quinta-feira, 11 de julho de 2013

Amor urbano


Não pense em nada agora, calma. Deixa pra lá as conclusões precipitadas que você pode tirar ao ler cada frase mal pontuada e de escrita torta e desajeitada que dediquei a você. Foi o melhor que consegui fazer, não é muito fácil escrever num ônibus em movimento, você sabe. Então, o que eu quero com isso? Não sei. Talvez continuar aquela conversa que foi interrompida pela nossa falta de tempo. Ou te encontrar de novo. Ou descobrir o que é esse negócio estranho que tá acontecendo dentro de mim desde do instante em que você se foi. Ou tudo isso junto e nós dois mais ainda. Sei lá. Não desiste de mim ainda, lê mais um pouco, vai, prometo ser mais direto. É que eu tenho medo de te assustar. Sabe, parece que já posso ouvir você dizer que tá tudo rápido demais, que as coisas não acontecem assim, que-essa-é-a-vida-real. Porque você tem a cara dessas garotas engraçadas que acreditam no amor e naquelas coisas todas, mas só em telas de cinema e páginas de best-sellers piegas. Aquelas que fogem e escorregam pelas beiradas sempre que alguém tenta se aproximar. Mas não foge, por favor. Lê tudo isso até o fim. Eu sei que foi só aquela conversa, poucas horas no trânsito e um assento de ônibus dividido, mas a gente nunca sabe aonde o amor pode estar. Pode ser que ele estivesse naquele ônibus, no exato momento em que nos encontramos, e eu não quero deixá-lo passar. Já deixei as coisas passarem por mim muitas e muitas vezes, chegou a hora de correr atrás e agarrar as oportunidades. Eu não sei se você sentiu o que eu senti, nem se você ainda sente essas coisas todas depois daquele papo chato sobre o cara que esmagou teu coração e te custou alguns dias de reparo e superação. Eu não sei onde você está agora, mas eu daria tudo pra te encontrar e descobrir que estamos ligados de algum jeito, por algum motivo, e que a gente simplesmente não pode ficar longe um do outro. Quando você desceu daquele ônibus e me deixou com a maior saudade que eu poderia sentir de um dia só, eu percebi que não estava certo te deixar ir, que eu precisava fazer alguma coisa. Eu não pedi seu telefone e nem te dei o meu. Eu não sei onde você mora, estuda, vê filmes no final de semana ou compra as roupas de menininha que você estava vestindo. Tudo o que eu sei é que esse ônibus passa em algum desses lugares e é, no momento, a minha única chance de te encontrar. Se você achar essa carta, me liga. Se você não achar, eu te acho. Uma hora ou outra, eu te acho. Chega de amores urbanos, daqueles que pegam a gente de surpresa no meio de um dia qualquer, só em páginas de livro. Talvez seja a hora de sair da ficção e me encontrar aqui fora. E me deixar te proteger do barulho das buzinas, da fumaça, do trânsito, do caos e da solidão. 

sexta-feira, 15 de março de 2013

Açúcar ou adoçante?

A casa tá aqui, no mesmo lugar, você sabe. Ainda sabe o caminho? Sabe, não sabe? A sua vaga na garagem continua reservada, e eu nem sei mais porque, deve ser só a força do hábito, ou o hábito da força, como você costumava dizer. Uma hora ou outra eu sabia que você ia voltar, não pra ficar pra sempre, nada disso, mas só pra ver o estrago, que não é mais estrago faz um tempo, é bom que você saiba. Eu limpei tudo, fica tranquilo. Não tem mais nenhum resquício da bagunça que você fez quando saiu. Catei, um por um, os cacos das fotos que você rasgou, dos porta-retratos jogados ao chão e do meu coração também. Tudo bem, me desculpa, prometi que não iria usar palavras como coração. Então, tá tudo bem arrumadinho, acho que você vai gostar de ver. Talvez você se orgulhe de mim. Pode entrar sem medo, você não vai reconhecer o lugar, mas é o mesmo. O mesmo de um jeito diferente. Igual a mim. Tá me entendendo? Eu sei, eu e aquela minha mania chata de dizer mais do que eu estou realmente dizendo. Mas é assim mesmo: a casa e eu - os mesmos, de maneira incrivelmente diferentes. Eu sei que você entende, também deve ser assim com você, você só ainda não se deu conta. Quando der, me liga, vai ser bom saber que eu despertei em você esse lado meio maluco de entender as coisas que se passam por dentro da gente. Quando chegar na portaria, interfona pra mim, porque o porteiro é outro e esse não sabe nem seu nome nem que era você que eu esperava todos os dias quando descia até aqui, como quem não quer nada, só pra ver se, por um acaso, descuido ou saudade, você apareceria de surpresa pra retomar o seu lugar na garagem. E na minha vida também. É sério, eu fiz papel de uma dessas malucas. Mas não me envergonho, porque fazia parte do que eu acreditava. Eu acreditava que você fosse voltar e era isso o que importava. Por isso a vaga reservada. Por isso a casa reformada. Por isso a porta aberta. Eu acreditei e você veio, não veio? Fui louca, mas e daí? Você está aqui. Não é como eu esperava, mas é como eu, o eu que eu me tornei enquanto arrumava a bagunça que você deixou, agora quero. Entra pra ver, mas não fica. Não mais. Depois que você sair, a sua vaga na garagem não será mais sua. Hoje a gente assina o fim, que ficou engasgado desde aquela noite. Entra pra ver, mas se quiser alguém pra amar, aqui nesse casa não tem mais. Quem sabe na próxima esquina? Tem sempre alguém, não é assim que você dizia? Vem, pode entrar, fica a vontade. Quer café, como nos velhos tempos? Um minuto, vou trazer. Mas vem cá, me diz, você quer açúcar ou adoçante? Já faz tempo e eu não lembro. E eu mudei. E eu nem sei, só sei quem sou.

"Entra pra ver
como você deixou o lugar
E o tempo que levou pra arrumar
aquela gaveta
Entra pra ver
Mas tira o sapato pra entrar
cuidado que eu mudei de lugar
algumas certezas"
(Cícero - Açúcar ou Adoçante)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Branca.


- Ô Branca, acordei você? Desculpa, vai. Vira pro lado e dorme mais. Me deixa aqui, te olhando. Tô aqui pensando: já escreveram tanto por aí, já tantas morenas inspiraram canções, e você, minha Branca? Não, não é que te esqueceram, é que você tava guardadinha pra mim. É como se todo mundo fosse uma música em potencial, esperando só alguém pra compor, reparar nos traços, na cor, no jeito bonito de dormir, e transformar enfim em canção. Eu te achei, Branca. E te compus. E te contei pro mundo. Sorri pra mim, Branca. Não, não sorri, vai dormir mais um pouco, vai, desculpa se te acordei. Mas é que você é tão bonita assim, Branca, sabia? Enrolada nesses lençóis que tentam roubar tua cor, com esses olhões que não sabem a cor que têm e seus cabelos pretos esparramados pelo travesseiro. Não, não prende o cabelo, Branca. Ou prende, vai. Deixa aquele caidinho do lado, isso. E aquele outro lá atrás, perto da nuca, assim. Tá linda, Branca. Minha Branca. Ah, Branca, se você soubesse como é bom te ver assim, como é bom te ter por perto, como é bom acordar com você. É tudo céu limpo com você. Branco no branco. Assim. Não tem sujeira, não tem mau humor, não tem nuvem negra, não tem espaço pra mancha de café. Não dá pra explicar, Branca. Só dá vontade de repetir teu nome o tempo todo, e gravar na mente e me convencer de que você está mesmo aqui: amanhecendo comigo. Ah, Branca, quero todo dia um amanhecer com a cor desse teu olhar. Quero acordar com você. Quero me ancorar em você, meu amor. Deixa eu ficar? Não te acordo mais assim, prometo. Eu só quis aproveitar você e te fazer uma cantiga. Não quero dormir, não, Branca, só quero te olhar. Meu sonho tá aqui, não preciso dormir. Não quero te perder de vista nunca mais, esses meus olhos gostaram de você. Ô Branca, desculpa se te acordei, é que acordei com você e nunca mais dormi. Tenho medo, Branca, de perder algum momento teu. Desculpa, amor, mas se te acordo é porque quero sonhar junto contigo. Dorme, Branca, que no silêncio te canto uma canção. Você virou poesia, amor, sorria.

"Branca,
Acordei você, nunca mais dormi
Nem tô querendo mais
Eu tô querendo te olhar."
(Branca - Palavrantiga)

Vale a pena o clique.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Ensaio sobre ele.


Aqui, tão longe, todos esses carros e suas luzes me levam pra você. Todos os caminhos, todas as esquinas, todas as ruas e bifurcações também. Cada pedaço do meu dia, cada piada ruim, cada acontecimento importante ou não, puxam meus pensamentos pela mão e os levam até você. Não tem jeito: só sei pensar em você. Em te encontrar, te contar, te reconquistar. E não importa o que vão pensar, se vai chover ou não amanhã de manhã, se esqueci o guarda-chuva, se vou chegar atrasada, se não vai dar tempo de fazer tudo o que planejei: ter você me acalma, me ensina a ser leve e rir dos imprevistos. Eu te tenho e você me tem, o resto do mundo sai de cena pra nos ver passar. Tem tudo pra ser clichê, mas não é. É real. Tão real como tudo o que você diz, faz, move, pra me ver sorrir. Parece uma história que inventei, mas não é, é a história que a gente escreve, de mãos dadas. E é poesia. Você me poesia, me inspira, me rodopia no ar e o que sobra é só essa menina que resolve acreditar em nós dois mais uma vez e sempre. Que se rende aos seus elogios, à sua entrega, ao seu amor. E acredita que é possível amar assim, que é possível tocar alguém assim: lá no fundo. Você conseguiu, amor, você chegou lá. Ou aqui em mim. Lá no fundo. Onde eu não achei que você conseguiria. Feito flor, você me tira as pétalas, uma a uma, me descobre, dia a dia, e encontra o bem-me-quer. É bom te ter aqui. É mais fácil se você está por perto. Mais bonito também. É bom, amor, é bom te ter tão perto, por perto, tão certo. Você é, de um milhão de jeitos, maneiras e sorrisos diferentes, a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Você me aconteceu e acontece em mim todos os dias quando mostra o quanto se importa e quão diferente é dos outros caras lá fora. Você acontece na minha vida todos os dias e eu não quero que isso tenha um fim. Seja lá o que for, fique. Traga de uma vez o que ainda falta, coloca de uma vez por todas o seu perfume pela casa, se acomoda nesse coração que é mais feliz porque te encontrou. Fica aqui comigo, com essa moça que é meio mau-humorada e sentimental, adepta do imprevisível, mas apaixonada por você. Vale a pena cada segundo contigo, cada briga por nada, cada brincadeira que te deixa enciumado, cada brincadeira que me deixa irritada, cada risada e suspiro e beijo e sorriso e olhar e lágrima que sempre é de felicidade. Não é fácil, ainda tenho que vencer tanta coisa pra sentir tudo isso que eu sinto por você, mas não importa. Você me dá forças, me ensina, me dá a mão e me leva pelo caminho que a vida tem pra nós dois. Você me poesia, amor. Me enche de versos, de canções já esquecidas, de sonhos novos e bonitos pra sonhar. Somos poesia. Versos escritos por alguém que sabe o que faz; rimas que combinam o meu jeito torto de amar e me doar com esse seu que é perfeito pra mim. Feito um verso, quero rimar com você. Feito sua eterna bailarina que não sabe dançar: por onde for quero ser seu par.  

"Nem vi você chegar
Foi como ser feliz
Ainda faz um tempo bom
Pra desperdiçar comigo
Podemos enfeitar domingos."
(Cícero - Ensaio sobre ela)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Como vai você?


Não queria falar sobre fugas. Não hoje, no seu aniversário. Aliás, você mandou o convite? Pois é, ele não chegou. Essa carta também não. Deve ter se extraviado no medo, se perdido nas bifurcações que insistem em aparecer no nosso caminho. Mas fica tranquila, eu não ia mesmo poder ir. Reunião de família, sabe? Inadiável. Piadas de tios, vovó apertando minha bochecha e ainda perguntando por você, primos me chamando pra jogar vídeo game e ir "te-esquecer-um-pouco". Como se a gente pudesse escolher. Ou, sei lá, programar a mente, mudar de canal, sintonizar alguma coisa mais animada do que esse nosso passado revisitado que fica rondando minha mente. Não vou jogar vídeo game e te esquecer um pouco. Se eu for jogar vídeo game, vou lembrar das vezes em que você ganhou de mim e das outras vezes em que eu te deixei ganhar. É esse o problema, vou lembrar de você mesmo quando for pra te esquecer um pouco. Não vou. Vou continuar aqui, na mesinha da varanda, escrevendo seu cartão de aniversário imaginário, que não vai chegar aí do outro lado do mundo porque eu não sei onde fica. 
Sua rua tem nome? Seu nome consta na nova lista telefônica? Lembra de mim? Aquela promessa de nunca-mais-se-perder-de-mim ainda faz algum sentido nessa sua cabeça bagunçada? Não precisa manter contato nem me desejar coisas bonitas em datas especiais. É só, sei lá, avisar que tá viva. Só me diz: como-vai-você? O que você tem feito? Arranjou um emprego melhor? Tirou o aparelho dos dentes? Terminou a faculdade? Perdoou aquela sua amiga que pisou no seu pé? Mande notícias quando puder. Saudades não deve ser a palavra certa, mas deixa ser. Pede pra alguém me avisar, se ainda doer demais olhar no meu olho. Manda notícias. Tô aqui: na varandinha da vó. A casa tá cheia e tem seu bolo favorito, que a vó fez pensando que você viria. 
Tadinha da vó, sente sua falta. Você esqueceu de avisá-la que iria embora. Sobrou pra mim. Sobrou esse sorriso murcho que dou toda vez que ela pergunta quando é que você vai aparecer aqui de novo. Não digo que nunca mais, afinal, quem é que pode garantir? Pode ser que sua cabeça dê outro giro, desses que te levaram pra onde você está, e você passe aqui. Ou então, no meio da correria que é sua vida, pode ser que você precise de um guarda-chuva emprestado ou usar o telefone. Digo pra vó que um dia você vem. Que eu vou te convidar. E ela diz pra eu te pegar em casa e trazer pra cá. Logo eu, que nem sei que cara tem o outro lado do mundo. Mas imagino que esteja bem mais bonito contigo por aí. É que você tem dessas coisas: tornar bonito por onde passa. Além desse lugar bonito que certamente é, como são as coisas aí onde você está? Tem um mercadinho com seu chocolate preferido e uma barraquinha qualquer onde você possa improvisar um jantar? Os ônibus passam aí perto? Me diz, só pra eu ficar tranquilo, sabendo que você está bem, num lugar que você possa chamar de lar. Me conta dos teus novos amigos, do que você tem feito nos finais de semana, dos filmes que chegam primeiro nos cinemas daí. Me diz, pra eu não mentir pra vó quando ela pergunta como vai você e eu digo um "bem" mal ensaiado. 
Você não achou que seria fácil, achou? Que simplesmente ia sair da minha vida, fugir pra longe, e ficar em paz? Não é assim que funciona. Não se muda uma vida e depois despede-se como se nada tivesse acontecido. Não se escreve uma história e depois rasga-se os papéis e faz-se de conta que história nenhuma foi contada, escrita, vivida. Não se deixa de ser importante assim, de uma hora pra outra, só porque se foi para o outro lado do mundo. Você ainda é parte da minha vida, e não importa onde você tenha me colocado nessa sua nova vida, daqui de dentro você nunca saiu. Tá aqui, feito tatuagem. Você e seu espírito aventureiro e inquieto. Você e seu coração que um dia bateu mais rápido ao me ver. Você e essa sua mania de ser a melhor pessoa do mundo de um milhão de maneiras erradas. 
Feliz vinte e poucos anos, meu bem. A vó mandou um beijo. Mande notícias. Tô aqui: na varandinha da vó. Não vou jogar vídeo game e te-esquecer-um-pouco. Vou ficar aqui. Esperando notícias. Te desejando coisas boas. Pensando sozinho em como vai você e o que você desejou quando soprou as velas. Se fosse a minha vez de soprá-las, desejaria você aqui. Ou que o outro lado do mundo fosse aqui na esquina. Ou que lar fosse alguma coisa parecida com o meu abraço, pra você nunca mais precisar sair para procurá-lo pelo mundo. Feliz aniversário, meu amor, e cuidado com o que você deseja.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sempre tem gente pra chamar de nós.


Ainda hoje, enquanto ando pela casa, descubro partes de você que ainda não mandei embora. Ainda tem nós na lixeira do computador - e naquela pasta escondida. Nós, no restinho do teu suco na geladeira. Nós, na cortina azul que você escolheu. Jogos de amor são mesmo para se jogar, e é isso o que importa. O troféu é sempre um só: um tipo novo - e único - de "nós" circulando por aí. Não é sobre ganhar ou perder o jogo, ganhar ou perder você, é sobre jogar e viver você. É sobre termos sido nós, assim, do nosso jeito desajeitado. Cheios de dúvidas, sonhos, planos que nunca saíram do papel, interrogações respondidas na mesa do café. Nós, com nossa TV sem som, pra termos tempo de sobra pra conversar; com nossa mesa de jantar que sempre cabia mais um; nossa rede particular estendida em nossos sorrisos. Éramos nós. Lunáticos, irônicos, inéditos, incompreendidos. É isso que vale. É isso que sobra: o que fomos nós. Seja lá como for, seremos esse nós. Pode ser que alguém supere, mas nunca vai ser igual.
Nem que seja em tempos verbais passados ou fotos rasgadas na lixeira do teu quarto: em algum lugar existe "nós", assinado com a tua letrinha perfeita e a minha desengonçada, circulando pelos ares em direção ao lugar para onde vão os balões sem dono de todos os nós desfeitos pelo mundo. Éramos nós dois e agora somos nós: eu, você e todo o resto do mundo que vaga pela casa num sábado a noite sem ter um número para discar. Eu, você e todos aqueles que se arriscaram nesse jogo e saíram de lá com essa ligeira sensação de falta, um aperto no peito e uma caixinha de poá recheada de lembranças. Em algum lugar, nem que seja na cabeça daquela sua amiga desmiolada, ainda somos nós. Porque cada história de amor é única e a nossa é só nossa, ponto final. 
Fim de papo, fim de jogo, cada um pro seu lado do campo - da vida. Daqui a pouco começa de novo, essas coisas vivem acontecendo. Agora mesmo tem alguém se apaixonando e alguém tirando seu time de campo. Acontece o tempo todo. Ainda sinto aquele vácuo no peito, latejando com o som do teu sorriso,  que me faz doer quando penso em encontrar alguém, mas vai acabar acontecendo. Dói porque não vai ser você. E ainda não consigo pensar em alguém melhor que. Mas há. Há o mar, não há? Vou mergulhar. Junto com os peixes que você jura que tem. Não pense que te amo, mas também não que te odeio: apenas pense em mim. Sozinho, ainda meio amassado depois de tantos nós desfeitos, do tanto de nós desfeito. Sozinho, enumerando faltas e contabilizando seus últimos sorrisos, perdidos em motivos pra ficar ou ir de uma vez. Sozinho, porque você foi. 
Ainda faz falta o teu sorriso, mas esse é só um clichê que eu esqueci de te dizer. Bonito mesmo, e original como nós dois, seria dizer que ainda faz falta a unha engraçada do teu mindinho esquerdo; abrir minha geladeira e encontrar o suco que odeio, mas que você adora; te ligar todo dia 17 às 21:04 pra comemorar com exatidão o momento em que nos encontramos naquele beijo que vai durar pra sempre só enquanto lembrarmos daquele dia. Você vai fazer falta, morena, pequena, minha amada, ou seja lá como é que chamam os amores nas novas canções que você tem escutado e não me apresenta mais. 
Seja feliz, por nós dois, enquanto não posso ser sem você. Não se culpe, é só a vida: essas fatalidades vêm junto no pacote do plano de viagem por ela. Não sou o primeiro nem o último a ir. Tem um nós pra mim, e pra você. Não estamos sozinhos e nunca estaremos: sempre tem gente pra chamar de nós. Mas, por hoje, chega de nós pela casa. Nós? Câmbio, desligo.

"Tínhamos dúvidas clássicas
Muita aflição
Críticas lógicas
Ácidas não
Pérolas ótimas
Cartas na mão
Eram recados
Pra toda a nação
Éramos súditos
Da rebelião
Símbolos plácidos
Cândidos não
Ídolos mínimos
Múltipla ação 
 Sempre tem gente pra chamar de nós
Sejam milhares, centenas ou dois"
(Marcelo Jeneci - Por que nós?)

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Só sei dançar com você.


Você apareceu do nada. Vou começar falando assim, e só não completo com "você mexeu demais comigo" porque ai vira uma música que fala sobre adeus, e não é essa que você me faz dançar. Mas você apareceu do nada. E me escolheu pra ser seu par. Você me tirou pra dançar e eu tirei toda minha armadura de medos pré-fabricados pra dançar com você. É que pra dançar e pra voar, a gente tem que ser leve. A gente tem que se desprender. Como eu me desprendi do que eu pensava pra olhar o mundo pelo teu ponto de vista. Você me tirou pra dançar e eu resolvi seguir seus passos, entrar no teu ritmo, ver no que aquilo tudo ia dar.
Um passo de cada vez. Um pra frente e dois pra trás. Um conforme o ensaiado, outro meio improvisado e desajeitado. Um pra perto, outro pra longe. Escorrego por um lado e me aproximo por outro. Passos de quem nunca dançou e de repente se vê bailarina. Eu, feito bailarina que nunca soube dançar, escolho as palavras mais bonitas e danço a dança de quem nunca arriscou um passo tão grande antes: ser teu par. Na chuva, no sol, quando o filme acabar, por onde quer que a gente vá: só sei dançar com você. Meio bailarina que eu nunca fui, meio bailarina que você me faz ser pra me encaixar na fôrma certa dos teus sonhos. 
Você me faz bailarina e eu aceito minha condição. Bailarina que dança com verbos. Bailarina daquelas caixinhas de música: você dá corda e eu danço. Você me chama e eu vou. E fico bem ao alcance das suas mãos, não fujo: prisioneira da caixa que me abriga e toca nossa canção. Bailarina de uma música só: a nossa. Prisioneira dessa dança que não precisa acabar e que eu só danço com você. Feito bailarina, feito moça apaixonada, feito aquela menina boba que encosta o rosto no teu e sorri feliz sentindo sua respiração e seu coração que não disfarça e dispara pra gritar que é meu. Eu aceito a responsabilidade, os riscos, a fe-li-ci-da-de. Eu aceito você. Você vestido do que você é. E me visto do melhor de mim pra te receber. E me faço bailarina, me refaço em você. Me apresento bailarina que só sabe dançar pisando em nãos e você segura minha mão e me ensina a dançar e dizer sim. Me mostra os passos e eu digo sim. Largo o mundo, os medos, as interrogações e seguro sua mão de volta. E fico aqui, não fujo. Não mais. E te digo que sim, moço. 
Sim, eu não sei o caminho, mas vamos juntos. Sim, eu não sei dançar, mas me ensina. Sim, eu não sei dizer, mas tudo o que eu quero é ser teu par. Sim. E não importa o que vem depois. Importa esse agora com você. Importa a gente ter disposição pra nunca mais parar de dançar. Sim. E não importa o que tem lá fora, a gente pode se esconder nesse mundo que a gente criou. E não importam as horas, a previsão do tempo, a programação da tv: importa só estar com você. Danço com você, louca por você: você-meu-par, você-sem parar. Só quero se for assim. Só sei dançar com você.

"Toda vez que eu errava cê dizia 
Pra eu me soltar porque você me conduzia
Mesmo sem jeito eu fui topando essa parada 
E no final achei tranquilo 
Só sei dançar com você 
Isso é o que o amor faz"

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A calma - e de onde ela vem.


Escolho uma música bonita, aciono o aleatório, deixo tocar e fico em silêncio, calo até os pensamentos, para ouvir o que a vida tem a dizer. Tem vezes que a gente fala com a vida, tem horas que é ela quem diz. Aposento a caneta e as folhas em branco que me convidam a escrever e fico quieta, parada no meu lugar te observando chegar. Não falo nada para não atrapalhar, não invento rimas para não te obrigar a rimar comigo, não uso verbos para não forçar uma ação. Somos só eu e você e nosso silêncio e todas essas coisas acontecendo ao nosso redor, através e apesar de nós. Somos só eu, você, e essa calma. A calma de ter um monte de coisas a dizer, mas não ter pressa nenhuma para contar. A calma que vem desse teu sorriso, que não me apressa, só me abriga e me diz que tudo bem, tudo bem não saber o que dizer, tudo bem não conseguir traduzir, definir, enquadrar o que se sente em algum padrão qualquer. Sem nomear emoções, sem estipular prazos, sem prever. Só o ir-em-frente da vida, só ela se revelando aos poucos, só a gente de olhar curioso descobrindo o que é que ela tem a dizer. 
E então ela diz, enquanto você brinca com minha mão e meus medos dançam balé dentro de mim, e eu estendo uma rede no seu sorriso e descanso ali. E a vida canta para mim, mostra de onde vem essa calma, e assina com o teu jeito bobo de olhar que me faz sorrir e dizer que vai-dar-tudo-certo-eu-posso-descansar-aqui. Faz de conta que o tempo não existe, que não existe a pressa, que lá fora não tem ninguém. Deixa essa calma permanecer, deixa eu descansar em você e não ter pressa para sair do teu ombro. Deixa o depois para mais tarde, deixa o inverno, deixa tudo-o-que-pode-dar-errado para depois do café. Se o depois não chegar é culpa nossa, se ele chegar também é. Culpados por culpados, vamos ao menos aproveitar. Aproveitar que a gente se esbarrou pela vida, aproveitar o esbarrão. A gente começa assim: com um esbarrão. Não como se fôssemos duas pessoas atrasadas indo em direção contrária por um corredor lotado, mas como dois caminhos que de repente se esbarram numa esquina ou dois estranhos que se esbarram nessa mesma esquina onde os caminhos se cruzam e um pergunta como quem não quer nada "para onde é que você vai?" e o outro diz "para o mesmo lugar que você". E eles vão sem pressa, em direção à calma que só o outro traz. A verdadeira calma vem daí: de saber que há alguém do seu lado e que ele não se importa com os vendavais. De saber que se houver vendaval, tem um sorriso que acalma. Se houver medo, tem um abraço que cala. Se houver solidão, tem um olhar que acolhe. 
Não dá para explicar e tira as palavras, mas não é guerra, é paz. É calma. É sorrir concordando quando  o aleatório toca e diz para a morena que tá tudo bem. Está. O coração acalmou, você chegou, a vida sorriu. Deixa assim como está, sereno.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Tira o medo para dançar.


Eu tenho medo de altura, de morrer de solidão, de gente que anda pelas ruas de cara emburrada. Eu tenho medo da televisão, medo das notícias dos jornais, medo de quem não ri. Eu tenho das ruas vazias sem você, dos dias nublados sem o teu sorriso que tem jeito de sol, dos outros abraços que não têm o encaixe do teu. Eu também tenho medo de cair, medo de errar o passo e acabar torcendo o pé, medo de construir um castelo e acabar descobrindo que ele era de areia. Mas me diz, como não ter? Você não é a única.
A moça descendo a ladeira com seu vestido vermelho, comprado justamente para esse dia, tem, e talvez o dela seja chegar lá embaixo e não encontrar ninguém, e ter que subir tudo de novo, sozinha, com os sapatos nas mãos, pés nos chãos, e maquiagem borrada pelas lágrimas. Mas olha ela, mesmo sabendo do risco, ela desce. Ela vai. Ela dá a cara a tapa pro que a vida preparou. Lá embaixo alguém a espera, mas ela ainda não sabe. E o homem no carro também tem medo. Ele foi, mesmo sem saber se ela chegaria lá embaixo, mesmo sem saber se valeria a pena ter se deslocado até lá. Ela desceria, mas ele ainda não sabia. E foi. E se encontraram. E decidiram se encontrar de novo. Porque deixaram o medo de lado. Porque deixaram o amor falar mais alto. Porque tiraram o medo pra dançar.
Tira o medo pra dançar você também, mostra pra ele a dança da vida, mostra pra ele que quem conduz essa dança é você. Me dá a mão, desce essa ladeira que eu te espero aqui embaixo. Não é como você sonhou, mas pode ser melhor, por que não? Pode ser uma nova cicatriz se a gente acabar tropeçando no caminho, mas pode ser o fim de todas elas se a gente acertar o passo. São chances iguais, mas vamos ver o copo meio cheio? Vamos cantar o amor ao invés do medo. O amor é uma caminhada de mãos dadas em direção à um precipício: você sabe que em algum momento vai ter que dar um salto, mas não sabe se voará ou cairá de cara nas pedras. É uma questão de decisão, e toda decisão requer coragem. A gente precisa dar o salto, já estamos na beirada e não tem outra saída. Você pode sair correndo todo o caminho de volta, mas vai viver sempre com um "e se?" martelando na sua cabeça de menina indecisa. 
Então vem, vamos pular. Deixa o medo pra lá, não deixa ele esterilizar nosso abraço, como disse seu poeta favorito, mostra pra ele que não importa se é o congresso internacional do medo, você nasceu para cantar o amor e vai escolher cantá-lo mesmo quando for difícil demais. Canta o amor que os pássaros ouvem teu canto e emprestam suas asas pro nosso voo. Canta o amor que o mundo atende teu grito e presta mais atenção no que vale a pena. Canta o amor que esse canto até o medo para pra dançar.
Tira o medo pra dançar. Deixa o amor repetir uma canção todos os dias. "Medo... e daí?" Você tem medo, mas e daí? Quem é que não tem? Você tem medo, mas e daí? Você é maior do que isso. Tira o medo pra dançar. Tira o medo pra dançar, comigo.

Congresso Internacional do Medo
"Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos deseros,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas."
(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A culpa é das estrelas.


Importante: esse não é um blog literário, eu não sou uma escritora de blogs literários e essa não é uma resenha. É só que... eu preciso falar. Eu, que tenho trauma de livros sobre doenças por culpa de um senhor chamado Nicholas Sparks e eu, que tenho certo pé atrás com livros muito comentados, fui elegantemente surpreendida por um moço chamado John Green. Não vou falar sobre o que é o livro, isso você pode ler aqui ou aqui, quero mesmo é falar sobre como nós somos mesmo granadas e sobre como a gente não pode controlar essas coisas, por causa das estrelas. Sim, a culpa é delas, culpem-nas!
Existe um momento no livro em que a personagem conclui ser uma granada, prestes a explodir e ferir todos os envolvidos com os estilhaços. É, seus pulmões não funcionam muito bem e podem parar de uma hora pra outra. Mas eu queria dizer pra Hazel que não é só ela que tem o privilégio de se sentir uma granada, todos nós somos. A gente vive se relacionando com todo mundo, fazendo promessas, gritando ao vento palavras como "sempre", "sem saber que o fim já vai chegar". O fim é um vilão sempre à espreita, a gente vai na esquina, toma um sorvete, dá uns abraços, faz de conta que é eterno e finge não ver, mas ele está lá. Doenças chegam, carros batem, aviões caem, tragédias acontecem, sim! lá vai granada explodir e deixar marcas, gente sofrendo, livros pela metade, ingressos nunca usados na gaveta. Mas existem tantos jeitos mais simples de explodir, de dizer chega e deixar tudo pra lá. Às vezes a gente muda de opinião, decide que não quer mais, simples assim e, bomba! Às vezes a gente precisa ir pra longe, outras vezes não tem mais combustível pra continuar com certos relacionamentos e, bomba! Somos granadas. Não tem como fugir de ser, não tem como fugir de conviver. 
E aí entra o Gus, ou o Augustus, pra fazer mais honra ao seu jeito de ser, e diz que não, a gente não pode mesmo escolher não se ferir nessa vida, mas a gente pode escolher quem vai nos ferir. É isso! Todo mundo algum dia vai explodir e nos machucar um pouco, explosões em diversas proporções vindas de todos os lados, não seriam nossos relacionamentos nada mais do que isso? É inevitável a decepção, mas a vida é um convite ao risco. A gente tem que se comprometer, a gente tem que ir. E aí a gente escolhe, alguém que tem um sorriso bonito, outro que sabe bem o que dizer pra te fazer sorrir, aquele que tem o mesmo gosto musical que o seu. A gente escolhe quem vai ser amigo da gente. Nesse caso, o máximo que as estrelas fazem é colocar as pessoas no nosso caminho, mas é a gente que escolhe quem vai ficar. A gente escolhe quem vai ficar e é um jeito mudo de dizer: eu aceito o risco de ser machucado por você, eu aceito sua explosão iminente, eu aceito caminhar por esse não saber que é a vida ao teu lado.
Hoje eu olhei pra trás e vi algumas pessoas que explodiram, mudaram demais pra que eu acompanhasse, e fiquei triste. Mas depois pensei que valeu a pena o que a gente viveu. Valeu a pena ter me machucado um pouco no fim, mas ter aproveitado muito mais o início e o meio. 
A vida, Gus, é sim uma montanha-russa que só sobe, mas quando fica alto demais a gente precisa ter alguém ao lado, pra segurar a mão e ajudar no grito da queda. O fim ninguém sabe, mas o durante é agora. Deixa que quando vier a explosão a gente sente a dor, porque ela precisa ser sentida, e depois a gente arruma um jeito de consertar o que sobrou. Não dá é pra se privar do início com medo do fim. O fim chega, mas a gente sobrevive, as estrelas dão as mãos, entram num copo e a gente bebe num lugar bonito com alguém que nos faz sorrir. Como vocês. Isso tudo é só pra dizer que foi uma honra ter meu coração partido por vocês, Hazel, Gus, Amigos e Amores de ontem.


E, sr. Augustus, se eu não consigo ler esse trecho sem chorar, a culpa é sua.

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