domingo, 10 de outubro de 2010

Sem direção


Quando dou por mim estou sozinha num barco enorme, num mar revolto, sem saber pra onde ir. Você abandonou o nosso barco porque seus braços não tiveram mais forças pra remar. O mar em que navegávamos era grande e revolto demais pra nós. As tempestades vinham sobre ele quase todos os dias e os ventos traziam rumores que nem sempre faziam bem. Tudo o que conspirava a nosso favor e empurrava nosso barco pra frente, de repente tornou-se pequeno, quase insignificante perto de toda força contrária. Não tivemos forças. No meio de nossa viagem paramos diversas vezes pra trocar os remos, esvaziar as cargas que pesavam nosso barco, pra recuperar forças que haviam se perdido. Um dia eu desisti, no outro você, mas sempre voltávamos atrás e descobríamos forças um no outro pra seguir adiante, porque não importando o que o adiante fosse trazer, sabíamos estarmos salvos se estivéssemos juntos. Mas de repente tudo acabou. A tempestade foi forte demais, seus braços sucumbiram e não conseguiram mais remar. Você se atirou no mar e me deixou aqui. Sozinha com dois remos e um barco imenso. Não saio do lugar porque não sei ao certo pra onde ir. Não olho pra outras direções porque tenho medo de que você volte e eu esteja inalcançável. Não sei se guardo a esperança de te ter por aqui ou se viro o barco no sentido contrário ao que você mergulhou. Minhas lágrimas caem e só servem pra se misturar à água do mar, numa tentativa de chegar até você. Mas onde estará você? Num outro barco ou a espera de mim num porto qualquer? Será que você volta pro lugar onde paramos ou segue adiante sem nem olhar pra trás? Não sei se escrevo bilhetes ao nascer do sol, palavras que não se apaguem, ou se desenho seu rosto na água do mar, onde ele logo se desfará. Não sei se canto letras que não me deixam esquecer ou se aposto naquelas que dizem que é hora de recomeçar e tentar ser feliz em outro oceano. Sussurro ao vento todas as noites e peço que ele me traga você ou alguma palavra sua pela manhã. Qualquer coisa que me dê uma direção, um motivo pra seguir em frente ou permanecer aqui. Passo os dias todos sem saber o que pensar ou o que escrever. Não sei nem ao certo o que sentir, logo eu, que sempre senti demais. Durmo e acordo com você no pensamento, mas não sei se ainda é um direito meu. Desejo seus abraços, seus beijos e suas palavras como raios de sol que afastem as nuvens desse céu. Sinto saudades da segurança de saber que você estava comigo no barco e que, portanto, nenhum monstro seria capaz de me alcançar. Às vezes o vento me empurra, mas sempre volto pra onde paramos. Sempre volto porque lembro que estar contigo era tudo o que me faltava. Volto porque lembro daqueles sonhos todos que não tiveram tempo de se realizar. Volto porque minhas palavras mais bonitas são tuas, não mudo porque você as ensinou a ser assim, nãão-ditas e ainda assim, explícitas no olhar. Volto porque me dá vontade de amar de um jeito certo agora, de te contar que eu descobri o que era errado e que abro mão de tanta gente e de tanta coisa por você. Só não sei se você ainda sente. Se o seu coração ainda aperta quando minha palavra não chega e se ainda sente falta dos abraços desajeitados que faziam seu dia nascer feliz. Se a minha falta ainda faz silêncio em você. Se você se pega pensando em mim e esquecendo o resto do mundo e o seu orgulho. Mas se você ainda sentir, diz pro vento me avisar. Me diz que eu mudo o rumo. Me diz que sem mim você quase afunda, que eu encontro uma boia pra te resgatar. Não adianta me procurar em outros portos e barcos com direções tão diferentes da nossa, eu tô aqui. Estagnada. Se fizer falta o meu jeito torto de amar e me doar, se você perceber que agora estamos prontos, se estiver disposto a lutar com todas as forças contra tudo e todos, volta. Volta que eu sei te amar do teu jeito, com todas as manias e defeitos. Volta que eu seco suas lágrimas e carrego parte do teu fardo. Volta que eu te beijo como nunca, que eu te abraço forte e te prendo pra nunca mais soltar. Se ainda restar alguma esperança, alguma fagulha de amor, volta. Volta, que é como disse Caio, volta que te cuido.

2 comentários:

Luiza disse...

sabe, que bonito. não gostei que você ficou no barco sozinha, acho que você também não... mas eu também fiquei e lidar com esses ventos sozinha, sem aquela segurança, sem aquele carinho, sem aquele amor. lidar com as dúvidas de ficar ou ir, se ele ainda sente, se ainda tem jeito...
boa viagem, que o rumo seja bom e que dê certo quando você chegar ao porto.
adorei o texto, eu senti lá dentro, e é assim que eu gosto :)
beijos

Mandy disse...

Eu me sinto assim as vezes, meio sem rumo. Procurando uma direção pra seguir e nunca saindo do lugar.
"Não saio do lugar porque não sei ao certo pra onde ir. Não olho pra outras direções porque tenho medo de que você volte e eu esteja inalcançável. Não sei se guardo a esperança de te ter por aqui ou se viro o barco no sentido contrário ao que você mergulhou. Minhas lágrimas caem e só servem pra se misturar à água do mar, numa tentativa de chegar até você."
Senti como se eu mesma tivesse escrito isso. Talvez essa dúvida cruel um dia caia no mar, e desapareça pela imensidão azul. E me faça seguir uma outra direção.
E ai talvez eu consiga ser feliz novamente, amar novamente, e seguir uma nova vida com novos planos e sonhos.
Mas por hoje, eu quero acreditar que ficarei melhor paradinha aqui.

Beijos
Mandy

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