terça-feira, 12 de outubro de 2010

Dia das Crianças


Desceu as escadas decidida: não iria sofrer, não hoje, não enquanto o céu não escurecesse e o relógio não zerasse. Não enquanto fosse dia 12 e o céu estivesse tão limpo e claro como hoje. Não enquanto houvesse tantos motivos escondidos nas pequenas coisas, esperando o momento certo pra serem descobertos.Não enquanto as crianças estivessem sorrindo tão abertamente e espalhando o aroma de seus doces pelo ar. Ao menos por hoje seria feliz. Não lembraria de nenhuma queda que o coração sofreu, de nenhum banho de água fria que tomou, de nenhum passo em falso que deu. Hoje compraria um presente pra si, leria o livro que foi abandonado porque mexia demais com as coisas de dentro, guardaria o que estava adiando por medo de sofrer, se encheu de coragem e decidiu: nenhuma lágrima sequer. Mesmo que as lembranças fossem fortes demais, mesmo que andar sob um céu tão azul fosse convidativo a estar acompanhada, mesmo que estar com tantas crianças desse vontade de ter alguém pra compartilhar as estranhezas e fofuras de cada sorriso em particular. Hoje não choraria. Hoje não se renderia a nenhum arrependimento, a nenhuma culpa, a nenhuma vontade de voltar atrás. Hoje alugaria desenhos animados, cantaria em alto e bom som, lembraria e sonharia sem receio com os contos de fada. Faria as pazes com a bela, sentiria inveja da sorte da cinderela, cantaria junto com os sete anões. Lembraria dos tempos de criança e se permitiria ser criança. Se permitiria ser sem medo, não se preocupar se os outros iriam ou não aparecer pra brincar, se divertir mesmo sozinha. Subiria no escorrega mais alto e deixaria o vento bater nos cabelos antes de escorregar de vez. Ficaria de castigo na gangorra, se balançaria o mais alto possível pra depois fazer questão de pular e se esborrachar no chão. Pique-pega, bandeirinha e pique-cola. Não importando em qual posição, sem se preocupar em vencer ou não, participaria de todos os jogos. Inventaria brincadeiras, aproveitaria pra brincar de se esconder da dor. Desenharia arco-íris e se imaginaria sobrevoando-o. Brincaria de casinha e ensinaria às suas filhinhas a serem como ela: sonhadoras - depois pensou melhor e decidiu que não, elas deveriam ter controle sobre os sonhos, senão estariam fadadas a viver com um vazio como ela. Comeria algodão doce, biscoitos de vento, brigadeiro até não poder mais. Daria risadas sozinha, tiraria fotos divertidas, pintaria as unhas com cores que jamais havia usado. Rolaria na grama, sujaria sua roupa favorita, faria pirraça quando não tivesse o que queria. Ocuparia a cabeça o dia todo, não ouviria os gemidos do coração, não daria atenção a cicatriz feia e pesada que caía sobre ele. Criança não liga pra dor, disse pra si mesma, criança cai, rala o joelho, é eliminado do jogo, mas volta logo. Criança chora, mas não deixa de voltar pra brincadeira porque sabe que a hora de ir pra casa sempre chega, e perder tempo chorando é inaceitável. E se criança era assim e se hoje era o dia delas, seria criança então. E não deixaria que o machucado a impedisse de voltar à brincar - mesmo que a brincadeira fosse mais séria e o machudo mais profundo, não importava. Não deixaria que o tempo passasse e que ela o desperdiçasse chorando trancafiada num quarto, choraria quando fosse noite e noite insuportável, e só - enquanto fosse possível adiar o choro, adiaria; enquanto pudesse camuflar a dor, camuflaria; enquanto fosse possível continuar a viver, continuaria. Se tivesse que continuar a base de band-aids ou de impulsos como num balanço, continuaria. Continuaria de cabeça erguida, sempre a frente. Continuaria sendo criança enquanto fosse possível. Porque criança não desiste da brincadeira, porque criança confia, se entrega e ri até quando cai. Seria criança pra sempre e enquanto tudo durasse, porque ser criança era mais fácil e, principalmente, porque criança acredita que um beijo realmente sara qualquer dor. E hoje, mais do que nunca, seria criança porque tudo o que precisava era de alguém que desse um beijo, fizesse um afago no coração que doía tanto e dissesse que tudo bem, já ia passar, já era possível voltar a brincar.

3 comentários:

Natália disse...

Tempo bom que não volta nunca mais. Beijo

Súu disse...

"Porque criança não desiste da brincadeira"...
Talvez a gente também não devesse desistir das coisas boas, não só do amor, mas tbm dos momentos que nos fazer rir, que nos fazer sentir unicas, dos momentos que de alguma forma nos fazem bem.

Seu texto foi lindo *-*

Adrielly Soares disse...

Ser criança é tão bom, e a gente nem sabe o quanto é até que cresçamos.

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