quarta-feira, 24 de março de 2010

História que nos contam na cama,

antes da gente dormir.

Eram amigos. Sempre foram. Daqueles amigos que contam tudo um pro outro, estão ali pra qualquer hora, pra rir da cara de um professor ou pra falar sobre a nova dor de cotovelo. As pessoas diziam que havia um algo a mais naquela amizade. Havia uma forma de amor escondida, com medo de se revelar e acabar com uma amizade como aquela. Foram três anos juntos, afinal. Não se constrói uma amizade assim tão fácil quanto se destrói. E seguiram assim. Três anos de sorrisos sem motivo, gargalhadas a qualquer hora, lágrimas compartilhadas, segredos sussurrados, brigas bobas por ciúme, paixão não-declarada. No primeiro ano não foi assim, ainda estavam se conhecendo, examinando os costumes, os jeitos e trejeitos. No segundo ano, o que começou meio sem jeito, foi ganhando forma, cor e um significado que não cabe a nenhum dos dois definir, a vida se encarrega dessas coisas. E agora o terceiro ano, o último ano de colégio, depois dali o que seria daquela amizade? E-mail, telefone, sms, tudo frio demais, distante demais. Ambos sabiam que aquele ano seria decisivo, mas mesmo estando cientes, não ousaram arriscar. Não ousaram usar palavras como amor. Não ousaram usar frases como eu-te-amo-além-dessa-amizade-vem-comigo. E acabaram por se afastar. Deixaram o medo falar mais alto. Se afastaram logo pra evitar um sofrimento maior quando precisassem se afastar até sabe-se-lá-quando. Mas hoje, no dia da formatura, decidiram que iriam deixar claro tudo o que aconteceu. Hoje seria o último dia de colegial, o último dia pra dizer obrigado por ter aparecido, o último momento pra dizer assim, olho no olho, eu te amo.
Se arrumaram na expectativa, ensairam suas frases em frente ao espelho, ela ia dizer que embora não o tivesse amado da mesma forma que sabia que ele a amava, ainda assim amava. De um jeito só dela, de um jeito meio torto, meio às avessas, mas do único jeito que o coração dela se atrevia a amar. Ia agradecer por ter acreditado nela, por a ter visto quando pro resto do mundo ela parecia ser invisível. Ia dizer que sabia o tempo todo, mas teve medo e que se ele quisesse agora, tudo bem, mas ainda teria que mudar algumas coisas. Mas que estava disposta a tentar, a não deixar algo tão bonito assim se perder.
Ele ia dizer de um jeito meio sem jeito que ela era aquela. A que havia merecido músicas, palavras, solos. Ela era a que o tempo todo o fez sorrir bobo e fazer coisas bobas procurando chamar a atenção. Era pra ela todas as ceninhas, pra tentar provocar um ciúme e quem sabe assim acender a chama de um possível amor. Ele ia pedir perdão por todas as besteiras ditas, por ter sido tão bobo o tempo todo e por não ter levado a sério. Ele ia dizer que amava, de um jeito novo, tão bobo, tão simples, tão verdadeiro. Ele ia pedir pra ela não sumir, pra não se perder nunca dele, pra não deixar algo tão bonito assim se perder.
E foram. Vestidos em trajes de gala e armados com as palavras mais poderosas do mundo. Não sabiam se ia adiantar alguma coisa, mas estavam dispostos a ir. Em frente, adiante, aonde o amor deles fosse capaz de chegar. E em meio a toda aquela gente conhecida. Em meio a tantos olhares comuns e sorrisos sem nada demais, eles se encontraram. E se abraçaram como dois amigos que não se veem a muito tempo. Então ele a puxou pra uma valsa, a primeira daquela noite, destinada àqueles que esperam uma mudança dali pra frente. Tentaram falar, mas não conseguiram. Parecia que as palavras tirariam a mágica do momento. E se a voz falhasse? E se não fosse nada daquilo? Entretanto, não precisaram falar. Aqueles olhos que tentavam se encontrar havia tanto tempo, finalmente se acharam. Aquelas mãos já cansadas de tocar sem tocar, finalmente se tocaram. Aquelas palavras há tanto tempo presas, finalmente se soltaram. Através daqueles olhos, através daquelas mãos, através daqueles corações que finalmente se encontraram em suas esperas.
- O que eu sinto por você jamais vai mudar. - disse ele meio sem jeito. É claro que eu amo você.
- Eu não consigo encontrar palavras pra dizer. - disse ela, com um sorriso em meio às lágrimas que insistiam em descer.
- Então não diz nada, só fica aqui pra sempre, que eu te carrego pra onde for.

Edição visual, edição musical, edição conto/história.


5 comentários:

Sarah disse...

Ai que coisa lindaaa ! :') Eu sou uma coração de manteiga, não posso ler coisas destas ! Hahaha

Adorei isto:

"E se abraçaram como dois amigos que não se veem a muito tempo. Então ele a puxou pra uma valsa, a primeira daquela noite, destinada àqueles que esperam uma mudança dali pra frente. Tentaram falar, mas não conseguiram. Parecia que as palavras tirariam a mágica do momento."
E não é que tiram mesmo? Nós infelizmente ainda não aprendemos a nos calar...deixamos, tantas vezes, escapar a mágica do momento..

Adorei! Te sigo também! :*

Gio disse...

Nicole, me encontrei e me perdi ai dentro. Me trouxe uma realidade tão verdadeira. Deus! ME EMOCIONEI MUITO. Nem preciso dizer que estou chorando né? No ano certo, no dia certo, você tem o dom. Obrigada por TUDO

Little dreamer disse...

Se superando. Sua capacidade de criaçao é incrivel. Saudade dos seus singelos comentarios de sempre... Ops, ja havia dito isso antes ne? hehe

Mandy disse...

Nossa Nick, ameeei demais esse texto. Sabe quando a gente lê um livro e sai imaginando cada passo do que ta sendo narrado? Então, me senti assim ai. Ameei muito. *-*
Como sempre lindo o seu texto.

Beijo
Mandy

Ju Fuzetto disse...

Divino!

Um beijo flor e bom final de semana!!!

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