sábado, 30 de outubro de 2010

Mil Trezentos e Cinco!


Vou falar de amor, de amizade, de união. Vou falar sobre aprender a conviver com as diferenças, sobre somar 2106 + 2104 + 2102 + 1201 e resultar 1305. Não vou falar sobre o pré-conceito que carregávamos no início nem sobre os maus olhares com que tantas vezes nos olharam, nada disso importa. Vou falar sobre ralé, sobre não ser o melhor e ainda assim o ser, sobre transformar pedras em flores. Vou falar sobre a turma mais unida e mais divertida que já existiu. Vou falar de vocês, 1305. Tivemos muito medo no início, achávamos que não fosse dar certo e que tanta gente bagunceira junto só poderia dar confusão. E talvez tenha dado mesmo, mas foi uma confusão boa, sabe? Foi uma porção de aulas divertidas, de piadas internas, de mal entendidos consertados. Às vezes grito que amo vocês e muita gente não entende, acho que é uma questão de sentir o que a gente sente e só a gente sabe. Só a gente sabe a emoção de chegar aqui na frente e ver uma turma enorme e unida, mesmo depois de tanta gente dizendo que nunca daria certo juntar todo aquele "resto". Só a gente sabe o valor incalculável de estar entre pessoas que estão unidas pro que der e vier, pra lutar em turma, pra defender com unhas e dentes o sentimento que a gente carrega no lado esquerdo do peito. Seja numa revolução, numa batalha entre turmas ou na defesa de algum argumento, nos mostramos unidos. Pra fazer um trabalho de literatura ou química, unidos. Lembro de ter ouvido pessoas dizendo que queriam que suas turmas fossem como nós. Dá um certo prazer ouvir isso porque é a confirmação de que de nada adianta saber chegar a marte e não saber como chegar no próximo; de que não adianta sair do colégio com um boletim repleto de notas altas e só com meia dúzia de histórias pra contar. Nelson Rodrigues disse que os brasileiros deveriam aprender a sorrir com os alunos do Pedro II, mas eu vou além e digo que as outras turmas deveriam aprender a ser TURMA conosco. Nós não precisamos nos colocar como primeiros, como melhores ou superiores, nos colocamos no lugar de turma e com certeza alcançamos lugares altíssimos. Soubemos fazer uma turma. Assustamos alguns professores, mas ganhamos alguns outros como cúmplices. No meio de tantas acusações, encontramos professores que nos apoiaram e que foram, junto conosco, uma turma. Acho que 1305 sem Daise, Renata e Eduardo é só uma parte. Costumo dizer que a minha turma é linda e que eu vou morrer de saudade, só preciso acrescentar que a 1305 é uma parte enorme de mim. Dizem que no ensino médio tudo é mais verdadeiro e intenso do que em qualquer outra época, e devo concordar com isso. Dá muito medo pensar num amanhã sem chegar na turma e gritar um bom dia, sem receber um grito no ouvido, sem cantar em alto e bom som que as fotos coloridas definitivamente são nossas. São sim, podem apostar. E na minha memória também, as maiores e mais coloridas são de vocês. Alguns deu tempo de conhecer melhor, outros não, mas a imagem que eu levo é a imagem da turma como um todo. Sem separação entre canto da janela, canto da parede ou meio. Levo comigo a imagem da 1305 pulando e gritando o nosso número de guerra. Cinco. Em nome dele fomos criticados, mas em nome dele nos tornamos uma grande família. Sentirei saudades enormes e desejarei sempre, a cada um de vocês, as melhores coisas do mundo. Que da nossa família saiam grandes médicos, advogados, jornalistas, oficiais, escritores, engenheiros. Que em tudo o que formos fazer nos lembremos de que a posição não é o mais importante, antes dela vem a amizade, a união, a certeza de ter marcado a vida de alguém. Contaminem o mundo com o nosso espírito e voltem sempre pra contar o que aconteceu. Exijo pelo menos um encontro da turma por ano, em qualquer lugar onde a gente possa falar mal das turmas alheias, zoar um ao outro, relembrar que a nossa família é unida até quando separada. Se o melhor do CP2 não esteve aqui, eu não consigo enxergá-lo em outro lugar. Muito sucesso pra cada um de nós. Eu amo vocês. O futuro pode sim ser assustador, mas um dia o passado foi futuro e olha só o que ele fez com a gente: nos trouxe até aqui. Segurem suas mochilas, as encham de boas recordações e se preparem porque o trem já vai partir, vamos todos pro futuro, pra um lugar onde os sonhos se realizam e a nossa vida continua.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O estranho mundo de mim mesma.

Depois de muito tempo escrevendo sobre tanta gente, resolvi escrever sobre mim. Sobre essa pessoa estranha e cheia de manias entranhadas. Sobre essa parte enorme de mim que sente, vive e vê tudo de forma anormal, como a maioria das pessoas lá fora não é capaz. Enxergo flores onde só há canhões, invento entrelinhas onde não existem e arrumo sempre uma forma de enfeitar a vida. Ainda não descobri se isso é bom ou ruim. Se vale mesmo a pena idealizar as coisas e as pessoas e tantas e tantas vezes sobrar sozinha com a decepção no colo. Mas sou assim. Sou toda coração. Vivo pra dentro. Por fora sou quase normal. Convivo bem com a solidão, me conto historinhas antes de dormir, coloco um fone de ouvido e mergulho no que está sendo dito, escrevo um milhão de textos na minha cabeça e os deixo guardadinhos por lá mesmo. Tem coisa que só divido comigo. Aprendi meio na marra que eu posso - e devo - ser minha amiga. Não que eu não tenha amigas, pelo contrário, apesar de poder contar no dedo sou uma pessoa rica desse tipo de gente. Mas é que às vezes ninguém me entende. Só eu. Só meu coração. É nessas horas que escrevo, ou melhor, converso comigo, como costumo chamar o ato de escrever. Não escrevo, desabo sobre o papel. Conto tudo, não economizo detalhes, me livro de todas as emoções. Só disponibilizo quando o sentimento esfria e já posso lê-lo com tranquilidade. Claro que sinto impulsos e publico logo, numa exposição cruel daquilo que sou. Daquela pessoa que ninguém conhece e se surpreendem quando leem e a descobrem existindo. Eu disse que por fora sou normal, atuo tão bem que ninguém desconfia que por trás daquela menina meio idiota e palhaça e tão nem aí pra tristeza, existe um mundo inteiro de sentimentos, uns bons e ruins. Não sei se escondo, mas acho que não posso dizer isso, penso sempre que sou como uma porta fechada. Ela não abre sozinha, não adianta estar longe e pronunciar uma palavra mágica pra ter acesso ao outro lado, é preciso levantar, procurar a chave certa, encaixá-la, girá-la com cuidado, e só aí ter vista ao lado de lá. Dá trabalho e nem todo mundo consegue. Mas prefiro assim, quem consegue chegar lá sempre se assusta com a quantidade de sentimento e de perguntas e de vontade de viver e amar e me doar. Não abro sozinha, não chego e saio logo contando o que sinto, preciso que perguntem, que sintam que não estou normal e me indaguem. Fora isso não digo. Mas ouço. E amo ouvir. Tenho prazer em saber o que as pessoas sentem, vivem, choram. Sou apaixonada pelos seres humanos e me perco em indagações e questionamentos sobre seus modos de agir e de viver e de amar. Vezenquando arrisco uns conselhos, umas filosofias de vida, mas nada grave. Um dia acabo fazendo psicologia, como uma tentativa - talvez vã - de entender esse ser tão contraditório. Gosto de estar rodeada de gente, contando piada, em silêncio ou tendo um assunto mais sério. É de gente que eu gosto: de abraço, beijo, mãos dadas. Gosto de pequenas coisas. De pequenas surpresas, de palavras bem colocadas, de olho no olho, de jogo limpo, sentimentos claros, coisas diretas. Gosto de surpreender, de fazer pequenos presentes manuais, de fazer essa gente rir e ter uma boa lembrança de mim. Porque eu não esqueço. Se amei uma vez, amo pra sempre. Se estive por alguém uma vez, estarei pra sempre. Gosto de ser assim, gosto de sentir alguma coisa eterna correndo nas minhas veias. Acho que por isso escrevo: porque palavras são eternas. E eu gosto delas. As devoro, me cubro e me exponho com elas. Gosto de quem sabe escrever, de quem consegue traduzir o intraduzível, dizer o indizível. Gosto de ser assim. Intensa, dramática e sensível. Gosto da minha mania de romantizar a vida e de enxergar arco-íris em tudo. Ainda que nem sempre seja bom e doa uma dor indescrítivel, romantizar a vida foi o jeito que eu descobri pra não deixar de acreditar. Nem em mim, nem na vida, nem nas pessoas.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Anúncio da despedida.




Enfim, chegamos à linha final. Com uniformes desbotados, neurônios queimados e cansaço além do normal. Vamos embora com a nossa mochila vazia de livros e cadernos, mas cheia de histórias pra contar. Passaram-se três anos. Todo mundo mudou, as pessoas nas fotos do primeiro ano quase não são mais reconhecidas, saímos com a certeza de estarmos diferentes. O primeiro, o segundo e o terceiro ano se passaram. E agora, o que será de nós? Sabemos que além daquele portão um mundo inteiro espera e exige de nós o sucesso digno de um ex-aluno do Pedro Segundo. Dá um certo medo ao lembrar de todas as responsabilidades que caírão sobre nossos ombros, dá vontade de voltar no tempo, começar tudo de novo, não pra fazer diferente - talvez, sim, pra estudar um pouco mais - mas pra prolongar e quem sabe tornar eterno o momento que foi o melhor das nossas vidas. Tentamos não ver, disfarçamos a dor que sentiríamos enquanto pudemos, mas o fim chegou. É impossível não sentir medo do futuro e de não conseguir que todos os nossos sonhos sejam realizados, mas nós carregamos a vantagem de termos aprendido com os melhores. Aprendemos da filosofia de Nietzsche à filosofia da vida. Mais do que resolver equações impossíveis e elaborar dissertações polêmicas, aprendemos a construir um futuro. Aprendemos com quantos livros se perde um feriado e com quantos alunos se forma uma família. Aprendemos a lidar com as diferenças, à sobreviver às notas baixas, à entender que nem sempre se ganha. Aprendemos a dividir um história linda, a sermos protagonistas da nossa e à fazermos participações especiais nas histórias vizinhas. De uma fábrica abandonada, instalou-se um hospício em Realengo: o Pedro Segundo - onde habitam loucos que ainda acreditam num amanhã melhor do que o hoje. Saímos todos loucos daqui e seremos jogados no mundo pra contaminá-lo com nossa loucura do bem. Tantas e tantas vezes gritamos que não aguentávamos mais, mas tenho certeza de que sentiremos falta quando amanhã dermos conta de que aquele emblema um dia tão pesado em nosso bolso, tornou-se apenas uma parte enorme de nós a ser guardada numa caixinha em algum lugar da nossa memória. Sentiremos falta do calor insuportável, das aulas intermináveis, dos rostos conhecidos e da sensação de estar em casa, rodeado de gente com o mesmo sangue: o de aluno do Pedro Segundo. Sem dúvida fomos isso: Família. Alguns irmãos e outros primos distantes, mas ainda assim família lutando junto pelo mesmo ideal. Eu descobri, em um minuto de silêncio quase eterno, que na nossa família quando um vai, leva consigo uma parte enorme do resto. Eu percebi que o individualismo do mundo lá de fora não era capaz de ultrapassar os muros daqui e nós fomos encontrando um jeito de dar força um ao outro e de continuar sempre. Se me pedissem pra traduzir o Pedro Segundo com uma palavra e uma imagem, seria essa: um quadro enorme com a foto de um terceiro ano inteiro de mãos dadas no pátio - quando nenhuma palavra foi necessária e apenas uma palavra ficou: família. E família não tem jeito, é pra sempre. Ninguém deixa de ser família porque não mora mais na mesma casa. Torço pra que fiquemos sempre assim: de mãos dadas. Assim vamos longe, pois já avisaram por aí que a união é quem faz força. E a família CP2 é forte porque é feita a base da união. O mundo lá fora bem sabe que sempre acaba levantando pra aplaudí-la. Sejamos assim então: brilhemos com as três estrelas que com muito suor conseguimos e acrescentemos mais quantas forem possíveis. O mundo há de levantar pra nós. Porque ao Pedro Segundo é sempre TUDO e ao aluno daqui não pode ser diferente.
Formandos 2010 - ao infinito e além.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Dia das Crianças


Desceu as escadas decidida: não iria sofrer, não hoje, não enquanto o céu não escurecesse e o relógio não zerasse. Não enquanto fosse dia 12 e o céu estivesse tão limpo e claro como hoje. Não enquanto houvesse tantos motivos escondidos nas pequenas coisas, esperando o momento certo pra serem descobertos.Não enquanto as crianças estivessem sorrindo tão abertamente e espalhando o aroma de seus doces pelo ar. Ao menos por hoje seria feliz. Não lembraria de nenhuma queda que o coração sofreu, de nenhum banho de água fria que tomou, de nenhum passo em falso que deu. Hoje compraria um presente pra si, leria o livro que foi abandonado porque mexia demais com as coisas de dentro, guardaria o que estava adiando por medo de sofrer, se encheu de coragem e decidiu: nenhuma lágrima sequer. Mesmo que as lembranças fossem fortes demais, mesmo que andar sob um céu tão azul fosse convidativo a estar acompanhada, mesmo que estar com tantas crianças desse vontade de ter alguém pra compartilhar as estranhezas e fofuras de cada sorriso em particular. Hoje não choraria. Hoje não se renderia a nenhum arrependimento, a nenhuma culpa, a nenhuma vontade de voltar atrás. Hoje alugaria desenhos animados, cantaria em alto e bom som, lembraria e sonharia sem receio com os contos de fada. Faria as pazes com a bela, sentiria inveja da sorte da cinderela, cantaria junto com os sete anões. Lembraria dos tempos de criança e se permitiria ser criança. Se permitiria ser sem medo, não se preocupar se os outros iriam ou não aparecer pra brincar, se divertir mesmo sozinha. Subiria no escorrega mais alto e deixaria o vento bater nos cabelos antes de escorregar de vez. Ficaria de castigo na gangorra, se balançaria o mais alto possível pra depois fazer questão de pular e se esborrachar no chão. Pique-pega, bandeirinha e pique-cola. Não importando em qual posição, sem se preocupar em vencer ou não, participaria de todos os jogos. Inventaria brincadeiras, aproveitaria pra brincar de se esconder da dor. Desenharia arco-íris e se imaginaria sobrevoando-o. Brincaria de casinha e ensinaria às suas filhinhas a serem como ela: sonhadoras - depois pensou melhor e decidiu que não, elas deveriam ter controle sobre os sonhos, senão estariam fadadas a viver com um vazio como ela. Comeria algodão doce, biscoitos de vento, brigadeiro até não poder mais. Daria risadas sozinha, tiraria fotos divertidas, pintaria as unhas com cores que jamais havia usado. Rolaria na grama, sujaria sua roupa favorita, faria pirraça quando não tivesse o que queria. Ocuparia a cabeça o dia todo, não ouviria os gemidos do coração, não daria atenção a cicatriz feia e pesada que caía sobre ele. Criança não liga pra dor, disse pra si mesma, criança cai, rala o joelho, é eliminado do jogo, mas volta logo. Criança chora, mas não deixa de voltar pra brincadeira porque sabe que a hora de ir pra casa sempre chega, e perder tempo chorando é inaceitável. E se criança era assim e se hoje era o dia delas, seria criança então. E não deixaria que o machucado a impedisse de voltar à brincar - mesmo que a brincadeira fosse mais séria e o machudo mais profundo, não importava. Não deixaria que o tempo passasse e que ela o desperdiçasse chorando trancafiada num quarto, choraria quando fosse noite e noite insuportável, e só - enquanto fosse possível adiar o choro, adiaria; enquanto pudesse camuflar a dor, camuflaria; enquanto fosse possível continuar a viver, continuaria. Se tivesse que continuar a base de band-aids ou de impulsos como num balanço, continuaria. Continuaria de cabeça erguida, sempre a frente. Continuaria sendo criança enquanto fosse possível. Porque criança não desiste da brincadeira, porque criança confia, se entrega e ri até quando cai. Seria criança pra sempre e enquanto tudo durasse, porque ser criança era mais fácil e, principalmente, porque criança acredita que um beijo realmente sara qualquer dor. E hoje, mais do que nunca, seria criança porque tudo o que precisava era de alguém que desse um beijo, fizesse um afago no coração que doía tanto e dissesse que tudo bem, já ia passar, já era possível voltar a brincar.

domingo, 10 de outubro de 2010

Sem direção


Quando dou por mim estou sozinha num barco enorme, num mar revolto, sem saber pra onde ir. Você abandonou o nosso barco porque seus braços não tiveram mais forças pra remar. O mar em que navegávamos era grande e revolto demais pra nós. As tempestades vinham sobre ele quase todos os dias e os ventos traziam rumores que nem sempre faziam bem. Tudo o que conspirava a nosso favor e empurrava nosso barco pra frente, de repente tornou-se pequeno, quase insignificante perto de toda força contrária. Não tivemos forças. No meio de nossa viagem paramos diversas vezes pra trocar os remos, esvaziar as cargas que pesavam nosso barco, pra recuperar forças que haviam se perdido. Um dia eu desisti, no outro você, mas sempre voltávamos atrás e descobríamos forças um no outro pra seguir adiante, porque não importando o que o adiante fosse trazer, sabíamos estarmos salvos se estivéssemos juntos. Mas de repente tudo acabou. A tempestade foi forte demais, seus braços sucumbiram e não conseguiram mais remar. Você se atirou no mar e me deixou aqui. Sozinha com dois remos e um barco imenso. Não saio do lugar porque não sei ao certo pra onde ir. Não olho pra outras direções porque tenho medo de que você volte e eu esteja inalcançável. Não sei se guardo a esperança de te ter por aqui ou se viro o barco no sentido contrário ao que você mergulhou. Minhas lágrimas caem e só servem pra se misturar à água do mar, numa tentativa de chegar até você. Mas onde estará você? Num outro barco ou a espera de mim num porto qualquer? Será que você volta pro lugar onde paramos ou segue adiante sem nem olhar pra trás? Não sei se escrevo bilhetes ao nascer do sol, palavras que não se apaguem, ou se desenho seu rosto na água do mar, onde ele logo se desfará. Não sei se canto letras que não me deixam esquecer ou se aposto naquelas que dizem que é hora de recomeçar e tentar ser feliz em outro oceano. Sussurro ao vento todas as noites e peço que ele me traga você ou alguma palavra sua pela manhã. Qualquer coisa que me dê uma direção, um motivo pra seguir em frente ou permanecer aqui. Passo os dias todos sem saber o que pensar ou o que escrever. Não sei nem ao certo o que sentir, logo eu, que sempre senti demais. Durmo e acordo com você no pensamento, mas não sei se ainda é um direito meu. Desejo seus abraços, seus beijos e suas palavras como raios de sol que afastem as nuvens desse céu. Sinto saudades da segurança de saber que você estava comigo no barco e que, portanto, nenhum monstro seria capaz de me alcançar. Às vezes o vento me empurra, mas sempre volto pra onde paramos. Sempre volto porque lembro que estar contigo era tudo o que me faltava. Volto porque lembro daqueles sonhos todos que não tiveram tempo de se realizar. Volto porque minhas palavras mais bonitas são tuas, não mudo porque você as ensinou a ser assim, nãão-ditas e ainda assim, explícitas no olhar. Volto porque me dá vontade de amar de um jeito certo agora, de te contar que eu descobri o que era errado e que abro mão de tanta gente e de tanta coisa por você. Só não sei se você ainda sente. Se o seu coração ainda aperta quando minha palavra não chega e se ainda sente falta dos abraços desajeitados que faziam seu dia nascer feliz. Se a minha falta ainda faz silêncio em você. Se você se pega pensando em mim e esquecendo o resto do mundo e o seu orgulho. Mas se você ainda sentir, diz pro vento me avisar. Me diz que eu mudo o rumo. Me diz que sem mim você quase afunda, que eu encontro uma boia pra te resgatar. Não adianta me procurar em outros portos e barcos com direções tão diferentes da nossa, eu tô aqui. Estagnada. Se fizer falta o meu jeito torto de amar e me doar, se você perceber que agora estamos prontos, se estiver disposto a lutar com todas as forças contra tudo e todos, volta. Volta que eu sei te amar do teu jeito, com todas as manias e defeitos. Volta que eu seco suas lágrimas e carrego parte do teu fardo. Volta que eu te beijo como nunca, que eu te abraço forte e te prendo pra nunca mais soltar. Se ainda restar alguma esperança, alguma fagulha de amor, volta. Volta, que é como disse Caio, volta que te cuido.

sábado, 2 de outubro de 2010

Entardecer.


Ela vinha todos os dias, chegava sempre naquele mesmo horário de sol poente. Na hora em que o céu era uma mistura de cores, a cor do dia que ia junto com a cor da noite que viria. Era o espetáculo mais bonito do céu, dizia ela sempre que perguntavam o por quê de todo esse ritual. Ritual que a fazia parar qualquer coisa pra ir ao meu encontro nesse horário - às vezes, quando o fantasma da insegurança me rondava, eu me perguntava se todo esse sacrifício era por mim ou pelo céu, onde já se viu sentir ciúme do céu? só ela conseguia isso de mim, eu a queria tanto, e a queria só pra mim. E todo dia ela vinha. Tirávamos fotos, andávamos pelas ruas, conversávamos sobre nossos dias e sobre nossas vidas anteriores - porque tanto eu quanto ela sabíamos que a vida de antes não sairia do passado, a vida que vivíamos agora era uma nova, uma dentro da outra, a minha vida dentro da vida dela, a vida dela dentro da minha vida. As pessoas já nos conheciam, afinal, não tinha como não reparar naquela menina que aparecia todo dia com um sorriso enorme no rosto, cantando aquela música que dizia someone, please, look at the sky. Ela tinha um poder extraordinário de contagiar as pessoas e de induzí-las a parar tudo e fazer como ela: admirar o céu e adicionar um bocado de magia à vida. Ela fazia por mim. Junto com o céu, o sol, a lua e tudo o que é mais bonito nesse mundo, ela acrescentava magia à minha vida. Meus dias com ela eram mágicos, eram parte de um mundo que antes eu não conhecia. Por isso eu aparecia ali todos os dias, porque eu precisava dela e da sensação de mundo-completo-vida-completa que ela me passava. Eu a amava. Embora nunca a tenha dito, eu diria agora se ela tivesse aparecido. Hoje ela não veio. O sol se despede, a lua já mostra seus contornos, mas dela eu só tenho um bilhete achado no banco onde nos encontrávamos. Tínhamos um banco - que ela chamava de nosso -, ali onde todos os dias enquanto eu caminhava, eu a via junto me esperando. Ela me esperava sempre em pé porque havia criado uma regra para nossos encontros que dizia que nós só poderíamos sentar ali juntos. Nunca sozinhos, muito menos com outra pessoa. Era só nosso. Como tudo o que era nosso. Só que hoje ele é só meu. Meu e do papel que já estava pregado ali quando cheguei. Em pé mesmo como estava, abri o papel e li e chorei e vivi tudo o que tínhamos passado num filme em preto e branco na minha mente. O papel, que ao mesmo tempo tirou a cor e coloriu o meu dia, dizia assim: "Você foi o meu sol. Sempre me senti como uma lua que precisou do seu brilho pra brilhar também. Havia um motivo para nossos encontros sempre nesse horário de sol poente, onde as cores se misturavam e o sol e a lua se cumprimentavam e seguiam seus destinos. Acontece que o dia representava a sua vida e a noite, a minha. Minha vida era escura até você chegar e eu, uma lua fraca demais, que não a conseguia iluminar sozinha, foi preciso que você, e o seu sol, com todo o seu calor e alegria, tornassem minha vida algo que valesse a pena ser apreciado. Eu me aproveitei de você. Suguei seu brilho, suguei seu amor pra sobreviver à falta de amor que o mundo me dava. Eu criei uma regra pro nosso banco, eu me proibi de sentar nele sem você, pra que ficasse registrada a minha dependência de você. Por isso eu sempre chegava primeiro e fazia questão de te esperar em pé, pra que você sentisse a minha necessidade de ti. E agora, toda vez em que você passar por aí, você deve lembrar que eu precisei de você. Pra crescer e brilhar. Porque agora é hora de aprender a brilhar sozinha. E ser capaz de iluminar outra vida. Preciso ir e não saberia me despedir de você. Não me procure, mas não esqueça de olhar pro céu durante o entardecer de cada dia, ainda que chova, procure uma beleza pra adicionar magia ao seu dia. De repente a gente se encontra por aí de novo, mas deve ser sem planejar, sem marcar horário. Deixe que a lua e o sol nos ensinem o caminho até a gente. Se nos encontrarmos, será a prova de que o seu dia precisa mesmo descansar em mim e a minha noite começar em você. O nosso encontro, essa mistura toda, será sempre o espetáculo mais bonito que pude viver. O sol deve brilhar sempre, não esqueça, a lua precisa dele. Eu preciso de você. Onde quer que eu esteja. Obrigada pela tua luz e a deixe brilhar."
Não desistirei, virei aqui todos os dias. Porque ainda dependo dela. E eu sei que ela volta. Pra transformar nossas vidas num único e eterno entardecer de verão.

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