terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Você - não eu.


Acredita que eu já estive aí? Que antes de você aparecer era pra mim o que ela escrevia? A saudade que sambava no peito dela e que a fazia suspirar, era por mim. Era comigo que ela sonhava antes de dormir. Era comigo que ela desejava estar a cada amanhecer. Era por mim que ela esperava em cada esquina. Ainda tenho tudo o que foi escrito e principalmente: ainda tenho tudo o que foi sentido. Ela não tem mais. Você apareceu no caminho. E o que era meu, de repente transformou-se, ganhou um sentido maior - e uma intensidade também, eu percebi - e tornou-se seu. Acompanhei de longe - e mesmo assim de perto - a felicidade dela. O amor da minha vida também era o da sua, e você, ao contrário de mim, não era cercado de impossibilidades.
Confesso que fiquei triste, seria hipocrisia dizer que não. As pessoas me diziam que se eu a amava mesmo deveria estar feliz por ela, pelo coração dela ter conseguido enfim descanso nos braços de alguém - ainda que não fosse eu. Mas tudo isso é uma porção de filosofia que só serve na teoria, na prática somos todos humanos e morremos um pouco quando o nosso amor encontra abrigo em outro. E eu morri. Todas as vezes em que meu pensamento voou pra onde ela estaria e não mais a encontrou. Todas as vezes em que a janela do msn subiu e era o nome dela com uma foto sua o que aparecia. Todas as vezes em que ela lançava uma frase romântica no ar. Descobri várias formas de morrer e continuar vivendo. Descobri meios de chorar por mim e sorrir por ela. O meu coração encontrou formas de estar partido e continuar batendo. Um dia chorei ao vê-la me tratando de forma tão diferente da anterior, mas não consegui nem por um momento sentir uma fagulha sequer de raiva, só consegui admirar mais aquela menina que foi fiel à você até o fim - em pensamentos, palavras e atos - e que continou sendo minha amiga e se importando comigo porque sabia que o meu coração ainda batia por ela - e ela jamais admitiu que um coração fosse destruído por suas mãos.
Eu a admirei cada vez mais. Essa é só mais uma das coisas que você deve saber: eu a admiro. Admiro a sinceridade que a cerca, os sorrisos sempre exatos, seu jeito meio tímido de dizer o que não sabe ao certo. Admiro a verdade que inunda cada palavra que ela digita e a preocupação que ela tem em usá-las sempre para o bem. Admiro o seu senso de humor tão peculiar, o seu jeito bobo de ficar sem graça com qualquer frase inesperada, a simpatia que oferece a cada um que se aproxima. E eu ficaria aqui, horas e horas, detalhando pra você as qualidades infinitas que eu enxergo na menina que te carrega dentro do coração dela. Todos os dias quando pensava em você andando de mãos dadas com ela, eu me perguntava se você havia conseguido enxergar tudo isso também, se você era capaz de descobrir o que ela deixava pelas entrelinhas e se você entendia a necessidade de ser descoberta que ela possui. Essa menina - que eu amo e que te ama - tem muito a oferecer, mas o fantástico mundo que ela carrega consigo precisa ser descoberto.
Eu não tive tempo de chegar até lá. No meio do meu caminho, você apareceu. Eu te chamaria de pedra se você não fosse tão bom pra ela. Se o coração dela não tivesse conseguido motivos pra sorrir e sonhar ao seu lado. Então depois eu passei a te admirar por ter feito com que ela escolhesse você no meio de tanta gente, por ter atraído sua atenção e descoberto o caminho até o seu mundo. Passei a te invejar. Desejei que fosse eu o navegante desse barco que cruzava os mares do coração dela. Mas era você. E ainda é. Carregamos grandes semelhanças, mas eu não sou você. Ambos tivemos a sorte de termos sido escolhidos, tivemos o prazer de nos banhar em palavras nãão-ditas, tivemos a responsabilidade de fazê-la sorrir. Ambos a amamos. Mas existe a diferença crucial, a reta que te aproxima dela, o sonho que não é mais meu: o amor dela. É teu. Inteiro, do início ao fim, brotando de cada pedacinho do coração que há pouco foi partido. Cada migalha de amor é tua. Se fosse eu, me agarraria à elas com todas as forças por saber que um amor assim a gente não encontra todo dia. Por saber que ser escolhido por ela é coisa rara. Por entender que o que é guardado em estoques tem muito mais valor do que é exposto de uma vez na vitrine. Não desista. Descubra-a. Leia em seus olhos e veja o que ela precisa: você - não eu.

(20/12/10)
Baseado em fatos reais.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

I'm a believer.


- Como pode, menina, me diz? Como você ainda acredita nessas coisas? No quê? Você sabe: nas pessoas, no amor, num amanhã melhor do que o hoje. Te vejo suspirando pelos cantos, traçando planos mirabolantes, jogando palavras ao vento, e me pergunto como você consegue, de onde você tira tanta determinação? Deve ser algum tipo de predestinação, alguém um dia decidiu que você carregaria esse peso sobre os ombros: ser uma sonhadora. E você se apoderou do título. Teu sonho conduz tua vida, direciona teus passos, molda teu caminho. E você não desiste até alcançá-lo. Não cansa não? acreditar na vida assim, procurar tanto por um amor, quando o mundo lá fora grita que não há mais espaço para finais felizes, muito menos para "felizes para sempre"? Onde já se viu sonhar com amores eternos num mundo tão fugaz? Contos de fadas não existem mais, menina. Todas essas loucuras com que você sonha, as cenas de filme, os pores de sol, as declarações inesperadas, o amor maior do que tudo, tudo isso talvez seja coisa de outro mundo. Me perturba vê-la aqui parada nessa estação a espera do trem que te levará a esse outro mundo. E se ele não mais existir? E se uma onda gigante destruiu o que restara dele? E se todas as pontes que permitiam o acesso foram destruídas? E se? Existem tantos outros trens com tantos outros destinos diferentes, por que insistir nesse destino desconhecido? E se não chegar nunca? Eu sei, você vai dizer que não desiste até chegar lá. Mas em algum momento a espera deve machucar, não? Como naquela vez em que fostes arremessada de forma abrupta do trem que te levaria até lá. Te observei em silêncio, menina, e dessa vez achei que fosse o fim, que você não voltaria jamais a esse ponto de espera que poderia te levar novamente àquela dor incessante que sentias. Mas você voltou. Rasgou pedaços de papel, chorou, sumiu daqui por uns dias, se trancou em seu mundo, mas voltou. Quando eu menos esperei, te vi sorrir ao sentar em frente à plataforma. Lá estava você: cabeça erguida, malas prontas pra começar tudo de novo, esse amor pela vida exposto em cada poro do teu rosto. Você ressurgiu com esperança. De onde sai tudo isso, menina? Que chama de esperança é essa que não apaga nem com as chuvas e rajadas de vento que a vida lança sobre ti? E essas lágrimas que vez ou outra caem? não te ensinam nada? não te dão uma lição? Não, a resposta provavelmente é essa ou então algum daqueles clichês de gente lunática que falam sobre volta por cima e lágrimas serem parte da vida. Lembro daquele dia em que te vi chorar e você sorriu em meio as lágrimas quando me viu e disse baixinho: "Eu ainda acredito." Esse deve ser o teu grito de guerra, menina. Suspeito que no meio da tua angústia, você levanta e brada que ainda acredita. Admiro você. Admiro a sua coragem e sua entrega. Mas me diz, menina, mesmo assistindo de perto a todas essas chegadas e partidas dolorosas, você ainda acredita?
(Eu acredito até o fim.)


 "Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês,
ilhas gregas e happy ends, ela queria acreditar."
(Caio Fernando Abreu)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Ao meu Papai Noel.


Querido Papai Noel, sei que estás comigo além dessa época de canções natalinas, roupas novas e luzes piscando na varanda - coisas que só existem porque você um dia veio ao mundo. Sei que não é necessário uma carta, porque você ouve cada sussurrar e cada gemido do meu coração, mas o fim do ano se anuncia e pra não perder o costume, escreverei para o teu pólo norte, que é aqui bem perto de mim. Sempre me atrapalhei com pedidos, confesso, tenho medo de exceder meu limite e exigir demais, pedir o que você não pode me dar e passar o ano me lamentando porque o meu papai noel esquecera de ler minha carta, quando na verdade, eu sei que pedi além do que me era permitido, coisas que eram aparentemente boas pra mim, mas que você, papai noel, sabia bem que eu não estava preparada para recebê-las ou merecia algo melhor, além do que eu sempre imaginara. Me atraverei a listar meus pedidos, mas tu tens carta branca para tirá-los da lista e substituí-los por algo melhor. O que eu peço Papai Noel, é um monte de coisa que não posso comprar em lojas nem tocar. Peço coisas pro coração, porque sei que se ele estiver em paz, todo o resto dançará conforme suas batidas.
Quero poder ser sempre de verdade, nunca precisar esconder o que sinto, fazer de conta que sou alguma coisa pra ser bem aceita; quero que me aceitem assim: cheia de falhas, com minhas piadas sem graça, minhas palavras desajeitadas e todo o mistério que me cerca. Quero que o meu sorriso seja sempre verdadeiro e que em cada lágrima que ele camuflar, seja encontrada a força necessária pra mantê-lo firme durante todos os anos. Quero ser feito música pra alguém: infinita e inesquecível. Que a minha presença conforte, anime, faça bem. Que as minhas palavram encontrem sempre um endereço, ainda que distante. Que a alegria jamais se perca de mim. Que meu coração seja sempre bem povoado. Que o pra sempre se torne uma verdade na minha vida. Que "Ser Feliz" torne-se meu grito de guerra. Quero novos sonhos, novos olhares, novas oportunidades. Quero escrever meu futuro, tecê-lo fio por fio, participar com orgulho de cada etapa até a realização completa. Quero pessoas amadas por perto - ainda que só perto do coração. Que os votos de amizade eterna declarados hoje, se renovem a cada manhã. Que não haja impossível e que os que pintarem no caminho sejam sufocados com as cores da possibilidade. Que dor nenhuma me tire a beleza da vida. Que de cada queda eu levante com mais força. Que o amor encontre seu caminho até mim e que pra ele não haja fim. Que eu não perca nunca a esperança de encontrá-lo na próxima esquina, ainda que a próxima esquina fique a milhas de distância de onde estou. Que as canções que repetem na minha mente a ideia da desistência, não sejam capazes de influenciar-me: estarei firme no amor até o fim. Quero os melhores beijos, as cenas improvisadas, as crises superadas. Quero frases, fotos, publicidade no amor - ainda que depois só reste a vontade de escondê-lo do mundo e perder-se num abraço eterno. Quero oceanos atravessados, distâncias encurtadas, amor impossível acontecendo na frente dos meus olhos. Quero clichês, sentimentos bonitos, perdão. Quero segundas chances, o que não foi dito gritado, espaço e tempo pra ser infinito. Não quero ser envergonhada, quero ver tudo o que acredito tornando-se real.
Quero, Papai Noel, tudo aquilo que te digo todos os dias e que não cabe nesse pedaço de papel. Lembra de mim, daquela voz tímida que sempre pede as mesmas coisas, lembra das orações que faço no silêncio da noite e dos nomes que incluo. Lembra das inúmeras cartas que te escrevo além do natal, sem caneta, nem sempre com o meu endereço, mas tantas vezes com aquele destinatário tão distante de mim - cuida dele por mim, papai noel, faz desse o nosso segredo e envia teus presentes mais bonitos.
Por fim, Papai Noel, que as meias penduradas sejam cheias de amor, sorrisos, amizades, "felizes pra sempre", sonhos e realizações. E que seja assim a cada natal. Para Sempre.

"E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também."
(Oswaldo Montenegro)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Love song for no one.


"I'll hide in my bedroom
Staying up all night just to write
A love song for no one"

É madrugada de um dia que eu não sei qual é. Sentada em frente à janela vejo as gotas de chuva começarem a cair e no fundo John Mayer canta sua love song for no one. E eu aqui, perdida em pensamentos, me pergunto onde você estará, imerso em qual mundo, vigiado por quais vistas? Te escrevo canções, poesias e parágrafos inteiros, mas por fim não sei quem és, só sei que existes. Em alguma esquina da minha vida, em algum parêntese sabiamente colocado, em alguma interrogação a ser respondida com a sua presença. Por aqui te chamam de chinelo velho, tampa da panela, metade da laranja. E se quiser saber, de todos esses rótulos o que mais combina contigo é o de chinelo velho. Porque o meu pé está cansado que só. Corremos tanto por esse mundo, às vezes em círculo, outras em linha reta, e na maioria subindo altas montanhas onde fazia frio e o vento era quase insuportável. Se houvesse uma regra que ditasse que a velhice do chinelo tivesse que ser diretamente proporcional ao cansaço do pé, sua idade beiraria o infinito. Mas não se assuste, embora cansado, meu pé tem forças, meu coração tem sede de mais, minha vida anseia por motivos que me façam correr, saltar montes, escalar montanhas. Só que não hoje. Se você chegasse hoje, exatamente à essa hora que o relógio marca, nessa mesma estação em que nos encontramos, teria um trabalho dos grandes. O meu jardim está cheio de ervas daninhas, fantasmas e monstros cercam meu castelo e ando cansada de impor minha presença. Só sinto vontade de ficar assim, quietinha olhando a janela, com o telefone do lado, a caixa de e-mail aberta, o olho no carteiro que passa todo dia, preciso agora que me encontrem. Que a minha presença, um dia tão imposta, seja procurada. Que a minha ausência seja sentida. Que o meu valor seja descoberto. Você saberá o certo a se fazer. Você terá um braço que não cansará, ombros que sobrem num abraço pra que eu possa explorá-lo sem sobrecarregar nenhum lado, voz que não fique rouca. Não espero perfeição porque serás meu e o perfeito sempre me assustou. Não quero ter medo de te tocar e vê-lo quebrando em mil pedacinhos, não quero me sentir menor ao te olhar, não quero nem o vislumbre da perfeição. Quero você imperfeito. Com todos os defeitos que mantêm teu edifício de pé. Com todas as manias que o fazem ter nascido pra mim. Com todas as cores que fazem o teu chinelo ser perfeito pra estação em que vive o meu pé. Venha a seu tempo e me encontre aqui. No ponto de partida. Vem e me leva embora dessa falta de vida. Descobriremos nossos caminhos e sararemos nossas dores. Me leva até o lugar onde se esconde o pra sempre, onde pra cada gota de lágrima há uma cachoeira de sorrisos, onde o amor acontece acima de qualquer obstáculo. Deve haver um lugar onde as pessoas ainda acreditam, onde o sentimento ainda consegue vencer, onde, mesmo lotadas, há espaço nas agendas para o amor. Pra que você não se assuste, faço questão de avisar: sou feita de amor. Meu sangue deve ter pequenos glóbulos em formato de coração, meus balões de pensamento são de algodão doce, minha fé em contos de fadas permanece intacta apesar dos baques da vida. De fato, ao me encontrar, você terá um peso enorme nos seus ombros: meus sonhos. Mas deles você saberá cuidar. O chinelo velho pro meu pé cansado, mesmo que inconscientemente, foi jogado no mundo com essa missão. E deve ter uma porção de sonhos, uma boa dose de palavras bonitas e músicas de amor, reservadas pra mim. Mas por hoje, enquanto ele não vem, ouço mais uma vez aquela canção, danço sozinha pelo quarto, descanso a minha presença. Me limpo por dentro enquanto ele não vem. Me conheço, me defino, me valorizo enquanto ele não vem. E espero por ele, enquanto ele não vem.

"I'm tired of being alone
So hurry up and get here
So tired of being alone
So hurry up and get here
You'll be so good for me"
(John Mayer)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sobre o que hoje é ventila-dor.


Tudo começou meio do nada. Um dia, enquanto deveria estar dormindo, uma garotinha amontoou um monte de palavras numa folha de papel e escondeu num caderno velho. Não era uma carta, nem nada que pudesse ser endereçado à alguém, era só uma história, uma daquelas histórias que vivem na cabeça de garotinhas que sonham acordada com o tal grande amor. Não sei ao certo como surgiu a ideia, mas um dia a menina pensou em publicá-la em algum lugar, talvez pra que soubessem que dentro daquela menina tímida com o sorriso fixo no rosto, existia um mundo inteiro de sonhos e amores. E assim o fez. Transformou o texto em foto e criou um porta-retrato pra ele. E veio um elogio. E depois outro. E mais outro. E logo depois as perguntas: será que é isso o que eu sei fazer? será que inventar histórias é mesmo o meu talento e não só algo que faço enquanto o sono não vem? será que nasci assim tão tímida e secreta pra que meus dedos tivessem espaço pra falar por mim? E a menina, cheia de dúvidas e inseguranças, se achando mais incapaz do que capaz, resolveu criar um blog, um lugar onde outras meninas sonhadoras pudessem descansar os sonhos e saber que não estavam sozinhas. Então criou: uunsaid-things. Coisas nãão-ditas. Eram isso mesmo. Eram tudo o que a menina não sabia dizer, o que sentia vontade de gritar quando ainda era rouca pra esse tipo de coisa, o que enxergava no mundo e não sabia se tinha o direito de dizer. Por um momento ela pensou que fosse covardia, que as palavras fossem uma forma de se proteger do mundo, mas depois descobriu que era coragem, cara limpa na hora de falar de amor, decisão de se expor sem medo de entenderem ou não. O que era blog virou coração. O que era hobby virou necessidade. O que era só mais uma coisa, virou uma coisa enorme que a aproximou de gente de verdade, gente que sentia como ela, gente que não tinha medo de dizer que o mundo de dentro existe sim e que é maior do que o exterior. O que hoje é ventila-dor, já foi coração e alma; terra do coração; flores, amores e blábláblá - e um dia será outro e depois outro e mais outro, são fases da vida, mudanças da alma, amadurecimento quiçá. O que hoje é público já foi secreto, coisa pra quem não a conhecia; já foi desativado por medo, vergonha, arrependimento; já teve outro endereço que só serviu pra lembrar o quão sem sentido era se esconder. Depois de tudo, tudo ficou. As palavras que um dia sumiram, voltaram ao lugar, com todas as devidas pontuações. A menina, que um dia pensou escrever pra alguém, descobriu que escrevia pra si. Pra que pudesse se conhecer, colocar os pingos nos seus próprios i's, saber o que existia e deixava de existir dentro daquele coração que só conhecera amor. Descobrira que tudo era dela. Cada vírgula, cada acento, cada travessão. Tudo fora parte do que hoje ela é e nada sumiria, nada se esconderia, nada a faria se arrepender. Era composta mesmo por cada texto publicado, por cada frase respirada e duramente pontuada. Desde o início fora aquilo que escrevera, nunca soubera mentir, disfarçar, criar personagens tão distintos de si. Hoje a menina sabe da necessidade do blog, da importância de escrever, de tudo o que esse mundo criado representa pra ela. Não pretende parar, nem ao menos se ausentar temporariamente, seguirá escrevendo. Mesmo quando não souber o que dizer, mesmo quando os nós estiverem prendendo as palavras, mesmo quando a felicidade for intraduzível. Mudará sim, de nome, características, estilos até, mas nunca de endereço. Estará sempre aqui com suas palavras nãão-ditas. Perdida num mundo que criou e de onde não consegue mais sair. Cercada de gente que diz, num comentário ou no silêncio, através das visitas, das procuras, do digitar o www no navegador, que nem tudo o que está aqui é material ruim, que alguma coisa sempre se aproveita e que o coração sempre fala melhor do que qualquer um. É a essa gente que a menina agradece. Porque tantas vezes pensou em desistir e em todas elas a impediram. Vocês, minha gente, são incríveis. Não desistam dessa menina que, mesmo sem saber nada sobre a vida, arrisca umas jogadas vezenquando e acaba acertando; que não sabe nada sobre o amor, mas que consegue falar o que tanta gente sente com ele. Me encontrem aqui e aí em seus respectivos blogs. Nem sempre comento, porque nem sempre sei o que dizer, mas sempre, sempre mesmo, confiro os textos, leio os antigos, sublinho frases importantes na minha mente. São mais de duzentos seguidores que eu consegui não sei como, são 9.000 visitas que vocês fizeram sei lá por quê, mas é tudo isso que me faz ter orgulho do que vou me tornando dia após dia. Obrigada por aturarem meu drama, meus questionamentos, minhas crises - de tristeza e de alegria. Continuem sempre, voltem todas as vezes possíveis, tudo isso aqui é meu, mas é também de vocês. Obrigada, obrigada, obrigada. É clichê dizer, mas é verdadeiro também, meu coração não aguenta ver todas essas visitas, todas essas procuras, todos esses comentários tão cuidadosamente escritos, fico imensamente feliz ao encontrá-los por aqui. Tudo porquê aquela garotinha que começou isso aqui hoje sou eu. E nós nunca imaginamos que o futuro faria isso. Que meus dedos teriam essa força. Que o meu coração tivesse tanto a falar e fosse capaz de alcançar tantos outros por aí.
Obrigada.
A palavra é a nossa arma.
E sempre que precisarem de reforço, me gritem.


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Oi, gente, bom, talvez esse texto seja um recomeço, porque eu estive bem afastada do blog, deixei de aparecer em outros, apareci pra postar e pronto. Não gosto disso e acho incorreto com vocês que sempre são super legais comigo, por isso me perdoem. Então, em agosto o blog fez 1 ano e eu planejei algumas coisas que não puderam ser feitas devido à minha falta de tempo e ao vestibular, portanto, agora nas férias, tentarei pôr o plano em prática, postarei todos os selos que vocês me dão de presente, indicarei todos os que de alguma forma são importantes pra mim. Perdoem minha ausência e esperem uma Nicole mais presente e mais dedicada à isso aqui. Obrigada por tudo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A menina e o amor.


Queria escrever mas nada saía. As palavras não obedeciam aos comandos e o coração continuava pesado com tudo o que sentia sozinho. Queria gritar mas estava rouca. Havia gritado amores e paixões aos quatro ventos e agora a voz não mais existia. Havia tentado amar de um jeito certo e acabara sobrando no final: com um adeus nunca dito, um amor nunca acabado e uma sede nunca saciada. A menina tinha sede de amor. Não conseguia entender como seu coração era capaz de desejar tanto algo que o dilacerava. Tentara esquecer. Tentara não pensar. Tentara fazer de conta que não sentia. Mas o amor não a deixava. Em todas as estradas, o amor parecia ser o local para onde ela sempre era conduzida. Em todas as paradas, todos os estágios, no frio da montanha ou no calor de uma praia: era o amor que sempre a encontrava. Quando chorava ou sorria, o amor. Quando escrevia, gritava, cantava, o amor. Nascera pra ele, a diziam. Era uma menina com um amor que não a largava. Um amor talvez não mais correspondido, mas crescente de forma louca, desobediente e avassaladora. Um amor agora já sem sentido, quase uma lembrança perdida num bilhete de gaveta pra uns, mas um anúncio enorme num outdoor para ela. Todos os dias lembrava dele. Todos os dias ansiava por ele. Todos os dias sonhava com ele. Com o amor e com ele. Com o dia em que o amor e ele se fundiram e vieram como um foguete invadir o país coração dela. Se agarrava a esperanças, incentivava todas as pequenas fagulhas de esperança que vez ou outra ameaçavam apagar. Se agarrava a palavras, construía pontes, portos e abrigos com elas. Se perdia em pensamentos, desejava que o amor fosse nele tão irresponsável quanto nela e que fizesse nascer impulsos que o levassem a largar tudo e saltar os abismos pra chegar até aqui. Até a esquina em que ela e o amor se escondem do mundo. A menina apenas espera. Com os braços abertos que vezenquando ameaçam doer, mas que ainda encontram paredes concretas onde podem se apoiar. A menina com o amor já sofreu demais, já chorou todo choro do mundo, já desejou ser imune à ele. Mas ela aprendeu que ele é maior. E que sempre vence. Ainda que demore, ainda que fique sufocado com tanta pedra, o amor vence. Ela o deixaria vencer enquanto vivesse. Enquanto respirasse, respiraria amor. Enquanto dançasse, dançaria amor. Enquanto escrevesse, sentisse e vivesse, seria amor, amor, amor.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Des(encontro)


Viajei no tempo essa noite. Não sei se sonhei ou se realmente estive lá. Não consigo definir. Mas fui até o futuro, até o lugar que tanto me assusta hoje. Era um noite quente, no céu imperava uma lua cheia, o mar calmo ia e vinha com pequenas ondas. Estávamos nós dois na praia, ninguém mais passava, éramos nós e a natureza, nós e nossos pensamentos, nós e eu ali parada observando. A praia era só nossa, entretanto estávamos um em cada ponta, não nos sabíamos ali. Eu pensava estar sozinha com a minha solidão e você com a sua. Os dois sentados na areia, de frente pro mar. E isso era tudo o que eu podia ver. Não conseguia ver nossos rostos, não sabia se sorríamos ou chorávamos. Talvez estivéssemos fugindo da agitação da nossa vida, talvez buscando respostas. Talvez esperássemos alguém pra nos encontrar e carregar a nossa solidão no colo, talvez nossa única esperança de companhia fosse a própria solidão. Não conseguia saber se estávamos felizes, se nossas vidas estavam no rumo certo, se acabamos nos tornando o que tanto sonhamos. Imaginei quando teria sido a última vez que nos vimos ou a última vez em que pronunciamos algumas palavras; imaginei se você ainda lembrava de mim, ou se eu era apenas mais uma lembrança de fundo de gaveta, guardada junto com alguns papéis amarelados pelo tempo. Imaginei se eu ainda pensava em você, se ainda esperava que em algum momento o telefone tocasse e fosse sua a voz do outro lado ou se eu havia sido convidada por outra voz. E minhas palavras? o que teria acontecido com elas? talvez eu estivesse ali para entregá-las ao mar, com esperança de que chegassem até você ou com a intenção de  que fugissem de mim. Talvez estivéssemos pensando um no outro, você lembrando de quando eu disse que te amava pela primeira vez e eu lembrando de quando você disse que eu era a melhor coisa que havia acontecido na sua vida. Talvez estivéssemos sufocados em nossa nova vida e tenhamos ido ali com o propósito de relembrar os nossos tempos. Mas talvez pra esquecer. Queria ver se você sorria, mas o seu rosto não virava. Daí me ocorreu que fomos por tanto tempo mestres na arte de esconder a dor, que um sorriso seu em meio à solidão da noite poderia significar resistência e não felicidade. Eu também não via meu rosto, mas me escutava sussurrar baixinho, talvez uma poesia ou um texto sobre mar, lua e solidão. De repente, juntos, cada um em sua ponta da praia, erguemos a cabeça e admiramos a lua. Imaginei em quem pensávamos, pra quem compunhamos versos e canções, pra quem dedicávamos aquele momento de luz em meio à escuridão. Mas não soube. Nos levantamos e fomos em direção um ao outro. E eu fui embora sem saber. Não soube se estávamos ali porque havíamos marcado e o nosso tempo a sós foi apenas pra colocar as ideias em ordem e sabermos o que dizer ou se passamos direto um pelo outro com aquela ligeira sensação de já ter visto aquele rosto em algum lugar. Fui embora sem saber. Deixei pro vento, pro mar e pra lua, a missão de me contarem depois. Quando eu chegasse ali, eu descobriria. Não agora. Agora eu viveria o hoje. O amanhã continuaria sendo o daqui a pouco. E do daqui a pouco eu cuido depois. O presente me espera. E é dele que eu vou cuidar. O amanhã depende do hoje, e o futuro é a gente quem constrói.

domingo, 21 de novembro de 2010

Balada para João e Joana.


João vai sair de casa atrasado como sempre faz. Vai olhar o relógio atrasado, praguejar ao vento por ter que acordar a essa hora da manhã e bater o portão como sempre faz. Joana vai acordar antes da hora. Arrumar o cabelo, a cama, o coração. Vai se olhar no espelho, abrir as janelas, dar bom dia ao próprio dia, desejar que seja doce. João vai jogar futebol, não prestar atenção nas aulas, ouvir um rock gritante. Joana vai pegar um livro na biblioteca, sentar na primeira fileira na aula, ouvir uma música com mais letra do que ritmo.
João é mais um menino num mundo de milhões de meninos. Joana é só mais uma menina num mundo de milhões de meninas. João usa uniforme, não penteia o cabelo, não tem muito o que o diferencie na multidão. Joana usa uniforme, tem cabelo preto e escorrido, nenhuma roupa que chame atenção numa multidão. João acha o amor coisa de novela mexicana, desacredita em finais felizes, tem medo da palavra compromisso. Joana acredita em destino, príncipes encantados, espera a todo momento por um compromisso que valha toda a espera. João teve seu coração partido uma vez e lutou pra reconstruí-lo. Joana nunca se entregou. Sempre fugiu das possibilidades. Sempre se refugiou no sonho. Joana espera por algo que se pareça com as histórias escritas nos livros, com declarações em público, despedidas num sagão de aeroporto com direito ao nome dela chamado no auto-falante. Mas um dia ela irá conhecer João.
Conversarão sobre amenidades, depois sobre afinidades e então sobre disparidades. Descobrirão que não têm nada a ver. Que João prefere o branco e Joana o preto. Que João suja a rua e Joana vira a cara quando um abusado joga o lixo no chão. Que João assiste terror e Joana suspira com os romances. E daí o que farão? Fugirão um do outro? Joana correrá para seu livro aberto em cima da cama, esperando pelo cara com os mesmos gostos? João continuará a se proteger com medo de que tantas diferenças destrocem novamente seu coração? Acredito que não. João e Joana descobrirão juntos que as diferenças somadas formam um igual. Que o amor não escolhe, ele acontece. Os dois aprenderão que é inevitável sofrer, mas que é impossível não reconstruir o coração. Aprenderão a pedir perdão, a dar lugar a preferência do outro, a ser um só. Brigarão muitas vezes, baterão telefones, rasgarão pedaços de papel. Ficarão dias sem se falar, provocarão ciúmes, usarão as diferenças como desculpa. Mas no final descobrirão que o clichê é válido: os dois se completam. E correrão, subirão nas montanhas impossíveis, abrirão mão de tanta coisa pelo outro. Esmagarão toda a dor com o amor. Esquecerão toda a mágoa com o amor. Diminuirão todas as diferenças com o amor. Joana um dia perceberá ser tão feliz quanto a personagem do seu livro favorito dizia ser. João um dia perceberá que o amor é coisa de novela mexica sim, mas também é de vida real e não coisa de outro mundo. Joana receberá sua declaração num sussuro ao pé do ouvido e descobrirá fazer mais efeito do que gritada em meio à multidão. João perceberá que não existe liberdade melhor do que estar preso à alguém. João e Joana darão conta de que o amor não é uma fórmula pronta, um cálculo matemático que um dia deu certo. Amor é uma experiência química, que pode explodir se não for regulado nas doses de sentimentos que o compõem e que pode mudar de cor todo o composto vital, transformá-lo num arco-íris de felicidade. João e Joana decidirão lutar juntos contra tudo o que aparecer. Porque João e Joana se amarão. E descobrirão que juntos são melhores, maiores e invencíveis. Porque João e Joana se descobrirão dependentes da maior droga que já existiu.
Hoje João e Joana não se conhecem. Mas amanhã, numa esquina qualquer, João enquanto corre atrasado, esbarrará em Joana e derrubará seus livros no chão. A cena que Joana viu no filme ontem a noite acontecerá com ela amanhã. Seus livros irão ao chão e ao abaixar para pegá-los junto ao garoto estranho que os derrubou, ela levantará outra pessoa. Com um sorriso que dará sentido à uma vida inteira de buscas. Com um encontro que fará valer a pena toda procura. Com um João que valerá por mil príncipes. E João com uma Joana que cuidará de todas as feridas restantes e dará ao coração motivos para acreditar no amor. A balada para João e Joana começará assim que os dois deixarem o coração vencer.

"Então eles se deram na convicção
Feitos um pro outro, mas por exclusão
Seu destino cego a lhes conduzir
Sua sorte à solta a lhes indicar um caminho
E dançavam lá em meio a tanta gente
Se encontraram ali
"
(Skank)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Alô, Alô, Realengo,

aquele abraço - e um obrigada do tamanho do amor que existe aqui.


Não é sobre pessoas em particular. Não é sobre determinado ano ou determinada turma. É sobre a instituição como um todo, desde a bandeira que balança ao vento ao cachorro que circula pelo pátio. É sobre tudo o que faz o Colégio Pedro Segundo ser a minha grande paixão e com certeza a maior recordação da minha vida. Foram três anos que mais pareceram uma vida inteira. Parecia não acabar, por alguns momentos tive a sensação de que ia ser pra sempre. Eram provas, trabalhos, pressões, que não pareciam acabar nunca. Foram amizades, sonhos, realizações e alegrias que não mereciam acabar nunca. Mas o ciclo precisa continuar. Novas pessoas precisam entrar e descobrir o sabor que tem a responsabilidade de ser daqui. E talvez seja pra elas que eu escrevo agora. Pra que saibam do valor que tem um emblema e pra que cuidem do colégio que é meio hospício e muito casa. Pra que saibam do que foi o Colégio que hoje é amarelo, enorme e bem equipado. Pra saberem que aquela sala com porta, fechadura, ar condicionado e janela, um dia foi quente, com telha, sem ventilador nem maçaneta. E que um dia uma turma lutou por um simples ventilador e mostrou que a união, de fato, faz a força. Pra que olhem praquele prédio amarelo e lembrem que um dia foi azul clarinho, azul da cor do sonho que se realizou em Realengo quando o colégio ali chegou. Pra que vejam o asfalto e imaginem pedrinhas onde se enterravam traquinas; pra que subam a rampinha e vislumbrem tudo o que existe onde um dia só existiu mato e ruínas; pra que saboreiem o macarrão sem sal que é servido e saibam que um dia centenas de alunos foram na x-copy improvisar um almoço. Pra que aproveitem cada segundo e respeitem a tradição. Pra que valorizem o tênis todo preto, a meia em seu devido lugar, o casaco sem nenhum detalhe colorido; pra que se mantenha em Realengo a ordem que faz o NOSSO colégio ser reconhecido; pra que cada Valdemir, cada Renato, cada Tio do Oclão, cada marcelo, seja sempre respeitado. Pra que suguem cada segundo de cada aula e pra que abram sempre espaço pra que os professores virem amigos. Pra que deem o devido a valor a cada décimo, a cada trabalho, a cada fagulha de salvação pra passar de ano. Pra que quando se sentirem injustiçados, saibam que um dia um terceiro ano quase inteiro, lutou sem armas e se calou pra ser ouvido, e conquistou o respeito não só à tradição, mas também ao aluno. Só quem passa por aqui sabe o que é ser daqui. Sabe o que é perder um feriado, valorizar um fim de semana, ralar pra passar de ano. De fato, que eles saibam que os anos aqui foram os mais difíceis da minha vida. Foram seguidos de urgências e intensidades. Aprendi a não ser a melhor sempre, a tirar 0,1 de cabeça erguida, a passar pela PAF e deixar de lado o orgulho. Chorei muito, sorri muito, gritei muito. Vivi extremos. Foram anos difíceis sim, mas foram os melhores também. Pra o terceiro ano que vai agora, só resta dar as mãos, levantar a cabeça, se munir de todos os escudos e todas as armas que conquistamos nesse tempo e ir - em direção à algo novo, que com certeza não se comparará ao colégio, mas que servirá para mostrarmos ao mundo que o aluno daqui é diferente. Só nos resta nos juntarmos aos milhões que existem lá fora e que carregam um emblema enorme no coração: o de ex-aluno. O tempo que passei aqui é um lugar seguro na minha memória, pra onde correrei sempre que a vida aqui fora ficar dura demais. Lembrarei do tempo em que andar na rua de uniforme era ser reconhecida. Em que acordar cinco da manhã valia a pena. Em que chegar no colégio compensava o cansaço dos três ônibus. No fim tudo vira algo bom. Tudo serve como aprendizado. Tudo vai pro quartinho quente da memória. Alô, Realengo, é seu o melhor Pedro Segundo do Brasil. É sua a honra de ter uma unidade tão valorizada e reconhecida. Todo e qualquer pré-conceitoo sumirá em breve, só restará a certeza de que as melhores turmas são formadas aqui - à base de calor humano, união e macarrão sem sal. Que os futuros saibam cuidar de você. Saibam manter a minha casa em ordem, com os seus móveis em seus devidos lugares e os emblemas com seu devido peso. Obrigada, Realengo, a menininha tímida e sem muitas perspectivas que um dia chegou aí se perguntando se era dela mesmo o nome na lista de aprovados, se despede de você agora cheia de sonhos, vontades, amizades e aprendizados. Eu te amo, Pedro Segundo, a minha vida é certamente outra por ter vivido aqui.  Me tornei não só uma aluna melhor, mas um tipo humano mais evoluído. Com mais atenção pro próximo, com mais sensibilidade, com mais certeza do que quero ser. Recebe pra sempre o meu abraço, Realengo, e me deixa morar pra sempre em você. Meu coração agora tem três estrelas, um mural enorme de fotos, um baú gigante de lembranças. Viverás pra sempre em mim, Pedro Segundo. Prometo te orgulhar, contar pro mundo o quanto tem valor ter pertencido à você, contaminar o mundo com o sorriso que só quem estuda aqui possui. Que o sol ardente continue a brilhar sobre ti. Que o vento continue levantando as saias, o calor continue escaldante, os mosquitos continuem presente. Não perca suas características, não deixe que te imponham novos costumes. Você é assim. Amarelo com coração azul, abafado, pequeno e unido. Não deixe que a grandiosidade te faça diminuir de valor. Você é assim. E é assim que eu te guardarei.

"E o Pedro II resolveu trazer para a rua sua alegria fabulosa. (...)
Mas se este povo é triste, há uma imensa, jucunda, deslumbrante exceção: – o aluno do Pedro II. Tenho um amigo meu que vive rosnando: – Nesta terra, até as cadeiras são neuróticas.  Ao que eu responderia: – Menos as cadeiras do Pedro II -. Porque, lá, os móveis também são coniventes no humor dos alunos. (...)A rigor, não são os professores que me interessam no Pedro II. Nem os seus problemas de ensino. O que me deslumbra no aluno do Pedro II não é o estudante, mas o tipo humano. Ele deve ser um mau aluno (tomara que seja), mas que natureza cálida, que apetite vital, que ferocidade dionisíaca.
Olhem para as nossas ruas. Em cada canto, há alguém conspirando contra a vida. Não o aluno do Pedro II. Há quem diga, e eu concordo, que ele é a única sanidade mental do Brasil. E, realmente, não há por lá os soturnos, os merencórios, os augustos dos anjos. Os outros brasileiros deveriam aprender a rir com os alunos do Pedro II. (...)
E devíamos subvencionar o Pedro II para inundar a cidade, diariamente, com a sua alegria total, ululante." 
(Nelson Rodrigues) 

domingo, 14 de novembro de 2010

Divagações de uma manhã de domingo.


Ando sentindo coisas que não sei bem o que são. Há algum tempo vivia presa num abismo, mas me tiraram de lá pouco a pouco. Me livrei das lágrimas que pareciam não ter fim e descobri um sorriso enorme vindo de dentro de mim, do lugar onde eu sabia existir algo além de tudo. Quando tudo o que eu enxergava era o fim, uma tímida luz de (re)começo passou a atravessar a minha janela. Convivo agora com uma esperança disfarçada - pelo novo, pelo velho, por algo que eu sei que sempre vem. Há algum tempo perdi o caminho num labirinto que eu mesma criei. Fui tecendo uma teia enorme de palavras que não vieram nunca, de sorrisos que mais pareciam faróis, de sinais que só eu e a minha cabeça enxergaram, e me perdi. Não sabia mais onde estava, não sabia encontrar a saída, não sabia quando aquilo tudo ia acabar. Na verdade ainda não sei. Mas aprendi a conviver comigo. A abrir caminho sob as teias e dar espaço para o sol entrar. Ando bem, muito eu-comigo, muito eu-e-o-que-eu-sinto, muito eu-e-o-que-eu-espero. Me tornei minha melhor amiga e descobri que eu de repente não era mais o eu que tanta gente conhecia. Me livrei de marcas, abandonei vícios e manias que me privavam de certas alegrias, eliminei de mim a intensa preocupação de que aprovassem ou não o que eu fazia. Sigo meu coração e minhas crenças. Abandono a intervenção externa. Vezenquando quebro a cara, descubro que nem tudo o que parece é, que o outro tem o direito de não sentir. Ainda me perco nas tentativas vãs de decifrar um coração que não é o meu. Um coração que vive no silêncio a me dizer que a minha ausência dói. Um coração que parece tentar construir pontes e pequenos portos que façam o amor sobreviver. Repito pra mim todos os dias que é idiotice enxergar sozinha luzes num escuro enlouquecedor, palavras saindo de um olhar que só esteve ali porque era o caminho mais óbvio a se fazer. Mas não paro nunca. Construo castelos de areia, escrevo aos quatro ventos, deixo claro como tudo o que sinto. Descobri que sou forte. Que aguento todos os murros que a vida dá, que caio sim e choro à beça, mas meu sorriso sempre vence e minhas pernas fracas sempre encontram onde se apoiar. Resolveram se apoiar no concreto do que um dia existiu: um sentimento que perdura até hoje e que um dia me fez cantar até ficar rouca. Um sentimento bonito, que arrancou palavras doces e infinitas de mim. Que me ensinou que só me proteger é bobagem, que o amor não se importa com convenções. Um sentimento que ainda faz cada pedacinho que restou do meu coração vibrar no tom da tua voz. Um sentimento que me doeu muito um dia, mas que é agora uma recordação bonita, um passado bem presente desejando ser futuro. Sentimento esse que ameaça ir embora, mas que volta feito enchente e me encharca de vontade de vivê-lo novamente. Tenho esperanças em conserva, mas deixo agora o tempo dizer. Não busco mais, não exijo a urgência que minhas palavras exigem. Aprendi que quando se trata de sentimento não dá pra prever. Não dá pra dizer vou embora e ir, não dá pra exigir metricidade, decisões prontas. Deixo ser. Danço conforme a música que você faz soar quando me procura, quando se cala, quando deixa o coração vencer ou quando o sufoca no peito. Mas canto o meu amor e não calo enquanto ele existir. Deixo nas suas mãos a decisão de ouví-lo ou não. Porque sei que se você não ouvir, a vida se encarregará de afinar outro coração ao som do meu amor.

"Your actions write the melodies
To the songs that we sing
And I finally found that life goes on without you
And my world still turns when you're not around"
(Anberlin)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sobre casas, flores e borboletas.


Hoje quando acordei descobri que estava pronta para abrir as janelas. Não sei como a gente sabe que é a hora, mas eu de repente senti que era hora de deixar o sol entrar. E ele entrou. Correu para iluminar todos os cantinhos escuros da casa que estava fria e sombria. As janelas abertas fizeram com o que vento corresse pelos corredores e visitasse todos os cômodos escondidos, varrendo pra longe toda a poeira sobre os sentimentos. Decidi limpar os tapetes, tirar debaixo deles todos farelos escondidos ali no tempo em que lembrar era doer. Limpei, não de forma rápida nem indolor, as marcas de lama que ficaram no chão quando você foi embora, passei um pano na porta marcada pela sujeira que causei quando a tranquei. Perfumei todos os ares, aparei a grama, reguei as flores do jardim que haviam esquecido de crescer. Desci as escadas e o ar me encontrou de forma violenta, acabou sacudindo também de mim toda a poeira. Alguns chamam de libertação, outros de desprendimento e alguns de coragem. Não sei dar nome, era simplesmente o que eu devia fazer. Não dava mais pra me trancar num mundo escuro e me privar da luz exterior. Nem dos perfumes, das flores e dos sons. A minha casa agora é outra, mas ainda existe no mesmo endereço. Os muros foram pintados, alguns móveis trocados de lugar, outros diretamente pro lixo. Algumas coisas ainda são as mesmas, não nego. O seu sorriso continua na estante, a sua voz ainda é a música mais tocada no toca-discos da sala de estar, a sua parte do guarda-roupa continua reservada. Não sei do que chamo. Talvez esperança, talvez insistência, talvez suicídio. Depois descubro. Agora não tenho tempo. Tenho uma casa pra cuidar, visitas pra receber, fotos novas pra colocar no mural. Meu jardim precisa de mim. Novas espécies de flor precisam ser plantadas e cuidadas com atenção. Ervas daninhas precisam sumir de uma vez do meu jardim da vida. As minhas gavetas precisam ser examinadas e tirado de lá tudo o que não combinar com a minha casa tão nova. As roupas velhas precisam ir pra outro guarda-roupa onde supram a necessidade de calor de outra vida. Não sei definir. Mudança é pouco. É algo maior. Que suplica por descobertas e liberdade. É algo maior que precisa do novo pra sobreviver. Definiria como vida porque acredito que chega um ponto em que continuar o mesmo é impossível. E hoje ao abrir as janelas, corri pra me olhar no espelho pra perceber que já não era a mesma. Não é questão de abandonar o passado, é sobre não sufocar com ele. É sobre prosseguir e encontrar nas flores e no sol motivos inteiros pra sorrir. É sobre ter uma cadeirinha num jardim e poder se sentar sozinha e feliz. É sobre poder contemplar a vida sem medo. É sobre olhar pra fora do portão e saber que existe um mundo inteiro a minha espera. É sobre ficar olhando as borboletas sobre as flores do jardim e pensando quantos jardins elas ainda vão conhecer. Há quem diga que borboletas voam por vários jardins, mas no fim sempre voltam para aquele com as flores mais perfumadas e com as cores que mais fizeram suas asas vibrarem. E embora a minha casa seja outra, o meu jardim ainda é o mesmo. E embora a minha vida seja outra, a voz soando no toca-discos da sala me faz sentar todos os dias na mesinha em frente ao jardim e contemplar as borboletas. Me perguntando quando. Quando será que a borboleta mais bonita que pousou no meu jardim, voltará pra lembrar das cores que um dia fizeram suas asas - e seu coração - vibrar.

domingo, 7 de novembro de 2010

Ela precisa saber.


Não sei se dará certo. Não sei se voltarei com um coração quebrado nas mãos ou com o peito livre da dor que sinto agora. Não sei o que vai ser. Mas hoje quando acordei eu decidi não deixar passar mais nenhum dia. Eu preciso que ela saiba. Não quero que as cortinas do tempo fechem sem que ela assista ao show de expressão que acontece dentro de mim quando ela chega. Não posso mais sufocar tudo o que sinto. Não quero mais viver de suposições. Preciso me expor. Nem que seja pela última vez e doa mais do que esperado. Preciso dizer. Ela precisa saber. Baterei na porta. Farei todos os telefones tocarem. Escreverei no céu. Publicarei mensagens nos outdoors. Encherei sua caixa de e-mail. Eu preciso que ela saiba. E não desistirei até contar. Se for loucura, serei mesmo um louco. Se for suicídio, morro dizendo. Não importa o que apareça no caminho. Eu a farei saber. Emendarei feriados, cancelarei compromissos, escalarei os montes.Só não posso mais viver assim. Não tenho mais lápis pra colorir o meu mundo, preciso que ela me empreste suas cores. Minhas palavras estão presas e com medo de sair, preciso que ela as liberte novamente. Eu descobri que o meu coração não aguenta a mistura de sentimentos que sinto com ela mas que ele aguenta muito menos todos esses segundos eternos sem saber o que fazer com todo o sentimento que restou. Fomos embora um do outro, mas o sentimento ficou. E eu preciso que ela saiba. Preciso contá-la sobre como o mundo perdeu a forma quando ela foi. Sobre como eu a descobri maior em mim do que eu imaginava. Sobre todos os sorrisos que fingi e sobre todas as cenas que criei pra provocá-la. Ela precisa saber. Sobre as noites que perdi tentando esquecê-la. Sobre os dias em que fechei os olhos e a desejei comigo. Sobre todos os planos que armei e não cumpri por medo de afastá-la ainda mais. Sobre as vezes em que fugi do seu campo de visão pra não demonstrar a fraqueza que sentia por não poder tocá-la. Preciso dizer que foram dela todos os meus pensamentos ao amanhecer e todos os meus sonhos ao adormecer. Ela precisa saber que existe em todos os pedaços de mim. Na música que toco, nos sons que ouço, nos retratos que tiro. Ela precisa saber de tudo. Não medirei palavras, colocarei pra fora tudo o que sou. Deixarei meu orgulho no bolso, esconderei minha vergonha, a encararei como nunca fiz. Gritarei que tenho medo de perdê-la pra sempre. Que todos os dias desejo que ela permaneça inteira e não vá se perdendo de mim aos pouquinhos, até que só reste o farelo de um amor um dia tão grande. Que a todo momento desejo que todos sumam do caminho e que o caminho seja enfim livre pra nós dois trilharmos juntos. Que sinto saudade da sensação de mundo parando quando ela dizia no meu ouvido que me amava. Que no meu peito ficou o espaço marcado da cabeça dela que sempre deitava ali. Contarei sobre os dias em que me segurei nas suas palavras pra não desabar. Sobre os sonhos, os planos, os perdões. Ela precisa saber. Que eu a amo mais do que tudo nesse universo que ainda restou. Que a ausência dela preenche todos os espaços de mim. Que o meu abraço enorme só faz sentido se ela estiver ali. Que eu volto. Eu a farei saber. Não perderei mais tempo. Não esperarei o fim, o início, a virada do ano ou a mudança da estação. O tempo certo é o presente. Ela precisa saber. Que sem ela eu não posso mais viver. Que sou metade sim. E que só com ela me basto.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Descobri nas Estrelas.


Eu encontrei estrelas quando só procurava amigos. Encontrei amizade verdadeira quando ela parecia em extinção. Quando quis esconder minha fraqueza por medo de encontrar dedos apontados pra mim, descobri que podia chorar e encontrei braços estendidos pra me socorrer. Pra contar uma piada sobre qualquer lente divergente, pra me fazer cócegas, pra lembrar que estrelas juntas brilham sempre mais. Encontrei motivação quando pensei em desistir. Quando me senti inútil e substituível encontrei gente que me olhou no olho e disse que me amava. Quando meu céu escureceu, encontrei gente que pegou um giz e desenhou um sol do tamanho do mundo. Quando me achei incapaz, recebi elogio por algum conjunto de palavras bem colocadas, um pedido pra ensinar história ou literatura, uma chamada à minha pseudo-criatividade. Quando quis ficar sozinha com a minha dor, encontrei gente que se preocupou comigo e veio me livrar de morrer sufocada com pensamentos. Tão acostumada a negar quem eu era, eu tentei com vocês, fingi que dentro de mim não havia esse mundo inteiro de sonhos, escondi enquanto pude a minha parte que chorava, se decepcionava e tinha medo do futuro. Fugi enquanto pude, mas vocês me encontraram. Quando pensei que minhas histórias não fossem interessantes, encontrei ouvidos abertos a tudo o que eu tivesse a dizer. Pra vocês eu me mostrei sem medo. E contei sobre os meus medos, meus sonhos, meus defeitos. Por vocês eu virei o mundo. Eu me vesti de palhaça mesmo quando estava em luto. Eu plantei bananeira, tirei piada de qualquer fundo de baú, deixei sorrisos fixos no rosto. Muitas vezes larguei a minha dor e fui cuidar da de vocês. De um coração partido, de uma nota baixa, de alguém sufocado com todas as pressões. Ouvi calada mesmo quando era eu quem precisava falar. Errei muito, eu sei. Peguei pesado na piada, tirei molecas vezes demais de um pé, deixei de ver quando alguém precisou de mim, disse verdades sem pensar. Mas tenham sempre certeza de que tudo o que eu fiz foi tentando acertar, foi desejando manter sempre o nosso brilho aceso, foi querendo deixar claro que o meu planeta terra girava em torno das estrelas. Porque eu descobri que a constelação que estava no meu céu era um presente enorme de Deus. Que ele sabia que os anos seriam difíceis e que eu precisaria de força, sorrisos e abraços fortes. Quando imaginei um mundo sem vocês, o imaginei escuro e sombrio. Quando tentei pisar lá fora sem vocês, senti frio e saudade. Quando estive longe, os desenhei pra sentí-los por perto. Quando senti falta de um irmão e precisei de alguém pra xingar e dividir minhas trouxices, encontrei um Felipe. Quando quis uma melhor amiga pra dividir uma vida inteira comigo, encontrei uma Camilla. Quando precisei de alguém com quem implicar, encontrei uma Marcelly. Quando pensei em alguém com quem pudesse falar sobre amores e sonhos e sobre todo um mundo interior, encontrei uma Juliana. Quando precisei de alguém pra cuidar de mim, encontrei uma Rowena. Quando precisei de um amigo gordo e sem graça, encontrei um Igor. Quando precisei de cócegas e flauta doce, encontrei um Marcos. Quando precisei da minha única amiga loira pra dividir os meus livros, encontrei uma Gabriela. Quando precisei de alguém que fosse pelo menos um pouquinho parecida comigo nesse mundo de amigos tão diferentes, encontrei uma Laura. Todos vocês, a todo momento, são importantíssimos pra mim. Todas as nossas enormes aventuras ficarão pra sempre guardadinhas junto com o amor enorme que eu encontrei nas estrelas. Lembrarei sempre de vocês como na foto ali em cima: quando o futuro parecia tão distante e nada parecia tão certo quanto fazer de conta que ele não viria. Podem me chamar de louca, sonhadora ou qualquer outra coisa, mas eu acredito na gente pra sempre. Consigo olhar pro futuro e ver meus padrinhos e madrinhas de casamento. Vejo todos nós com nossas respectivas famílias num jardim enorme e florido de crianças, lembrando de quando nós éramos como elas. Vejo meu filho mordendo o do felipe e ensinando o da Camilla a deixar de ser nerd. Vejo todas as meninas saindo por aí sem compromisso pra falar sobre quando o futuro era um bicho de sete cabeças. Acredito em coisas eternas. Acredito que mesmo que se passem anos sem nos encontrarmos, quando nos virmos nos reconheceremos como se não tivesse havido distância nem tempo. Nunca soube de uma estrela que apagou com o tempo. Ouvimos sempre sobre aquelas que nem sempre podem ser vistas, mas que sempre estão lá. E eu tenho certeza de que mesmo que não os veja todos os dias, não os dê um abraço ou um bom dia, vocês estarão pra sempre no meu céu. E a minha pequena estrelinha, mesmo com sua luz tão tímida, estará sempre se esforçando ao máximo pra ajudá-los a iluminar um caminho que tantas vezes é escuro demais. Me liguem, mandem cartas, telegramas, e-mails, tudo o que a tecnologia oferecer, que eu prometo parar tudo pra encontrar vocês. Não esqueçam que eu sou chata e que se vocês demorarem muito eu vou sempre marcar um super encontro estrelar, pra gente relembrar os velhos tempos, assistir um filme não tão bom assim, cantar que é isso o que você ganha quando deixa o seu coração vencer. Um dia eu o deixei vencer e ganhei vocês. E agradeço todos os dias, sempre quando agradeço pelo alimento que tem na minha mesa ou pelo ar que me foi permitido respirar. Coloco sempre vocês junto com as coisas sem as quais não posso sobreviver. Sem o brilho de vocês eu sou só um pontinho num céu imenso. Com vocês ganho força, motivos enormes pra sorrir, histórias incríveis pra contar. Somos prova de um milagre que nos colocou no mesmo turno e fez durar nossa amizade. Seremos prova de mais um: mostraremos ao mundo que o pra sempre não é coisa de outro planeta. Ele é real. E quando todos os meus pra sempres acabaram, eu olhei pra vocês e descobri que existem aqueles que vêm pra ficar.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Retrato pra Iaiá.

"Iaiá, se eu peco é na vontade
de ter um amor de verdade."
(Los Hermanos)


Iaiá, eu queria tanto te dizer coisas como vai passar, daqui a pouco tudo se ajeita, o tempo é o remédio pra tudo.Todas aquelas coisas que as pessoas dizem quando não sabem o que dizer pra consolar alguém, eu te diria todas elas, se eu ao menos tivesse certeza do que falo. Não sei, Iaiá, e essa é só uma das coisas que não tenho conseguido entender e tornar uma verdade na minha vida. Não tenho conseguido entender tantos detalhes, tanta distância sem sentido, tanto amor calado, tanto silêncio apodrecendo palavras tão bonitas. São tantas coisas que não entendo, Iaiá, a confusão é tão grande que eu só te escrevo pra acalmar teu coração, pra te dizer que tudo isso é normal e que você não é a única a sofrer a assim, a buscar resposta em vão, a tentar encontrar beleza num céu tão escurecido pela dor. Você não está sozinha, Iaiá, eu, a moça sentada no banco da praça, o cara com o fone no ouvido, a menina tomando sorvete, todos nós em algum momento sentimos nosso coração dilacerado e penamos tentando encontrar forças pra juntar o que sobrou e catar todos os pedacinhos do chão. Um dia a gente acaba aprendendo, Iaiá, que a vida é assim mesmo. Que pra ganhar algo a gente primeiro perde o que era tão importante. Que pra sorrir com mais força, primeiro a gente derrama todas as lágrimas acumuladas. Que pra aprender a amar, a gente primeiro sofre, cai, quebra a cara, erra pra caramba, pra, quem sabe um dia, acertar o pulo, a quantidade exata de amor, o tamanho do abraço, o comprimento da carta. E, clichê dos clichês, pra aparecer um arco-íris, primeiro tem que chover.
Tem chovido muito por aqui, Iaiá. Tem sido difícil conseguir enxergar os raios tímidos de sol que vez ou outra tentam penetrar minha janela. Tem sido quase impossível não me assustar com os relâmpagos e sustos de amor que vez ou outra me invadem. Acredito que tenha sido assim pra você também. Se eu soubesse o que dizer, diria pra você e pra mim. Se eu tivesse o controle remoto que acelera o tempo, iria ao futuro por nós e descobriria de uma vez por todas o sentido por trás de tudo o que acontece agora. Essa é minha maior vontade. Meu coração vive ansiando pela chegada de algo que ele não sabe ao certo o que é, mas ansiar foi o jeito que ele encontrou pra continuar batendo. Mesmo apanhando com chicotes de indiferença e sendo encharcado pela chuva de realidade que perfura todo e qualquer abrigo, ele insiste em esperar. Pior, ele insiste em acreditar no amor. Pois é, Iaiá, meu maior erro é ansiar por um amor a cada batida do meu coração.
Se me perguntassem se desejo um amor novo ou aquele outro velho amor, talvez eu não soubesse dizer, eu só quero um que dure pra sempre, Iaiá, será pedir demais? Será que nada nesse mundo foi feito pra durar? Será que estamos todos destinados a amar demais e a não ter tempo de viver a demasia do amor? Será que o amor não é capaz de vencer tudo? Eu queria encontrar as respostas e te contar, te dizer que em algum lugar desse mundo alguém vai ouvir a respiração ofegante do seu coração e vir te socorrer. Eu queria poder te dar motivos concretos pra não deixar seu coração desacreditar nunca no amor, mas a experiência do meu coração insistente talvez não sirva de exemplo pra ninguém. Só tenho conseguido buracos cada vez mais profundos e nem toda a esperança que sinto é capaz de conter a onda desesperançosa que vez ou outra destrói todas as minhas construções. Ninguém nunca me ensinou a desistir, Iaiá, e não aconselho isso a você. O amor ainda é o combustível do mundo, ainda é ele que faz o sol brilhar mais forte, que faz os poetas terem o que escrever. O amor dói sim, sempre vai doer e nunca vai ser perfeito, mas nada consegue ser maior do que a felicidade que a segurança de tê-lo por perto traz. Do amor eu não desisto nunca, Iaiá, nem da esperança de encontrá-lo pra mim. Já me machuquei muitas vezes, me desesperancei algumas, não nego, mas eu sempre vou estar onde houver uma mínima luzinha de amor. Faça sua escolha, Iaiá, o amor nunca vai ser fácil e indolor, mas a balança de dores e alegria é sempre favorável pro lado sorridente. Mesmo que não dê pra ver o sol, mesmo que seja impossível acreditar que tudo irá passar com o tempo, mesmo que tudo te diga que insistir é suicídio, escolha estar onde o amor estiver. Desista de uma vida como a dos livros, em que as palavras convencem, todas as portas são abertas a nossa frente e todos os desentendimentos terminam com beijos apaixonados sob a chuva. Aceite que os príncipes não são perfeitos e dentro deles existem componentes chaves como orgulho, ciúme e indecisão. Só não desista do amor, Iaiá. Não desista de encontrar um príncipe imperfeito que faça seu coração vibrar. Não desista de montar o seu próprio livro com a sua própria história escrita a mão. Não desista até ver o potencial pra dor sumir e só crescer a alegria dentro de você. Agora é realmente impossível enxergar uma solução, mas diga todos os dias quando o seu coração acordar pra realidade, que o sol está vindo disfarçado num sorriso trazer a alegria já tão esquecida. Repita quantas vezes forem necessárias até que ele acredite por si só. Fazendo assim, Iaiá, o seu coração te alimentará com flores mesmo quando a realidade te oferecer pedregulhos. Não pare. Insista. Desista do que não for necessário, só nunca desista do amor. Não desiste por que um dia ele há de bater a sua porta e colorir o retrato em preto e branco na parede. Guarda esse retrato, Iaiá, o que um dia foi nublado há de ser céu azul. É só uma questão de tempo. O futuro virá e nos trará as cores, as respostas e os presentes que farão valer a pena todo esse tempo de dor.

sábado, 30 de outubro de 2010

Mil Trezentos e Cinco!


Vou falar de amor, de amizade, de união. Vou falar sobre aprender a conviver com as diferenças, sobre somar 2106 + 2104 + 2102 + 1201 e resultar 1305. Não vou falar sobre o pré-conceito que carregávamos no início nem sobre os maus olhares com que tantas vezes nos olharam, nada disso importa. Vou falar sobre ralé, sobre não ser o melhor e ainda assim o ser, sobre transformar pedras em flores. Vou falar sobre a turma mais unida e mais divertida que já existiu. Vou falar de vocês, 1305. Tivemos muito medo no início, achávamos que não fosse dar certo e que tanta gente bagunceira junto só poderia dar confusão. E talvez tenha dado mesmo, mas foi uma confusão boa, sabe? Foi uma porção de aulas divertidas, de piadas internas, de mal entendidos consertados. Às vezes grito que amo vocês e muita gente não entende, acho que é uma questão de sentir o que a gente sente e só a gente sabe. Só a gente sabe a emoção de chegar aqui na frente e ver uma turma enorme e unida, mesmo depois de tanta gente dizendo que nunca daria certo juntar todo aquele "resto". Só a gente sabe o valor incalculável de estar entre pessoas que estão unidas pro que der e vier, pra lutar em turma, pra defender com unhas e dentes o sentimento que a gente carrega no lado esquerdo do peito. Seja numa revolução, numa batalha entre turmas ou na defesa de algum argumento, nos mostramos unidos. Pra fazer um trabalho de literatura ou química, unidos. Lembro de ter ouvido pessoas dizendo que queriam que suas turmas fossem como nós. Dá um certo prazer ouvir isso porque é a confirmação de que de nada adianta saber chegar a marte e não saber como chegar no próximo; de que não adianta sair do colégio com um boletim repleto de notas altas e só com meia dúzia de histórias pra contar. Nelson Rodrigues disse que os brasileiros deveriam aprender a sorrir com os alunos do Pedro II, mas eu vou além e digo que as outras turmas deveriam aprender a ser TURMA conosco. Nós não precisamos nos colocar como primeiros, como melhores ou superiores, nos colocamos no lugar de turma e com certeza alcançamos lugares altíssimos. Soubemos fazer uma turma. Assustamos alguns professores, mas ganhamos alguns outros como cúmplices. No meio de tantas acusações, encontramos professores que nos apoiaram e que foram, junto conosco, uma turma. Acho que 1305 sem Daise, Renata e Eduardo é só uma parte. Costumo dizer que a minha turma é linda e que eu vou morrer de saudade, só preciso acrescentar que a 1305 é uma parte enorme de mim. Dizem que no ensino médio tudo é mais verdadeiro e intenso do que em qualquer outra época, e devo concordar com isso. Dá muito medo pensar num amanhã sem chegar na turma e gritar um bom dia, sem receber um grito no ouvido, sem cantar em alto e bom som que as fotos coloridas definitivamente são nossas. São sim, podem apostar. E na minha memória também, as maiores e mais coloridas são de vocês. Alguns deu tempo de conhecer melhor, outros não, mas a imagem que eu levo é a imagem da turma como um todo. Sem separação entre canto da janela, canto da parede ou meio. Levo comigo a imagem da 1305 pulando e gritando o nosso número de guerra. Cinco. Em nome dele fomos criticados, mas em nome dele nos tornamos uma grande família. Sentirei saudades enormes e desejarei sempre, a cada um de vocês, as melhores coisas do mundo. Que da nossa família saiam grandes médicos, advogados, jornalistas, oficiais, escritores, engenheiros. Que em tudo o que formos fazer nos lembremos de que a posição não é o mais importante, antes dela vem a amizade, a união, a certeza de ter marcado a vida de alguém. Contaminem o mundo com o nosso espírito e voltem sempre pra contar o que aconteceu. Exijo pelo menos um encontro da turma por ano, em qualquer lugar onde a gente possa falar mal das turmas alheias, zoar um ao outro, relembrar que a nossa família é unida até quando separada. Se o melhor do CP2 não esteve aqui, eu não consigo enxergá-lo em outro lugar. Muito sucesso pra cada um de nós. Eu amo vocês. O futuro pode sim ser assustador, mas um dia o passado foi futuro e olha só o que ele fez com a gente: nos trouxe até aqui. Segurem suas mochilas, as encham de boas recordações e se preparem porque o trem já vai partir, vamos todos pro futuro, pra um lugar onde os sonhos se realizam e a nossa vida continua.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O estranho mundo de mim mesma.

Depois de muito tempo escrevendo sobre tanta gente, resolvi escrever sobre mim. Sobre essa pessoa estranha e cheia de manias entranhadas. Sobre essa parte enorme de mim que sente, vive e vê tudo de forma anormal, como a maioria das pessoas lá fora não é capaz. Enxergo flores onde só há canhões, invento entrelinhas onde não existem e arrumo sempre uma forma de enfeitar a vida. Ainda não descobri se isso é bom ou ruim. Se vale mesmo a pena idealizar as coisas e as pessoas e tantas e tantas vezes sobrar sozinha com a decepção no colo. Mas sou assim. Sou toda coração. Vivo pra dentro. Por fora sou quase normal. Convivo bem com a solidão, me conto historinhas antes de dormir, coloco um fone de ouvido e mergulho no que está sendo dito, escrevo um milhão de textos na minha cabeça e os deixo guardadinhos por lá mesmo. Tem coisa que só divido comigo. Aprendi meio na marra que eu posso - e devo - ser minha amiga. Não que eu não tenha amigas, pelo contrário, apesar de poder contar no dedo sou uma pessoa rica desse tipo de gente. Mas é que às vezes ninguém me entende. Só eu. Só meu coração. É nessas horas que escrevo, ou melhor, converso comigo, como costumo chamar o ato de escrever. Não escrevo, desabo sobre o papel. Conto tudo, não economizo detalhes, me livro de todas as emoções. Só disponibilizo quando o sentimento esfria e já posso lê-lo com tranquilidade. Claro que sinto impulsos e publico logo, numa exposição cruel daquilo que sou. Daquela pessoa que ninguém conhece e se surpreendem quando leem e a descobrem existindo. Eu disse que por fora sou normal, atuo tão bem que ninguém desconfia que por trás daquela menina meio idiota e palhaça e tão nem aí pra tristeza, existe um mundo inteiro de sentimentos, uns bons e ruins. Não sei se escondo, mas acho que não posso dizer isso, penso sempre que sou como uma porta fechada. Ela não abre sozinha, não adianta estar longe e pronunciar uma palavra mágica pra ter acesso ao outro lado, é preciso levantar, procurar a chave certa, encaixá-la, girá-la com cuidado, e só aí ter vista ao lado de lá. Dá trabalho e nem todo mundo consegue. Mas prefiro assim, quem consegue chegar lá sempre se assusta com a quantidade de sentimento e de perguntas e de vontade de viver e amar e me doar. Não abro sozinha, não chego e saio logo contando o que sinto, preciso que perguntem, que sintam que não estou normal e me indaguem. Fora isso não digo. Mas ouço. E amo ouvir. Tenho prazer em saber o que as pessoas sentem, vivem, choram. Sou apaixonada pelos seres humanos e me perco em indagações e questionamentos sobre seus modos de agir e de viver e de amar. Vezenquando arrisco uns conselhos, umas filosofias de vida, mas nada grave. Um dia acabo fazendo psicologia, como uma tentativa - talvez vã - de entender esse ser tão contraditório. Gosto de estar rodeada de gente, contando piada, em silêncio ou tendo um assunto mais sério. É de gente que eu gosto: de abraço, beijo, mãos dadas. Gosto de pequenas coisas. De pequenas surpresas, de palavras bem colocadas, de olho no olho, de jogo limpo, sentimentos claros, coisas diretas. Gosto de surpreender, de fazer pequenos presentes manuais, de fazer essa gente rir e ter uma boa lembrança de mim. Porque eu não esqueço. Se amei uma vez, amo pra sempre. Se estive por alguém uma vez, estarei pra sempre. Gosto de ser assim, gosto de sentir alguma coisa eterna correndo nas minhas veias. Acho que por isso escrevo: porque palavras são eternas. E eu gosto delas. As devoro, me cubro e me exponho com elas. Gosto de quem sabe escrever, de quem consegue traduzir o intraduzível, dizer o indizível. Gosto de ser assim. Intensa, dramática e sensível. Gosto da minha mania de romantizar a vida e de enxergar arco-íris em tudo. Ainda que nem sempre seja bom e doa uma dor indescrítivel, romantizar a vida foi o jeito que eu descobri pra não deixar de acreditar. Nem em mim, nem na vida, nem nas pessoas.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Anúncio da despedida.




Enfim, chegamos à linha final. Com uniformes desbotados, neurônios queimados e cansaço além do normal. Vamos embora com a nossa mochila vazia de livros e cadernos, mas cheia de histórias pra contar. Passaram-se três anos. Todo mundo mudou, as pessoas nas fotos do primeiro ano quase não são mais reconhecidas, saímos com a certeza de estarmos diferentes. O primeiro, o segundo e o terceiro ano se passaram. E agora, o que será de nós? Sabemos que além daquele portão um mundo inteiro espera e exige de nós o sucesso digno de um ex-aluno do Pedro Segundo. Dá um certo medo ao lembrar de todas as responsabilidades que caírão sobre nossos ombros, dá vontade de voltar no tempo, começar tudo de novo, não pra fazer diferente - talvez, sim, pra estudar um pouco mais - mas pra prolongar e quem sabe tornar eterno o momento que foi o melhor das nossas vidas. Tentamos não ver, disfarçamos a dor que sentiríamos enquanto pudemos, mas o fim chegou. É impossível não sentir medo do futuro e de não conseguir que todos os nossos sonhos sejam realizados, mas nós carregamos a vantagem de termos aprendido com os melhores. Aprendemos da filosofia de Nietzsche à filosofia da vida. Mais do que resolver equações impossíveis e elaborar dissertações polêmicas, aprendemos a construir um futuro. Aprendemos com quantos livros se perde um feriado e com quantos alunos se forma uma família. Aprendemos a lidar com as diferenças, à sobreviver às notas baixas, à entender que nem sempre se ganha. Aprendemos a dividir um história linda, a sermos protagonistas da nossa e à fazermos participações especiais nas histórias vizinhas. De uma fábrica abandonada, instalou-se um hospício em Realengo: o Pedro Segundo - onde habitam loucos que ainda acreditam num amanhã melhor do que o hoje. Saímos todos loucos daqui e seremos jogados no mundo pra contaminá-lo com nossa loucura do bem. Tantas e tantas vezes gritamos que não aguentávamos mais, mas tenho certeza de que sentiremos falta quando amanhã dermos conta de que aquele emblema um dia tão pesado em nosso bolso, tornou-se apenas uma parte enorme de nós a ser guardada numa caixinha em algum lugar da nossa memória. Sentiremos falta do calor insuportável, das aulas intermináveis, dos rostos conhecidos e da sensação de estar em casa, rodeado de gente com o mesmo sangue: o de aluno do Pedro Segundo. Sem dúvida fomos isso: Família. Alguns irmãos e outros primos distantes, mas ainda assim família lutando junto pelo mesmo ideal. Eu descobri, em um minuto de silêncio quase eterno, que na nossa família quando um vai, leva consigo uma parte enorme do resto. Eu percebi que o individualismo do mundo lá de fora não era capaz de ultrapassar os muros daqui e nós fomos encontrando um jeito de dar força um ao outro e de continuar sempre. Se me pedissem pra traduzir o Pedro Segundo com uma palavra e uma imagem, seria essa: um quadro enorme com a foto de um terceiro ano inteiro de mãos dadas no pátio - quando nenhuma palavra foi necessária e apenas uma palavra ficou: família. E família não tem jeito, é pra sempre. Ninguém deixa de ser família porque não mora mais na mesma casa. Torço pra que fiquemos sempre assim: de mãos dadas. Assim vamos longe, pois já avisaram por aí que a união é quem faz força. E a família CP2 é forte porque é feita a base da união. O mundo lá fora bem sabe que sempre acaba levantando pra aplaudí-la. Sejamos assim então: brilhemos com as três estrelas que com muito suor conseguimos e acrescentemos mais quantas forem possíveis. O mundo há de levantar pra nós. Porque ao Pedro Segundo é sempre TUDO e ao aluno daqui não pode ser diferente.
Formandos 2010 - ao infinito e além.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Dia das Crianças


Desceu as escadas decidida: não iria sofrer, não hoje, não enquanto o céu não escurecesse e o relógio não zerasse. Não enquanto fosse dia 12 e o céu estivesse tão limpo e claro como hoje. Não enquanto houvesse tantos motivos escondidos nas pequenas coisas, esperando o momento certo pra serem descobertos.Não enquanto as crianças estivessem sorrindo tão abertamente e espalhando o aroma de seus doces pelo ar. Ao menos por hoje seria feliz. Não lembraria de nenhuma queda que o coração sofreu, de nenhum banho de água fria que tomou, de nenhum passo em falso que deu. Hoje compraria um presente pra si, leria o livro que foi abandonado porque mexia demais com as coisas de dentro, guardaria o que estava adiando por medo de sofrer, se encheu de coragem e decidiu: nenhuma lágrima sequer. Mesmo que as lembranças fossem fortes demais, mesmo que andar sob um céu tão azul fosse convidativo a estar acompanhada, mesmo que estar com tantas crianças desse vontade de ter alguém pra compartilhar as estranhezas e fofuras de cada sorriso em particular. Hoje não choraria. Hoje não se renderia a nenhum arrependimento, a nenhuma culpa, a nenhuma vontade de voltar atrás. Hoje alugaria desenhos animados, cantaria em alto e bom som, lembraria e sonharia sem receio com os contos de fada. Faria as pazes com a bela, sentiria inveja da sorte da cinderela, cantaria junto com os sete anões. Lembraria dos tempos de criança e se permitiria ser criança. Se permitiria ser sem medo, não se preocupar se os outros iriam ou não aparecer pra brincar, se divertir mesmo sozinha. Subiria no escorrega mais alto e deixaria o vento bater nos cabelos antes de escorregar de vez. Ficaria de castigo na gangorra, se balançaria o mais alto possível pra depois fazer questão de pular e se esborrachar no chão. Pique-pega, bandeirinha e pique-cola. Não importando em qual posição, sem se preocupar em vencer ou não, participaria de todos os jogos. Inventaria brincadeiras, aproveitaria pra brincar de se esconder da dor. Desenharia arco-íris e se imaginaria sobrevoando-o. Brincaria de casinha e ensinaria às suas filhinhas a serem como ela: sonhadoras - depois pensou melhor e decidiu que não, elas deveriam ter controle sobre os sonhos, senão estariam fadadas a viver com um vazio como ela. Comeria algodão doce, biscoitos de vento, brigadeiro até não poder mais. Daria risadas sozinha, tiraria fotos divertidas, pintaria as unhas com cores que jamais havia usado. Rolaria na grama, sujaria sua roupa favorita, faria pirraça quando não tivesse o que queria. Ocuparia a cabeça o dia todo, não ouviria os gemidos do coração, não daria atenção a cicatriz feia e pesada que caía sobre ele. Criança não liga pra dor, disse pra si mesma, criança cai, rala o joelho, é eliminado do jogo, mas volta logo. Criança chora, mas não deixa de voltar pra brincadeira porque sabe que a hora de ir pra casa sempre chega, e perder tempo chorando é inaceitável. E se criança era assim e se hoje era o dia delas, seria criança então. E não deixaria que o machucado a impedisse de voltar à brincar - mesmo que a brincadeira fosse mais séria e o machudo mais profundo, não importava. Não deixaria que o tempo passasse e que ela o desperdiçasse chorando trancafiada num quarto, choraria quando fosse noite e noite insuportável, e só - enquanto fosse possível adiar o choro, adiaria; enquanto pudesse camuflar a dor, camuflaria; enquanto fosse possível continuar a viver, continuaria. Se tivesse que continuar a base de band-aids ou de impulsos como num balanço, continuaria. Continuaria de cabeça erguida, sempre a frente. Continuaria sendo criança enquanto fosse possível. Porque criança não desiste da brincadeira, porque criança confia, se entrega e ri até quando cai. Seria criança pra sempre e enquanto tudo durasse, porque ser criança era mais fácil e, principalmente, porque criança acredita que um beijo realmente sara qualquer dor. E hoje, mais do que nunca, seria criança porque tudo o que precisava era de alguém que desse um beijo, fizesse um afago no coração que doía tanto e dissesse que tudo bem, já ia passar, já era possível voltar a brincar.

domingo, 10 de outubro de 2010

Sem direção


Quando dou por mim estou sozinha num barco enorme, num mar revolto, sem saber pra onde ir. Você abandonou o nosso barco porque seus braços não tiveram mais forças pra remar. O mar em que navegávamos era grande e revolto demais pra nós. As tempestades vinham sobre ele quase todos os dias e os ventos traziam rumores que nem sempre faziam bem. Tudo o que conspirava a nosso favor e empurrava nosso barco pra frente, de repente tornou-se pequeno, quase insignificante perto de toda força contrária. Não tivemos forças. No meio de nossa viagem paramos diversas vezes pra trocar os remos, esvaziar as cargas que pesavam nosso barco, pra recuperar forças que haviam se perdido. Um dia eu desisti, no outro você, mas sempre voltávamos atrás e descobríamos forças um no outro pra seguir adiante, porque não importando o que o adiante fosse trazer, sabíamos estarmos salvos se estivéssemos juntos. Mas de repente tudo acabou. A tempestade foi forte demais, seus braços sucumbiram e não conseguiram mais remar. Você se atirou no mar e me deixou aqui. Sozinha com dois remos e um barco imenso. Não saio do lugar porque não sei ao certo pra onde ir. Não olho pra outras direções porque tenho medo de que você volte e eu esteja inalcançável. Não sei se guardo a esperança de te ter por aqui ou se viro o barco no sentido contrário ao que você mergulhou. Minhas lágrimas caem e só servem pra se misturar à água do mar, numa tentativa de chegar até você. Mas onde estará você? Num outro barco ou a espera de mim num porto qualquer? Será que você volta pro lugar onde paramos ou segue adiante sem nem olhar pra trás? Não sei se escrevo bilhetes ao nascer do sol, palavras que não se apaguem, ou se desenho seu rosto na água do mar, onde ele logo se desfará. Não sei se canto letras que não me deixam esquecer ou se aposto naquelas que dizem que é hora de recomeçar e tentar ser feliz em outro oceano. Sussurro ao vento todas as noites e peço que ele me traga você ou alguma palavra sua pela manhã. Qualquer coisa que me dê uma direção, um motivo pra seguir em frente ou permanecer aqui. Passo os dias todos sem saber o que pensar ou o que escrever. Não sei nem ao certo o que sentir, logo eu, que sempre senti demais. Durmo e acordo com você no pensamento, mas não sei se ainda é um direito meu. Desejo seus abraços, seus beijos e suas palavras como raios de sol que afastem as nuvens desse céu. Sinto saudades da segurança de saber que você estava comigo no barco e que, portanto, nenhum monstro seria capaz de me alcançar. Às vezes o vento me empurra, mas sempre volto pra onde paramos. Sempre volto porque lembro que estar contigo era tudo o que me faltava. Volto porque lembro daqueles sonhos todos que não tiveram tempo de se realizar. Volto porque minhas palavras mais bonitas são tuas, não mudo porque você as ensinou a ser assim, nãão-ditas e ainda assim, explícitas no olhar. Volto porque me dá vontade de amar de um jeito certo agora, de te contar que eu descobri o que era errado e que abro mão de tanta gente e de tanta coisa por você. Só não sei se você ainda sente. Se o seu coração ainda aperta quando minha palavra não chega e se ainda sente falta dos abraços desajeitados que faziam seu dia nascer feliz. Se a minha falta ainda faz silêncio em você. Se você se pega pensando em mim e esquecendo o resto do mundo e o seu orgulho. Mas se você ainda sentir, diz pro vento me avisar. Me diz que eu mudo o rumo. Me diz que sem mim você quase afunda, que eu encontro uma boia pra te resgatar. Não adianta me procurar em outros portos e barcos com direções tão diferentes da nossa, eu tô aqui. Estagnada. Se fizer falta o meu jeito torto de amar e me doar, se você perceber que agora estamos prontos, se estiver disposto a lutar com todas as forças contra tudo e todos, volta. Volta que eu sei te amar do teu jeito, com todas as manias e defeitos. Volta que eu seco suas lágrimas e carrego parte do teu fardo. Volta que eu te beijo como nunca, que eu te abraço forte e te prendo pra nunca mais soltar. Se ainda restar alguma esperança, alguma fagulha de amor, volta. Volta, que é como disse Caio, volta que te cuido.

sábado, 2 de outubro de 2010

Entardecer.


Ela vinha todos os dias, chegava sempre naquele mesmo horário de sol poente. Na hora em que o céu era uma mistura de cores, a cor do dia que ia junto com a cor da noite que viria. Era o espetáculo mais bonito do céu, dizia ela sempre que perguntavam o por quê de todo esse ritual. Ritual que a fazia parar qualquer coisa pra ir ao meu encontro nesse horário - às vezes, quando o fantasma da insegurança me rondava, eu me perguntava se todo esse sacrifício era por mim ou pelo céu, onde já se viu sentir ciúme do céu? só ela conseguia isso de mim, eu a queria tanto, e a queria só pra mim. E todo dia ela vinha. Tirávamos fotos, andávamos pelas ruas, conversávamos sobre nossos dias e sobre nossas vidas anteriores - porque tanto eu quanto ela sabíamos que a vida de antes não sairia do passado, a vida que vivíamos agora era uma nova, uma dentro da outra, a minha vida dentro da vida dela, a vida dela dentro da minha vida. As pessoas já nos conheciam, afinal, não tinha como não reparar naquela menina que aparecia todo dia com um sorriso enorme no rosto, cantando aquela música que dizia someone, please, look at the sky. Ela tinha um poder extraordinário de contagiar as pessoas e de induzí-las a parar tudo e fazer como ela: admirar o céu e adicionar um bocado de magia à vida. Ela fazia por mim. Junto com o céu, o sol, a lua e tudo o que é mais bonito nesse mundo, ela acrescentava magia à minha vida. Meus dias com ela eram mágicos, eram parte de um mundo que antes eu não conhecia. Por isso eu aparecia ali todos os dias, porque eu precisava dela e da sensação de mundo-completo-vida-completa que ela me passava. Eu a amava. Embora nunca a tenha dito, eu diria agora se ela tivesse aparecido. Hoje ela não veio. O sol se despede, a lua já mostra seus contornos, mas dela eu só tenho um bilhete achado no banco onde nos encontrávamos. Tínhamos um banco - que ela chamava de nosso -, ali onde todos os dias enquanto eu caminhava, eu a via junto me esperando. Ela me esperava sempre em pé porque havia criado uma regra para nossos encontros que dizia que nós só poderíamos sentar ali juntos. Nunca sozinhos, muito menos com outra pessoa. Era só nosso. Como tudo o que era nosso. Só que hoje ele é só meu. Meu e do papel que já estava pregado ali quando cheguei. Em pé mesmo como estava, abri o papel e li e chorei e vivi tudo o que tínhamos passado num filme em preto e branco na minha mente. O papel, que ao mesmo tempo tirou a cor e coloriu o meu dia, dizia assim: "Você foi o meu sol. Sempre me senti como uma lua que precisou do seu brilho pra brilhar também. Havia um motivo para nossos encontros sempre nesse horário de sol poente, onde as cores se misturavam e o sol e a lua se cumprimentavam e seguiam seus destinos. Acontece que o dia representava a sua vida e a noite, a minha. Minha vida era escura até você chegar e eu, uma lua fraca demais, que não a conseguia iluminar sozinha, foi preciso que você, e o seu sol, com todo o seu calor e alegria, tornassem minha vida algo que valesse a pena ser apreciado. Eu me aproveitei de você. Suguei seu brilho, suguei seu amor pra sobreviver à falta de amor que o mundo me dava. Eu criei uma regra pro nosso banco, eu me proibi de sentar nele sem você, pra que ficasse registrada a minha dependência de você. Por isso eu sempre chegava primeiro e fazia questão de te esperar em pé, pra que você sentisse a minha necessidade de ti. E agora, toda vez em que você passar por aí, você deve lembrar que eu precisei de você. Pra crescer e brilhar. Porque agora é hora de aprender a brilhar sozinha. E ser capaz de iluminar outra vida. Preciso ir e não saberia me despedir de você. Não me procure, mas não esqueça de olhar pro céu durante o entardecer de cada dia, ainda que chova, procure uma beleza pra adicionar magia ao seu dia. De repente a gente se encontra por aí de novo, mas deve ser sem planejar, sem marcar horário. Deixe que a lua e o sol nos ensinem o caminho até a gente. Se nos encontrarmos, será a prova de que o seu dia precisa mesmo descansar em mim e a minha noite começar em você. O nosso encontro, essa mistura toda, será sempre o espetáculo mais bonito que pude viver. O sol deve brilhar sempre, não esqueça, a lua precisa dele. Eu preciso de você. Onde quer que eu esteja. Obrigada pela tua luz e a deixe brilhar."
Não desistirei, virei aqui todos os dias. Porque ainda dependo dela. E eu sei que ela volta. Pra transformar nossas vidas num único e eterno entardecer de verão.

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