sábado, 14 de agosto de 2010

Para o menino da casa ao lado.

Oi, menino, talvez você se assuste ao ver essa carta embaixo da sua porta e me ache uma louca por te escrever sem nem ao menos saber teu nome. É verdade, não sei, mas ainda assim sinto te conhecer tanto. Te vejo todos os dias e sei que você me vê também. Já nos cumprimentamos algumas vezes com pequenos acenos e movimentos de cabeça enquanto olhávamos por nossas janelas. Eu, à eterna espera de um vento que trouxesse todas as respostas pras perguntas que eu insistia em fazer. Você, apenas olhando as estrelas ou até lançando perguntas ao vento também, quem é que sabe. Compartilhamos o céu e o silêncio através de nossas varandas. Com ventos fortes ou chuva, de qualquer jeito estávamos lá todas as noites. Às vezes com livros, outras com papel e caneta, outras só com a gente mesmo. Você de um lado e eu de outro, tão estranhos e ainda assim tão próximos e tão pequenos diante de um céu imenso. Era tão normal você aparecer que naquele dia em você não apareceu, eu perguntei ao vento o que teria acontecido. Foi então que te vi colocar algumas coisas numa caixa e arremessar outras contra a parede. Te vi jogar papéis pela janela e pude jurar que você estava chorando quando fechou a janela. Desde esse dia você nunca mais olhou as estrelas. Você nunca mais lançou perguntas ao vento. Talvez essas perguntas não façam mais sentido pra você agora. Talvez as estrelas não brilhem como antes. Talvez seu coração esteja dentro daquela caixa, indo embora pra longe no caminhão de lixo que acaba de passar ou esteja no chão, em mil pedaços junto com os cacos de vidro do porta-retrato que você jogou longe. Eu sou só uma estranha, eu sei, mas eu queria te dizer que eu já me senti assim. Parece que o chão abriu, o céu escureceu e as palavras perderam o sentido. Parece que o coração nunca mais será o mesmo e nunca mais se abrirá novamente. Parece que não vai passar, mas passa, menino. Eu juro. Aqui, na China, em Madagascar, essas coisas vivem acontecendo. O que seria das estrelas se logo após uma decepção as pessoas desistissem delas? Com certeza brilhariam menos. Por isso, menino, não some. A dor não é o fim. É só o começo pro que ainda virá. Eu sei que parece difícil acreditar que o que um dia foi tão bonito fosse destinado a morrer numa noite de sábado, entre cacos de vidro no chão, papéis jogados pela janela e coração em mil pedaços. Mas você precisa levantar, menino, você precisa ver, o céu anda cada vez mais estrelado, as estrelas continuam a aparecer e a lua fica mais cheia a cada dia. O tempo não vai parar pra você consertar seu coração, menino. Amanhã eu te espero. No mesmo horário de sempre. Quando ainda seremos estranhos, mas haverá alguma coisa que nos une e que sempre nos uniu: um coração que já foi partido. Sabe, menino, acho que é pra isso que as estrelas existem: pra nos lembrar que sempre vão haver noites escuras na vida, mas sempre vai ter pelo menos um pontinho brilhante no céu pra nos fazer acreditar de novo. Aparece amanhã, menino, se ainda não estiver pronto pra olhar pro céu, olha pra minha varanda, talvez eu não seja tão brilhante quanto uma estrela, mas posso ser o seu pontinho de luz numa noite escura.
Até amanhã,
da menina da casa ao lado.

6 comentários:

Súu disse...

Esse texto ficou perfeito *--*
Doce e delicado, realmente amei *o*
Parabens pelo lindo texto!

bjus

Melodias de uma garota nada normal !!! disse...

carambaa mto lindo msm..
parabéns
bjinhos

Luiza disse...

ai que pontinho de luz mais lindo! haha
que bonito esse teu texto Nicole, diferente e similar aos que sempre escreves. doce e meigo, cheio de coração, de sentimento em tuas palavras. beijos

Jaci Macedo disse...

Awn, que coisa linda ^^
Tem vezes que tudo o que podemos fazer pelo outro é deixá-lo sozinho e dizer que qualquer coisa, estamos aqui.

beijos, coração.

Mandy disse...

Nicolee, faz tempo que eu não venho aqui, eu sei.. Mas enfim, esse texto ficou lindo demais. Acredita que eu terminei de ler ele toda arrepiada? Poisé, eu ameei. E sabe, eu fiquei com vontade de olhar pra varanda da casa ao lado. :) Vc me entende, né?
Bom, prometo voltar pra ler os outros textos que eu não li.
Ah, eu to passando por uma pequena crise la no blog. Por isso eu não to postando =/ Sabe como é, quando a gente não sabe sobre o que escrever, e parece que a inspiração foi embora pela janela...
Enfim, eu volto aqui mesmo.
Beijoos
Mandy

Bell Souza disse...

Cartas... são sempre bem vindas. maravilhosa esta!

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