terça-feira, 29 de junho de 2010

Na terra do coração.

"Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar.
A brisa sopra, saiu a primeira estrela.
Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs.
A lua cheia brotou do mar.
Os apaixonados suspiram.

E se apaixonam ainda mais."
(Caio Fernando)


Meu coração é enorme, pesado e um tanto remendado.
Meu coração é bela à espera de um beijo que quebre o encanto dos desencantos.
Meu coração é uma canção baixinha, com refrão que repete e fica na cabeça por muito tempo.
Meu coração é uma gelatina e uma pedra. É um rio que corre pra desaguar num mar, uma lua que varia de cheia à minguante, uma árvore que cresce sem pedir licença.
Meu coração é casa que todo mundo habita, mas com cômodos secretos e restritos.
Meu coração é palhaço que vive pra provocar sorrisos, mas acaba assustando vezenquando.
Meu coração é uma carta enorme, com erros gramaticais e escrita de outra época.
Meu coração é viúva na beira da estrada à eterna espera daqueles que foram e esqueceram de voltar.
Meu coração é farol que vive aceso na beira da praia, pra mostrar àqueles que estão longe a direção de casa.
Meu coração é uma lista de desejos à eterna espera de um gênio da lâmpada que conceda a realização de mais do que três deles.
Meu coração é uma folha em branco, um álbum de retrato amarelado, uma caixinha de lembranças.
Meu coração é a teimosia de alguém que sabe o que quer e não abre mão; é a incerteza de alguém que vai; é a insegurança de alguém que fica.
Meu coração é um romance barato, com final previsível e falas decoradas.
Meu coração é um barco que fica mais cheio a cada porto que passa.
Meu coração é uma sanfona que incha, incha, incha e depois esvazia.
Meu coração é sapato que não cabe em todo mundo.
Meu coração é um emaranhado de palavras.
Meu coração é uma aeronave com medo de altura, uma criança com medo da solidão.
Meu coração é velhinho de bengalas que se apoia em lembranças pra seguir em frente.
Meu coração tem a cara de todos os rostos que vi, o sabor de todos os sabores que provei, o som de todas músicas que ouvi, a paisagem de todas as fotos que tirei.
Meu coração é criança que esquece de crescer e vê a vida como um eterno conto de fadas.
Meu coração muitas vezes é cérebro, em outras pulmão.
Meu coração é um guarda-roupa que vai se livrando de peças fora de moda, pra que haja lugar pra outras entrarem.
Meu coração é um quebra cabeça à espera da peça que completa o jogo.
Meu coração é joia rara que alguém roubou.
Meu coração é uma borboleta que nasce lagarta mas vai se desenvolvendo até aprender a voar.
Meu coração, antes perdido e agora com rumo. Meu coração, antes preso numa torre e agora nas nuvens. Meu coração antes medroso e agora livre.
Meu coração é teu. TÃO teu.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A vida - assim como o amor - é uma eterna sucessão de choques térmicos.
Vence quem tiver o coração mais forte, de ferro talvez. O meu, ingênuo que só, insiste em ser de carne. E assim a gente vai. Um dia num deserto, outro nos alpes. Um dia contando motivos pra ficar, no outro motivos pra ir embora. Hoje dando pulos de alegria, amanhã fincando os pés em terra firme.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O mundo por trás da pergunta.

- Aceita namorar comigo?
- Aceita estar comigo todos os dias e me amar do início ao fim? Aceita me dar a mão mesmo quando ela fugir de você? Aceita permanecer ao meu lado quando eu estiver mais chata que o normal, quando nem o chocolate resolver, quando nem um milhão de palavras for o suficiente? Aceita a responsabilidade de ser o cara que eu sonhei e o risco de que eu não seja nem metade do que você imaginou? Aceita se molhar só porque eu sou egoísta e não gosto de dividir o guarda-chuva? Aceita todos os meus humores, todas as minhas manias, todos os meus medos? Aceita abrir espaço em você pra que o meu mundo possa entrar? Aceita minhas músicas cafonas, minhas palavras desajeitadas, meus livros bobos? Aceita andar comigo por aí, mesmo sabendo que as pessoas vão olhar atravessado? Aceita dividir segredos, sorrisos e medos? Aceita todo o meu exagero, a minha loucura, a minha tendência ao drama? Aceita minhas birras, minhas fugas e meus recomeços? Aceita que você não vai saber de tudo, porque o mundo dentro de mim é maior que o de fora? Aceita abrir a porta da sua casa e pintar suas paredes de uma nova cor, de modo que fique mais confortável pros meus olhos? Aceita me carregar, ouvir meu choro, sorrir meu sorriso, entender meu silêncio? Aceita me conhecer mesmo sabendo que eu posso ter um lado ruim? Aceita mesmo sabendo que todos os dias eu vou criar listas e mais listas na minha cabeça, avaliando os prós e os contras de nós dois? Aceita meu ciúme estranho? Aceita minha vontade de ser enorme e no momento seguinte ser minúscula? Aceita minha inconstância? Aceita preferir minha companhia a qualquer outra no mundo? Aceita fazer seu abraço ser do tamanho ideal pra mim? Aceita saber que eu vou tentar acertar e errar, tentar ser a melhor pessoa do mundo e fracassar? Aceita perder o futebol só porque eu precisava comprar uma caneta e queria que você fosse comigo? Aceita meu coração enorme e pesado que só, aceita mesmo sabendo que ele é remendado, exagerado e desconfiado? Aceita dar motivos pro meu sorriso existir? Aceita pedir perdão quando errar e ignorar seu orgulho? E o meu, você aceita meu orgulho que ultrapassa meu tamanho? Aceita estar comigo quando estivermos no ritmo certo e quando eu errar o passo da dança? Aceita cantar comigo mesmo se a gente não tiver o mínimo conhecimento da letra da música? Aceita andar comigo mesmo se a gente não fizer noção de qual caminho seguir? Aceita ser inspiração pra minha palavra, motivação pro meu sorriso, empurrão pro meu voo? Aceita ser o cara dos meus sonhos e, mesmo que você não tenha nem 1% dele, aceita se mostrar mil vezes melhor do que ele? Aceita me dar todos os dias um motivo que me faça sentir orgulho por ter escolhido você? Aceita ser ele, o cara cujo o coração dá um pulo ao me ver e murcha feito bexiga quando eu não tô? E, principalmente, aceita me amar mesmo quando eu não te der motivos nenhum pra isso?
- Aceito.
- Aceito.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Diálogo III

- Alô.
- Olha, eu sei que não faz muito sentido te ligar agora. Eu sei que o meu número talvez nem seja mais identificado no seu celular e nem a minha voz pelos seus ouvidos. Eu sei que a piada que nos fez rir já ficou ultrapassada. Eu sei que a porta foi batida, fechada, trancada, e que cadeiras, móveis e fechaduras se instalaram sobre ela pra que não seja aberta novamente. Eu sei que a nossa esquina agora é só mais um pedaço da rua. Eu sei que nenhuma palavra faz nenhum sentido agora. Eu só te liguei porque faz algum tempo que o sentido sumiu. Sumiu mesmo, tá vendo? Eu tô até te ligando. Lembra o pavor que eu tinha de conversar por telefone? Você sempre ria da minha cara quando via o meu pânico ao atender o celular. Na verdade você sempre ria de tudo. Lembra quando fomos ao cinema e acabamos expulsos porque não conseguíamos parar de rir do cabelo da tia da frente? E daquela vez em que eu estava em mais uma de minhas crises existenciais e você cismou em contar piada, lembra do fora que eu te dei na frente de todo mundo e depois saí correndo pra pedir desculpa e acabar rindo com você? Era sempre assim. Eu sempre largava tudo pra ir correndo atrás de você. Eu larguei meus medos, minhas crises, meu ciúme e fui atrás de você. Porque eu sabia que valeria a pena. Que, por mais que eu me cansasse, no final a gente ia acabar dando risada de tudo. Com a gente sempre foi assim, as pessoas olhavam pra gente e nos achavam malucos que não falavam sério nunca. Elas não sabiam que a gente falava sério e que as piadas e as risadas eram uma forma nossa de mostrar que a maior seriedade era o amor que a gente sentia e a felicidade que tínhamos por estar um com o outro. Acho que com tudo isso eu só queria saber se você ainda ri. Porque desde aquele dia em que você foi embora, fazia tempo que eu não dava uma risada daquelas que dava contigo. Mas hoje eu lembrei daquela cantada barata que você disse no meu ouvido no meio de uma de nossas brigas, aquela que dizia que se eu fosse um hamburguer, me chamaria x-princesa, eu lembrei e comecei a rir. Todo riso que eu havia prendido durante todo tempo, saiu hoje com a lembrança. Havia tempo que lembrar de você não me fazia tão bem assim, era sempre uma situação constrangedora, um sensação de ter sido deixada pra trás. Mas hoje eu acho que finalmente superei. Eu finalmente entendi que você veio até mim pra me ensinar a rir, a ser feliz mesmo de tpm, a inventar uma piada em dias de dor. E rir. Até o fim. Até encontrar o sentido ou fazê-lo sumir de vez. Por isso te ligo, pra te agradecer e pra perguntar se você ainda sabe rir. Alô? Você ainda tá aí? O quê? Tá chorando?!?! Eu aqui falando de risada e você chorando, isso é mais uma de suas piadas?
- Não, é sério. É que desde que eu fui embora, eu me sentia culpado por ter levado teu riso junto comigo. Eu te encontrava por aí e parecia que seu sorriso havia murchado. E agora você me ligar pra dizer isso traz um alívio imenso pro meu coração. Então, ria sempre, todos os dias, com motivo ou sem motivo. Ria quando for o fim e quando for o início. Ria quando estiver com vontade de chorar e chore, mas chore de tanto rir. Não deixe que ninguém seja o seu sorriso, ele é só seu, o máximo que você pode fazer é emprestá-lo e dividi-lo, jamais o entregue nas mãos de alguém. Seja do tamanho do seu sorriso, seja como ele, seja enorme, seja forte e brilhante. Não esqueça nunca, afinal, você teve o melhor professor do mundo.

(Risadas dos dois lados da linha)
O fim dessa história fica a critério de cada um.

Ficção.

terça-feira, 15 de junho de 2010

As cores que há em nós.


Hoje algo incrível aconteceu: as ruas, as praças e as casas ganharam um novo tom. Verde e Amarelo. As cores que existem gravadas em cada um de nós, hoje resolveram sair pra tomar um ar e consequentemente transformar tudo a sua volta. O som das buzinas do engarrafamento hoje foi trocado pelo som da vuvuzela; o que dá ordens hoje ordena que o maior e o menor sentem ao seu lado; o negro abraça o branco; o pobre comemora junto ao rico; o Brasil inteiro parece ter dado a mão. Isso se chama uma paixão: futebol. Isso se chama copa do mundo. De quatro em quatro anos ela vem nos lembrar nossos gritos, nossas cores, nosso orgulho. Ela vem nos fazer esquecer que nem sempre o Brasil que a gente quer é o Brasil que a gente tem. Ela vem nos fazer lembrar que uma voz só não é grito, que um atacante só não é time. Ruas fechadas, tsunamis verde e amarelas, expedientes encerrados antes da hora. Parece que hoje todos acordaram com um lembrete colado na geladeira: ser brasileiro. Hoje é dia. Pena que sejam raras as vezes, pena que nem todos acreditem no país, pena que nem todos valorizem o que tem aqui. Mas ainda bem que a gente tem em cada esquina pelo menos uma bandeirinha e que até os mais tímidos hoje saíram do armário. É dia de torcer, é tempo de lembrar quem é o nosso país, é hora de tirar o luto e por em uso o verde, o amarelo e o azul. Ainda que acabe daqui a alguns dias e depois tudo volte ao normal, ainda que o hexa fique apenas no sonho, ainda que seja tudo isso só de quatro em quatro anos, 'vambora', Brasil. Viver o grito que fala sobre ter orgulho em ser brasileiro. Vamos lá mostrar com quantos passes se faz um gol, com quantos ILS se faz um grito, com quantas pessoas se faz uma nação. Pra frente, Brasil, colorir o mundo com as nossas cores, fazer os argentinos nos aplaudirem, mostrar que o futebol é nosso e fim. É de arrepiar o grito de gol, é de fazer o coração ir a boca cada corrida à área de ataque, é de emocionar ver a torcida e os jogadores comemorarem. E se é tudo isso, por que não ser tudo isso o tempo todo? Por que acaba na festa de encerramento e só começa na outra de abertura? Existem sentimentos que precisam ser vividos todos os dias, existe um verde e um amarelo que devem ser vestidos todos os dias, existe um orgulho que precisa renascer todos os dias. Que essa seja a copa, que esse seja o hexa, que esse seja o nosso tempo. Na próxima vez será aqui. Na terra adorada, na pátria amada, no país tropical. Que esse seja o pontapé inicial pra decolagem verdamarela. E se não for o hexa, que seja o penta renascido. E se não for nem a final, que seja a alegria de uma. E se não forem os jogadores certos, que os errados se façam ser. Que a bandeirinha na janela não seja retirada quando o jogo acabar, que as blusas verde e amarelas não voltem para o armário, que o grito não fique preso na garganta. E se amanhã não tiver seleção, que tenha pelo menos o mesmo orgulho, a mesma cor, o mesmo sentimento que hoje fez com que o Brasil inteiro parasse e lembrasse das cores que há em nós.

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Computador ruim + vestibular = nicole cada vez mais longe daqui rs.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Carta para um (des)amor.

Hoje faz um ano desde o dia em que mandei você embora. Hoje, com céu nublado, vento frio e chuva que não passa, daqui da minha janela enquanto escrevo olho pra mesma porta pela qual um dia você saiu. Faz um ano que minhas palavras se recolheram, meu coração murchou e o cara que eu mais havia amado foi embora. Foi embora porque eu o expulsei. Lembro que foi difícil tomar a decisão, enrolei enquanto pude, dei outros nomes a emoção, camuflei, fingi que daria certo assim. Tentei até o último minuto, mas um dia aconteceu. Num desses dias de chuva e céu nublado, exatamente como hoje, eu decidi que o seu lugar não era ao meu lado. Se doeu? ah, doeu. Além do que eu imaginei que pudesse sentir um dia. E te contar talvez tenha sido a parte mais difícil. Depois de tanto tempo sem poder te ver, te encontrar justamente pra dizer que não haveria mais nós foi o sacrifício maior. Talvez pra você tenha sido normal. Agora, de longe, parece que o sentimento sempre foi unilateral. Pra você talvez tenha sido só mais uma apaixonada pelo cara que sempre conquistou todo mundo. Só que pra mim nunca foi assim, talvez você saiba. Pra mim, sempre foi mais que coisa de momento, mais que diversão. E por mais que você fingisse não estar dentro, eu sabia que você estava. Quando precisava de alguém pra sorrir era a mim que você procurava. Quando pensava em saudade era meu o primeiro nome que vinha a sua cabeça. Não adiantava fingir na frente dos seus amigos que você era o cara mais esperto do mundo, eu sempre soube que tudo aquilo era só um disfarce, um disfarce do que havia dentro de você e só eu conheci. Mas agora já faz um ano e lembrar disso tudo não é mais difícil. Um dia desses eu até lembrei de você, sem querer, enquanto alguém mencionava alguma coisa sobre seu time - ele sempre foi sua maior paixão, eu lembro. E lembrei da gente, de como ríamos juntos, do quanto nos divertíamos e nos sentíamos a vontade pra nos livrar de nossas capas. Senti um aperto no coração, confesso, por estar te esquecendo, aceitando a inevitável ação do tempo: arrastar tudo da nossa memória. Mas hoje, no aniversário de um ano da sua ausência, te transformo eterno nesse texto e escrevo pra agradecer, você me ensinou muito. Sobre tempo certo, pessoa certa e propósito certo. Aprendi que não adianta a vontade, existe antes uma coisa chamada propósito, e os nossos seguiam caminhos diferentes demais. Você me ensinou que existem milhares de caras certos por aí, mas não adianta se não for o cara certo sob medida pra você. Você, sem dúvidas, é um cara certo. Não o meu. Mas de alguém melhor. Alguém que possa seguir contigo esse caminho que pra mim não teria jeito. Você me ensinou a sentir. A não parar diante de qualquer barreira, a ir além ainda que doa, a não abrir mão de opiniões por ninguém. Você incentivou minhas palavras, as ensinou a se desprenderem e saírem por aí livres, de encontro ao destinatário certo. No começo a sua ausência quis doer, mas aí eu lembrei de você e você é uma dessas pessoas que fazem a gente sorrir por ter conhecido e sentir um orgulho besta por ter sido escolhida. Te escrevo também pra dizer que todas as palavras eram verdadeiras, talvez não façam sentido agora, mas na época transbordavam dele. O sempre ao qual me referi um dia ainda existe, o amor vai mas O amor fica. E a amizade é a maior prova que ele existe. Guarde isso sem dor, mágoa ou ressentimento: nossas linhas eram tortas demais pra seguirem o mesmo caminho. Siga o caminho que você escolheu e encontre a pessoa certa pra você. E que te faça sorrir, cantar, desenhar arco-íris e quem sabe um dia me escrever algo assim. Que seja doce a sua vida, enquanto a minha eu vou fazendo questão de adoçar. Porque agora o céu clareou, saíram as nuvens, voltou o sol. Agora eu já posso ir lá fora, porque você me ensinou que arriscar é o grande segredo da vida e que se der errado, se a gente cair, por mais que doa, um dia passa, assim como a chuva. Vou sair pela mesma porta que naquele dia você saiu e procurar alguém que possa entrar por ela e permanecer aqui, seguindo o mesmo caminho que eu. Abra sua porta, deixe o novo entrar também e seja feliz fazendo o que você sabe fazer melhor: provocar sorrisos.

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Da coleção dos cadernos antigos rs, encontrei perdido e resolvi postar :)

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