrita a mão. Não desista até ver o potencial pra dor sumir e só crescer a alegria dentro de você. Agora é realmente impossível enxergar uma solução, mas diga todos os dias quando o seu coração acordar pra realidade, que o sol está vindo disfarçado num sorriso trazer a alegria já tão esquecida. Repita quantas vezes forem necessárias até que ele acredite por si só. Fazendo assim, Iaiá, o seu coração te alimentará com flores mesmo quando a realidade te oferecer pedregulhos. Não pare. Insista. Desista do que não for necessário, só nunca desista do amor. Não desiste por que um dia ele há de bater a sua porta e colorir o retrato em preto e branco na parede. Guarda esse retrato, Iaiá, o que um dia foi nublado há de ser céu azul. É só uma questão de tempo. O futuro virá e nos trará as cores, as respostas e os presentes que farão valer a pena todo esse tempo de dor.

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