sábado, 2 de outubro de 2010

Entardecer.


Ela vinha todos os dias, chegava sempre naquele mesmo horário de sol poente. Na hora em que o céu era uma mistura de cores, a cor do dia que ia junto com a cor da noite que viria. Era o espetáculo mais bonito do céu, dizia ela sempre que perguntavam o por quê de todo esse ritual. Ritual que a fazia parar qualquer coisa pra ir ao meu encontro nesse horário - às vezes, quando o fantasma da insegurança me rondava, eu me perguntava se todo esse sacrifício era por mim ou pelo céu, onde já se viu sentir ciúme do céu? só ela conseguia isso de mim, eu a queria tanto, e a queria só pra mim. E todo dia ela vinha. Tirávamos fotos, andávamos pelas ruas, conversávamos sobre nossos dias e sobre nossas vidas anteriores - porque tanto eu quanto ela sabíamos que a vida de antes não sairia do passado, a vida que vivíamos agora era uma nova, uma dentro da outra, a minha vida dentro da vida dela, a vida dela dentro da minha vida. As pessoas já nos conheciam, afinal, não tinha como não reparar naquela menina que aparecia todo dia com um sorriso enorme no rosto, cantando aquela música que dizia someone, please, look at the sky. Ela tinha um poder extraordinário de contagiar as pessoas e de induzí-las a parar tudo e fazer como ela: admirar o céu e adicionar um bocado de magia à vida. Ela fazia por mim. Junto com o céu, o sol, a lua e tudo o que é mais bonito nesse mundo, ela acrescentava magia à minha vida. Meus dias com ela eram mágicos, eram parte de um mundo que antes eu não conhecia. Por isso eu aparecia ali todos os dias, porque eu precisava dela e da sensação de mundo-completo-vida-completa que ela me passava. Eu a amava. Embora nunca a tenha dito, eu diria agora se ela tivesse aparecido. Hoje ela não veio. O sol se despede, a lua já mostra seus contornos, mas dela eu só tenho um bilhete achado no banco onde nos encontrávamos. Tínhamos um banco - que ela chamava de nosso -, ali onde todos os dias enquanto eu caminhava, eu a via junto me esperando. Ela me esperava sempre em pé porque havia criado uma regra para nossos encontros que dizia que nós só poderíamos sentar ali juntos. Nunca sozinhos, muito menos com outra pessoa. Era só nosso. Como tudo o que era nosso. Só que hoje ele é só meu. Meu e do papel que já estava pregado ali quando cheguei. Em pé mesmo como estava, abri o papel e li e chorei e vivi tudo o que tínhamos passado num filme em preto e branco na minha mente. O papel, que ao mesmo tempo tirou a cor e coloriu o meu dia, dizia assim: "Você foi o meu sol. Sempre me senti como uma lua que precisou do seu brilho pra brilhar também. Havia um motivo para nossos encontros sempre nesse horário de sol poente, onde as cores se misturavam e o sol e a lua se cumprimentavam e seguiam seus destinos. Acontece que o dia representava a sua vida e a noite, a minha. Minha vida era escura até você chegar e eu, uma lua fraca demais, que não a conseguia iluminar sozinha, foi preciso que você, e o seu sol, com todo o seu calor e alegria, tornassem minha vida algo que valesse a pena ser apreciado. Eu me aproveitei de você. Suguei seu brilho, suguei seu amor pra sobreviver à falta de amor que o mundo me dava. Eu criei uma regra pro nosso banco, eu me proibi de sentar nele sem você, pra que ficasse registrada a minha dependência de você. Por isso eu sempre chegava primeiro e fazia questão de te esperar em pé, pra que você sentisse a minha necessidade de ti. E agora, toda vez em que você passar por aí, você deve lembrar que eu precisei de você. Pra crescer e brilhar. Porque agora é hora de aprender a brilhar sozinha. E ser capaz de iluminar outra vida. Preciso ir e não saberia me despedir de você. Não me procure, mas não esqueça de olhar pro céu durante o entardecer de cada dia, ainda que chova, procure uma beleza pra adicionar magia ao seu dia. De repente a gente se encontra por aí de novo, mas deve ser sem planejar, sem marcar horário. Deixe que a lua e o sol nos ensinem o caminho até a gente. Se nos encontrarmos, será a prova de que o seu dia precisa mesmo descansar em mim e a minha noite começar em você. O nosso encontro, essa mistura toda, será sempre o espetáculo mais bonito que pude viver. O sol deve brilhar sempre, não esqueça, a lua precisa dele. Eu preciso de você. Onde quer que eu esteja. Obrigada pela tua luz e a deixe brilhar."
Não desistirei, virei aqui todos os dias. Porque ainda dependo dela. E eu sei que ela volta. Pra transformar nossas vidas num único e eterno entardecer de verão.

5 comentários:

''Tay' disse...

Adorei o texto
ficou mt booooom.

bjus =*

Flavia C. disse...

Que liiiiiiiiiiindo!

T. disse...

Esse texto me fez chorar. rs Lindo demais, certo? Você tem um jeito encantador com as palavras. Vou passar aqui mais vezes. (:

Pelo amor ou pela dor .. ! * disse...

Lindo, lindo ! Nossa .. me emocionei com o bilhete deixado :/
um é tão dependente do outro nao é mesmo ?
parabeens !

Luiza disse...

que bonito, como sempre. seus textos sempre tem um toque de menina, algo suave. beijinhos

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